27 de out. de 2026

Missiva espiritual



Enquanto eu redigia uma missiva espiritual à Mãe Celestial 

Uma carta de agradecimento e de súplica 

Onde eu dizia que Aquela que salvou o mundo 

Poderia também salvar meu coração 

Eu notei flores da paixão desabrochadas

E se eu acreditasse em sinais 

Como já acreditei 

Diria que essa foi a prova de que minhas palavras 

Atravessaram o firmamento 

E alcançaram o imaculado espírito 

Que sempre acolheu com amor meus clamores 

Então a noite desce lentamente 

Uma canção embriaga meus sentidos com verdades que tento ignorar 

E lembro das luzes de natal que estão a caminho 

E alguma paz se faz no peito exausto 

E eu sinto 

É chegado o tempo da fé voltar vencer o medo

É chegado o tempo de celebrar vitórias 

É chegado o tempo do retorno da esperança.

24 de out. de 2026

Última dança



Os jasmins não deixaram de florescer nos tempos sombrios 

Embora seu perfume não seja o mesmo 

O mesmo que tinha na memória de dias mais iluminados

As palavras não deixaram de jorrar 

Embora fluam frágeis demais 

E o vento as carregue e as dissipe 

Como uma bruma delicada de manhã 

Os pés não deixaram de caminhar 

Embora cambaleim por um caminho tortuoso 

Que um dia já foi menos solitário 

O coração não deixou de bater de uma forma até bonita

Embora ninguém o ouça como antes

Mas enquanto vago cismando sobre tudo o que foi

É ou será 

A noite se faz

Deita de forma quase macia sobre espíritos exaustos 

E nas esquinas 

Guerreiras movem suas saias em movimentos esplendorosos

Soldados balançam bandeiras entoando hinos de esperança 

E eu sei

É a penúltima noite antes da batalha de nossas vidas 

Mas cantamos e dançamos 

Olhando para um horizonte não tão distante 

De onde os primeiros brilhos de uma estrela começam a despontar

É nossa última dança 

É nossa última canção 

Antes do mergulho no abismo 

Ou antes da tão aguardada Alvorada.

19 de out. de 2026

Eu já acreditei em milagres



Eu já acreditei em milagres. 

Mas então a vida segue, os anos passam, nosso coração e espírito são feridos e passamos, sem perceber, a apenas sobreviver. 

Tentando não pensar, tentando não entender, tentando não sentir. 

Porque olhamos ao redor e vemos um horror que palavras não podem descrever. E como não temer que esse horror chegue até nós? Como não sofrer pelos que vivem esse horror?

Eu já acreditei em milagres.

Mas assim como todos, eu achava que milagres eram coisas impossíveis se tornando reais, como que por mágica.

Até entender que, na verdade, tudo é um milagre, quando se observa com amor. 


Há uma espécie de orquídea que floresce sempre no início da primavera. 

Seus pendões formam uma cascata de flores muito delicadas. Passada a floração, pequenos brotos nascem desses pendões, e, se bem cuidados, no ano seguinte ou no próximo, eles, já enraizados, darão flores também. 

Mas nesse ano, como se a natureza quisesse me lembrar desses milagres de que tanto sinto falta, dos minúsculos brotos saíram botões que desabrocham agora pelo fim de outubro. As flores são até maiores que os pequenos ramos de onde nascem. 

E é assim que eu sei que Deus está falando comigo. 

Numa linguagem que Ele sabe que eu vou entender. 

E eu volto a acreditar em milagres.

Porque sinto que o mesmo Deus que possibilita esse minúsculo prodígio da natureza, é o Deus que agora move um exército pelo bem e pela verdade;

Porque sinto que o mesmo Deus que arquitetou o universo, conhece-me pelo meu nome.

11 de out. de 2026

PUBLICAÇÃO DE "SÓBRIO DELÍRIO"

 

Às vésperas do quadragésimo outono, observo o tempo; o que passou, o que aqui está e o que virá; e tento encontrar o equilíbrio entre seus pilares: realidade e ilusão.

Sinto que muito da minha existência foi alicerçado no ato de sonhar. Desde os sonhos mais fantásticos da infância, aos mais singelos da maturidade.

Lembro bem que quando criança sempre transformava o mundo em um reino cheio de encanto, onde tudo poderia ser algo mágico se olhado com mais cuidado. Os campos, o luar, as árvores, os caminhos... eram transformados em cenários e personagens de uma história mística e sem fim.

