30 de set. de 2026

Paradoxo



Via-se em uma pequena batalha 

Para conciliar nas mesmas linhas 

Decepções e deslumbres

Porque perdidas no sufoco dos dias 

As horas que escorriam lentamente dos ponteiros 

Desnudavam amargores e faces sarcásticas

Mas também pequenas e preciosas belezas ocultas 

E era isso que eu tinha para sentir o milagre da vida

Esse ranger incessante de uma engrenagem estúpida que nada produz

Mas também um homem pegando pitangas de uma árvore na calçada após um dia duro de trabalho 

Palavras aveludadas ocultando espinhos venosos

Mas também o perfume do manacá se esparramando pelo jardim enquanto escurecia 

Vozes afiadas e estridentes penetrando peito adentro 

Mas também um disco novo com canções que curam

Então no meio desse caminho 

Eu parei por alguns versos bonitos que já não me recordo 

Eu parei para ver os últimos clarões do sol se pondo 

Eu parei para não pensar no paradoxo displicente que é a vida

Eu parei

Respirei fundo 

E voltei a seguir.


De "Sóbrio Delírio" (disponível em 12 10 26)

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