19 de jan. de 2016

É tudo



Se algo é insano, é tudo.
O tanto lutado pelo amor inexistente, a hora da desistência, enfim,
Ou a hora de, ainda sangrando, lutar de novo pelo amor,
É de igual loucura.

É perturbada a pequena alma presa em seu ninho,
O ninho onde sempre desejou estar,
Mas que agora sente doerem suas asas inutilizadas,
E saudade de quando o vento do mundo soprava em seu rosto?

Se algo é insano, é tudo...
Também eu, todos os sentimentos em que em mim habitam
E nos quais eu habito.
Minha mão direita que acaricia a felicidade; a esquerda, a tristeza.

Eu irei embora, mesmo sem nunca partir.
Vou perdoar, mesmo sem nunca esquecer.
Eu sou livre, mesmo que meu destino não me pertença.
 E eu te amarei para sempre, mesmo através do silêncio eterno.

17 de jan. de 2016

Sem lar


Também chorava por meus fantasmas, meus mortos.
Ainda sinto o gosto amargo da falsa realidade;
Aqueles goles fartos de ilusão.

Eu vivo no caminho, por trilhas e asfaltos.
Reconheço a solidão dos que partiram,
A felicidade dos que não pensam.

E eu reconheço aquele olhar,
Eu sei de toda a verdade,
Pois não desconfio de nada.

Eu entendo porque o amor é um lar.
Mas não sou eu que habito nele, é ele que habita em mim,
Como uma semente que repousa, esperando desabrochar.

Sem mais insanas dores e insanas alegrias.
Sem mais a dor do porto destruído pelo mar.
Eu sou o caminho, a rota, a estrada, o destino.

10 de jan. de 2016

Para o seu bem


Eu vou embora;
Depois da paixão atingir o ápice
De eu confundi-la com o amor,
E deixar de queimar;
Como a palha de um canavial,
Em imensas e rápidas labaredas;
Eu irei embora.
Mas será para o seu bem.

Eu vou desistir
De todos os sonhos,
Construídos em tudo e em qualquer lugar.
Esquecerei tão bem dos planos e conquistas;
E você,
Que que eu dizia ser a parte mais bela da minha vida, carne e espírito,
Será também esquecido.
Mas será para o seu bem.

Eu vou manter silêncio,
Tão profundo e dolorido,
Que as tão belas horas sem fim
De palavras e sorrisos parecerão
Uma bobagem da memória.
Uma bagagem pesada de coisas inexistes.
E talvez a indiferença mate aquilo que todos chamam de Amor.
Mas será para o seu bem.

Será para o seu bem
Reconstruir um velho e despedaçado coração no mundo real.
Será para o seu bem
A passagem dos sonhos para a insípida realidade.
Será para o seu bem
Entender que foi uma grande tentativa, mas nada permanece.
Será para o seu maldito bem
Todas as minhas mentiras.

7 de jan. de 2016

Tolo espírito ingênuo


É preciso que mais algum tolo fale
Sobre o brilho esplêndido das estrelas
Após um dia de felicidade e paz,
E em como apenas doces lágrimas as nublavam?

É preciso que mais algum espírito singelo
Relembre outros da delicadeza e beleza
Das andorinhas... quase leves como o vento,
Admiradas numa tarde quente de nuvens esparsas?

Talvez.
Porque também viu, este tolo espírito ingênuo,
Olhos esculpidos pela dor, enquanto olhava horrorizado
Suas mãos inúteis, imóveis.

É preciso que se diga que a vida resiste,
E é bela em algum canto, por algum doce motivo,
Porque em outro, ela é profanada com adaga contaminada
Em seu âmago adoecido e frágil.

Basta este amor que apenas flores e versos cria?
Não basta; mas, graças, Deus, existe!
E um dia as mãos macias e quase mortas
Estarão ásperas e reluzentes por servirem com gratidão.

