28 de out. de 2014
Ainda aqui
As damas falam de paraísos distantes.
Minha alma suspira,
Como um fantasma preso na escuridão,
Imaginando inatingível claridade.
Ainda que belas, as manhãs silenciosas já não são o bastante.
Algo sussurra:
Há vida além do silêncio, cultivador de sentimentos.
Há vida além do sabor insosso dos mesmos ventos que te acariciam.
Não fui mesquinho.
Deus talvez me puna por outros pecados,
Mas não por ter oferecido migalhas de mim,
Não por ter entregue qualquer mentira.
Dos meus únicos tesouros: fé, amor, esperança;
Jamais fiz um castelo solitário,
Onde apenas minhas quimeras pudessem residir.
Não existem portas, não existem armadilhas.
Mesmo após a devastação,
O espírito foi ao jardim regar flores que resistiam à estiagem.
Salvou as flores e por elas foi acolhido.
Adormeceram juntos, com suas humildes belezas e grandes fragilidades.
As partes levadas, ressequidas, destruídas
Não retornaram nem retornarão.
Mas outras pilastras brotam lentamente onde as velhas ruíram.
Algo ainda sustenta em pé o coração.
24 de out. de 2014
As rosas já não são as mesmas
Não são as mesmas, as rosas.
Parecem mais frágeis, ansiosas, passageiras.
Mas talvez durem mais que a eternidade prometida pelo amor;
Uma eternidade curta demais.
Talvez resistam às chuvas e às estiagens,
Brotando, sofrendo, desabrochando. Firmes em seu propósito.
Não são as mesmas, as dores.
Finalmente velhas cruzes foram substituídas por novas.
E esta dor, que também parece ser grande demais, longa demais;
É tão mais bela que a antiga dor.
É a dor em resposta pela fé e pela esperança,
Não a dor pela fraqueza e covardia.
Não são os mesmos, os caminhos.
Caminhos, como sentimentos, são feitos de sorrisos, olhares, cores;
Não de pedras.
As pedras estão apenas em alguns corações, talvez não em todos.
Mas minhas pernas permanecem minhas, e ainda que tolas,
Buscam sempre a melhor direção.
Não é a mesma, a alma.
Nasceu e morreu solitária e sonhadora em seu jardim esquecido.
Se expandiu como um fruto belo e suculento;
Um fruto não colhido, agora murcho e amargo.
Porém, talvez, a alma não seja o fruto ignorado,
Mas a árvore esperando a próxima chuva da primavera para reflorir.
19 de out. de 2014
Certeza
Abstenho-me da terrível condição de crente.
Não quero a fé, não quero crer, não quero a esperança
(Na vida, em Deus, nos Homens, no Amor).
Quero o saber, ainda que pouco cintilante diante das maravilhas da imaginação.
Quero a consciência, ainda que em grau defeituoso e limitado,
da força da vida, da residência que Deus faz em mim, da bondade do Homem, da existência do Amor.
Não quero a fé, não quero crer, não quero a esperança
(Na vida, em Deus, nos Homens, no Amor).
Quero o saber, ainda que pouco cintilante diante das maravilhas da imaginação.
Quero a consciência, ainda que em grau defeituoso e limitado,
da força da vida, da residência que Deus faz em mim, da bondade do Homem, da existência do Amor.
16 de out. de 2014
Ausência
Deve haver um lugar onde jazem
todas as belas coisas sufocadas pelo silêncio.
Deve haver um lugar onde repousam
as flores queimadas por um sol indiferente.
A esperança, insistente como as bravas roseiras,
luta para continuar a oferecer cor e perfume.
Mesmo em tempos tão ressequidos,
mesmo entre tantos sentimentos desperdiçados.
Elas, a esperança, a fé, não desistem.
E fico feliz, pois eu já desisti.
Mas elas são tão bonitas e alegres
que permaneço as seguindo.
Poupo as lágrimas para as dores e os medos insuportáveis.
Aceno com gentileza para o sonho que me desdenha.
Aconchego-me nos braços frios da ausência e quase sinto paz;
Uma paz insossa, infértil, como a de um vale onde tudo já pereceu.
11 de out. de 2014
Evanescência
Implorei para que o tempo se confundisse.
Que o passado fosse o presente,
Que o presente fosse passado,
Que o futuro continuasse pertencendo a Deus.
Dos tantos absurdos que já desejei,
Talvez ainda deseje,
Mudar a ordem do tempo não é dos maiores.
Acredite-me.
Mas o tempo não age da mesma forma que os bons amigos:
O tempo não me deu ouvidos, não deu qualquer atenção.
E nem quis acreditar quando vi a mim mesmo chorar num canto escuro,
Encolhido, fetal, imperceptível, como noutroras tão distantes.
Implorei para que o tempo voasse.
Rápido e para longe, levando tudo, tudo...
Mas ele permanecia inalterável, frio, silencioso.
