10 de set. de 2026

Meninos puros




Nas velhas fotografias

Resquícios de tanto amor

De tanta vida

O sorriso que se abre então 

É por recordar das tantas vezes 

Em que o lar tão buscado

Já foi encontrado

Agora quase tudo repousa calmamente

No vasto leito da memória 

E se não fosse pelas provas

Que pelos meus olhos

Avançam alma adentro

Eu diria que o coração está apenas outra vez

Mergulhando em delírios quase perigosos 

Mas por hoje

Por esta noite

Por esta canção que se repete e se repete

Tudo volta a existir 

Nossas mãos estão entrelaçadas novamente

O caminho que se estende adiante é seguro

E os sonhos 

São iluminados por uma inocência ainda não perdida

Voltamos a ser os meninos puros de outrora

Antes do tempo se tornar cruel 

Antes do medo ser a única companhia

Antes do adeus ser a única certeza.

7 de set. de 2026

Impossível




Não é possível fingir não ouvir o que ainda murmura tão alto o coração 

As repetitivas

Tristes 

E bonitas canções que canta 

Não é possível conter a sutil claridade que dele às vezes escapa em forma de palavra

Não é possível ignorar o calor que ele tenta produzir para germinar as sementes esquecidas sob o solo da alma


Mas pedaços demais dele foram perdidos a cada tentativa de encontrar um lar

Esperanças demais foram queimadas para iluminar a noite escura 

Em que se buscava um sonho inalcançável 


O passar dos anos parece ter tornado todos os caminhos mais perigosos 

E nenhum deslumbrante delírio permaneceu tempo suficiente 

Para que 

No fim

Não se voltasse ferido à mesma velha cama fria

Para que não se despertasse na manhã seguinte 

Sóbrio 

E sozinho.


De "Sóbrio Delírio" (em breve)


6 de set. de 2026

Toda aquela bela imensidão

Éramos como dois satélites errantes 

Soltos num espaço incompreensível 

Até o dia em que as palavras traçaram uma única rota

E por alguns instantes estivemos na mesma órbita 

Presos em uma espécie de delírio mágico 

Ignorávamos toda a vastidão do universo ao redor

Porque nosso calor e claridade bastavam

Então um dia

Como não poderia deixar de ser

Você vislumbrou outras constelações e galáxias 

E tudo mais que brilhava além 

Do pequeno mundo no qual girávamos 

E eu não entendi 

Eu te feri

Eu quis te puxar de volta 

Fingindo uma luminosidade que não existia 

Que não se compararia às que você via

Então

Passado muito tempo

Ofereci uma última prova de amor 

Que foi finalmente te libertar 

Para que alcançasse outra vez 

Toda aquela bela imensidão 

Agora eu também observo o universo infinito 

Embora ainda preso à minha pequena órbita 

E sei que você está lá 

Viajando por entre luzes e escuridões 

Sendo tudo o que 

Junto a mim jamais poderia ser. 


 

31 de ago. de 2026

Anuncia-se



Anuncia-se árido tempo de espera

Outro longo período de estiagem severa

Outra era cravejada de fantasmas ancestrais 

De delírios pavorosos 

De súplicas doloridas

Mas então a resposta chega simples como um temporal 

As ruas inundam-se de águas e folhas 

E os trovões me contam 

Que há um Pai que também nos permite 

Às vezes 

Sermos apenas filhos 

Agora então a atmosfera é limpa 

Resplandece o último sol de agosto 

Os primeiros jacarandás começam a florir 

O peito se recorda de um último abraço 

Uma canção bonita termina

Vai ficar tudo bem.

29 de ago. de 2026

Ventos severos de agosto



De uma ou de outra forma 

Esses ventos severos de agosto 

Sempre levam preciosidades embora 

Glória, Laura, Filipe, Tim, Dolly, minha Paz

E no olho do furacão da mente 

Eu olho para o céu azul acima

E penso sobre a Roda da Vida

Que nunca para de girar 

De trazer

De tirar 

E sinto por toda alma algo inominável 

O resultado da soma 

Do medo e da esperança 

Da perda e da conquista 

Do desespero e da fé 

Algo que talvez só um poeta 

Poderia sentir 

Ou certamente 

Qualquer um que também exista 

Em um agosto assim.