Agora, já com algum peso dos anos, a vida mostra-se bem mais rígida e fria, e torna-se tão mais difícil encontrar o que ainda fascine e gere o deslumbre antes sentido facilmente pela alma.

Eis que então as mãos vazias decidem tomar o sagrado instrumento, a palavra, para atiçar as brasas adormecidas, mas ainda quentes, da poesia.

O calor não é forte o bastante para reviver o mundo fantástico antes tão bem conhecido, mas permite um sóbrio delírio, um breve retorno para o que se ama, uma nova coloração para uma paisagem que se acinzenta; mesmo que os velhos caminhos não existam mais e novos caminhos precisem ser feitos; mesmo que a realidade seja severa e constantemente nos tente roubar a beleza dos dias.

Estes singelos poemas são então o registro daquilo que se testemunhou durante esse caminhar.

O percurso, repleto de dores, alívios, memórias e esperanças, é traduzido em versos que formam retratos das novas paisagens que se revelam ao seguir por essa estrada, por onde se anda com os pés no chão, mas com o olhar nas estrelas.

JÁ DISPONÍVEL EM: https://clubedeautores.com.br/livro/sobrio-delirio



10 de out. de 2026

Maior que o próprio mar



A esta hora eu poderia estar diante do mar 

Deslumbrado com sua imensidão

Com sua beleza 

Com sua força 

Com sua voz divina 

A esta hora eu poderia estar olhando para o horizonte 

E nele enxergar o olhar do Criador 

E do meu olhar escorreriam rios muito humildes

Iguais aos de agora

Se comparados a tudo que ele contempla

Mas nada disso torna o chão abaixo dos meus pés menos sagrado 

As nuvens deságuam como nos tempos em que isso acalmava as batalhas

E há ainda um jardim a ser amado e cuidado 

Há uma esperança 

Muito cansada e ferida é verdade 

A ser cultivada 

Há as crianças pulando e brincando na chuva improvisada 

Há um casal de mulheres de mãos dadas sorrindo 

Andando por ruas ainda seguras 

Há uma canção falando sobre um amor verdadeiro 

Que talvez no tempo certo chegue 

Há o abraço daquela pessoa tão amada

Que cura feridas que ela não causou 

E assim eu entendo que tudo isso que aqui há 

É muito maior que o próprio mar.


De "Sóbrio Delírio" disponível em 12 10 26 

7 de out. de 2026

Nós já vencemos!



Alguns dizem:

"Nós já perdemos..."

Outros 

E eu com estes

Dizemos:

"Nós já vencemos!"

Porque eles incineram sonhos 

E nós semeamos jardins

Porque eles têm comparsas 

E nós temos irmãos 

Porque eles têm alvos

E nós temos aliados 

Porque eles têm o medo

E nós temos a esperança 

Porque eles têm a mentira

E nós temos a verdade

Porque eles têm o ódio

E nós temos o amor

E talvez chegue o dia em que nos doa demais o peito 

E os olhos se inundem de um pranto incontido

E talvez chegue o dia em que doará ver a indiferença em antes faces amigas

E as mãos tateiem o escuro buscando um apoio que não está lá

E talvez chegue um dia em que nos falte motivos para sorrir

E no horizonte se consolide uma imensa ameaça de chamas e trevas

Mas esse dia não será hoje. 


4 de out. de 2026

4 de outubro



A voz de Bethânia me desperta na manhã de 4 de outubro 

Com a oração de São Francisco 

Substituindo o medo pela esperança 

Feito eu disse à minha mãe 

O mal é barulhento 

Mas o bem é grandioso 

E lembro de meu pai

Também um Francisco 

E lembro do rio

Forte

Impiedoso 

Levando vida ao sertão 

E lembro de um Silva 

Filho daquelas terras agrestes 

Filho do pó e do suor do Brasil 

Um Silva que segue firme 

Segurando os ventos do norte 

E também os do sul 

Para que não movam e destruam nossos moinhos 

E há sim um alerta de tempestade 

Pede-se que busque abrigo 

Mas agora faz sol lá fora 

E o som forte de um coração batendo sem parar 

E se a chuva vier 

Andaremos de cara para ela 

Pelos tantos dos nossos que não viram esse dia nascer 

Pelos tantos que não puderam ser despertados hoje pela voz de Bethânia 

Se a chuva vier 

Como já veio

Ela vai passar

Como já passou 

E nós permaneceremos.

