31 de ago. de 2026

Anuncia-se



Anuncia-se árido tempo de espera

Outro longo período de estiagem severa

Outra era cravejada de fantasmas ancestrais 

De delírios pavorosos 

De súplicas doloridas

Mas então a resposta chega simples como um temporal 

As ruas inundam-se de águas e folhas 

E os trovões me contam 

Que há um Pai que também nos permite 

Às vezes 

Sermos apenas filhos 

Agora então a atmosfera é limpa 

Resplandece o último sol de agosto 

Os primeiros jacarandás começam a florir 

O peito se recorda de um último abraço 

Uma canção bonita termina

Vai ficar tudo bem.

29 de ago. de 2026

Ventos severos de agosto



De uma ou de outra forma 

Esses ventos severos de agosto 

Sempre levam preciosidades embora 

Glória, Laura, Filipe, Tim, Dolly, minha Paz

E no olho do furacão da mente 

Eu olho para o céu azul acima

E penso sobre a Roda da Vida

Que nunca para de girar 

De trazer

De tirar 

E sinto por toda alma algo inominável 

O resultado da soma 

Do medo e da esperança 

Da perda e da conquista 

Do desespero e da fé 

Algo que talvez só um poeta 

Poderia sentir 

Ou certamente 

Qualquer um que também exista 

Em um agosto assim.

25 de ago. de 2026

Delírio de agosto

 


Agosto sempre trouxe adeuses profundos 

Manhãs frias 

Tardes quentes 

Folhas rodopiando ao vento

A luz ocre de um sol que parece se compadecer do nosso desgosto 

Uma voz ressoa como um trovão pelos vastos salões da alma

Enquanto outra se silencia para sempre

Na calçada 

Uma menina carregava com cuidado e atenção dois lírios

No sonho

Maria Bethânia me pedia um café 

E antes de tudo

Eu tinha você nos braços

Nos lábios 

No delírio febril 

Que sempre é dissolvido pelo amanhecer.

23 de ago. de 2026

Sóbrio delírio



Conheço bem cada canto sombrio dessa alma

E seus pecados que dançam juntos uma canção ruim

Logo ali no jardim 

Mas sob essa luz solitária de um dia pacífico 

Ela meio que se converte em uma flama dourada 

E por um instante é como se flutuasse 

Acima do erro, da ânsia, do desejo 

E pairando na atmosfera 

Refletindo como um segundo sol 

Ela finalmente se entrega a um sóbrio delírio 

Abdicando da lógica e da ilusão 

Sentindo finalmente 

Que apenas a realidade 

Lhe permite ter asas para voar.

Verdadeiramente



Sendo sempre uma estiagem estéril demais

Amei chuvas de verão 

Algumas que desaguavam calmas

E tão rápido se pareciam com um milagre a envolver 

A tudo faziam florir 

E tão logo desapareciam 

Outras chegavam sem previsão 

Bravas e sem controle 

Eram avassaladoras demais 

Para um coração tão ingênuo 

E deixaram cicatrizes permanentes

Já outras apenas encobriram o céu com nuvens escuras

Agitaram as árvores com ventos fortes 

Clarearam os vales com seus relâmpagos 

E se foram sem nem ao menos regar o jardim

E tudo isso foi há tanto 

Desde então se faz um céu extremamente limpo

Profundamente azul 

A estiagem voltara aos campos da alma

E sinto que do céu mais nada cairá 

Mas algumas flores mais resistentes

Persistem exalando um perfume raro e sagrado 

Desafiando a secura interminável dos dias

Algumas flores persistem

Como se em algum dia alguém fosse lhes amar

Verdadeiramente.

Ou da próxima, ou da próxima



Eu também me sentia caminhando por um caminho em que já podia ver o fim

Buscava uma nova melodia para inspirar um novo poema 

Que também não seria lido por ninguém

Buscava novas palavras para tentar eternizar fragmentos de inofensivos delírios 

Que sucumbem à realidade rápido demais

Mas até nos sonhos já não se é tão livre 

Já não se tem tanto poder

Outras línguas, vozes estranhas 

Passado e presente dançando a mesma canção 

E eu sempre estou muito longe de casa 

Sozinho 

Sem conseguir a passagem para voltar 

Então a manhã chega cortada por um som estridente e quase cruel 

E por um sol reluzente 

E os sinais me dizem

Que também não será dessa vez 

Ou da próxima 

Ou da próxima 

Que se encontrará o que tanto se deseja 

Procurando nos mesmos velhos escombros.