3 de jan. de 2016

Tentativa


Parece ser o fim de toda batalha assim:
Chove mansamente.
O sangue derramado dissolve-se na terra.
O presente vence o passado,
E será vencido pelo futuro.

Como a lenta chuva, duas lágrimas escorreram
De lados opostos da face.
Alívio, derrota, fim.
Pelo que ainda chorar?
Não apenas uma batalha, a guerra acabou.

Há o silêncio.
Nada mais a ser dito,
Nenhum ouvido a ouvir, tampouco.
Talvez tenha tentado amar
Com a mesma força que agora tento esquecer meu amor.

Estaria ainda sendo branda a reação do destino,
Em virtude dos meus tantos pecados?
A água fria ainda escorre, tristemente.
Olho para a dolorida cicatriz...
Já nenhuma flor nascerá em meus vazios.

1 de jan. de 2016

Lançamento de Discreta Loucura

Esta é a história de um coração que um dia acreditou poder voar.
Que um dia sentiu ser possível a um ser possuir asas e raízes,
Como as árvores, que lançam seus braços aos céus, enquanto seus âmagos
As firmam, seguras, no chão.
É uma história de amor, e por isso, uma história de dor.
Passados e presente se entrelaçam...
O futuro vaga distante, incerto, imprevisível.
Esta é uma história em versos, em imagens, em noites de alegria,
Dias de tristeza, momentos de esperança e angústia.
Esta não é uma história completa...
É mais um capítulo de uma busca infinda e ancestral.
Uma discreta prova de que o coração ainda é quente, bravo, louco e vivo;
Como um vulcão que adormece por séculos,
Mas um dia desperta.










"DISCRETA LOUCURA" nasceu de forma imprevista. De forma discreta e também insana. O material que compõe o livro não é vasto, mas os sentimentos nele contidos, são. O que viria após um grande sentimento, um amor sublime, uma perda imensurável de esperança? São estas e outras questões que o livro aborda. Não há como escrever um poema apenas para ocupar espaço no papel, ele precisa vir do âmago, de algo intenso, belo, forte, dolorido. Há nas páginas desse livro a sede pela reconquista da fé, e a dor de ainda possuir chagas mal curadas no coração. "Discreta Loucura" é uma súplica pela liberdade, representada também pelas imagens de pássaros em suas páginas, e é ao mesmo tempo, um desejo ardente de pouso, de aconchego, da segurança de um ninho.












Disponível em: http://migre.me/sAZNW

18 de dez. de 2015

Não, nunca mais


Abandonaram-me os fantasmas que justificariam os fracassos.
Pálidos como a desesperança e silenciosos como lágrimas nunca vistas,
Despedem-se.

Nem a luz, nem a sombra ambicionam esta alma
Cujo sabor foi consumido a última gota.
Uma casca estéril que o vento leva para não longe.

Memórias permanecem, mas não por vontade.
Como tantas outras coisas, aqui residem por falta de opção.
O que resta dos suculentos sonhos de outrora é a realidade insípida.

As demais vidas seguem em busca de fulgores e futilidades.
E eu estou parado na chuva, de olhos fechados, coração ferido;
Com os pés enraizando numa terra lúgubre que não amo.

Sinto saudade da ânsia por desatinos,
Saudade da estrada quase infinita,
Que tinha ao fim algo incrivelmente precioso.

E lembro daquele céu azul que encobriu inocentes ilusões...
Apenas tua alegria tirava do meu olhar o foco no desalento,
Banhando-o numa luz suave de expectativas jamais verdadeiras.

Não, nunca mais a velha claridade.
Nunca mais o espírito numa valsa meiga com a felicidade.
Apenas um coração que pulsa, pulsa, pulsa e nada sente.

16 de dez. de 2015

Belo cárcere


Há essa algema ancestral,
Talvez criada junto da alma,
Ainda no útero de Deus,
Prendendo eternamente a disforme criatura,
Ao que de Belo seus olhos acalentam.