1 de out. de 2026

Primeiro céu de outubro



Eu não tinha boas palavras para descrever com exatidão o primeiro céu de outubro 

Setembro passou de forma rude e mal vi a floração dos ipês 

Mas ventava de forma estranha nessa manhã 

De forma lenta 

Como se o vento quisesse colher as flores cor de carmim das árvores que não sei o nome

E fazê-las bailar no ar perfumado pelos eucaliptos molhados pela garoa da madrugada 

E eu apenas agradeço 

Não pensando na falta que coisas tão valiosas tem deixado aos poucos de fazer

Não pensando no que o futuro 

Com todas suas ânsias e ameaças 

Reserva 

E fecho os olhos e por um mínimo instante 

Eu sou também tudo isso que o vento carrega com docilidade 

Deito em seus braços e permito uma ou outra lágrima 

De medo, de fé, de angústia, de esperança 

E me lembro de um conselho:

Não deixe que os bastardos 

Te reduzam a cinzas

Um conselho que chegou tarde demais 

Quando vento já me carregava 

E me esparramava sobre jardins

Que hoje florescem 

Humildemente.


De "Sóbrio Delírio" (disponível em 12 10 26)

30 de set. de 2026

Paradoxo



Via-se em uma pequena batalha 

Para conciliar nas mesmas linhas 

Decepções e deslumbres

Porque perdidas no sufoco dos dias 

As horas que escorriam lentamente dos ponteiros 

Desnudavam amargores e faces sarcásticas

Mas também pequenas e preciosas belezas ocultas 

E era isso que eu tinha para sentir o milagre da vida

Esse ranger incessante de uma engrenagem estúpida que nada produz

Mas também um homem pegando pitangas de uma árvore na calçada após um dia duro de trabalho 

Palavras aveludadas ocultando espinhos venosos

Mas também o perfume do manacá se esparramando pelo jardim enquanto escurecia 

Vozes afiadas e estridentes penetrando peito adentro 

Mas também um disco novo com canções que curam

Então no meio desse caminho 

Eu parei por alguns versos bonitos que já não me recordo 

Eu parei para ver os últimos clarões do sol se pondo 

Eu parei para não pensar no paradoxo displicente que é a vida

Eu parei

Respirei fundo 

E voltei a seguir.


De "Sóbrio Delírio" (disponível em 12 10 26)

23 de set. de 2026

Mas chega a primavera



Eu temo a esperança 

Porque muito do que ela trouxe

Ela levou

E quando levou

Parecia-me que tinha levado mais do que deveria

E também temo o tempo 

E sua displicência ao passar tão rápido 

Nos obrigando a calcular o que nos resta dele

Para descobrir 

Se será o bastante para outros recomeços

Ou se será apenas uma tela fria 

Por onde rolam memórias e mais memórias 

Cada vez mais desbotadas 

E enquanto tanto temo

Chega a primavera 

Um pouco acanhada 

Chorosa 

Talvez com alguns temores também 

Trazidos de um inverno que parecia não ter fim

E que talvez não tenha 

Mas chega a primavera 

E sonhando com suas flores 

Eu já não temo tanto a esperança ou o tempo 

Por recordar de quando eram meus companheiros 

Quase amigos 

Naquelas épocas de outrora 

Em que o coração 

Nada sabia sobre o medo. 


De "Sóbrio Delírio" (disponível em 12 10 26)

21 de set. de 2026

O canto dos pássaros



No fim da madrugada 

Quando a luz do nascente começava a dourar o horizonte 

O sono foi cortado pela invejável alegria dos pássaros 

O coro estridente 

Saudava com grande entusiasmo a chegada do sol

A derrota das trevas 

Rolando em cama confortável 

Murmurei de incômodo 

Por sentir que era tirado precocemente 

Do afável mundo dos sonhos 

Então senti vergonha 

Tamanha vergonha 

Ao lembrar de meus irmãos 

E de sua terra tão santa e tão castigada 

Onde não há o canto dos pássaros

Ou os pássaros 

Ou sequer árvores para que se pousem os pássaros 

Onde não se pode fechar portas e janelas 

Para abafar o som dos aviões de guerra

Porque também não existem portas e janelas

Ou paredes para se colocar essas portas e janelas

E não consegui chorar 

Mas os olhos se encheram de uma água salgada 

Que parecia ferver, queimar 

Uma água represada 

Um pranto contido 

Que 

Tenho ainda esperança 

Desaguará livremente 

Dessa vez de felicidade 

Quando eu e meus irmãos em Gaza

Pudermos ser despertados 

Pelo canto dos pássaros.


