25 de mai. de 2017
Caravaneiro
Ficou tarde demais para algum remorso.
As estrelas se escondem esta noite.
Não faz frio, não há saudade.
A canção precisa continuar sendo entoada
E nós dançaremos nas ruas vazias pela madrugada
Antes da vinda do sol, antes que o encanto se dissipe com o orvalho.
Você era um menino bonito,
Tinha olhos com brilho e poesia,
Eles dizem.
Tantas armaduras escondem aquela criatura dócil
Que agora caminha sozinha pelas velhas trilhas
Deixadas por caravanas de sonhos
Que nunca chegam a lugar algum.
Caravanas que nunca cessaram a luminosa busca
Pelo elixir da vida, pelo oásis que se desmancha às vistas.
Acima, o fogo do sol; abaixo, o fogo da terra.
Mas passam derramando sementes, mesmo com pouca fé,
Passam derramando sementes.
Talvez quando o caminho terminar, na volta, haja flores a regar.
14 de mai. de 2017
Último poema de amor
Farei para ti um oceano de palavras doces
Para que mergulhe fundo, de olhos abertos,
Sem medo.
Farei um caminho de palavras macias;
Pétalas da primavera que chegará;
Para que teus pés caminhem lentamente.
Farei das palavras teu fruto suculento,
Para te saciar, para te curar
De todo adeus, de toda ausência.
Farei das memórias palavras mornas,
Soltas à beira do fogo da noite;
Serão enfim as derrotas, vitórias.
Farei das últimas palavras de esperança,
O orvalho prestes a sucumbir ao sol nascente,
Um poema de amor.
9 de mai. de 2017
Leitor
Também gosto de ler.
Tudo diz alguma coisa e gosto de ouvir isso.
Às vezes passo tempos olhando o jardim
E alguém brinca se estou esperando que as flores cresçam.
Mas eu estou lendo, lendo a beleza dali.
Como leio a beleza dos corpos e das almas.
Não precisa de palavra pra se ter poesia,
Deus sabia disso. Ainda sabe, suponho.
E quando percebi,
Seguia a vida da mesma forma como lia
Aquele livro de poemas que parecia tão bom,
Mas nem era.
Eu corria ávido os olhos pelas linhas,
Vendo o resto do mundo embaçado, de esgueio,
Esperando alcançar um poema que eu sabia não estar ali,
(Normalmente os livros vêm com índices),
Mas a esperança age desde as coisas imensas até as ínfimas,
Quem sabe não estava com outro nome?
Não, não estará,
Mas continuo o livro meio bom, meio ruim,
Com fé.
Assim vai também a vida, repito,
Esperando a leitura de um poema, de um corpo, de uma alma, de um lugar
Que sei que não estará lá por mim,
Mas vou porque a fome pelo caminho é maior que o cansaço dos pés,
E de alguma forma eu já conheço
O poema, o corpo, a alma e o lugar
Tão desejados:
Estão em mim.
7 de mai. de 2017
Lar
Por onde seguia naquele momento,
O que era escombro e o que era construção?
Nas ruas ou na alma,
O que era esperança e o que era derrota?
Um sorriso só veio ao ver as crianças dançando.
Há uma realidade paralela entre futuro, passado e presente,
E por um tempo, enquanto puros, lá vivemos.
Quando se cresce, sabe-se que a canção uma hora termina.
Pelos cantos eu sentia a observação das memórias,
Com seus olhos vermelhos, hálito ainda quente.
E doeria esse cruzamento de olhar;
Mais certo seguir flutuando inconsciente pela noite vazia.
Nos sonhos, persiste, persiste
A busca infindável pelo saudoso e desconhecido lar;
Isso porque ainda não entendo, não sinto ou vejo:
Sou eu meu único e verdadeiro lar.
4 de mai. de 2017
04/05
Todos os dias a alma sangra em silêncio;
Por Samir, por Alex, por Dandara.
Se somos mesmo Deuses,
Onde está nossa Luz Divina?
Frágeis criaturas patéticas.
Debulhando-se em lágrimas
Frente às frias telas de vidro,
Mas estáticas, inúteis.
O Amor do qual inflamos canções e poemas,
Vale de algo diante da fome, da solidão, do desprezo?
Esses templos abarrotados de hipócritas,
Esperando recompensas mundanas e perecíveis...
