Eu temo a esperança
Porque muito do que ela trouxe
Ela levou
E quando levou
Parecia-me que tinha levado mais do que deveria
E também temo o tempo
E sua displicência ao passar tão rápido
Nos obrigando a calcular o que nos resta dele
Para descobrir
Se será o bastante para outros recomeços
Ou se será apenas uma tela fria
Por onde rolam memórias e mais memórias
Cada vez mais desbotadas
E enquanto tanto temo
Chega a primavera
Um pouco acanhada
Chorosa
Talvez com alguns temores também
Trazidos de um inverno que parecia não ter fim
E que talvez não tenha
Mas chega a primavera
E sonhando com suas flores
Eu já não temo tanto a esperança ou o tempo
Por recordar de quando eram meus companheiros
Quase amigos
Naquelas épocas de outrora
Em que o coração
Nada sabia sobre o medo.
De "Sóbrio Delírio" (disponível em 12 10 26)

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