20 de set. de 2026

Do Rio ao Mar: Livre Palestina!



Os que me odeiam têm teclados e canetas nas mãos 

Os que os odeiam têm detonadores e munições 

E contra minha dor eu tenho o meu chão 

A minha terra

Em que

Se plantando 

Tudo floresce 

Eu tenho minhas palavras 

Que não atravessam essas paredes

É verdade 

Essas telas 

É verdade 

Mas eu tenho minhas palavras 

Que são talvez a luz de uma vela

Na escuridão de um universo sem estrelas 

E deles foi arrancado até o sussurro, 

O grito, a lágrima 

Mas eu sinto que de todo canto novas velas se acendem 

E acredito que juntas essas velas farão a escuridão menos poderosa 

Não podemos nos render ainda 

Passará a soberania dos algozes 

Eles não venceram ainda 

Eles não vencerão 

E eu que menos que nada sei

Sei que quando cheguei aqui só existiam pedras nesse jardim

E hoje ele está repleto de cor

Sei que toda terra é santa 

E do escombro

Do solo castigado 

Ainda brotará vida

Eu que menos que nada sei

Sei que minha voz não pode ser ouvida 

Mas enquanto eu a tiver ainda

Enquanto eu tiver vida 

Direi sem cessar 

"Do Rio ao Mar: Livre Palestina!"


De "Sóbrio Delírio" (disponível em 12/10/26)

19 de set. de 2026

Passou a existir o amor

 

Passou a existir o amor então de tantas outras formas 

Na luz de fim de inverno que entrava pela janela e dourava os discos na parede 

Na flor roxa que desabrochava em incontáveis cachos depois de anos de espera 

Na brisa morna e quase silenciosa que balançava as roupas no varal 

No socorro tão gentil vindo por mãos desconhecidas 

No afeto inabalado pelo tempo e pela distância

 

Via que o amor existia na singeleza da vida 

Nos seus detalhes belos e acanhados 

Na sua melodia simplesinha 

Na coragem daquele que faz o pão 

Ou na do que guia uma nação 

Na força do que fala pelos que não tem mais voz 

E também na palavra

Que humildemente me acompanha 

E que talvez nunca me diga adeus. 


De "Sóbrio Delírio" (Disponível em 12/10/26)


13 de set. de 2026

Sem cessar



O fogo ainda queima 

Embora as chamas não brilhem mais

Mas são os mesmos tempos estranhos como em outros tempos

Tudo continua tão errado e tão certo quanto já foi

Não é o primeiro setembro em que os ipês florescem sem muita beleza 

Não é o primeiro olhar que não se cruza

Não é o primeiro sonho roubado por quem não sabe como vivê-lo

Contudo

Às vezes não é preciso mais do que o vento frio do fim do inverno soprando

E uma boa canção se repetindo 

Para sentir um pouco do sabor da vida outra vez 

E ainda que se dance sempre sozinho 

Há ao redor um jardim completamente florido 

Um profundo céu de cobalto acima 

E um coração forte 

Que continua a pulsar 

Sem cessar.

10 de set. de 2026

Meninos puros




Nas velhas fotografias

Resquícios de tanto amor

De tanta vida

O sorriso que se abre então 

É por recordar das tantas vezes 

Em que o lar tão buscado

Já foi encontrado

Agora quase tudo repousa calmamente

No vasto leito da memória 

E se não fosse pelas provas

Que pelos meus olhos

Avançam alma adentro

Eu diria que o coração está apenas outra vez

Mergulhando em delírios quase perigosos 

Mas por hoje

Por esta noite

Por esta canção que se repete e se repete

Tudo volta a existir 

Nossas mãos estão entrelaçadas novamente

O caminho que se estende adiante é seguro

E os sonhos 

São iluminados por uma inocência ainda não perdida

Voltamos a ser os meninos puros de outrora

Antes do tempo se tornar cruel 

Antes do medo ser a única companhia

Antes do adeus ser a única certeza.