Que fazemos de fato da nossa fé?
Palavras ao vento, escambeiros, crianças aduláveis.
As mentiras fluem como um rio caudaloso e poluído;
Cegos, cegos e contaminados, todos nós.
Meu coração dói. Nosso coração dói.
Os raquíticos milagres não sustentam essa horda desolada.
Mais nenhum herói, nenhum Amor.
A alegorias dissolveram-se todas...
Mas eu tive a esperança de receber aquele bom dia,
De salvar a pequena borboleta, que quase sem vida, se debatia.
Trouxe mudas para o jardim.
Chegamos ao limite, mas não ao fim.
2 de mai. de 2017
Poeira ao vento
A chuva ainda era o mais próximo que se podia chegar do céu.
Tinha também aquele olhar tímido demais diante do que viria,
A vez em que não queria estar em outro lugar do mundo,
Pois era seguro;
Na tela, A Bela e a Fera;
Em algum momento todos choram;
Nos filmes, nas memórias, no silêncio do último abraço.
Matilde repete todos os dias pra minha mente:
"Olha, a luz ainda está conosco."
E por luz, ora entendo esperança, ora entendo cegueira.
Já se foram trinta anos e tudo deveria estar dourado agora,
E está. Mas por uma casca fina do metal
Mais composto de prata e bronze de que ouro de fato.
Começa a descascar...
Toda gente sabe como odeio transições,
E começa descascar...
Ainda não vejo o interior, mas sei que o que brilha não é verdade.
Toda gente sabe que odeio transições,
E Deus me coloca no mundo quando o mundo é uma.
Ainda falo e falarei do amor como se ele estivesse aqui,
Como se ele existisse;
Como se ele existisse além desse desespero pela barganha.
Esperar reciprocidade é a forma poética de fazer uma ameaça.
A coisa foi por um caminho tão difuso que nem adeuses eu ouvia mais.
Tudo assim partia, e só.
A gente cresce e cessam as explicações.
Matilde estava certa:
A esta hora uma parte do mundo cria armas,
Outra metade tira o pó das flores.
E no meio disso há alguém profundamente acordado,
Um louco, certamente.
Estou acordado, mas não profundamente ao ponto da loucura.
Quando nada mais havia, havia a espera.
Agora não há.
Sairemos às ruas amanhã em busca de luzes e olhares,
Mas voltaremos os mesmos, sem luzes, sem olhares.
É um mérito dos eleitos viver o que realmente toca?
Nunca acreditei em eleitos... puta bobagem.
Somos todos pó aqui.
Poeira ao vento, lembra da canção?
Sem pouso, sem porto, sem lar.
Viajores.
E toda gente sabe, odeio transições.
28 de abr. de 2017
30/04
Não há mais qualquer encanto
Nas ruínas deixadas
Por anjos displicentes.
Tudo se torna tão sóbrio e cristalino por fim.
E há mais mistério e beleza
Nas flores roxas da árvore atrás da parede,
Que nas amáveis e bem disfarçadas palavras.
A ausência está me deixando...
É abril, mas faz frio.
A semana teve o peso imensurável
Das lágrimas que ficaram presas nos olhos.
Por qual adeus deveria perder o sono desta vez?
Talvez fosse certo não carregar já tanto cansaço e silêncio,
E estar lá fora lutando juntos aos outros apunhalados.
Mas precisava velar por minhas flores,
Pelos meus restos sagrados.
Quando finalmente alguma lágrima escorreu,
Foi por ainda ver amor no peito surrado,
Morno e magro,
Mas, glórias, não mais por outra lunática alegoria.
Seria o princípio do fim?
Se sim, talvez o fim seja algo de generoso:
Leva embora a necessidade
De outros dedos entre os meus dedos.
Nos sonhos, quem vinha ao grito de socorro
Já não trajava grande beleza e forte armadura:
Era apenas eu mesmo, nem tão grande, ou tão pequeno.
Apenas vinha simples, sorrindo...
27 de abr. de 2017
27/04
Quando faz muito silêncio
Eu posso ouvir meu próprio coração.
Um som quente,
Que me dá alívio e certo desespero.
A vida insiste.
E o insistir pode ser uma das coisas mais bonitas.
E certamente
Nada é mais triste que o silêncio no peito.
Certa vez, me lembro,
Ele batia tão forte que outro peito o sentia.