E toda perturbação da Beleza,
É um florete adentrando lentamente o âmago,
Constantemente, delicadamente, sem misericórdia.
Uma imensa agulha perfurando o coração apodrecido,
Preenchendo-o de uma vida já desconhecida.

Era por isso o escorrer das duas lágrimas pesadas,
Ao observar pequenas estrelas embaçadas
Num céu de negrume profundo.
Até o amor morre, maior ou menor, cedo ou tarde,
Mas a dor causada pela sua tão singular beleza ainda reluz, insistente.

A nada iludem ou servem palavras.
São pedidos de socorro em mar aberto,
São louvações a ouvidos surdos.
Mas elas insistem em jorrar, como uma fonte no deserto,
Sem quem jamais alguém prove do sabor real das suas águas.

9 de dez. de 2015

Discreta loucura


Seria o ponto mais absoluto da insanidade
Esta aparente calmaria instalada em meus olhos,
Nervos e dedos,
Ou, depois do peito dizimado,
Queimado à ferro em vermelho vivo,
E resfriado por um sangue quase morto de tão gélido,
O que resta é uma discreta e inofensiva loucura,
Frouxa e fraca,
De características tão semelhantes
Com a patética e insípida vida já bem conhecida?

O que nasceu com o fim?

Há um pântano escuro sempre tão revisitado.
Talvez algo ainda floresça em tão inóspito lugar.
Eu sei que é estúpido... Mas nem toda fé está morta.
Há um velho e grande campo dourado,
Uma oficina mágica de sonhos irrealizáveis.
E banhado da luz âmbar do poente,
Entre gentis ilusões quase inofensivas,
Eu danço com o que resta de imaculado:
Eu danço com minha loucura; distantes de todo olhar.
Continuamos a nos amar com um amor que jamais diz adeus.






6 de dez. de 2015

Não mais



Estariam certos os cientistas ou os magos?
Saberiam da verdade os poetas ou os lúcidos?
Sem entender, todos os dias olhei para o mesmo céu,
Esperando a repetição do milagre, da ilusão.

Minha alma se alimentou do amor nunca antes conhecido.
Uma luz inigualável, magnânima.
Minha alma serviu de alimento para uma indiferença voraz.
Uma escuridão plena, silenciosa.

Mas é finda a majestosa obsessão.
A esperança voou pela mesma janela
Por onde um dia adentrou.
Parte, enfim, o que foi chamado de amor.

Só olho mais uma vez na velha direção
Para dizer ao eco surdo da noite
Que cumpri minha promessa.
Ainda estou vivo.

Só olho mais uma vez na velha direção,
Enquanto danço sozinho,
Para dizer, por minha vez, à minha paixão pela dor:
‘Eu não posso mais!’

26 de nov. de 2015

Discreta Loucura


Às vezes penso que a poesia é um arbusto florido em meio a uma guerra incessante.
Existem tantas coisas mais urgentes a serem vistas e pensadas em momentos de desespero do que uma pequena e frágil beleza.
Mas talvez, em meio ao caos e à destruição, aquele pequeno arbusto florido possa dar àquele que o vê a lembrança dos tempos de paz, possa acariciar seu coração com um sopro de esperança.
Sendo assim, quem sabe não seja necessário insistir nos versos?
Insistir na busca das belezas miúdas que se escondem em olhares, dias chuvosos, sorrisos sinceros...
E certamente, a mesma frágil e quase sempre despercebida poesia, é combativa, é salvadora. Por isso é necessário manter o coração aberto, seja às tempestades ou às bonanças.
"Discreta Loucura" é meu oitavo trabalho, e mesmo sabendo (e talvez justamente por saber) como o mundo gira freneticamente em torno de coisas opostas ao ato de poetizar, eu continuo.
Continuo não por vaidade, e nem mesmo por aqueles (a quem agradeço imensamente) que cruzaram com o meu trabalho e alguma emoção extraem dele; continuo porque me recuso a aceitar que a vida é apenas um mar de concreto infindável e sem vida.
Espero poder até o fim dos meus dias, ver na vida, seja ela bela ou dolorida, algo que alimente a minha alma.
Quem sabe, algumas mais.
Em 2016, "Discreta Loucura."