25 de ago. de 2026

Delírio de agosto

 


Agosto sempre trouxe adeuses profundos 

Manhãs frias 

Tardes quentes 

Folhas rodopiando ao vento

A luz ocre de um sol que parece se compadecer do nosso desgosto 

Uma voz ressoa como um trovão pelos vastos salões da alma

Enquanto outra se silencia para sempre

Na calçada 

Uma menina carregava com cuidado e atenção dois lírios

No sonho

Maria Bethânia me pedia um café 

E antes de tudo

Eu tinha você nos braços

Nos lábios 

No delírio febril 

Que sempre é dissolvido pelo amanhecer.

23 de ago. de 2026

Sóbrio delírio



Conheço bem cada canto sombrio dessa alma

E seus pecados que dançam juntos uma canção ruim

Logo ali no jardim 

Mas sob essa luz solitária de um dia pacífico 

Ela meio que se converte em uma flama dourada 

E por um instante é como se flutuasse 

Acima do erro, da ânsia, do desejo 

E pairando na atmosfera 

Refletindo como um segundo sol 

Ela finalmente se entrega a um sóbrio delírio 

Abdicando da lógica e da ilusão 

Sentindo finalmente 

Que apenas a realidade 

Lhe permite ter asas para voar.

Verdadeiramente



Sendo sempre uma estiagem estéril demais

Amei chuvas de verão 

Algumas que desaguavam calmas

E tão rápido se pareciam com um milagre a envolver 

A tudo faziam florir 

E tão logo desapareciam 

Outras chegavam sem previsão 

Bravas e sem controle 

Eram avassaladoras demais 

Para um coração tão ingênuo 

E deixaram cicatrizes permanentes

Já outras apenas encobriram o céu com nuvens escuras

Agitaram as árvores com ventos fortes 

Clarearam os vales com seus relâmpagos 

E se foram sem nem ao menos regar o jardim

E tudo isso foi há tanto 

Desde então se faz um céu extremamente limpo

Profundamente azul 

A estiagem voltara aos campos da alma

E sinto que do céu mais nada cairá 

Mas algumas flores mais resistentes

Persistem exalando um perfume raro e sagrado 

Desafiando a secura interminável dos dias

Algumas flores persistem

Como se em algum dia alguém fosse lhes amar

Verdadeiramente.

Ou da próxima, ou da próxima



Eu também me sentia caminhando por um caminho em que já podia ver o fim

Buscava uma nova melodia para inspirar um novo poema 

Que também não seria lido por ninguém

Buscava novas palavras para tentar eternizar fragmentos de inofensivos delírios 

Que sucumbem à realidade rápido demais

Mas até nos sonhos já não se é tão livre 

Já não se tem tanto poder

Outras línguas, vozes estranhas 

Passado e presente dançando a mesma canção 

E eu sempre estou muito longe de casa 

Sozinho 

Sem conseguir a passagem para voltar 

Então a manhã chega cortada por um som estridente e quase cruel 

E por um sol reluzente 

E os sinais me dizem

Que também não será dessa vez 

Ou da próxima 

Ou da próxima 

Que se encontrará o que tanto se deseja 

Procurando nos mesmos velhos escombros.

22 de ago. de 2026

Temido pôr-do-sol




Abraça-me uma voz poderosa 

Entoado cânticos sobre um temido pôr-do-sol

E as cores escarlates banhando o horizonte 

Pouco antes da escuridão cobrir e sufocar

Com seu manto pesado 

Quaisquer sonhos mais delicados 

Como esses que emitem um suspiro efêmero

Ante ao sorriso perfeito 

Ante ao olhar iluminado 

Dessa vez não seria diferente da vez anterior 

Ou da anterior 

Ou da anterior 

Pela manhã a sobriedade chegará 

Trazendo uma chuva densa de esquecimento 

A roda da vida vai girar e girar 

Em direção a um destino que fingimos tão bem desconhecer 

E a luz dissolverá qualquer resto de ilusão 

E todo esse sentir é tanto e tão pouco 

E dói e cura

Mas há vida

Alguma vida 

Então há tempo 

Algum tempo

Antes do próximo temido pôr-do-sol.