22 de ago. de 2026

Temido pôr-do-sol




Abraça-me uma voz poderosa 

Entoado cânticos sobre um temido pôr-do-sol

E as cores escarlates banhando o horizonte 

Pouco antes da escuridão cobrir e sufocar

Com seu manto pesado 

Quaisquer sonhos mais delicados 

Como esses que emitem um suspiro efêmero

Ante ao sorriso perfeito 

Ante ao olhar iluminado 

Dessa vez não seria diferente da vez anterior 

Ou da anterior 

Ou da anterior 

Pela manhã a sobriedade chegará 

Trazendo uma chuva densa de esquecimento 

A roda da vida vai girar e girar 

Em direção a um destino que fingimos tão bem desconhecer 

E a luz dissolverá qualquer resto de ilusão 

E todo esse sentir é tanto e tão pouco 

E dói e cura

Mas há vida

Alguma vida 

Então há tempo 

Algum tempo

Antes do próximo temido pôr-do-sol.


21 de ago. de 2026

"Sóbrio Delírio"




Às vésperas do quadragésimo outono, olho para o tempo; para o que passou, para o que aqui está e para o que virá; e tento encontrar o equilíbrio entre a realidade e a ilusão. 

Muito da minha existência foi alicerçado no ato de sonhar. Desde os sonhos mais fantásticos da infância, aos mais singelos da maturidade.

Lembro bem que quando criança transformava sempre o mundo em um reino cheio de encanto, onde tudo poderia ser algo mágico se olhado com mais cuidado. Os campos, o luar, as árvores... Tudo se transformava em cenários e personagens de uma história mística e sem fim. 

E já com um certo peso dos anos, a vida mostra-se bem mais rígida e fria, e torna-se tão mais difícil encontrar o que ainda fascine e gere aquele deslumbre antes sentido facilmente pela alma.

Eis que então as mãos vazias tomam o instrumento para atiçar as brasas adormecidas, mas ainda quentes, da poesia.

O calor não é forte o bastante para reviver o mundo fantástico antes tão bem conhecido, mas permite um sóbrio delírio, um breve retorno para o que se ama, uma nova coloração para uma paisagem que se acinzenta; mesmo que os velhos caminhos não existam mais e novos caminhos precisem ser feitos; mesmo que a realidade seja severa e constantemente nos tente roubar a beleza dos dias. 

Sinto, assim, que é preciso voltar.

É preciso voltar para não se perder por completo, para amar de novo aquilo que nos tornou quem somos. 

É preciso voltar... Mesmo estando mergulhado em uma sobriedade que por vezes machuca e fragiliza qualquer delírio. 

É preciso, por fim, voltar à palavra... Ao estado de poesia que é materializado através dela;

e com isso, voltar ao Sonhar 


"Sóbrio Delírio" será, então, meu décimo sexto livro de poemas. 

Um novo "transbordar da alma" que, para minha surpresa, continua com sua ânsia pela mágica da vida. 

É um caminhar lúcido por uma estada de sonhos, ou um velejar entorpecido por um mar hostil de realidade...

Sobretudo, é um testemunho do que pode haver de poético depois que se desperta.

19 de ago. de 2026

Simplório



Talvez tivesse muito medo da passagem do tempo

Da sua fome insaciável 

Da transitoriedade de tudo 

E o amor pela beleza 

Eternizasse os instantes por alguns instantes 

Como se ali estivesse seguro 

Protegido da efemeridade de todas as certezas 

De toda realidade tão severa e tão inconstante 

Por isso o mergulho na canção 

Por isso a insistência na palavra 

Por isso mais esse poema simplório. 

14 de ago. de 2026

Por enquanto



Então tocou aquela canção 

A que sempre tocava na minha mente quando algo me levava de volta até aqueles dias 

E foi estranho o nada sentir

Aquele tempo tão grandioso chegara ao fim 

Não apenas o tempo 

Eu percebo

Também todo o caminho pavimentado de sonhos 

Que me levava até ele 

E é estranho porque não faz frio ou silêncio 

A música continua tocando 

E ainda há um tanto de vida pela frente 

Antes que tudo se torne uma tragédia.