Mesmo dali, preso por ossos e carne,
Sua dança era notada.
Quantos murros já levou, não me importa.
Quando a vida tenta dele partir,
É assim que a chamam de volta.
Por isso eu entendo o que em você dói.
O psicanalista disse que somos o produto do meio.
Ele não deve estar errado, quem sabe.
Mas talvez sejamos mais o que fazemos desse produto.
Amanhã o país irá parar, mas nós ainda falaremos do amor.
25 de abr. de 2017
Reboot
Quando a esperança me tomou o braço,
Me levando sorrindo, cantando,
Num dia de domingo cheio de sol
Não havia razão de olhar para trás,
Pensar do dia da volta e do adeus.
A vida é mesmo uma bobagem, uma irrelevância,
Para questionar a verdade
Que se apresenta a princípio
E que desaparece ao término.
A história muda os personagens,
Os efeitos especiais,
O gosto,
Os cenários,
Um reboot bem feito
Que será idêntico em sua essência
Às versões anteriores,
E anteriores,
E anteriores...
Ao abrir a porta novamente
Depois da indiferença plena e previsível,
Os móveis estavam no mesmo lugar.
Os porta-retratos,
A pequena caixa de papelão
Com a arrogante missão de ser um relicário.
Mas algo não era o mesmo.
Escondido entre os paraíso e o inferno
Em que sempre faz morado o coração,
Algo havia partido.
E era eu indo sozinho por uma estrada,
Nem mais bela nem menos bela que outras,
Mas sozinho.
Fazendo do caminho o próprio destino.
Que tolice seria sentir alguma saudade:
O que não foi uma mentira,
Foi uma trégua,
E tudo se finda.
Todas aquelas promessas e instantes,
O que além de pequenos sonhos
Que em alguma manhã fugirão para sempre da memória?
23 de abr. de 2017
24/04
O que restou é o brilho fraco de luzes perecíveis.
Em todo milagre se esconde um adeus.
Em toda mágica, um preço.
E o silêncio é o único a não partir.
Até as memórias irão,
Por mais profundas, por mais belas.
Era frio e a lua nos olhava.
Era seguro, morno, terno.
E frágil, como flores esquecidas.
Não faria sentido encerrar o ciclo.
Dizer adeus com dignidade.
Todo fim é o mesmo fim.
Traga um dia à tona
Aquela beleza que tentou vestir.
Não duvido que ela exista.
E da dor, que fique a lição,
Mais que o pesar.
O amor existe. Só não aqui.
16 de abr. de 2017
16/04
Outro perfume a ser lavado dos lençóis.
Outra imagem a ser raspada das paredes do peito.
É tarde demais para não correr mais o risco.
A canção triste já começou a tocar.
As nuvens desceram pesadas no trigésimo ano,
Mas não desaguaram, apenas observaram
Nosso desespero e despreparo
Em face das fragilidades dessa dura jornada sem fim.
Mais uma página à antologia de adeuses.
Mais uma alma a ser resgatada da névoa tóxica.
Mais uma batalha não finalizada.
É melhor não definirmos vítimas e algozes.
Dizia ser tão grande a luz,
Mas ela não clareou o bastante.
É verdade que os anjos não desistem?
Espero que sim.
6 de abr. de 2017
Doía-me
Doía-me o mundo.
A falência dos corações,
A aridez absoluta das almas,
A obscenidades das infindáveis guerras.
Doía-me o poema tão sentido
Ao falso anjo querido.
A humilde ode ao único galho folhido do ipê
Que um dia representou a frágil encenação de um amor.
Doía-me o silêncio e os ruídos.
Tudo penetrando carne adentro,
Sem anestésicos, sem distrações;
A crueza displicente da realidade.
Doía-me feito ainda dói.
Por vezes, uma dor bonita,
Como a de carregar o peso grande
Da esperança que nunca sabe morrer por completo.
Doía-me feito ainda dói.
O coração farto demais
Para seu próprio peito,
Tão pequeno.
Doía-me feito ainda dói.
As distâncias todas: de milhas, de pensamentos.
Doía-me feito ainda dói.
As palavras tantas, mas tão fracas; dissolvidas no tempo.
5 de abr. de 2017
Algo para lembrar
Tantas distâncias
Ali tão perto.