21 de ago. de 2026

"Sóbrio Delírio"




Às vésperas do quadragésimo outono, olho para o tempo; para o que passou, para o que aqui está e para o que virá; e tento encontrar o equilíbrio entre a realidade e a ilusão. 

Muito da minha existência foi alicerçado no ato de sonhar. Desde os sonhos mais fantásticos da infância, aos mais singelos da maturidade.

Lembro bem que quando criança transformava sempre o mundo em um reino cheio de encanto, onde tudo poderia ser algo mágico se olhado com mais cuidado. Os campos, o luar, as árvores... Tudo se transformava em cenários e personagens de uma história mística e sem fim. 

E já com um certo peso dos anos, a vida mostra-se bem mais rígida e fria, e torna-se tão mais difícil encontrar o que ainda fascine e gere aquele deslumbre antes sentido facilmente pela alma.

Eis que então as mãos vazias tomam o instrumento para atiçar as brasas adormecidas, mas ainda quentes, da poesia.

O calor não é forte o bastante para reviver o mundo fantástico antes tão bem conhecido, mas permite um sóbrio delírio, um breve retorno para o que se ama, uma nova coloração para uma paisagem que se acinzenta; mesmo que os velhos caminhos não existam mais e novos caminhos precisem ser feitos; mesmo que a realidade seja severa e constantemente nos tente roubar a beleza dos dias. 

Sinto, assim, que é preciso voltar.

É preciso voltar para não se perder por completo, para amar de novo aquilo que nos tornou quem somos. 

É preciso voltar... Mesmo estando mergulhado em uma sobriedade que por vezes machuca e fragiliza qualquer delírio. 

É preciso, por fim, voltar à palavra... Ao estado de poesia que é materializado através dela;

e com isso, voltar ao Sonhar 


"Sóbrio Delírio" será, então, meu décimo sexto livro de poemas. 

Um novo "transbordar da alma" que, para minha surpresa, continua com sua ânsia pela mágica da vida. 

É um caminhar lúcido por uma estada de sonhos, ou um velejar entorpecido por um mar hostil de realidade...

Sobretudo, é um testemunho do que pode haver de poético depois que se desperta.

19 de ago. de 2026

Simplório



Talvez tivesse muito medo da passagem do tempo

Da sua fome insaciável 

Da transitoriedade de tudo 

E o amor pela beleza 

Eternizasse os instantes por alguns instantes 

Como se ali estivesse seguro 

Protegido da efemeridade de todas as certezas 

De toda realidade tão severa e tão inconstante 

Por isso o mergulho na canção 

Por isso a insistência na palavra 

Por isso mais esse poema simplório. 

14 de ago. de 2026

Por enquanto



Então tocou aquela canção 

A que sempre tocava na minha mente quando algo me levava de volta até aqueles dias 

E foi estranho o nada sentir

Aquele tempo tão grandioso chegara ao fim 

Não apenas o tempo 

Eu percebo

Também todo o caminho pavimentado de sonhos 

Que me levava até ele 

E é estranho porque não faz frio ou silêncio 

A música continua tocando 

E ainda há um tanto de vida pela frente 

Antes que tudo se torne uma tragédia.


É o primeiro passo rumo a um destino 

Em que o amor não brilha mais no horizonte 

E não dói 

Não queima 

Mesmo que ainda 

Por enquanto 

Ainda se faça a falta 

O que é natural 

Ao rememorar a imensa luz que isso já representou 

Em tantos momentos em que apenas sombras reinavam

Mas repito 

É o primeiro passo em direção a um horizonte sem essa claridade...

