27 de out. de 2026

Missiva espiritual



Enquanto eu redigia uma missiva espiritual à Mãe Celestial 

Uma carta de agradecimento e de súplica 

Onde eu dizia que Aquela que salvou o mundo 

Poderia também salvar meu coração 

Eu notei flores da paixão desabrochadas

E se eu acreditasse em sinais 

Como já acreditei 

Diria que essa foi a prova de que minhas palavras 

Atravessaram o firmamento 

E alcançaram o imaculado espírito 

Que sempre acolheu com amor meus clamores 

Então a noite desce lentamente 

Uma canção embriaga meus sentidos com verdades que tento ignorar 

E lembro das luzes de natal que estão a caminho 

E alguma paz se faz no peito exausto 

E eu sinto 

É chegado o tempo da fé voltar vencer o medo

É chegado o tempo de celebrar vitórias 

É chegado o tempo do retorno da esperança.

24 de out. de 2026

Última dança



Os jasmins não deixaram de florescer nos tempos sombrios 

Embora seu perfume não seja o mesmo 

O mesmo que tinha na memória de dias mais iluminados

As palavras não deixaram de jorrar 

Embora fluam frágeis demais 

E o vento as carregue e as dissipe 

Como uma bruma delicada de manhã 

Os pés não deixaram de caminhar 

Embora cambaleim por um caminho tortuoso 

Que um dia já foi menos solitário 

O coração não deixou de bater de uma forma até bonita

Embora ninguém o ouça como antes

Mas enquanto vago cismando sobre tudo o que foi

É ou será 

A noite se faz

Deita de forma quase macia sobre espíritos exaustos 

E nas esquinas 

Guerreiras movem suas saias em movimentos esplendorosos

Soldados balançam bandeiras entoando hinos de esperança 

E eu sei

É a penúltima noite antes da batalha de nossas vidas 

Mas cantamos e dançamos 

Olhando para um horizonte não tão distante 

De onde os primeiros brilhos de uma estrela começam a despontar

É nossa última dança 

É nossa última canção 

Antes do mergulho no abismo 

Ou antes da tão aguardada Alvorada.

19 de out. de 2026

Eu já acreditei em milagres



Eu já acreditei em milagres. 

Mas então a vida segue, os anos passam, nosso coração e espírito são feridos e passamos, sem perceber, a apenas sobreviver. 

Tentando não pensar, tentando não entender, tentando não sentir. 

Porque olhamos ao redor e vemos um horror que palavras não podem descrever. E como não temer que esse horror chegue até nós? Como não sofrer pelos que vivem esse horror?

Eu já acreditei em milagres.

Mas assim como todos, eu achava que milagres eram coisas impossíveis se tornando reais, como que por mágica.

Até entender que, na verdade, tudo é um milagre, quando se observa com amor. 


Há uma espécie de orquídea que floresce sempre no início da primavera. 

Seus pendões formam uma cascata de flores muito delicadas. Passada a floração, pequenos brotos nascem desses pendões, e, se bem cuidados, no ano seguinte ou no próximo, eles, já enraizados, darão flores também. 

Mas nesse ano, como se a natureza quisesse me lembrar desses milagres de que tanto sinto falta, dos minúsculos brotos saíram botões que desabrocham agora pelo fim de outubro. As flores são até maiores que os pequenos ramos de onde nascem. 

E é assim que eu sei que Deus está falando comigo. 

Numa linguagem que Ele sabe que eu vou entender. 

E eu volto a acreditar em milagres.

Porque sinto que o mesmo Deus que possibilita esse minúsculo prodígio da natureza, é o Deus que agora move um exército pelo bem e pela verdade;

Porque sinto que o mesmo Deus que arquitetou o universo, conhece-me pelo meu nome.

11 de out. de 2026

PUBLICAÇÃO DE "SÓBRIO DELÍRIO"

 

Às vésperas do quadragésimo outono, observo o tempo; o que passou, o que aqui está e o que virá; e tento encontrar o equilíbrio entre seus pilares: realidade e ilusão.

Sinto que muito da minha existência foi alicerçado no ato de sonhar. Desde os sonhos mais fantásticos da infância, aos mais singelos da maturidade.

Lembro bem que quando criança sempre transformava o mundo em um reino cheio de encanto, onde tudo poderia ser algo mágico se olhado com mais cuidado. Os campos, o luar, as árvores, os caminhos... eram transformados em cenários e personagens de uma história mística e sem fim.

Agora, já com algum peso dos anos, a vida mostra-se bem mais rígida e fria, e torna-se tão mais difícil encontrar o que ainda fascine e gere o deslumbre antes sentido facilmente pela alma.

Eis que então as mãos vazias decidem tomar o sagrado instrumento, a palavra, para atiçar as brasas adormecidas, mas ainda quentes, da poesia.

O calor não é forte o bastante para reviver o mundo fantástico antes tão bem conhecido, mas permite um sóbrio delírio, um breve retorno para o que se ama, uma nova coloração para uma paisagem que se acinzenta; mesmo que os velhos caminhos não existam mais e novos caminhos precisem ser feitos; mesmo que a realidade seja severa e constantemente nos tente roubar a beleza dos dias.