Cabelos castanhos ao vento,
A estrada de pedras prateadas,
Uma espécie de santa solidão.
Qual seria o gosto do ar
Se sorvido acima da linha d'água?
Livre.
Livre...
Também o peito morno, macio.
Flores roubadas para sempre.
Inútil batalha por memórias perecíveis.
O beijo sublime nos lábios inatingíveis.
Onde arde a vida
Em que corria, bradava, amava?
Sei que distante da vida amanhecida,
Restos de um ontem sem sabor.
4 de abr. de 2017
Não sobrou
Não sobrou nada para quebrar,
nada mais para amar;
Nenhum novo sol poente,
jardim florescente.
Não sobrou alguma ânsia pelo pranto,
os olhos vitrificados fitam o infinito.
Nenhuma paisagem se revela
para além das espessas brumas.
Não sobrou nada a ofertar,
nenhuma esperança a iluminar o sorriso.
Nenhuma resposta para as questões,
que ficaram pelas estradas que nunca voltamos.
Não sobrou espaço para luzes e sombras,
num coração enfim de concreto.
Nenhuma canção para trazer para perto
o que nunca esteve realmente aqui.
3 de abr. de 2017
Subsolo
Amanhã todos vocês não estarão aqui.
É o que diz a a ciência.
É o que diz o despertador
Quando interrompe algum sonho bom demais.
Amanhã todo esse sentimento será mais fraco.
O escuro da noite se encarregará
De limpar as curvas mentais
Onde desabrocham memórias mal iluminadas.
As ruas, os lençóis, as luzes coloridas e giratórias,
O gole de cerveja, o gosto do beijo,
O cheio do tabaco, da maconha, do perfume,
Tudo se liquefará, escorrerá para o subsolo do consciente.
É quase um mistério o que habita esse submundo.
É meu; alma, mãos e coração fizeram,
Mas nada me pertence mais,
Tanto quanto nada nunca me pertenceu.
Libertadora e desesperadora essa impotência
Diante das agridoces saudades e das inúteis perspectivas.
Tudo o que é sólido pode e irá derreter...
Mas e o que não é?
1 de abr. de 2017
Na ida
Eu falava de cores macias,
Passados ásperos.
E dos poemas que nasceram
E irão morrer em silêncio,
Longe de qualquer olhar,
De quaisquer lábios.
Éramos jovens,
Repletos do direito de errar.
Seduzidos por imagens,
Por mensagens,
Por quem?
Tudo se vai,
E eu sei bem.
Então não sorria na ida
Por teu caminho.
Quantas vezes
Meu caminho também?
Mas sorrio agora
Porque há um solo de guitarra
E uma voz dourada, meiga,
Dizendo haver alguma beleza
Em não entender o caminho também.
Transitório
É essa infantil ideia de imutabilidade
Que nos faz parecer menos desesperados;
Esse espetáculo espetacular,
Cuja hora do fechar das cortinas ignoramos solenemente.
Mas é tão pacífico pensar no oceano que nunca me conheceu.
É suave pensar que algo é relativamente para sempre.
O que me diriam os deuses se eu questionasse
Se o caminho certo é realmente o melhor caminho?
Todo esse tempo, apenas imploramos atenção aos desejos mesquinhos.
Expelindo ao vento o que ninguém mais se atreveria a carregar.
Naquele batalha ancestral, sua doçura furou meus olhos,
E agora na plena escuridão eu vejo tantas estrelas além daquelas.
E nunca fui eu a fazer as palavras, foram as palavras a me fazer.
Nada fui além do silêncio escurecido da noite.
E o que serei adormece numa ilha de sonhos distantes,
Onde apenas memórias valsam, como fantasmas exaustos.
9 de mar. de 2017
Lançamento de "Multiverso"
Da ilusão da matéria (a energia em aparente repouso) aos estímulos sentimentais (intangíveis verdades em constante ebulição) somos aglomerados de luzes, sombras, planos distintos. Múltiplos universos. Criaturas com começo, sem fim, habitando o pensamento do que é Infinito. O que não entendemos, sentimos, e às vezes, isso basta.
Multiverso é um diário de bordo de uma viagem ininterrupta pelo vórtice das sensações. O esforço de imprimir através do verso e da prosa percepções da alma.
O livro é inciado pelo poema e encerrado pela prosa. Formas distintas de expressão sobre épocas e assuntos distintos.
