15 de fev. de 2022

 


Talvez ainda seja cedo para lembrar daquele breve instante em que era possível observar o céu profundamente azul que se abria no olho do furacão...

São imensuráveis as vezes em que o mundo acabou e renasceu em poucas dezenas de meses, e talvez esse nó que não sai da garganta há semanas seja o pranto contido, o pranto pelas horas de desespero e pelas horas de alívio, o pranto pelas vezes em que a fé partiu com a promessa de não mais voltar, mas que junto à luz do sol, bateu na minha porta na manhã seguinte.

Naquele breve instante com tudo girando ao meu redor eu podia ver meu reflexo nos estilhaços que feriam minha pele, e eu tentava dar nomes e culpados a cada parte, a cada ilusão partida, quando na verdade era tudo apenas eu tentando não ser capaz de dar a cura a mim mesmo. 

Mas quando os céus oferecerem outra vez mergulhos em calmaria, eu sonharei novamente com alguma voz, com algum entrelaçar de dedos. Substituirei os velhos poemas tristes por canções dóceis, plantarei novas flores que trarão novas cores ao cansado jardim. 

E, por fim, dos tantos estilhaços que ainda voam desgovernados, perigosos, quem sabe... farei o belo caminho a seguir em direção a dias que não irão mais nos ferir tanto.

14 de fev. de 2022



 É estranho como as imagens do passado foram perdendo suas cores, desbotando. E é estranho como aquele tanto de vida, que talvez nem fosse muito, mas emocionava, agora são apenas essas fotografias congeladas, que nada deveriam significar, mas que em tardes assim, bonitas até, com a luz escorrendo pelas paredes amarelas, ainda podem ferir, como adagas enferrujadas. 

São só tolos fantasmas que rodopiam junto ao vento calmo, eu sei... E de alguma forma absurda que sou incapaz de assimilar, tudo pode estar certo, em seu lugar. 

Daqui de baixo eu não posso ver que talvez os últimos tempos tenham trazido algumas lições que não viriam de outra forma, de uma forma mais gentil, e tudo bem ser difícil enxergar no reflexo difuso algo um pouco maior e um pouco mais belo do que aquilo que se mostra. 

Quem sabe tudo isso seja só a vida acontecendo...

A luz se dissolve agora para lentamente partir... E talvez minha imagem também seja como que um fantasma rodopiando pelos ventos da tarde de alguém. 

Não é só o meu coração a ser de carne,

Não é só o meu coração a sangrar,

Não é só o meu jardim a desabrochar flores que são incapazes de se tornarem  frutos. 

As distâncias todas ainda me assustam, e quase todos os sonhos se perdem nessas lonjuras; em algumas noites ainda é preciso acender as luzes após pesadelos, e orar por proteção,

Mas de não longe minha mãe sorri e para amanhã o dia promete novas flores, ainda que estéreis, no jardim;

Hoje a cabeça encostará nos travesseiros sem grandes culpas,

Então os fantasmas, quase todos, adormecem feito a tarde que se finda.

Bebemos todos de uma doce trégua, e cantemos mais uma vez uma querida canção... 

Este sou eu tentando.

31 de jan. de 2022



 De não tão longe uma voz canta que tudo o que somos é apenas poeira ao vento... Uma voz que desliza pelas salas vazias e pelos corredores recém pintados de um amarelo vibrante, que destoa do cinza entristecido de quase todos os dias desse janeiro custoso de terminar.  

E eu olho esse céu que há dias não cessa seu pranto, apertando as mãos frias, sentindo o peito vazio de saudades ou promessas, mas preenchido por um receio, um temor, que rouba o encanto das águas que antes caíam absolvendo os pecados e interrompendo as batalhas.

Mas em todas as noites eu ainda rezo para anjos cujos nomes e faces eu desconheço, todas as noites eu flutuo como que livre em direção a um lar distante, um ninho, um colo. E eu posso sentir que por detrás dos reflexos tortuosos que chegam aos meus olhos ébrios, alguém, verdadeiramente enfim, me sorri. 

28 de dez. de 2021

 



Na casa de oração, a velha voz rouca entoando uma prece simples foi capaz de fazer florescer alguma emoção;

Algumas coisas ainda estavam em seus lugares, mesmo depois de tudo...