Estes singelos poemas são então o registro daquilo que se testemunhou durante esse caminhar.

O percurso, repleto de dores, alívios, memórias e esperanças, é traduzido em versos que formam retratos das novas paisagens que se revelam ao seguir por essa estrada, por onde se anda com os pés no chão, mas com o olhar nas estrelas.

JÁ DISPONÍVEL EM: https://clubedeautores.com.br/livro/sobrio-delirio



10 de out. de 2026

Maior que o próprio mar



A esta hora eu poderia estar diante do mar 

Deslumbrado com sua imensidão

Com sua beleza 

Com sua força 

Com sua voz divina 

A esta hora eu poderia estar olhando para o horizonte 

E nele enxergar o olhar do Criador 

E do meu olhar escorreriam rios muito humildes

Iguais aos de agora

Se comparados a tudo que ele contempla

Mas nada disso torna o chão abaixo dos meus pés menos sagrado 

As nuvens deságuam como nos tempos em que isso acalmava as batalhas

E há ainda um jardim a ser amado e cuidado 

Há uma esperança 

Muito cansada e ferida é verdade 

A ser cultivada 

Há as crianças pulando e brincando na chuva improvisada 

Há um casal de mulheres de mãos dadas sorrindo 

Andando por ruas ainda seguras 

Há uma canção falando sobre um amor verdadeiro 

Que talvez no tempo certo chegue 

Há o abraço daquela pessoa tão amada

Que cura feridas que ela não causou 

E assim eu entendo que tudo isso que aqui há 

É muito maior que o próprio mar.


De "Sóbrio Delírio" disponível em 12 10 26 

7 de out. de 2026

Nós já vencemos!



Alguns dizem:

"Nós já perdemos..."

Outros 

E eu com estes

Dizemos:

"Nós já vencemos!"

Porque eles incineram sonhos 

E nós semeamos jardins

Porque eles têm comparsas 

E nós temos irmãos 

Porque eles têm alvos

E nós temos aliados 

Porque eles têm o medo

E nós temos a esperança 

Porque eles têm a mentira

E nós temos a verdade

Porque eles têm o ódio

E nós temos o amor

E talvez chegue o dia em que nos doa demais o peito 

E os olhos se inundem de um pranto incontido

E talvez chegue o dia em que doará ver a indiferença em antes faces amigas

E as mãos tateiem o escuro buscando um apoio que não está lá

E talvez chegue um dia em que nos falte motivos para sorrir

E no horizonte se consolide uma imensa ameaça de chamas e trevas

Mas esse dia não será hoje. 


4 de out. de 2026

4 de outubro



A voz de Bethânia me desperta na manhã de 4 de outubro 

Com a oração de São Francisco 

Substituindo o medo pela esperança 

Feito eu disse à minha mãe 

O mal é barulhento 

Mas o bem é grandioso 

E lembro de meu pai

Também um Francisco 

E lembro do rio

Forte

Impiedoso 

Levando vida ao sertão 

E lembro de um Silva 

Filho daquelas terras agrestes 

Filho do pó e do suor do Brasil 

Um Silva que segue firme 

Segurando os ventos do norte 

E também os do sul 

Para que não movam e destruam nossos moinhos 

E há sim um alerta de tempestade 

Pede-se que busque abrigo 

Mas agora faz sol lá fora 

E o som forte de um coração batendo sem parar 

E se a chuva vier 

Andaremos de cara para ela 

Pelos tantos dos nossos que não viram esse dia nascer 

Pelos tantos que não puderam ser despertados hoje pela voz de Bethânia 

Se a chuva vier 

Como já veio

Ela vai passar

Como já passou 

E nós permaneceremos.

1 de out. de 2026

Primeiro céu de outubro



Eu não tinha boas palavras para descrever com exatidão o primeiro céu de outubro 

Setembro passou de forma rude e mal vi a floração dos ipês 

Mas ventava de forma estranha nessa manhã 

De forma lenta 

Como se o vento quisesse colher as flores cor de carmim das árvores que não sei o nome

E fazê-las bailar no ar perfumado pelos eucaliptos molhados pela garoa da madrugada 

E eu apenas agradeço 

Não pensando na falta que coisas tão valiosas tem deixado aos poucos de fazer

Não pensando no que o futuro 

Com todas suas ânsias e ameaças 

Reserva 

E fecho os olhos e por um mínimo instante 

Eu sou também tudo isso que o vento carrega com docilidade 

Deito em seus braços e permito uma ou outra lágrima 

De medo, de fé, de angústia, de esperança 

E me lembro de um conselho:

Não deixe que os bastardos 

Te reduzam a cinzas

Um conselho que chegou tarde demais 

Quando vento já me carregava 

E me esparramava sobre jardins

Que hoje florescem 

Humildemente.


De "Sóbrio Delírio" (disponível em 12 10 26)