Muitas vezes mais duro e árido, mas sem abdicar da capacidade de filtrar a beleza que reside em tantas coisas, o poema traz a voz do homem diante das realidades frenéticas e dos sentimentos intensos a que é exposto. Já a prosa virá leve e de lá de trás, dos distantes tempos idos de meninice. 14 historietas relembram como era o mundo visto através da simplicidade do olhar infantil. Uma narração singela de uma época onde tudo era cheio de cor e encanto.
Qual a conexão do homem com o menino?
Seja na infância ou na maturidade, a poesia sempre foi e será a querida menina que reside nos olhos.
Estimo então que a poesia cumpra seu papel de dar contorno e vida aos tantos e tão distintos sentimentos. Que ela seja uma forma de resistência diante das amarguras dos dias, que seja a canção saudosa pelas luzes que se apagaram, que seja o som do sorriso em resposta ao coração que se aconchega em memórias gentis.
Longe da obrigação de ser um mero estilo literário, que a poesia se faça um estilo de alma, por onde soará o grito contido, escorrerá a lágrima de esperança, se insistirá na ressurreição da fé, se lutará ainda outra vez pelo Amor.
Venda física e digital: https://www.clubedeautores.com.br/book/230428--Multiverso#.WMX6roErIdV
27 de fev. de 2017
Alma
É tanta alma,
Tamanha alma,
Que me escorre pelos olhos
Um oceano ainda mais profundo,
Ainda mais pacífico.
E se não posso ir tão alto
Com essas frágeis asas de palha,
Em risco de feito Ícaro
Ser lançado sem piedade ao solo,
Posso mergulhar tão bela e livremente.
Um dia, desvestido da carne efêmera,
Desvestido dos tantos indelicados temores;
O universo será visto em toda sua vastidão
Com olhos lavados,
Puros e leves, finalmente.
Um dia, a alma prisioneira
Estará outra vez dissolvida
Nos perfumes e encantos,
Como no início,
Quando não havia passado ou futuro.
Um dia, depois de tanta espera,
Tanta luta;
Um dia, depois que o tempo adormecer,
Nos reencontraremos
E seremos lindamente azuis sob o luar.
Em breve, "Multiverso".
12 de fev. de 2017
Carolina
Como tá o dia, Dona Carolina?
E se chove, mulher, como vai ser?
O barraco tá limpo, as crianças, alimentadas.
Descansa um tiquinho,
Deita esse fardo no chão,
Vai coser poesia.
A gente aqui continua tudo marginal.
A sociedade vai correndo rio acima,
E a gente daqui só observa com nossa sina nas costas.
Desde quando a água cai para baixo é parecido:
A gente parece não ter vez, não.
Que vida dura, Dona Carolina!
É tanta humilhação por um pedaço de pão!
Será que um dia a coisa reverte?
Pelo andar dessa carroça, sei não...
Mas a gente resiste, tá no nosso sangue.
A gente beija a lona, mas levanta e pulso cerrado.
Deus lhe guarde aí no céu, Dona Carolina.
Certeza que ele fez pra senhora
Aquele vestido bonito de noite estrelada.
Por aqui, sua palavra continua forte e viva
Dando voz e coragem
À vida de tantas outras Carolinas.
Singela homenagem a Carolina Maria de Jesus.
Mulher, brasileira, mãe, guerreira.
E se chove, mulher, como vai ser?
O barraco tá limpo, as crianças, alimentadas.
Descansa um tiquinho,
Deita esse fardo no chão,
Vai coser poesia.
A gente aqui continua tudo marginal.
A sociedade vai correndo rio acima,
E a gente daqui só observa com nossa sina nas costas.
Desde quando a água cai para baixo é parecido:
A gente parece não ter vez, não.
Que vida dura, Dona Carolina!
É tanta humilhação por um pedaço de pão!
Será que um dia a coisa reverte?
Pelo andar dessa carroça, sei não...
Mas a gente resiste, tá no nosso sangue.
A gente beija a lona, mas levanta e pulso cerrado.
Deus lhe guarde aí no céu, Dona Carolina.
Certeza que ele fez pra senhora
Aquele vestido bonito de noite estrelada.
Por aqui, sua palavra continua forte e viva
Dando voz e coragem
À vida de tantas outras Carolinas.
Singela homenagem a Carolina Maria de Jesus.