E o caminho 

Embora seja escuro 

É finalmente firme sob meus pés.

6 de ago. de 2026

Carmim



Não havia mais a dor para amar 

Mas algo ainda é digno do amor 

Talvez o que vem depois da perda 

Da saudade

Da memória 

Do luto 

Mas eu ainda falava sobre você em metáforas 

Que ninguém teria motivos para desvendar 

E eu sempre me lembro 

Quando o céu é cor de carmim 

Quando ouço os cds que eu dei a você sem antes ouvir 

Quando eu olho para essa imensa abertura que fiz na alma 

Para que você pudesse entrar 

E que ficou ainda maior quando você foi embora.

2 de ago. de 2026

Pequeno espaço



 Enquanto eu sentia um perfume 

Só antes sentido na infância 

E caminhava com o sol se pondo tão morno às minhas costas 

Minha alma se preenchia de uma paz profunda 

E eu me dava conta 

De que talvez o amor que tenhamos sentido 

Naqueles nossos anos jovens 

E que antes do fim do inverno

Se transformou em um silêncio faminto 

Que devorou toda minha luz

Tenha sido tão grande e verdadeiro 

Ao ponto de preencher toda a vida que viria depois 

Deixado apenas um pequeno espaço 

Que tentei ocupar com novas canções que não as nossas

Com poemas que você não mais leria 

Com erros que não cometeríamos juntos 

Um pequeno espaço que em você foi o suficiente para abrigar o mundo inteiro 

E que em mim apenas pude abrigar um jardim 

Mas que ainda floresce.

Ipês brancos



Pelos ipês brancos 

Que dos últimos 

Foram os primeiros a florir 

Eu penso que 

Silenciosamente 

A vida continua fazendo um grande esforço 

Para nos mostrar como pode ser bonita.


Já não resta inocência para acreditar em sinais 

Mas em dias assim 

Tudo ao redor parece a manifestação 

De pequenos milagres

E comove como  

Mesmo em tempos tão estranhos

Todos os jardins insistem 

Em desabrochar nas mais variadas cores.


E é verdade

Seria com que você estivesse aqui

Agora que é o fim do primeiro domingo de agosto 

E a luz entra por frestas

Fazendo brilhar a primeira flor da camélia 

Pela qual esperei anos 

E você não está 

Mas eu sorrio ao imaginar que algum dia você também sorriu 

Ao se lembrar do meu nome

Também sorriu 

Quando os ipês brancos começaram a florescer. 



1 de ago. de 2026

4.383 dias



Também era um domingo assim 

Também era agosto

Mas havia menos flores do jardim 

Mas havia mais lágrimas nos olhos 

E por doze anos eu lapidei esse adeus 

Da imensa rocha bruta que era

Até essa pequena safira brilhante 

Que cabe nas minhas mãos 

Que para sempre carregarei comigo 

E por doze anos o tempo nos lapidou 

Como faz com todas as coisas 

Transformando o profano em sagrado 

Transformando a vida em medo

Transformando pecados em salvadores 

Transformando o amor em algo sem nome

No sentimento que existe quando o olhar perfura o horizonte 

E se perde no espaço 

Frio

Escuro

Silencioso

Dentro do possível 

Eu cumpri minhas promessas

Embora não muito bem

Dentro do possível 

A poesia resistiu 

Embora muitas vezes detestada 

Dias mais felizes e mais tristes nasceram depois daquele 

Mas nenhum jamais igual

E eu sei que ainda não é domingo 

Mas pelos ventos 

Pelo canto dos pássaros 

Pela jabuticabeira em flor 

É agosto 

E é sábado e ainda não são 12 anos de despedida 

Falta um dia

Porque nesse dia ainda havia esperança 

Porque nesse dia ainda havia um último poema de amor sendo escrito e que nunca foi finalizado 

Nesse dia

Havia sua voz. 