23 de nov. de 2015

Habeas corpus


Terrorismo silencioso, venenoso, maligno.
Terrorismo sem culpados, sem nomes, sem rostos nos jornais.
Terrorismo chamado de catástrofe, acidente, tragédia e o caralho!

Vidas concretadas, sepultadas, ignoradas.
Lágrimas não ouvidas, não compreendidas, desimportantes.
Dores nunca sentidas.

Parabéns, ganância!
Teu vômito a poluir nossos mares, rios e lares
É a prova da tua vitória!

Está destituída a necessidade do homem de ser humano.
É um monstro faminto, ignóbil, fedido,

E livre: hoje saiu teu habeas corpus.


*imagem da internet

19 de nov. de 2015

Migalhas


Quem imagina o escorrer de lágrimas sulfúricas,
Quando a noite é de puro silêncio e parca luminosidade,
E o coração se agarra em memórias
Que lentamente vão se diluindo junto das esperanças?

Restam mínimas faíscas do antigo brilho nos olhos...
Os olhos nunca mais vistos de perto.
Restam migalhas de sentimentos; momentos;
E eu ainda reluto com a rasura absurda da vida antes profunda.

Chegará o dia do fim da saudade.
O dia em que a indiferença imposta assassinará sem piedade
A memória guardiã dos milagres um dia provados.
Talvez seja o instante do fim, ou do início.

É o tempo da superficialidade, do líquido, transitório;
Ocupar temporariamente o lugar de algo melhor que ainda virá.
Em resposta à alma oferecida plena, em baquete,
Se terá restos, minutos irrisórios, migalhas insípidas.



15 de nov. de 2015

Talvez, meu Deus


Talvez, meus Deus,
As orações de um homem de pouca fé valham.
Valham até mais que a do homem de muita fé.
Pois as palavras saem encharcadas num pranto de desesperança;
Um apelo desesperado para ouvidos
Que sempre parecem distantes demais.

Talvez, meu Deus,
O amor que resta num homem que desistiu do amor
Seja mais puro e brilhante, como um diamante bem lapidado,
Que o amor daquele que nunca bebeu goles fartos
De adeus e indiferença,
Após um sonho morrer agonizando nas mãos.

Talvez, meu Deus,
A engrenagem da vida não tenha sido destruída.
E por estes caminhos tortos,
Chegaremos ao lugar correto,
Onde nos aguarda uma resposta concreta,
Para tanta dúvida maligna.

Talvez, meu Deus,
Os bons homens, de espírito já velho e cansado,
Ainda existam espalhados em meio aos mares de lama e sangue,
Salvando vidas quase perdidas, histórias quase sepultadas.
Talvez, meu Deus,
O senhor nos ouça, e nos perdoe pelo que somos.

12 de nov. de 2015

Acabou o amor


"É a lama, é a lama!"
Envenenando os corpos das nossas crianças,
As lavouras que nos sustentam,
O verde oliva da nossa esperança.
É a lama negra e torpe da ganância infindável,
Varrendo os sonhos para sempre,
Concretando os indefesos,
Concretando as lágrimas que já custam a cair!

São as portas abertas dos presídios nojentos,
Sem resquícios de humanidade,
Em que minha pobre lógica não erra em afirmar:
'Ali, só ladrão de galinha deve entrar!'
Porque mais monstruosos têm sido os que seguram canetas,
Engravatados e protegidos de toda justiça,
Do que o moleque bandido que impunha uma arma.

São os cadeados nos portões da escola,
Nossos gritos sufocados, nossas súplicas desdenhadas.
Acabou o amor, e isso aqui é o inferno!
Maculam nossa dignidade sem pudor ou misericórdia,
Como se não houvesse alma incrustada nessa carne minguada.
Acabou o amor, mas não a vida;
Não importa quão fortes sejam os desgraçados acima de nós!