Mas eu vejo partes casa vez maiores do jardim da alma sendo cobertas pela espessa camada do concreto despejado pela realidade. E são só as palavras, fracas, solitárias, lutando contra o cinza rude que leva sem piedade o perfume das cores. 

Temo o dia em que elas sileciarão e não haverá mais o que faça florescer por entre as rachaduras no solo esses sentimentos ingênuos que se dissolvem ao sol inclemente, mas que tão belos são enquanto a vida ainda os nutre. 

E chegamos a esse novo fim simbólico que precede um novo início também simbólico, e eu que nunca acreditei em símbolos rezo para que a esperança não desapareça quando as luzes das ruas forem retiradas. 

E é isso tudo o que isso é. Não há como ter sentido... Pois que é só o pequeno arbusto florescendo antes das chamas, os tecidos encobrindo a crueldade dos espelhos, a resignação diante da fotografia bela e amarga da realidade. 

E já é tarde. 

Os versos quase sem alma se dissolvem na escuridão pegajosa da noite quente. Ninguém lhes ouve as vozes. Ninguém se aproxima. 

Assim como antes.

Assim como depois.

22 de dez. de 2021

 


Eu gostaria de te lembrar que você também pode ser gentil consigo mesmo. Que, na verdade, você deve. 

Gostaria de te lembrar que você também merece o perdão que você nunca se recusou a dar aos outros;

Que você também é digno do amor; 

Que você pode sentir orgulho por ter encontrado a saída de todos os caminhos por onde já se perdeu, ao invés de apenas sentir o amargo remorso por ter passado por eles. 

Que esse garotinho assutado que às vezes te paralisa por completo não é um vilão, ou uma ameaça, é só o fragmento inofensivo dos tempos em que o medo reinava soberano. 

Eu gostaria de te pedir que olhasse mais para o céu em dias de lua cheia, e que orasse de todo coração ao ponto de algumas lágrimas escorrerem. 

Você sabe que existe algo de divino dentro e ao redor de você. Você sempre soube. E mesmo os momentos mais escuros não levaram embora isso que internamente reluz. 

Virão os dias difíceis após os fáceis e voltarão os fáceis em seguida... E quando o tempo for inclemente, você ainda se lembrará de como rabiscar alguns versos e de como plantar algumas flores, tenho certeza.

Eu quero dizer que te amo...

Porque eu já disse isso e senti isso por quem estava tão longe de sentir e dizer o mesmo, mas contigo sempre fui cruel, sempre mostrei algo para  se envergonhar, sempre pedi que baixasse a voz, a cabeça, os sonhos. E eu sinto muito por isso. 

Eu quero dizer que você não é uma fortaleza, nem nunca será. E tudo bem. 

Em alguns dias o vento e a chuva entrarão por suas frestas e você vai sentir como se todo calor e esperança estivessem partindo. E vai doer sentir o gosto do desamparo nos lábios outra vez. Mas quando a tempestade passar, porque ela sempre passa, eu espero ver seu melhor sorriso. 

Quero dizer que eu mudaria sim algumas tantas coisas em você... Mas jamais, jamais pediria que você fosse outra pessoa além desta que é.

 


No ano em que o último amor chegou e partiu plantei a árvore que, mesmo estéril, toda primavera tão abundantemente floresce, e hoje,  com seus troncos já fortes pode segurar o pequeno balanço onde brinca um outro, pequeno e belo amor, este que nunca irá partir. 

E penso no que somos além de crianças ansiosas em um eterno primeiro dia de aula, deslumbradas e temerosas com o pouco que os olhos conseguem vislumbrar do futuro...

As luzes nas ruas e as cantorias pelas esquinas são pequenas fagulhas dessa esperança que sempre ameaçada partir para sempre, mas que nunca está de fato muito longe. 

E penso então em todos aqueles que olham para o céu profundo nas noites mais escuras imaginando que os pequenos pontos brilhantes grudados no firmamento são faíscas desprendidas do sorriso daqueles que o amor tornou eternos. 

E tudo bem não ter como não temer o caminhar por esse vale de lágrimas... Junto das mãos cansadas e dos corações feridos, são essas lágrimas que regam o solo e permitem a sempre aguardada floração.

5 de dez. de 2021

 



"É preciso sentir o calor do abraço de Deus", ela me dizia, com seus olhos repletos de amor e iluminados como pequenos faróis. 

