30 de set. de 2026

Paradoxo



Via-se em uma pequena batalha 

Para conciliar nas mesmas linhas 

Decepções e deslumbres

Porque perdidas no sufoco dos dias 

As horas que escorriam lentamente dos ponteiros 

Desnudavam amargores e faces sarcásticas

Mas também pequenas e preciosas belezas ocultas 

E era isso que eu tinha para sentir o milagre da vida

Esse ranger incessante de uma engrenagem estúpida que nada produz

Mas também um homem pegando pitangas de uma árvore na calçada após um dia duro de trabalho 

Palavras aveludadas ocultando espinhos venosos

Mas também o perfume do manacá se esparramando pelo jardim enquanto escurecia 

Vozes afiadas e estridentes penetrando peito adentro 

Mas também um disco novo com canções que curam

Então no meio desse caminho 

Eu parei por alguns versos bonitos que já não me recordo 

Eu parei para ver os últimos clarões do sol se pondo 

Eu parei para não pensar no paradoxo displicente que é a vida

Eu parei

Respirei fundo 

E voltei a seguir.


De "Sóbrio Delírio" (disponível em 12 10 26)

23 de set. de 2026

Mas chega a primavera



Eu temo a esperança 

Porque muito do que ela trouxe

Ela levou

E quando levou

Parecia-me que tinha levado mais do que deveria

E também temo o tempo 

E sua displicência ao passar tão rápido 

Nos obrigando a calcular o que nos resta dele

Para descobrir 

Se será o bastante para outros recomeços

Ou se será apenas uma tela fria 

Por onde rolam memórias e mais memórias 

Cada vez mais desbotadas 

E enquanto tanto temo

Chega a primavera 

Um pouco acanhada 

Chorosa 

Talvez com alguns temores também 

Trazidos de um inverno que parecia não ter fim

E que talvez não tenha 

Mas chega a primavera 

E sonhando com suas flores 

Eu já não temo tanto a esperança ou o tempo 

Por recordar de quando eram meus companheiros 

Quase amigos 

Naquelas épocas de outrora 

Em que o coração 

Nada sabia sobre o medo. 


De "Sóbrio Delírio" (disponível em 12 10 26)

21 de set. de 2026

O canto dos pássaros



No fim da madrugada 

Quando a luz do nascente começava a dourar o horizonte 

O sono foi cortado pela invejável alegria dos pássaros 

O coro estridente 

Saudava com grande entusiasmo a chegada do sol

A derrota das trevas 

Rolando em cama confortável 

Murmurei de incômodo 

Por sentir que era tirado precocemente 

Do afável mundo dos sonhos 

Então senti vergonha 

Tamanha vergonha 

Ao lembrar de meus irmãos 

E de sua terra tão santa e tão castigada 

Onde não há o canto dos pássaros

Ou os pássaros 

Ou sequer árvores para que se pousem os pássaros 

Onde não se pode fechar portas e janelas 

Para abafar o som dos aviões de guerra

Porque também não existem portas e janelas

Ou paredes para se colocar essas portas e janelas

E não consegui chorar 

Mas os olhos se encheram de uma água salgada 

Que parecia ferver, queimar 

Uma água represada 

Um pranto contido 

Que 

Tenho ainda esperança 

Desaguará livremente 

Dessa vez de felicidade 

Quando eu e meus irmãos em Gaza

Pudermos ser despertados 

Pelo canto dos pássaros.


20 de set. de 2026

Do Rio ao Mar: Livre Palestina!



Os que me odeiam têm teclados e canetas nas mãos 

Os que os odeiam têm detonadores e munições 

E contra minha dor eu tenho o meu chão 

A minha terra

Em que

Se plantando 

Tudo floresce 

Eu tenho minhas palavras 

Que não atravessam essas paredes

É verdade 

Essas telas 

É verdade 

Mas eu tenho minhas palavras 

Que são talvez a luz de uma vela

Na escuridão de um universo sem estrelas 

E deles foi arrancado até o sussurro, 

O grito, a lágrima 

Mas eu sinto que de todo canto novas velas se acendem 

E acredito que juntas essas velas farão a escuridão menos poderosa 

Não podemos nos render ainda 

Passará a soberania dos algozes 

Eles não venceram ainda 

Eles não vencerão 

E eu que menos que nada sei

Sei que quando cheguei aqui só existiam pedras nesse jardim

E hoje ele está repleto de cor

Sei que toda terra é santa 

E do escombro

Do solo castigado 

Ainda brotará vida

Eu que menos que nada sei

Sei que minha voz não pode ser ouvida 

Mas enquanto eu a tiver ainda

Enquanto eu tiver vida 

Direi sem cessar 

"Do Rio ao Mar: Livre Palestina!"