7 de set. de 2026

Impossível




Não é possível fingir não ouvir o que ainda murmura tão alto o coração 

As repetitivas

Tristes 

E bonitas canções que canta 

Não é possível conter a sutil claridade que dele às vezes escapa em forma de palavra

Não é possível ignorar o calor que ele tenta produzir para germinar as sementes esquecidas sob o solo da alma


Mas pedaços demais dele foram perdidos a cada tentativa de encontrar um lar

Esperanças demais foram queimadas para iluminar a noite escura 

Em que se buscava um sonho inalcançável 


O passar dos anos parece ter tornado todos os caminhos mais perigosos 

E nenhum deslumbrante delírio permaneceu tempo suficiente 

Para que 

No fim

Não se voltasse ferido à mesma velha cama fria

Para que não se despertasse na manhã seguinte 

Sóbrio 

E sozinho.


De "Sóbrio Delírio" (em breve)


6 de set. de 2026

Toda aquela bela imensidão

Éramos como dois satélites errantes 

Soltos num espaço incompreensível 

Até o dia em que as palavras traçaram uma única rota

E por alguns instantes estivemos na mesma órbita 

Presos em uma espécie de delírio mágico 

Ignorávamos toda a vastidão do universo ao redor

Porque nosso calor e claridade bastavam

Então um dia

Como não poderia deixar de ser

Você vislumbrou outras constelações e galáxias 

E tudo mais que brilhava além 

Do pequeno mundo no qual girávamos 

E eu não entendi 

Eu te feri

Eu quis te puxar de volta 

Fingindo uma luminosidade que não existia 

Que não se compararia às que você via

Então

Passado muito tempo

Ofereci uma última prova de amor 

Que foi finalmente te libertar 

Para que alcançasse outra vez 

Toda aquela bela imensidão 

Agora eu também observo o universo infinito 

Embora ainda preso à minha pequena órbita 

E sei que você está lá 

Viajando por entre luzes e escuridões 

Sendo tudo o que 

Junto a mim jamais poderia ser. 


 

31 de ago. de 2026

Anuncia-se



Anuncia-se árido tempo de espera

Outro longo período de estiagem severa

Outra era cravejada de fantasmas ancestrais 

De delírios pavorosos 

De súplicas doloridas

Mas então a resposta chega simples como um temporal 

As ruas inundam-se de águas e folhas 

E os trovões me contam 

Que há um Pai que também nos permite 

Às vezes 

Sermos apenas filhos 

Agora então a atmosfera é limpa 

Resplandece o último sol de agosto 

Os primeiros jacarandás começam a florir 

O peito se recorda de um último abraço 

Uma canção bonita termina

Vai ficar tudo bem.

29 de ago. de 2026

Ventos severos de agosto



De uma ou de outra forma 

Esses ventos severos de agosto 

Sempre levam preciosidades embora 

Glória, Laura, Filipe, Tim, Dolly, minha Paz

E no olho do furacão da mente 

Eu olho para o céu azul acima

E penso sobre a Roda da Vida

Que nunca para de girar 

De trazer

De tirar 

E sinto por toda alma algo inominável 

O resultado da soma 

Do medo e da esperança 

Da perda e da conquista 

Do desespero e da fé 

Algo que talvez só um poeta 

Poderia sentir 

Ou certamente 

Qualquer um que também exista 

Em um agosto assim.

25 de ago. de 2026

Delírio de agosto

 


Agosto sempre trouxe adeuses profundos 

Manhãs frias 

Tardes quentes 

Folhas rodopiando ao vento

A luz ocre de um sol que parece se compadecer do nosso desgosto 

Uma voz ressoa como um trovão pelos vastos salões da alma

Enquanto outra se silencia para sempre

Na calçada 

Uma menina carregava com cuidado e atenção dois lírios

No sonho

Maria Bethânia me pedia um café 

E antes de tudo

Eu tinha você nos braços

Nos lábios 

No delírio febril 

Que sempre é dissolvido pelo amanhecer.

23 de ago. de 2026

Sóbrio delírio



Conheço bem cada canto sombrio dessa alma

E seus pecados que dançam juntos uma canção ruim

Logo ali no jardim 

Mas sob essa luz solitária de um dia pacífico 

Ela meio que se converte em uma flama dourada 

E por um instante é como se flutuasse 

Acima do erro, da ânsia, do desejo 

E pairando na atmosfera 

Refletindo como um segundo sol 

Ela finalmente se entrega a um sóbrio delírio 

Abdicando da lógica e da ilusão 

Sentindo finalmente 

Que apenas a realidade 

Lhe permite ter asas para voar.

