Às vésperas do quadragésimo outono, olho para o tempo; para o que passou, para o que aqui está e para o que virá; e tento encontrar o equilíbrio entre a realidade e a ilusão.
Muito da minha existência foi alicerçado no ato de sonhar. Desde os sonhos mais fantásticos da infância, aos mais singelos da maturidade.
Lembro bem que quando criança transformava sempre o mundo em um reino cheio de encanto, onde tudo poderia ser algo mágico se olhado com mais cuidado. Os campos, o luar, as árvores... Tudo se transformava em cenários e personagens de uma história mística e sem fim.
E já com um certo peso dos anos, a vida mostra-se bem mais rígida e fria, e torna-se tão mais difícil encontrar o que ainda fascine e gere aquele deslumbre antes sentido facilmente pela alma.
Eis que então as mãos vazias tomam o instrumento para atiçar as brasas adormecidas, mas ainda quentes, da poesia.
O calor não é forte o bastante para reviver o mundo fantástico antes tão bem conhecido, mas permite um sóbrio delírio, um breve retorno para o que se ama, uma nova coloração para uma paisagem que se acinzenta; mesmo que os velhos caminhos não existam mais e novos caminhos precisem ser feitos; mesmo que a realidade seja severa e constantemente nos tente roubar a beleza dos dias.
Sinto, assim, que é preciso voltar.
É preciso voltar para não se perder por completo, para amar de novo aquilo que nos tornou quem somos.
É preciso voltar... Mesmo estando mergulhado em uma sobriedade que por vezes machuca e fragiliza qualquer delírio.
É preciso, por fim, voltar à palavra... Ao estado de poesia que é materializado através dela;
e com isso, voltar ao Sonhar
"Sóbrio Delírio" será, então, meu décimo sexto livro de poemas.
Um novo "transbordar da alma" que, para minha surpresa, continua com sua ânsia pela mágica da vida.
É um caminhar lúcido por uma estada de sonhos, ou um velejar entorpecido por um mar hostil de realidade...
Sobretudo, é um testemunho do que pode haver de poético depois que se desperta.