E eu não sabia defender minhas causas, não sabia expor o meu ponto. Talvez Deus esteja em todas as coisas e seja todas as coisas, de alguma forma, ou talvez a simples ideia de algo perfeito cause um colapso em nossa mente tão acostumada ao erro, às rachaduras, à fragilidade dolorida da vida. 

Talvez seja Deus as ruas repletas de luzes coloridas como se fossem mensagens esperançosas;

Talvez seja Deus os guarda-chuvas coloridos sobre a singela boulevard que fazem as crianças ficarem encantadas;

Talvez seja Deus o sorriso de minha mãe diante da fonte luminosa que voltou a funcionar;

Talvez seja Deus a bonança após cada tempestade, e a emersão após cada mergulho no oceano perigoso do desespero. 

E eu percebo então que talvez eu às vezes não perceba o calor do abraço de Deus por nunca ter sentido o frio de estar longe dele,

Porque há ao redor, mais que toda angústia, um sopro milagroso de vida que não cessa;

E eu vejo que mesmo sendo ainda um espírito tão primitivo e alquebrado, há por dentro uma capacidade ainda falha, mas já tão bonita, de amar.

 


Era talvez uma das primeiras vezes em que havendo algo feito um sentimento não desceria do céu, como as suaves últimas chuvas de novembro, palavras e mais palavras para dar forma, esculpir ainda e novamente algo de bonito que logo seria depositado e deixado para sempre nas prateleiras inalcançáveis da ilusão. 

Mas há essa imagem flutuando pela mente que emana uma luz dourada e que por alguns instantes, quando os dias são amenos e cinzentos e as luzes de natal começam se espalhar pelas ruas e praças, quase me faz lembrar dos tempos em que éramos tão jovens e nada assustava tanto porque os rugidos do tempo ainda só eram ouvidos apenas de muito longe. 

As novas canções que já se tornaram antigas canções substituíram o som da velha claridade que aqueles ventos infantis traziam...

E é possível que tenhamos começado a confundir os algozes com os heróis, porque os algozes ao menos parecem nunca mentir, 

Parecem nunca partir.

14 de nov. de 2021

 


 É estranho não ser mais um grande esforço conter as palavras que por anos fluíram como uma barragem rompida. Agora, até pequenas ilusões que mal tiram algum suspiro mais profundo mostram ter um sabor mais intenso. 

E é então isso que existe depois da eternidade; depois da última borda da galáxia, o após, o além para onde o universo ainda não se expandiu. 

Mas eu sempre encontro uma forma de olhar para trás, porque lá fora os campos verdejam outra vez, mas aqui dentro a estiagem parece ser permanente; assim volto em uma busca infausta por algum detalhe que não tenha sido lapidado, lustrado, colocado diante da luz para que eu veja seus últimos reflexos coloridos. 

Então eu me lembro, ah sim... Nós cruzando o sinal vermelho que se derretia junto da água salgada e abundante que escorria dos olhos, e da sua voz me chamando de anjo pela última vez. 

Muitos outros sinais velhos foram cruzados depois, mas sua voz nunca mais foi ouvida. 

Quando será que você se livrou do cachecol branco que lhe dei?

Quando será que crescemos o bastante para aprender quando desistir? 

Sei que os anos tiram quase tudo, e a única prova da nossa existência se resume ao velho bilhete do ônibus que me levou para sua cidade rude, este que não tive coragem de queimar. 

E eu sempre falo como se alguém me ouvisse, e continuo e continuo... um monólogo confuso e quase constante; um pedido de socorro, as últimas pinceladas em um quadro que nunca fica pronto; eu continuo, como se não fosse só eu aqui, livre por entre essas linhas, como nos sonhos onde de tanto preciso fugir, mas onde também posso voar. 

A saudade que ficou é de mim.

A saudade é daquilo que um dia despertou daqui do fundo e era tão, tão bonito e que eu me esforço e me esforço, mas que não sei mais como extrair. 

Só sei que está ali, inteiro, intacto, latente. 

As palavras talvez nunca tenham sido para você, para ninguém. Para nenhum anjo, para nenhum demônio. Elas todas foram e são para esse fragmento belo, precioso e sagrado de vida tão bem oculto. Elas foram e são pequenas pedras colocadas com paciência e delicadeza na contrução de uma ponte que um dia, finalmente, me levará até mim mesmo. 