2 de jul. de 2026

Talvez só a poesia

 


Talvez só a poesia conseguisse transitar por esse mundo paradoxal 

De horror e beleza 

Em que um pai renega um filho 

E outro foge do hospital para dar-lhe um último abraço 

Em que milhares de vidas se perdem sob escombros 

Enquanto ainda se ouve latidos de socorro

E os olhos deságuam por lambidas de gratidão 

Em que se afirma não haver mais fé e esperança 

Mas as mãos nuas nunca deixam de cavar a terra dura semeando para a primavera 

Talvez só a poesia possa encontrar sentido 

Em uma realidade que às vezes é pior 

Do que o mais solitário pesadelo

Mas que às vezes é mais sublime que o mais requintado dos sonhos 

Talvez só a poesia permaneça 

Como um retrato amável e pouco fiel 

De tudo o que hoje nos assombra e nos maravilha

De tudo o que um dia será perdido pela memória.

29 de jun. de 2026

29/06/26

 

O sol voltava a brilhar depois de dias de uma escuridão fria 

As crianças correm nas ruas com seus rostinhos pintados de verde e amarelo 

É vitória da seleção 

E eu que tão pouco sei sobre a fé e a coragem 

Mas muito sei sobre a gratidão 

Sinto meus olhos marejarem mais uma vez 

Dessa vez

Por alívio

Pela beleza simplória da tarde

Pelo amor que fez permanecer entre nós 

A luz resplandecente de um Serafim 

Assim começo a entender que é esse repetido caminhar pelos mesmos caminhos

Que os torna sagrados 

Que é ouvir de novo uma mesma canção 

Que a torna especial

Que é sonhar o mesmo sonho

Que o torna realidade 

Que talvez o verdadeiro milagre da vida 

Seja insistir.

23 de jun. de 2026

Serafim.



Aos poucos

Entre risos e amores

Se despede

Sem perceber

o mais antigo e sábio dos Serafins.

Vislumbrado os primeiros e os últimos anjos que já partiram

Nós choramos

O céu sorri 

Mas então chove

Como se o paraíso se compadecesse da nossa dor

Uma chuva mansa, fininha 

Que devolve a vida aos campos e faz germinar a sementes 

A vida segue seu ciclo magnífico que tão pouco entendemos 

Os olhos marejados turvam o vislumbrar dessa paisagem 

E mal se vê que já se achega a saudade 

Essa forma persistente do amor

E eu penso que 

Ao contrário do que disse o poeta 

Talvez não tenhamos braços longos para os adeuses 

Mas sim para os abraços 

O abraço que recebe aquele que chega ao mundo 

O abraço que envolve aquele que parte dele

E tanto dói, como não? 

Tão pouco sabemos do que há além da carne 

Mas é uma dor

Talvez

Com algo de beleza 

Pois apenas sofre

Quem muito ama.

21 de jun. de 2026

Há uma janela



Em algumas noites, 

Nos sonhos,

É como se você nunca houvesse existido.

Há uma proteção tão forte e bonita;

Mãos firmes segurando as minhas 

Guiando-me pelo caminho.

Enquanto em outras noites, 

Tudo o que existe são suas sombras 

Que contaminam tudo o que tenta florescer no jardim.

E eu me lembro com amargura 

Que corpo que você possuiu 

Abrigava uma alma que foi violada para sempre.

Mas há uma janela 

Por onde eu observo tudo o que é belo.

Uma janela,

Gradeada como uma prisão,

Por onde eu observo sonhos tão cintilantes.

Há essa janela...

Que me mantém seguro

E distante da vida.

Estou nessa jaula desde aquele dia,

Desde aquele dia em que não pude mais ser um menino.

Ainda assim, 

Eu tento adornar as paredes dessa prisão com poemas e canções,

Tento regar a primavera através da janela para que no inverno ela floresça;

Ainda assim,

Por muitas vezes, 

Eu consigo preencher esse cárcere de Luz.

7 de jun. de 2026

Então via que alguma poesia ainda existia...

 


Então via que alguma poesia ainda existia...