Mulher, brasileira, mãe, guerreira.
9 de fev. de 2017
Mar negro
Dia após dia: fuga!
Braçadas exaustas
Neste infinito mar negro.
Nossa carne ferida,
Nosso sangue que flui,
A fome que ruge aos nossos pés.
Devoram-nos aos pedaços,
Sem pudor ou misericórdia.
Contra as bestas dos abismos,
Nada podemos.
Uma vastidão sem lei,
Sem decência,
Sem justiça,
Sem escrúpulo.
Aves carnicentas pairam pacientes.
Logo,
De nós,
Um banquete de restos.
Frágeis iscas de um ciclo corrupto,
Fétido, desgovernado.
Marginais atirados às feras,
Saciando a voracidade dos demônios.
4 de fev. de 2017
Sentimentos colateais
Dançando sobre a superfície,
Cansativa tempestade.
Rugidos entediantes,
Ameaças ilegítimas.
Sal ao ar de luzes azuladas.
Na profundeza, silêncio.
Sóbria calmaria
Repousando sob pressão.
Claridades artificiais,
Escuridões legítimas.
Pelas ondas, à deriva,
Sentimentos colaterais.
Memórias de um outro tempo,
Um outro espaço,
Outro eu.
Nos abismos, o desprendimento.
O esquecimento da necessidade,
Da ânsia por calor;
Da vontade de navegar
Em outros idênticos mares.
Cansativa tempestade.
Rugidos entediantes,
Ameaças ilegítimas.
Sal ao ar de luzes azuladas.
Na profundeza, silêncio.
Sóbria calmaria
Repousando sob pressão.
Claridades artificiais,
Escuridões legítimas.
Pelas ondas, à deriva,
Sentimentos colaterais.
Memórias de um outro tempo,
Um outro espaço,
Outro eu.
Nos abismos, o desprendimento.
O esquecimento da necessidade,
Da ânsia por calor;
Da vontade de navegar
Em outros idênticos mares.
3 de fev. de 2017
Finite
O deserto, tamanho deserto,
Pequeno demais para almas
Tão fartas.
Pequeno demais para tantos pecados,
Para tanto desejo sujo,
Para tanta vergonha,
Para tanto silêncio.
Falta espaço, falta céu, falta sol.
É pouco, pouco demais.
Vá, e esconda suas pegadas,
Ante mesmo da dança
Das areias e dos ventos,
Esconda suas pegadas,
Leva tua memória daqui.
Devolva-me meu nada
Furtado por falsas vozes
Falsos toques,
Falsos olhares.
Não há falta, não há lar,
Ou dor ou amor:
Apenas o nada há.
27 de jan. de 2017
Canção d'água
Não há saudade nos cantos do mar.
Os tons suaves não ferem...
Eles embalam gentilmente um coração regresso.
Nada a perder em águas frias e profundas;
Teus olhos.
Os pés afundam na areia morna.
No infinito horizonte azul, a tempestade passada.
Rugidos frágeis, distantes.
De que serve tua compaixão, já não me importa.
Corro livre e só por uma orla iluminada agora,
E de tudo que era tanto, nada resta.
A alma flutua.
A Paz, elegante senhora, sorri.
Como uma mãe, acalenta-me em braços perfumados.
Dos olhos, escorrem alívios.
Enfim, livres;
Eu, nós;
De mim.
19 de jan. de 2017
No âmago do oceano
No âmago do oceano
Cujas águas nunca me queimaram
Tendo os olhos beijados
Por cores macias
Que sorriam e envolviam
No bailar sublime da profundeza
Regado aos fractais luminosos da superfície
Tanta imensidão apenas minha
Sem palavras
Tratados
Promessas
Nada a ser quebrado
Nada a dizer adeus
Nenhum espaço para outras lágrimas
Nenhuma cicatriz
Apenas a alma dissolvida
Em água
Luz
Sal
E o sagrado silêncio
Como de uma catedral submersa
Sacramentando cada partícula
Do infinito instante
Desacorrentado do passado e do futuro
A paz magnânima de nada ser e tudo estar
Do âmago do oceano
Tão morno e belo
Nunca me deixe emergir.
18 de jan. de 2017
Enquanto não amanhece
Tamanha inocência
A saudade daqueles caminhos
Que nunca foram de fato dos meus passos.