12 de nov. de 2021

Doce menina que vendia doces

 


Com o brilho dos olhos quase totalmente oculto pelas sombras da noite e o pelo peso dos dias, a tão graciosa donzela abordava por entre as luzes dos semáforos quem lhe compraria as últimas prendas para que pudesse descer as ruas indiferentes em busca de tirar o fardo das longas horas de trabalho dos ombros.

Eu ali, tão pequeno diante de tamanha bela força, emocionado sem me deixar perceber, pensava em como a poesia às vezes se mistura tão bem com a vida, que se torna seu próprio sabor. Um sabor às vezes doce, como aqueles que a gentil menina vendia. 

E após seu agradecimento pelo tão pouco de mim oferecido, eu que imensamente agradeci, por seu sorriso que imagino ser tão sincero, por sua alma que sinto ser, apesar de tudo, tão bonita.

Enquanto então eu também vagava pelas mesmas ruas indiferente, em busca de também dos meus ombros o peso das longas horas tirar, eu olhava para o céu com silenciosos relâmpagos no horizonte imaginando que Deus sem dúvida é Poeta. O primeiro e o maior deles. Porque só isso explica como é possível extrair do acaso fragmentos de milagres tão lindamente esculpidos para adornar com algum encanto estes tempos inexplicáveis.

Belo impossível

 


A beleza singela que a noite esparrama pelo céu antes de derramar seu manto de um negrume encantador por todas as ruas, faz com que o coração sinta por um instante, enquanto duram as fugazes luzes, como se na verdade contemplasse uma fresca alvorada. 

Um novo dia nascido do fim dos dias...

É certo que tão distantes pairam os velhos doces tempos, repletos que quimeras adormecidas abaixo da sombra de dias longos e já estéreis;

Tão distantes, que o espírito parece não mais saber destrancar as cansadas janelas e sonhar com as miragens Douradas e inatingíveis do horizonte;

Mas um breve olhar... Fértil e castanho feito o solo que nutre o perfume dos jasmineiros,

Uma voz... Macia e morna feito o som aconchegante de trovoadas distantes;

E, meu Deus,

A realidade não consegue roubar de imediato a formosa utopia que corre livre atrás dos altos muros intransponíveis,

E eu sorrio sozinho, no escuro que já se achega completamente, 

Quase feliz pelos minutos gastos acariciando este belo impossível.

Você ainda ouve?




 As sílabas cansadas

Já não podem formar novos feitiços 

Que nasceriam fracos demais

Para compor novas orações ignoradas. 


A resposta do silêncio é sempre a mesma

Simples e óbvia

E as luzes estúpidas 

Ferem quando deveriam guiar. 


Ainda me lembro

Mas até quando? 

Do sabor e do perfume das velhas noites

Com doces canções tão tristes.


As cores estão desbotando

Do céu, das fotografias, das memórias

E as estrelas já não cantam tão próximas

Você ainda ouve?

Silêncio

 




Alguns minutos antes do sol 

Levar o encanto das ruas sonolentas

Com suas luzes artificiais 

E a brisa fresca que move jovens flores;


Ainda que apenas os olhos saiam em busca,

Pois não deve ser dito o que se deseja dizer,

Há nesses alguns minutos precedentes à claridade 

O sopro perfumado de uma inocente epifania. 


Choram pelos bares e templos 

Ébrios e puritanos...

Calam-se outra vez as vozes celestiais,

Enquanto todas certezas se dissolvem bem diante do olhar;


Resta apenas no mergulho mais profundo 

Em um quimérico oceano dourado, 

Um sorriso, mãos dadas, um toque...

Os lábios enfim encontrados,

Antes do abraço rude da realidade.

5 de nov. de 2021

Respeitável público

 


Respeitável público 

Atenção

Um novo espetáculo 

Idêntico ao anterior 

E ao anterior.


Letras faltando no anúncio desbotado

Apenas mais uma noite 

Imperdível 

Inenarrável

Solitário.


As rotas cortinas deslizam 

E com seu mau reflexo 

O artista mira o velho e fiel público 

Ausências de todas as formas 

De todos os tempos.


O texto já tão repetido 

Escorre dos lábios finos 

Para os vãos do palco

E do espírito 

E desaparecem sem causar emoção.


Com seus sapatos gastos 

Valseia tolamente 

Fingindo abraçar o que não há

E sorri

Antes de para a realidade voltar.


As luzes começam a baixar então 

Com uma reverência respeitosa 

O fim de mais um último ato

De mais um desejo

De mais uma súplica muda.