É o primeiro passo rumo a um destino 

Em que o amor não brilha mais no horizonte 

E não dói 

Não queima 

Mesmo que ainda 

Por enquanto 

Ainda se faça a falta 

O que é natural 

Ao rememorar a imensa luz que isso já representou 

Em tantos momentos em que apenas sombras reinavam

Mas repito 

É o primeiro passo em direção a um horizonte sem essa claridade...

E o caminho 

Embora seja escuro 

É finalmente firme sob meus pés.

6 de ago. de 2026

Carmim



Não havia mais a dor para amar 

Mas algo ainda é digno do amor 

Talvez o que vem depois da perda 

Da saudade

Da memória 

Do luto 

Mas eu ainda falava sobre você em metáforas 

Que ninguém teria motivos para desvendar 

E eu sempre me lembro 

Quando o céu é cor de carmim 

Quando ouço os cds que eu dei a você sem antes ouvir 

Quando eu olho para essa imensa abertura que fiz na alma 

Para que você pudesse entrar 

E que ficou ainda maior quando você foi embora.

2 de ago. de 2026

Pequeno espaço



 Enquanto eu sentia um perfume 

Só antes sentido na infância 

E caminhava com o sol se pondo tão morno às minhas costas 

Minha alma se preenchia de uma paz profunda 

E eu me dava conta 

De que talvez o amor que tenhamos sentido 

Naqueles nossos anos jovens 

E que antes do fim do inverno

Se transformou em um silêncio faminto 

Que devorou toda minha luz

Tenha sido tão grande e verdadeiro 

Ao ponto de preencher toda a vida que viria depois 

Deixado apenas um pequeno espaço 

Que tentei ocupar com novas canções que não as nossas

Com poemas que você não mais leria 

Com erros que não cometeríamos juntos 

Um pequeno espaço que em você foi o suficiente para abrigar o mundo inteiro 

E que em mim apenas pude abrigar um jardim 

Mas que ainda floresce.

Ipês brancos



Pelos ipês brancos 

Que dos últimos 

Foram os primeiros a florir 

Eu penso que 

Silenciosamente 

A vida continua fazendo um grande esforço 

Para nos mostrar como pode ser bonita.


Já não resta inocência para acreditar em sinais 

Mas em dias assim 

Tudo ao redor parece a manifestação 

De pequenos milagres

E comove como  

Mesmo em tempos tão estranhos

Todos os jardins insistem 

Em desabrochar nas mais variadas cores.


E é verdade

Seria com que você estivesse aqui

Agora que é o fim do primeiro domingo de agosto 

E a luz entra por frestas

Fazendo brilhar a primeira flor da camélia 

Pela qual esperei anos 

E você não está 

Mas eu sorrio ao imaginar que algum dia você também sorriu 

Ao se lembrar do meu nome

Também sorriu 

Quando os ipês brancos começaram a florescer. 



1 de ago. de 2026

4.383 dias



Também era um domingo assim 

Também era agosto

Mas havia menos flores do jardim 

Mas havia mais lágrimas nos olhos 

E por doze anos eu lapidei esse adeus 

Da imensa rocha bruta que era

Até essa pequena safira brilhante 

Que cabe nas minhas mãos 

Que para sempre carregarei comigo 

E por doze anos o tempo nos lapidou 

Como faz com todas as coisas 

Transformando o profano em sagrado 

Transformando a vida em medo

Transformando pecados em salvadores 

Transformando o amor em algo sem nome

No sentimento que existe quando o olhar perfura o horizonte 

E se perde no espaço 

Frio

Escuro

Silencioso

Dentro do possível 

Eu cumpri minhas promessas

Embora não muito bem

Dentro do possível 

A poesia resistiu 

Embora muitas vezes detestada 

Dias mais felizes e mais tristes nasceram depois daquele 

Mas nenhum jamais igual

E eu sei que ainda não é domingo 

Mas pelos ventos 

Pelo canto dos pássaros 

Pela jabuticabeira em flor 

É agosto 

E é sábado e ainda não são 12 anos de despedida 

Falta um dia

Porque nesse dia ainda havia esperança 

Porque nesse dia ainda havia um último poema de amor sendo escrito e que nunca foi finalizado 

Nesse dia

Havia sua voz.