Tamanha tolice temer o futuro
Que em tudo será como o passado;
Novos maltrapilhos dias.
Frágeis cintilâncias...
O sonho que é resta
É ter de volta o sonho.
E é tão cedo para manter o olhar
Tão mais ao chão que às estrelas.
Só que chove, chove.
Pesados escombros
Escondem as relíquias da alma.
Apenas vozes fracas vêm do fundo.
Tantas missivas de socorro sem resposta.
Vamos poupar os dedos, as palavras,
Adormecer até o retorno do sol.
30 de dez. de 2016
Perfeitamente
O perfume da roupa no varal,
O cheiro da chuva mansa da última madrugada,
A luz macia do sol que entra pela janela...
Nós sorrindo na lembrança.
E se a gente mantivesse a vida assim por um instante:
Pacífica, branda, com o cantar longínquo de pássaros?
Sem as mãos quentes de memórias e expectativas
Pressionando nossos pescoços.
Sentir saudade...
Não a saudade do que se foi para sempre,
Levando consigo toda claridade,
Mas do que chega amanhã; logo ali.
Traçar versos bobos sobre uma vida banal;
Um dia alguém florescerá sobre esses pedaços de alma,
E até lá, ser leve, como se tudo estivesse em seu lugar,
Seguindo sua sina, perfeitamente.
29 de dez. de 2016
Éden
Eu me lembro do rosto de cada anjo.
Eu me lembro do rosto de cada demônio.
Eu me lembro de cada cura e de cada cicatriz.
Mas você era o antídoto antes do veneno,
A viagem tranquila antes da grande tempestade.
Meu lúcifer particular.
Quimera de luz e sombras.
No azul celeste do seu olhar,
Eu não via... eu não via,
Ardiam as chamas do inferno.
E todas as noites chorei,
Como um deus abandonado,
Por perder sua criatura dileta.
Meu paraíso nunca foi o suficiente
Para tão magnânima e assustadora criatura.
Meus olhos já não te alcançam mais,
Ou minhas mãos ou meus lábios ou meus braços.
Apenas a memória é um fio eletrificado e eterno
Envolto em meu coração
Conectando-me àqueles dias em que meu Éden era apenas seu.
27 de dez. de 2016
Seu Ruas
Minha reverência, meu senhor.
Sou também Ninguém, prazer.
Soube da sua morte tentando defender a moça
Que só tava ali existindo.
Sabe meu senhor, eu acho que se o céu existe mesmo,
Tem um bom lugar esperando o senhor lá.
Por aqui anda tudo meio assim, sem jeito.
É uma gente ruim de um tanto,
Que quando a gente pensa que já viu de tudo,
A gente tem de chorar por outra desgraça!
Que os anjos te acolham, viu meu senhor,
Porque o senhor é um herói.
Mesmo que amanhã ninguém mais se lembre do senhor,
Que os jornais com sua foto forrem prateleiras,
Entupam bueiros... O senhor vai continuar sendo herói.
A gente é assim, a tal da amnésia coletiva.
Num dia a gente chora, no outro tá rindo de novo,
Como se estivesse tudo bem. Não tá nada bem.
Sabe, o mundo é um lugar muito feio
Pra pessoas bonitas assim, como o senhor.
Não vai dar pra esperar muito da justiça dos homens,
Ela é feito cobra de brejo, só pica pé descalço.
A gente aqui roga é pela divina.
Vai com Deus, viu, Seu Ruas.
Um mundão de gente tá com o coração danado de doído,
Mas também cheio de orgulho
De um entre nós, ser um Humano de verdade.
22 de dez. de 2016
Antônimo da dor
Chorei à despedida da Grande Dor.
Uma inimiga tão íntima, tão fiel.
Sempre tornando as noites mais escuras
Do que qualquer noite deveria ser.
Sempre tornando a memória
Mais reluzente do que qualquer memória deveria ser.
Chorei à chegada do Grande Bem.
Na tela fria eu via o mais doce sorriso,
O mais nítido olhar.
E quase me esqueci de como tudo...
Como tudo está em escombros lá fora
E aqui dentro.
E nesta noite a oração será pelo coração;
O esquecido em uma velha estação
Quando seu sabor começou a desaparecer.
Será pelo coração
Que agora, em não tão mais longe,
Gera sorrisos nas horas mágicas da tarde.
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