Descem as cortinas 

Sem aplausos 

Sem despedidas

Outra apresentação se finda

A vida segue, idêntica

O show termina.

Emancipação

 


Havia todo aquele oceano 

E os anjos que no céu brilhavam como sóis;

As águas puras, cristalinas,

E o tempo correndo sem regras, como que livre.


Outro sonho mergulhando em imensidão,

Em utopias macias, 

Em um toque impossível,

Em memórias não vividas. 


Emergindo na realidade,

Os mesmos caminhos desbotados,

De pouca gentileza, pouca ternura,

Tão certos e práticos.


Mas por trás das horas brutas,

Ainda delicado fio dourado de ilusão...

Talvez um sorriso breve, 

Um aceno de mão. 


E por um fragmento de tempo

Por dentro da vasta e frágil alma,

Este inofensivo eclipse ao contrário,

Levando a penumbra constante,

Banhando tudo em doce luz.

Onde as esperanças brincam

 


As palavras sempre em sua caçada

Pelo encantamento correto,

Pelo milagre oculto,

Pela remissão de algum pecado.


Por elas os olhos buscam faíscas de beleza

Em uma paisagem sem encanto

Onde nem mesmo a poeira reluzente do passado

Ainda resiste pairando no ar.


Mas até os anjos viram a luz tímida 

Que se oculta por entre os tantos deslizes,

E que brilha

Por entre as frestas abertas pelos dias.


Há emaranhado a ela 

Todo esse amor adormecido,

Clamando quase rouco pela superfície,

Há...


Então eu aguardo armado de versos fracos,

De flores quase sem perfume,

Segurando com ternura

Um sonho que aos poucos se liquefaz. 


Eu aguardo...

Por uma verdadeira primavera,

Que colorirá de verde e púrpura 

Os campos cansados onde as esperanças brincam.

31 de out. de 2021

Antes do último ponto final

 



Há nas vozes dos verdadeiros poetas

Uma beleza e uma dor profunda,

Uma verdade e uma ilusão repleta de encanto,

Um caminho nunca trilhado pelos meus pés. 


Desde o leite do peito de minha mãe,

Até o primeiro golpe na inocência,

E mesmo após o primeiro grande amor,

E a espera pelo meu último suspiro,


Persiste e segue com seu brilho pouco e singular 

A pureza de uma fome, de um anseio

Por uma paisagem nunca vista,

Por um sentimento não dissolvido pelas águas do tempo.


E agora sem luz que fere ou escuridão que paralisa,

É preciso que eu diga que me faz sorrir 

A ideia de que eu poderia amar profundamente

Aquilo que tão belo flutua pelas escadarias quase sem me ver.


Eu fui o algoz, e fui o semeador;

Fui o que amou, e também o que partiu;

E sou o que mergulha no medo, e emerge na esperança;

Sou o que sabe que muito ainda será dito antes do último ponto final.


29 de out. de 2021

Sozinho

 


Mais outros exaustos versos 

Sem cor ou sabor

Fluindo quase inocentemente 

Pelas pequenas frestas abertas no peito.


Mais outros suspiros pelas miragens

Que vagam velozes pelos corredores 

Enquanto as mesmas velhas canções 

Tentam trazer algo de luzes já extintas. 


E por entre as horas incandescentes 

Que se arrastam em tardes de pouco perfume

Delicadas esperanças tentam desabrochar

Sem sucesso. 


E o coração me lamenta sua fome

E a alma me lamenta suas rachaduras 

E eu apenas caminho lentamente 

Para longe das suas súplicas...


Sozinho.

Sozinho.

Sozinho.

Valsa

 


A fera e a presa 

Dançam juntas

Entre juras e mentiras 

Desde as longas noites ancestrais 

Até os dias de sol inclemente 

Em que as flores tolas sucumbem 

Diante da luz que lhes dá vida


E as canções e as imagens 

E o doce caminhar das moças 

E o belo marchar dos moços 

E a juventude

E os cabelos encaracolados ao vento 

Do tempo

Tudo cria um cenário propício às perdições 

Nocivas ilusões

Como o sol que dá e tira a vida

Como a noite que encanta e ameaça

E nós falamos sobre o amor

E sobre a solidão 

De forma blasfema 

Como se soubéssemos do seu peso

Do seu encanto

Do seu excesso

Da sua falta


E tudo isso

Tudo isso que de pouco vale

Toda essa insistência

Esse medo

Esse desejo 

São os passos nesse pequeno 

Ou imenso

Palco de vida

Em que representamos ora uma

Ora outra

Coisa 

Ora caça

Ora caçador

Mas quase sempre só

Sendo o que resta da luta

Das duas personagens.