5 de nov. de 2015

Ainda, o pássaro azul


Ainda cai a chuva, como nos tempos de outrora.
Desmorona o céu em seu pranto poético.
As árvores bailam belas ao sabor do vento fresco e vivo.
O medo e a esperança adormecem juntos,
E eu já não sou o mesmo...

Mas passada a chuva, volta o escuro soberano da noite.
Noite morna, tão muda, em que apenas meus olhos cantam.
Cantam baixo às velhas estrelas que um dia vi - vimos -
Imersos em um abraço sagrado, irrepetível.
Um abraço mais seguro que um verdadeiro lar.

Naquele momento havia um pássaro azul em meu peito.
Brilhante, jovem, vivo.
E eu chorei e chorei em louvores e agradecimentos,
Por tão graciosa criatura que passou a habitar
Meu fraco coração.

E hoje não quero me lembrar do dia em que descobri
Que todo pássaro só sabe amar a liberdade do ar;
O dia em que o pássaro azul deixou meu peito,
E retornou ao sonho distante em que antes habitou.
Quero me lembrar da estrelas, da noite, do azul...

Pássaro azul


O brilho dos olhos do pequeno pássaro azul
Ainda cintila em minha mente.
Por um instante, quando suas asas ainda não o sustentavam,
O tive em minhas mãos.
Tão belo, tão frágil...

Mas quão rápido ele perceberia que pertence ao ar,
Não às minhas mãos, por mais carinhosas que fossem.
E voou, ainda que temeroso e oscilante,
Para longe do meu olhar e do meu amor.
Como toda força da natureza, só existe pleno, se livre.

E se hoje choro sua ausência, sua distância,
Um dia entenderei que tantos outros olhos
Ainda encantará...
Com seu canto, cor, pureza.
Existência.

Quem sabe nesse dia meus olhos sequem,
E o coração adquira asas firmes para também poder ser livre?
Talvez eu já tenha sido um pequeno pássaro azul,
Perdido e faminto do sabor do ar,
Me desvencilhando das mãos que me acariciavam.

3 de nov. de 2015

O poeta não é um fingidor


O poeta não é um fingidor.
Quem tem olhos de ver sabe
Que em cada palavra,
Cada verso,
Há um rio de sangue quente e vivo,
Carregado de sentimentos, memórias, belezas, tristezas.

É um nostálgico,
Sempre levando flores aos túmulos
Onde repousam frias suas esperanças.
Haveria vida para elas após a morte,
Em outro lugar,
Em outro tempo?

O poeta não é um fingidor.
Quando os olhos transbordam,
Perante a perfeição ou a crueldade do mundo
Para com seus sonhos infantis;
São do espírito que as lágrimas vêm,
Daquele âmago, onde só os dedos do amor puderam tocar.

É um desesperado,
Sofrendo por luzes mortas
Que nunca ressuscitarão.
Ainda lembrando das asas que um dia teve,
Mas consciente de que jamais sentirá outra vez
O sabor do ar.

2 de nov. de 2015

Assimetria


Seja mais uma vez a besta inócua
A carregar sentimentos imensos,
Mortos, dilacerados; coração.

Contemple imóvel e silencioso
As maravilhas terríveis do teu reflexo.
Cabe em ti todo o inferno e todo o paraíso.

Não está para anjo ou demônio,
Mas para o limiar suave que separa
O amor do horror.

Deslumbra-te com teu gozo e teu tormento.
Entrega-te às forças assimétricas da natureza,
Ainda que teu amor seja uma pérola perfeita.

26 de out. de 2015

Por um momento


Fui adiante para descobrir
Que persistia um caminho
Além daquele em que o amor um dia luziu.

Até da última gota de dor fiz poesia...
Nada resta. É findo. Sepultado. Seco. Estéril.
Uma brancura sem fim de um céu jamais revisto.