No desvio do caminho para ver a igrejinha inacabada 

No tijolo assentado para dar forma ao jardim 

No beija-flor todo sujo de pólen pairando no ar como que por mágica 

Na canção recém descoberta que traz um aconchego esquecido.

Então via que alguma poesia ainda existia...

Ainda que não mais na esperança do afeto, do abraço, da presença 

Ainda que não mais no frescor da juventude que sempre acaba cedo demais

Ainda que não mais no reflexo que o tempo aos poucos tem feito sucumbir 

Ainda que não mais nas memórias que já foram belas e imponentes como palácios.

Então via que alguma poesia ainda existia...

Não mais aonde se buscava, mas no improvável 

Não mais nas brumas da fé, mas na luz da razão 

Não mais nas exuberantes mentiras, mas nas cores opacas da realidade 

Não mais na ilusão fulgurante, mas na sobriedade do que realme

nte é o amor. 

29 de mai. de 2026

Você só existe



Você só existe na minha lembrança

Nas centenas de versos para os quais foi a inspiração 

Nas canções que de alguma forma sempre me levam de volta àquela década passada.

Você só existe no agora 

Em que a alma clama por alguma beleza 

E mais nada no mundo me comove 

Então é preciso que eu vá ao velho Jardim de memórias 

Onde nada mais floresce 

Mas no qual ainda repousa em sono eterno algo do que poderia ter sido o

Amor.

Você só existe quando o mundo assusta 

Quando falta a luz 

A fé 

O caminho

E eu busco seu nome que ninguém mais conhece 

Ninguém mais pronuncia

Você só existe...

Quando eu penso no azul profundo que tinha seu olhar 

Que ninguém nunca admirou como eu.

Você só existe quando eu sinto que um dia sonhei...

Então você já não existe 

Pois que já não há mais qualquer sonho.

21 de mai. de 2026

Lembro-me




 Lembro-me de todos os lugares pelos quais passei 

Ainda que só uma vez 

Ainda que sem perceber

Lembro-me de todos os corações os quais habitei 

Ainda que tão logo 

Tenha sido convidado a me mudar

Lembro-me de tudo 

E como disse o poeta 

Até do esquecimento 

E as canções de agora 

Que são as mesmas de antes 

E serão as mesmas de depois 

Também são lugares-melodias

Nos quais estive e estarei 

Sonhando rapidamente 

Segurando um resquício de poesia 

Que a realidade esquece de destruir 

E que paira pela atmosfera como uma luz macia 

Já prestes a se apagar. 

12 de abr. de 2026

Outra vez

 


Você vai começar de novo
Não recomeçar 
Emendando fios partidos de uma tapeçaria já puída pelo tempo e pela realidade 
Mas começar de novo 
Um primeiro passo 
Um primeiro sorriso 
Porque
Como disse o sábio 
Mesmo acordando na mesma cama
No mesmo quarto 
Na mesma vida 
Ninguém está hoje no mesmo lugar do universo que esteve ontem 
A vida é esse movimento incalculável e ininterrupto
De fato 
Vai ainda alcançar o mar antes do quadragésimo outono 
Vai ainda fechar os olhos para que a lágrima escorra livre diante de uma nova canção
Vai ainda semear e ver florir 
Vai ainda amar 
Talvez não algo ou alguém 
Mas o sentir 
E não como antes 
Mas como uma primeira vez 
Outra vez.

16 de fev. de 2026



Os fins das tardes exalam forte perfume de laranjeiras em flor. 

E é como que se o perfume, a luz, uma melodia antiga, se fundissem 

Formando algo sem explicação 

Mas bonito 

Talvez a paz agora seja algo próximo a isso 

Onde já não se sonha, mas às vezes ainda se sente 

Onde se planta flores ao invés de enxugar o pranto do mundo 

Então volto a caminhar por velhos caminhos Que aos poucos também envelhecem solitariamente 

Talvez em busca de respostas, ou de silêncio, ou de redenção 

Só que eu só consigo observar maravilhado o imenso céu que começa a se pontilhar de estrelas acima de mim 

E por ora 

Isso será o bastante.