26 de out. de 2021

Escombros do tempo

 



Há esse pouco de vento que sopra gentil

Sobre feridas não tão mais profundas,

Mas que ainda assim latejam

E insistem em serem notadas.


Nem só do sublime e da saudade

A palavra se alimenta:

Ainda há pouco se nutria de uma ilusão quase sem doçura

E de um passado do qual só migalhas sobraram.


Mas o que persiste da emoção 

Ainda flui por conta das humildes luzes de natal que começam a se espalhar 

E das ruas de casas abandonadas

Onde florescem memórias silenciosas pelas calçadas.


Os pensamentos são ainda inimigos que nunca aceitam a derrota,

Embora a vidente tenha falado de dias melhores...

Então sinto que ainda me resta um coração bonito,

Mesmo que abaixo dos longos escombros do tempo.

23 de out. de 2021

Sigo

 


Disfuncionais palavras são repetidas e repetidas,

Como um feitiço incompleto,

Uma conjuração defeituosa.


Elas rastejam para fora dos dedos,

Suplicantes,

E fundem-se à paisagem fantasmagórica.


Humildes, tolas e puras,

Desfalecem ainda mornas

Antes de tocarem o solo que as germinaria.


Mas o coração merece algum aconchego 

Pelo esforço que faz em lançar claridades

Sobre o caminho agora sem significado.


Os sinais na estrada 

Falam sobre o fim dos tempos do amor,

Embora não falem sobre o fim dos sonhos. 


E ainda vejo outros velhos encantos,

Quebrados e espalhados,

Pairando pelos barrancos e troncos...


E eu apenas sigo,

Sem saber se é pouco ou muito

O tanto de esperança que não pude deixar para trás.

14 de out. de 2021

Quase livre também


Flutuam pela alameda solitária,

Dissolvidos no perfume do bosque recém absolvido

Pelas águas raras de outubro,

Ecos sombrios do futuro e do passado.


E dos ruídos que se fundem 

Não é possível distinguir 

O que são promessas,

O que são ameaças. 


Mas sob meus passos 

Permeia o caminho esta escuridão 

Bem mais morna e doce

Do que a que ainda reside na alma. 


Então liberto o velho menino, 

Encarcerado por tantos sonhos e pecados,

Para que corra abaixo das luzes cansadas dos postes

E beba do aroma mágico da noite.


Livre.

Livre...


Porque lhe é concedido o perdão 

Tantas quantas vezes seus olhos suplicarem,

Porque lhe será dado amparo,

Tantas quantas vezes voltar seus joelhos ao solo rude. 


Assim respiro profundamente 

Como se nada doesse,

Como se nada faltasse,

Quase livre também.

30 de set. de 2021

Inextinto

 


Não mente o poeta

Que no negrume profundo das noites

Diz inventar estórias 

Que tornam a escuridão mais bonita.


Mergulhando solitárias madrugadas adentro,

São pequenas preciosas ilusões que brilham 

Como reminiscências de dias mais simples.

Luminosos retalhos macios de memórias inextintas...


E não que haja tanto alimento para a poesia sempre faminta

Ou que em todas tardes o céu se derrame em cores,

Como que diluído 

Em cascatas de rubis e âmbares,


Mas os murmúrios que ouço 

São do coração ainda se esforçando em entoar uma doce canção,

As cores que vejo 

São do jardim que resistiu à estiagem e ao inverno,

E agora floresce.

Ainda, primavera

 


Rondando os velhos tempos deixados na margem dos caminhos que já deveriam ter sido esquecidos, ainda observo atento na mesma esperança infantil de que de arbustos ressequidos e sem vida floresça algo que transborde cor e perfume,

Mas sempre retorno de mãos e olhos vazios, 

Não resta algo a ser colhido de longínquas semeaduras;

E não é tolo o temor pelo dia em que o que resta das palavras, cansadas, se refugiará em um abrigo triste de silêncio.

Por enquanto, ainda se busca os jardins sobreviventes à estiagem, as emoções sobreviventes às decepções, os sonhos sobreviventes à realidade. 