Beba do teu doce adeus, beba do vento livre,
Que novas misérias esperam a alma viajante,
Novas cruzes; não mais as velhas e ensanguentadas.

Mas, ah, se alguém nos visse ali ontem;
Eu e minha paz, deitados ao lado da chuva,
Das pequenas luzes e suaves canções.

Esse alguém se esqueceria dos meus versos amargos,
E se banharia na claridade abundante
Que jorrava dos meus, por um momento, olhos pacíficos.


24 de out. de 2015

Vendaval


Nossas flores não nos salvarão da fome das feras.
Elas se esgueiram pelas sombras,
Sentindo o cheiro doce dos sonhos que ainda nos restam.
E em um instante, nossa carne pode estar presa em seus dentes.

Já estão tão fracas na memória as velhas orações de infância.
Já não resta círculo mágico para nos proteger dos invasores.
O coração é terra devastada,
A alma é uma cidade fantasma.

Estilhaçadas esperanças repousam empoeiradas.
Deitadas pelo solo, como anjos caídos de tão alto.
O Amor, aquela chuva sagrada que devolveria a vida,
Voltara a ser uma lenda contada por caravanas de sentimentos mortos.

Mas para todos os olhos, são apenas mais palavras.
Mágoas reminiscentes de uma paixão forte e passageira,
Um vendaval já por todos esquecido, por todos vencido.
Não por mim...


23 de out. de 2015

Profecia


Deita, esperança,
Além do sonho e do pecado.
Repousa tua inútil existência
Nos braços da tarde plúmbea.

Para sempre, nunca mais os velhos dias.
Quanto menos doem,
Quanto mais lágrimas e sorrisos trazem,
Melhor se confirma a profecia.

É passado o tempo sagrado...
Mas saboreie o café forte à luz da lua.
A boa presença que lhe emudece.
O sol não renascerá jamais.

Soltara da mão da fé, a perdera pelo caminho.
Agora segue só, nem mesmo a tristeza faz companhia.
Mas eu a perdoo, ainda a colho em meus braços.
E a amo, mesmo que o tempo do amor tenha acabado.

21 de out. de 2015

Houve o amor


Veleja por este corpo um sangue envenenado pela indiferença.
Sim, houve o amor...
Um dia a alva estrela ascendeu no céu de uma magnífica noite,
e era um tempo de pura perfeição.
Não havia no ar respirado outro elemento além da felicidade;
Felicidade diluída em partículas,
Adentrando o organismo cansado e estéril,
Dando a vida só antes sentida quando menino,
E como menino, possuidor do poder de voar,
Por campos amarelos e prados verdes, tão vivo, tão livre.

Agora que tua voz meiga e aconchegante para sempre silencia,
Agora que teu adeus inexplicável é uma úlcera incurável
no âmago da alma;
Não há dor nos dias, na vida, no peito,
Pois já não resta vida.
Foi a vida junto de ti pelas estradas que nunca mais pisou.
Foi a vida sepultada junto aos sonhos putrefatos.

Mas quão terríveis são os anjos!
Por que deixas-me a memória, se tudo já me tirastes?
Deixas em minha mente a brandura da tua voz,
A maciez de veludo da sua pele,
A brancura do seu sorriso,
O azul celestial dos teus olhos.
E ainda que eu amaldiçoe o dia daquele milagre,
Ainda que eu odeie o amor que ainda insiste em queimar,
Como um vulcão de lava borbulhante,
Nem mesmo a morte levaria tua presença de mim.

16 de out. de 2015

Irene e Rosálio


Era um amor assim: impossível de ser.
Como todo bom amor que se prese.
Irene, mulher frágil, doente,
Esmurrada sempre pela vida
E pelos homens a quem alugava o corpo.
Rosálio, homem forte, doce como uma criança,
Viajador, cheio de histórias na boca.
Analfabeto, carente de saber.

