23 de set. de 2026

Mas chega a primavera



Eu temo a esperança 

Porque muito do que ela trouxe

Ela levou

E quando levou

Parecia-me que tinha levado mais do que deveria

E também temo o tempo 

E sua displicência ao passar tão rápido 

Nos obrigando a calcular o que nos resta dele

Para descobrir 

Se será o bastante para outros recomeços

Ou se será apenas uma tela fria 

Por onde rolam memórias e mais memórias 

Cada vez mais desbotadas 

E enquanto tanto temo

Chega a primavera 

Um pouco acanhada 

Chorosa 

Talvez com alguns temores também 

Trazidos de um inverno que parecia não ter fim

E que talvez não tenha 

Mas chega a primavera 

E sonhando com suas flores 

Eu já não temo tanto a esperança ou o tempo 

Por recordar de quando eram meus companheiros 

Quase amigos 

Naquelas épocas de outrora 

Em que o coração 

Nada sabia sobre o medo. 


De "Sóbrio Delírio" (disponível em 12 10 26)

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