Por enquanto, ainda é primavera, mesmo que não tão mais dourada como já fora outrora,

Mas ainda, 

Primavera.

Ainda,

De alguma forma sutil e doce,

Poesia.

Atemporal



 As coisas que em nós não têm fim 

Ficam presas fora da passagem do tempo.

Nem tudo é saudade.

Há esses fragmentos de vida  cristalizados fora da linha natural,

Como pequenas pedras preciosas perdidas de seus anéis e colares; 

E às vezes quando a chuva cai

É possível ver seu brilho por entre as nuvens,

Por entre as gotas, 

Por entre o som dos trovões, 

Porque a felicidade não se refugia nem nas lacunas do passado nem nas dobras do futuro 

 - Ou encara-lhe olho a olho 

Ou ela não existe -

Apenas o sonho transita por entre a passagem das infindas horas sem impedimento.

E se não há sonho,

Como já não há,

Cessam os movimentos,

As preces, 

Os cálculos.

Agora nada reluz no céu pois que as águas foram para longe,

Junto ao sentido das palavras, 

Junto ao encanto dos caminhos. 

Mas talvez a primavera traga novas águas,

E novos caminhos,

E pela beirada deles,

Quem sabe,

Floresça algum sonho.

21 de set. de 2021

Ruas de Domingo



Talvez muito mais que em outras vezes, ter esse livro em mãos me causou um turbilhão de sensações. O que eu tinha entre os dedos era um espelho para a alma, e nesse reflexo eu vejo nuances das tantas quedas e renascimentos que permearam os infindáveis meses de quarentena. Eu vejo os inumeráveis momentos de autocondenação e autocompaixão, de medo e alívio, momentos escurecidos como esse céu da capa, e momentos luminosos como nos velhos domingos da infância. 

Nesse reflexo eu vejo um ser humano, repleto de toda beleza e miséria que lhe é característica.

E passados cerca de onze desde que eu achei que deveria pôr em páginas o que eu sentia diante de mim e diante do mundo, eu ainda sinto que estou na minha primeira linha, no primeiro verso para o primeiro amor ou para o primeiro temor. E é difícil saber o que resta daquele menino que se refugiava em fantasias, aquele menino que não sabia o que era pecado e que todas noites conseguia levantar voo em seus sonhos. Mas talvez seja aquele menino a cultivar as flores e se encantar com elas, talvez seja aquele menino a me perdoar todas as vezes que eu tropeço e caio. Talvez seja aquele menino a cuidar do homem que continua a procurar seu caminho. 


7 de set. de 2021

Lançamento: "Ruas de Domingo - Prosa poética em quarentena"

 


Acredito que a função da poesia é encontrar o Belo que reside e resiste em quase todas as coisas. E ainda que talvez nenhuma palavra, verso ou poema possa traçar uma noção justa do que foi e é viver dias como estes, a vida continua fluindo por entre as pedras de angústia e de temor que foram despejadas em quase todos os corações, e as palavras, ainda que desprovidas de muita grandeza e poder, continuam com a honrosa incumbência de acalentar o espírito alquebrado com algum sopro de Beleza.

Nos infindáveis meses que seguiam permeados por solidão, expectativas e incertezas, eu me vi não apenas discorrendo sobre a amargura de uma fase repleta de nuvens tão escuras e ameaçadoras, eu estava como que caminhando por uma longa rua, uma rua de domingo, vazia, silenciosa, que em momentos passados foi o trajeto para tanto movimento e vida, e que em momentos próximos, possivelmente, voltaria a ser.
Durante o caminhar, eu fui observando o que havia ao redor e o que vinha à tona de dentro. Coisas raras, ainda que simples, e repletas de encanto; e coisas não tão felizes, como não poderia deixar de ser, mas que de alguma forma anunciavam a força da vida e a promessa de dias mais iluminados.
Este é um convite para caminharmos juntos por essas Ruas de Domingo através de prosas singelas com algum gosto de poesia. Estas prosas que nasceram por entre os tantos dias de isolamento, são retratos de dias inundados por sentimentos controversos de desalento e também de esperança, adornados com fragmentos de memórias, de ansiedade, de sonho, de amor e de espera. Sensações que, creio eu, em distintíssimas intensidades, todos conhecemos muito bem.