Irene era a mãe, a mulher amada, a professora
Que Rosálio; até então um Nem-Ninguém;
Encontrou ao vagar para fora da construção cinza,
Mais uma da imensa cidade desconhecida,
De cores desmaiadas, quase mortas.

Rosálio era também Romualdo, para Irene.
Aquele amor que um dia atravessou seu peito feito espada afiada.
"Vem" ouve Rosálio de Irene.
"Preciso de dinheiro..." Pensa.
Há o filho e a velha para alimentar.

Mas Romualdo, Rosálio, digo, não tem dinheiro,
E não tem fome do corpo de Irene,
Ele tem sede de palavras, letras, saber,
E Irene oferece.
Ele encontra cores e aconchego naquele ser sofrido.

Irene não repousa mais nos braços de Rosálio,
Apenas na alma agora,
Nas histórias, nos caminhos que volta a percorrer,
Agora que só.
Virou contador, de coisa vivida e coisa inventada...
"Era uma vez, senhoras e senhores..."
Um amor que nunca existiu,
Por isso nunca se findou.


(Poema inspirado no livro "O voo da guará vermelha" de Maria Valéria Rezende)

12 de out. de 2015

Reencontro, despedida


Pelo gosto sei: é lágrima de saudade.
Saudade da poeira da velha estrada,
Do sorriso perdido para sempre, sempre, sempre...
Mas que apenas para mim foi.

Saudade do que também fez sorrir.
O cheiro do mato após a chuva,
A caixa aveludada com dois anéis de prata.
Essas tréguas tão boas, que quase esquecemos da guerra da vida.

É de gratidão também...
Não há esperança no horizonte,
Mas há o brilho eterno das estrelas antigas,
Mortas.

Há a lembrança que força nenhuma corrompe.
A lembrança do que um dia foi visto além da carne,
Além do medo, da vergonha, da dor.
Um dia foi visto algo celestial, dentro e ao redor de mim.

A água que escorre dos olhos é leve,
Como leve escorre o canto dos passarinhos para dentro da mente.
Todo dia é uma despedida triste ao que se ama...
Todo dia é um reencontro feliz com a luz que ainda resiste acesa.

O barqueiro


Não está tão distante a tarde em que se sonhava.
Lágrimas desciam... e não eram amargas ou contaminadas
Pelo veneno mortal da indiferença.
Havia um horizonte claro em que o olhar podia se perder.
E nem mesmo o todo poderoso Medo podia arrancar do peito
A Luz Sagrada que ali queimava
E iluminada todos os cantos de todos os labirintos.

Mas quem diria que eu velejava em barco tão frágil?
Quem me aconselhou a não levar comigo
Todos os mais valiosos tesouros da alma?
A paz, a fé, a esperança, o Amor.
Soltos sobre tábuas finas...
E eu me esqueci que não existe mar sem tempestade,
Pois mesmo em lugar nenhum, eu estava em um lar.

E ao soprar do primeiro vento, ao cair das primeiras gotas,
Treme e range o pequeno e amado barco...
Minha relíquias são lançadas ao mar negro, uma a uma.
Tudo o que eu vejo simplesmente não faz sentido!
As rotas estavam traçadas, eram seguras.
O destino era certo!
Há pouco havia calmaria e azul no céu...

Mergulho na escuridão salgada, por fim.
E dentre tantos demônios submarinos
Mal posso lutar ao ser roubada de mim a última preciosidade.
Mais valiosa que o oxigênio que me faltava,
Mais vital que o lar, que na verdade nunca foi seguro.
Vejo se distanciando o lume fraco do meu Coração.
Levado por mãos agora estranhas e frias e mortas...


11 de out. de 2015

Sobre poetizar...