De "Sóbrio Delírio" (disponível em 12/10/26)

19 de set. de 2026

Passou a existir o amor

 

Passou a existir o amor então de tantas outras formas 

Na luz de fim de inverno que entrava pela janela e dourava os discos na parede 

Na flor roxa que desabrochava em incontáveis cachos depois de anos de espera 

Na brisa morna e quase silenciosa que balançava as roupas no varal 

No socorro tão gentil vindo por mãos desconhecidas 

No afeto inabalado pelo tempo e pela distância

 

Via que o amor existia na singeleza da vida 

Nos seus detalhes belos e acanhados 

Na sua melodia simplesinha 

Na coragem daquele que faz o pão 

Ou na do que guia uma nação 

Na força do que fala pelos que não tem mais voz 

E também na palavra

Que humildemente me acompanha 

E que talvez nunca me diga adeus. 


De "Sóbrio Delírio" (Disponível em 12/10/26)


13 de set. de 2026

Sem cessar



O fogo ainda queima 

Embora as chamas não brilhem mais

Mas são os mesmos tempos estranhos como em outros tempos

Tudo continua tão errado e tão certo quanto já foi

Não é o primeiro setembro em que os ipês florescem sem muita beleza 

Não é o primeiro olhar que não se cruza

Não é o primeiro sonho roubado por quem não sabe como vivê-lo

Contudo

Às vezes não é preciso mais do que o vento frio do fim do inverno soprando

E uma boa canção se repetindo 

Para sentir um pouco do sabor da vida outra vez 

E ainda que se dance sempre sozinho 

Há ao redor um jardim completamente florido 

Um profundo céu de cobalto acima 

E um coração forte 

Que continua a pulsar 

Sem cessar.

10 de set. de 2026

Meninos puros




Nas velhas fotografias

Resquícios de tanto amor

De tanta vida

O sorriso que se abre então 

É por recordar das tantas vezes 

Em que o lar tão buscado

Já foi encontrado

Agora quase tudo repousa calmamente

No vasto leito da memória 

E se não fosse pelas provas

Que pelos meus olhos

Avançam alma adentro

Eu diria que o coração está apenas outra vez

Mergulhando em delírios quase perigosos 

Mas por hoje

Por esta noite

Por esta canção que se repete e se repete

Tudo volta a existir 

Nossas mãos estão entrelaçadas novamente

O caminho que se estende adiante é seguro

E os sonhos 

São iluminados por uma inocência ainda não perdida

Voltamos a ser os meninos puros de outrora

Antes do tempo se tornar cruel 

Antes do medo ser a única companhia

Antes do adeus ser a única certeza.

7 de set. de 2026

Impossível




Não é possível fingir não ouvir o que ainda murmura tão alto o coração 

As repetitivas

Tristes 

E bonitas canções que canta 

Não é possível conter a sutil claridade que dele às vezes escapa em forma de palavra

Não é possível ignorar o calor que ele tenta produzir para germinar as sementes esquecidas sob o solo da alma


Mas pedaços demais dele foram perdidos a cada tentativa de encontrar um lar

Esperanças demais foram queimadas para iluminar a noite escura 

Em que se buscava um sonho inalcançável 


O passar dos anos parece ter tornado todos os caminhos mais perigosos 

E nenhum deslumbrante delírio permaneceu tempo suficiente 

Para que 

No fim

Não se voltasse ferido à mesma velha cama fria

Para que não se despertasse na manhã seguinte 

Sóbrio 

E sozinho.


De "Sóbrio Delírio" (em breve)


6 de set. de 2026

Toda aquela bela imensidão

Éramos como dois satélites errantes 

Soltos num espaço incompreensível 

Até o dia em que as palavras traçaram uma única rota

E por alguns instantes estivemos na mesma órbita 

Presos em uma espécie de delírio mágico 

Ignorávamos toda a vastidão do universo ao redor

Porque nosso calor e claridade bastavam

Então um dia

Como não poderia deixar de ser

Você vislumbrou outras constelações e galáxias 

E tudo mais que brilhava além 

Do pequeno mundo no qual girávamos 

E eu não entendi 

Eu te feri

Eu quis te puxar de volta 

Fingindo uma luminosidade que não existia 

Que não se compararia às que você via

Então

Passado muito tempo

Ofereci uma última prova de amor 

Que foi finalmente te libertar 

Para que alcançasse outra vez 

Toda aquela bela imensidão 

Agora eu também observo o universo infinito 

Embora ainda preso à minha pequena órbita 

E sei que você está lá 

Viajando por entre luzes e escuridões 

Sendo tudo o que 

Junto a mim jamais poderia ser.