"Ruas de Domingo - Prosa poética em quarentena" é meu 14º trabalho com a poesia, e já está disponível no Clube de Autores.

https://clubedeautores.com.br/livro/ruas-de-domingo

31 de ago. de 2021

31/08/2021

 


Os últimos ventos de agosto junto aos chuviscos rápidos e preciosos como doces amores adolescentes devolveram o azul do céu e algum verde aos campos.

E esses ventos que brincam com as folhas, com cabelos e com as saias das jovens senhoras acariciam não apenas a pele, mas quase que também o perispírito que aconchega a alma na matéria rude. 

Brincam e se vão para longe após secar alguma lágrima de gratidão que escorre tímida após uma segunda dose de esperança. 

Agora, pelo firmamento deslizam nuvens como aquelas da infância que para mim eram o solo de um paraíso que se erguia reluzente acima delas;

O paraíso que nunca alcancei ou toquei, 

mas que sinto existir;

Tanto tempo depois, elas ainda estão lá, talvez as mesmas, como um sonho que nunca se desfaz por completo. 

Já aqui, pelos rostos ainda ocultos e pelos olhos sem tanto brilho, percebemos que falta um certo tanto para a Primavera, 

E só com muita gentileza e cuidado alguma flor resistente ousa florescer além dos ipês,

Dos ipês que seguem desabrochando como se o mundo não tivesse acabado e renascido centenas de milhares de vezes em alguns meses.

Então me lembro de quando a poesia regressou, tão simplória e gentil, me perguntado o que haveria depois se houvesse um depois, e eu não soube o que responder... 

Talvez ainda não saiba...

Mas agora acredito que o que haverá depois poderá ser,

Finalmente,

O Amor. 

26 de ago. de 2021

26/08/21

 


Quase que feito de vento seguia pelos caminhos esmaecidos por mais um agosto quase eterno,

Aos poucos, a cada passo, tomando consciência do abençoado fardo que o espírito carrega por tanto sentir, 

E sentir de novo,

E ainda outra vez.

Não fosse assim, talvez os delicados milagres que florescem pelas esquinas vazias seriam invisíveis,

As roseiras que resistem exuberantes no jardim não causariam emoção,

E o canto sublime das esperanças seria inaudível.

Então mesmo para os mais singelos atos de coragem é rogada a misericórdia,

Porque quando nada mais houver a ser depurado e a alma estiver convertida em pura luz,

Humildemente,

De joelhos,

Ainda a misericórdia será rogada;

Quem dirá agora quando o coração ainda é um vasto sertão onde raramente poucas flores às vezes desabrocham. 

Já sinto um pouco de falta desses dias que passarão,

Dessa espera suplicante pelo fim da estiagem nos campos e no peito,

Já sinto um pouco de falta da coloração magnífica dos ipês pelas paisagens amareladas, desoladas, 

Com toda a vida em letargia aguardando para renascer na primavera. 

Mas agosto passará, levando consigo seus ganhos, perdas e memórias,

Ficará sua poesia,

E um pouco de saudade,

E pouco de paz.

24 de ago. de 2021

24/08/2021

 


Meu nome repousa no leito de um rio de esquecimento junto a tantas outras pequenas coisas deixadas para sempre;

Apenas os ferimentos que também causei flutuam na superfície, visíveis.

E já não resta nenhuma das flores cultivadas e oferecidas; jazem descartadas como as promessas, como os anseios, como a tola esperança. 

Talvez seja pelo céu coberto de cinzas, pela estiagem que parece nunca ter a gentileza de um fim; talvez seja pelo acidente com uma fotografia; e pequenos estilhaços quase perigosos de dias sepultados são levantados de suas tumbas pelo mesmo vento inclemente que a tudo encobre de poeira e nostalgia. 

Não era nada tão grande para doer como doeu - eis o pior. 

Era apenas o mundo desabando e tornando qualquer abrigo um imenso palácio,

Mas ainda que este abrigo fosse uma armadilha,

E os dentes de ferro tenham deixado marcas profundas,

Era um abrigo. 

Contudo, como se de algo soubesse, eu dizia à atenta e forte moça que tudo estava imerso em um inexplicável milagre, e tudo, todos os movimentos, todas as palavras, todos os gestos; tudo era uma resposta de gratidão. 

Então junto ao vento sopro as jovens assombrações de volta ao seu repouso. As canções tristes findam e a noite morna reina soberana e quase silenciosa. 

É tarde para quaisquer saudades,

É cedo para viver de lembranças.