"Somente através da arte nós conseguimos sair de nós mesmos e conhecer a visão do outro sobre o universo."
Proust

http://www.ricardofaria.com.br/2015/10/escritorespenapolenses.html?spref=fb


"Já para o poeta Marcos Serafim, a literatura entrou na sua vida aos onze anos, quando ganhou um  caderno de anotações da sua irmã.  "Foi ali que comecei a escrever o que pensava e o que sentia. Eu fui escrevendo um caderno após outro, ainda os tenho guardados. São escritos com coisas minhas e adaptações de coisas que me tocavam, principalmente a música. E em certo ponto percebi que estava escrevendo prosas poéticas". 

Marcos possui sete livros publicados, mas lembra com carinho do primeiro "Em meu Jardim Secreto...", lançado em 2010 na biblioteca municipal. "Reuni nele alguns textos escritos, escrevi novos. Já os livros seguintes seriam poemas, não mais prosas poéticas". 
Para ele escrever independente com que estiver a mão quando a inspiração vem. Segundo ele não é uma escolha escrever, sendo que, qualquer coisa pode desencadear essa vontade.

"Eu materializo algo que não cabe mais na alma, ou no campo nos sentimentos, e precisa ser materializado, posto para fora. É a forma que tenho de expressar mais intimamente, mesmo que metaforicamente, algo que está dentro de mim, e sente a necessidade de não estar mais. Não escrevi por escrever. Tudo o que fiz veio de algo real, algum acontecimento ou sensação vivido. Quando alguma experiência toca a alma, eu coloco isso no papel, ou na tela [do computador]". 

Marcos Serafim escreveu também "Alma à tona" de 2012, "Mais de mil palavras - a poesia da imagem" de 2012, "Nuvens de Janeiro" de 2013 "Chiaroscuro" de 2014, "Ex-voto" de 2014, "Tempos Inversos" de 2015." 

Reportagem de Ricardo faria.


10 de out. de 2015

Manifesto contra toda a dor


Haverá canções de amor nos dias de se guardar luto
E esperanças nas tardes em que o silêncio for maior que tudo.
Se encontrarão poemas em folhas rasgadas sobre os móveis;
Poemas tristes, poemas felizes, poemas de amor.
Haverá amor.
Ainda e quando ele não exista.
Haverá amor!
Porque todo medo é antinatural,
Toda dor é uma violação da alma,
Toda saudade, toda vontade; brisas intangíveis.

E meus olhos arderão até que olhos já não existam.
Minha fé queimará sem seu combustível, sem seu oxigênio.
E meu peito será vivo e pulsante,
Mesmo quando ninguém sobre ele pousar a cabeça,
Mesmo quando for apenas pó.

Estão depostos todos os tiranos,
Estão a um fio do fim.
Se aproxima o dia...
As nuvens voltam a banhar o jardim ressequido
E o sol inunda tudo de claridade após o dilúvio.
Agora sei que milagres não acontecem,
Já que tudo é um milagre.
E eu não aceito as migalhas atiradas ao chão!
Sento-me à mesa
E farto-me da vida que me é de direito.

5 de out. de 2015

Poucas cinzas

Que era a luminosidade daquela estrela peculiar,
Ascendo pelo firmamento negro,
Se comparada à claridade que tua alma emanava?

Alvíssima alma! Imaculada, preciosa...
Cujo brilho queimou meus olhos tolos,
Meus olhos que a nada mais pertenciam.

Pois a toquei, e tudo fez-se primavera.
Meus pântanos cobriram-se de lírios,
Meus escombros, novas fortalezas se tornaram.

Mas chegou a manhã ignóbil,
Vestida da realidade em carne crua, sangrenta.
Como o cetim atirado às chamas, decompõe-se o sonho primordial.

Restam em minhas mãos frias apenas poucas cinzas.
Cinzas de memórias sem vida,
Memórias imóveis.

Enfim o Silêncio tira a espada fincada em meu peito.
Jaz no solo a última gota de esperança,
E eu estou cansado.

Adeus, amada dor minha;
Por quatrocentos dias minhas lágrimas te regaram.
Nesta alma já não há solo para tuas raízes...