Verdadeiramente



Sendo sempre uma estiagem estéril demais

Amei chuvas de verão 

Algumas que desaguavam calmas

E tão rápido se pareciam com um milagre a envolver 

A tudo faziam florir 

E tão logo desapareciam 

Outras chegavam sem previsão 

Bravas e sem controle 

Eram avassaladoras demais 

Para um coração tão ingênuo 

E deixaram cicatrizes permanentes

Já outras apenas encobriram o céu com nuvens escuras

Agitaram as árvores com ventos fortes 

Clarearam os vales com seus relâmpagos 

E se foram sem nem ao menos regar o jardim

E tudo isso foi há tanto 

Desde então se faz um céu extremamente limpo

Profundamente azul 

A estiagem voltara aos campos da alma

E sinto que do céu mais nada cairá 

Mas algumas flores mais resistentes

Persistem exalando um perfume raro e sagrado 

Desafiando a secura interminável dos dias

Algumas flores persistem

Como se em algum dia alguém fosse lhes amar

Verdadeiramente.

Ou da próxima, ou da próxima



Eu também me sentia caminhando por um caminho em que já podia ver o fim

Buscava uma nova melodia para inspirar um novo poema 

Que também não seria lido por ninguém

Buscava novas palavras para tentar eternizar fragmentos de inofensivos delírios 

Que sucumbem à realidade rápido demais

Mas até nos sonhos já não se é tão livre 

Já não se tem tanto poder

Outras línguas, vozes estranhas 

Passado e presente dançando a mesma canção 

E eu sempre estou muito longe de casa 

Sozinho 

Sem conseguir a passagem para voltar 

Então a manhã chega cortada por um som estridente e quase cruel 

E por um sol reluzente 

E os sinais me dizem

Que também não será dessa vez 

Ou da próxima 

Ou da próxima 

Que se encontrará o que tanto se deseja 

Procurando nos mesmos velhos escombros.

22 de ago. de 2026

Temido pôr-do-sol




Abraça-me uma voz poderosa 

Entoado cânticos sobre um temido pôr-do-sol

E as cores escarlates banhando o horizonte 

Pouco antes da escuridão cobrir e sufocar

Com seu manto pesado 

Quaisquer sonhos mais delicados 

Como esses que emitem um suspiro efêmero

Ante ao sorriso perfeito 

Ante ao olhar iluminado 

Dessa vez não seria diferente da vez anterior 

Ou da anterior 

Ou da anterior 

Pela manhã a sobriedade chegará 

Trazendo uma chuva densa de esquecimento 

A roda da vida vai girar e girar 

Em direção a um destino que fingimos tão bem desconhecer 

E a luz dissolverá qualquer resto de ilusão 

E todo esse sentir é tanto e tão pouco 

E dói e cura

Mas há vida

Alguma vida 

Então há tempo 

Algum tempo

Antes do próximo temido pôr-do-sol.


21 de ago. de 2026

"Sóbrio Delírio"




Às vésperas do quadragésimo outono, olho para o tempo; para o que passou, para o que aqui está e para o que virá; e tento encontrar o equilíbrio entre a realidade e a ilusão. 

Muito da minha existência foi alicerçado no ato de sonhar. Desde os sonhos mais fantásticos da infância, aos mais singelos da maturidade.

Lembro bem que quando criança transformava sempre o mundo em um reino cheio de encanto, onde tudo poderia ser algo mágico se olhado com mais cuidado. Os campos, o luar, as árvores... Tudo se transformava em cenários e personagens de uma história mística e sem fim. 

E já com um certo peso dos anos, a vida mostra-se bem mais rígida e fria, e torna-se tão mais difícil encontrar o que ainda fascine e gere aquele deslumbre antes sentido facilmente pela alma.

Eis que então as mãos vazias tomam o instrumento para atiçar as brasas adormecidas, mas ainda quentes, da poesia.

O calor não é forte o bastante para reviver o mundo fantástico antes tão bem conhecido, mas permite um sóbrio delírio, um breve retorno para o que se ama, uma nova coloração para uma paisagem que se acinzenta; mesmo que os velhos caminhos não existam mais e novos caminhos precisem ser feitos; mesmo que a realidade seja severa e constantemente nos tente roubar a beleza dos dias. 

Sinto, assim, que é preciso voltar.

É preciso voltar para não se perder por completo, para amar de novo aquilo que nos tornou quem somos. 

É preciso voltar... Mesmo estando mergulhado em uma sobriedade que por vezes machuca e fragiliza qualquer delírio. 

É preciso, por fim, voltar à palavra... Ao estado de poesia que é materializado através dela;

e com isso, voltar ao Sonhar 


"Sóbrio Delírio" será, então, meu décimo sexto livro de poemas. 

Um novo "transbordar da alma" que, para minha surpresa, continua com sua ânsia pela mágica da vida. 

É um caminhar lúcido por uma estada de sonhos, ou um velejar entorpecido por um mar hostil de realidade...

Sobretudo, é um testemunho do que pode haver de poético depois que se desperta.

19 de ago. de 2026

Simplório



Talvez tivesse muito medo da passagem do tempo

Da sua fome insaciável 

Da transitoriedade de tudo 

E o amor pela beleza 

Eternizasse os instantes por alguns instantes 

Como se ali estivesse seguro 

Protegido da efemeridade de todas as certezas 

De toda realidade tão severa e tão inconstante 

Por isso o mergulho na canção 

Por isso a insistência na palavra 

Por isso mais esse poema simplório. 

14 de ago. de 2026

Por enquanto



Então tocou aquela canção 

A que sempre tocava na minha mente quando algo me levava de volta até aqueles dias 

E foi estranho o nada sentir

Aquele tempo tão grandioso chegara ao fim 

Não apenas o tempo 

Eu percebo

Também todo o caminho pavimentado de sonhos 

Que me levava até ele 

E é estranho porque não faz frio ou silêncio 

A música continua tocando 

E ainda há um tanto de vida pela frente 

Antes que tudo se torne uma tragédia.


É o primeiro passo rumo a um destino 

Em que o amor não brilha mais no horizonte 

E não dói 

Não queima 

Mesmo que ainda 

Por enquanto 

Ainda se faça a falta 

O que é natural 

Ao rememorar a imensa luz que isso já representou 

Em tantos momentos em que apenas sombras reinavam

Mas repito 

É o primeiro passo em direção a um horizonte sem essa claridade...

E o caminho 

Embora seja escuro 

É finalmente firme sob meus pés.

6 de ago. de 2026

Carmim



Não havia mais a dor para amar 

Mas algo ainda é digno do amor 

Talvez o que vem depois da perda 

Da saudade

Da memória 

Do luto 

Mas eu ainda falava sobre você em metáforas 

Que ninguém teria motivos para desvendar 

E eu sempre me lembro 

Quando o céu é cor de carmim 

Quando ouço os cds que eu dei a você sem antes ouvir 

Quando eu olho para essa imensa abertura que fiz na alma 

Para que você pudesse entrar 

E que ficou ainda maior quando você foi embora.

2 de ago. de 2026

Pequeno espaço



 Enquanto eu sentia um perfume 

Só antes sentido na infância 

E caminhava com o sol se pondo tão morno às minhas costas 

Minha alma se preenchia de uma paz profunda 

E eu me dava conta 

De que talvez o amor que tenhamos sentido 

Naqueles nossos anos jovens 

E que antes do fim do inverno

Se transformou em um silêncio faminto 

Que devorou toda minha luz

Tenha sido tão grande e verdadeiro 

Ao ponto de preencher toda a vida que viria depois 

Deixado apenas um pequeno espaço 

Que tentei ocupar com novas canções que não as nossas

Com poemas que você não mais leria 

Com erros que não cometeríamos juntos 

Um pequeno espaço que em você foi o suficiente para abrigar o mundo inteiro 

E que em mim apenas pude abrigar um jardim 

Mas que ainda floresce.

Ipês brancos



Pelos ipês brancos 

Que dos últimos 

Foram os primeiros a florir 

Eu penso que 

Silenciosamente 

A vida continua fazendo um grande esforço 

Para nos mostrar como pode ser bonita.


Já não resta inocência para acreditar em sinais 

Mas em dias assim 

Tudo ao redor parece a manifestação 

De pequenos milagres

E comove como  

Mesmo em tempos tão estranhos

Todos os jardins insistem 

Em desabrochar nas mais variadas cores.


E é verdade

Seria com que você estivesse aqui

Agora que é o fim do primeiro domingo de agosto 

E a luz entra por frestas

Fazendo brilhar a primeira flor da camélia 

Pela qual esperei anos 

E você não está 

Mas eu sorrio ao imaginar que algum dia você também sorriu 

Ao se lembrar do meu nome

Também sorriu 

Quando os ipês brancos começaram a florescer.