O tempo até se parece com o amor.
Desisti das súplicas.
Que cada dia fosse uma batalha a ser vencida então.
Que cada manhã fosse um renascer,
E cada anoitecer, uma coroação.
Agora não sei como o tempo funciona,
A certeza é que ele passa;
Levando algumas coisas,
Deixando outras.
Nessas idas e vindas, vão pedaços da alma.
E ao contrário da penetração dos sentimentos, tão vivos,
Não doem as partes que morrem.
Morremos educadamente, sem alarde, sem gritos...
Vamos evanescendo, eu, os dias, os sonhos, as memórias.
Como nuvens de primavera num céu quente demais.
Vamos esquecendo a amplidão, a euforia, o sabor.
Os pequenos milagres voltam a ser grandes, pois são os únicos.
9 de out. de 2014
Natureza morta
Somos um vale de lamentosos,
Perdidos em agonias.
Ásperos, cansados, maltrapilhos, lacrimejantes.
Que dias, Bom Deus!
Sem nuvens no céu,
Sem água no chão!
O horizonte ergue-se negro de maus presságios.
Meus ossos enfriam e tremem,
Minha carne queima.
Não só eu caminho contra minha natureza,
Remo contra minha própria correnteza,
Mas tantos e tantos. Nos matamos aos poucos.
Li uma frase displicente:
"Somos instantes"
E meu peito se comprimiu, comprimiu...
Não pode ser, não podemos ser.
Precisa haver algo mais, algo além, algo que sobreviva.
Não me consola a beleza frágil das flores,
Quero a sombra eterna das árvores!
É ingratidão, bem sei:
Mas qualquer memória é mão rude a apertar minha garganta.
É tolice, bem sei:
Mas ainda acredito que existe algum futuro.
6 de out. de 2014
O preço
Pago o preço da minha fé. Pago justo e certo.
Ainda que lacrimejando,
contando estrelas inexistentes num céu de concreto.
Mesmo sentindo algo devorando meu âmago,
consumindo minhas entranhas, deixando horrendo vazio.
Pago o preço da desilusão.
Cada centavo que ela cobra ao bater em minha porta,
pontual e fiel.
Os olhos que enxergam um mundo inexistente estão no meu rosto,
sou o responsável por seus tantos enganos.
Pago, e continuo.
Pois se é verdade que dói tanto ver a flor murchar e morrer,
É verdade também que a isso antecedeu-se o sorriso,
O sorriso sincero ao ver o botão, ao ver a flor preparar suas pétalas
com tanto capricho.
Viver é morrer todos os dias.
Algumas vezes, uma morte pacífica; vem mansa, sem estardalhaço.
Nos leva a alegria como um pássaro que deixa a vida voando,
Só fecha os olhinhos...
Vai voar nalgum paraíso distante.
Outras, a morte é cruel.
Nos come aos pedaços, bruscamente.
Vai sugando faminta a seiva tão bela da alma.
E jorra lágrima, palavra, oração, súplica,
Mas nada impede que ela termine seu serviço.
Viver também é nascer todos os dias.
Sei disso ao ver a luz do sol banhando o salgueiro
que baila na brisa suave e fresca da tarde.
Sinto isso ao ouvir o coração batendo mais alto
ao ler o poema que desenha minha alma completamente nua.
E o nascer é doce.
Ainda que sem sonhos pelos quais lutar,
sente-se a capacidade de sonhar.
E só esse pouco, essa luzinha de nada,
já dá certo sentido ao correr das horas.
Eu aceito a dor que me cabe, sem altos gemidos.
Farei meu melhor pelo Jardim, ainda que outros olhos não o contemple.
Farei meu melhor,
pois as borboletas gigantes gostam do sabor da Primavera,
E eu gosto das borboletas gigantes...
5 de out. de 2014
Morte e vida
É engraçada,
não,
É estranha.
Melhor: é absurda minha relação com a esperança.
Quando estou prestes ao fim, ela nasce e me salva.
Mostra uma bela palheta de cores com que eu poderia repintar o mundo.
Quando todos os outros sentimentos já partiram,
Ou me partiram, ela surge, como uma heroína mitológica,
Livrando-me das correntes do desespero e da solidão.
Então, ela se instala.
E quando tudo parece calmo, ela começa a crescer...
Invade todos os cômodos da alma com seus galhos e raízes.
Me comprime. Rouba meu ar. Rouba a visão do mundo externo.
Quase me leva à morte por inanição;
Por consumir toda minha razão, todo meu instinto.
Então, preciso, não muito delicadamente, destruí-la.
Vou até seu âmago e a enveneno com a verdade.
Ela até resiste, mas acaba por sucumbir e murchar.
Mato a esperança para que ela não me mate.
Então recolho seus restos e sobre eles deixo minhas lágrimas,
Pois, certamente, não queria perdê-la,
Mas precisava; não podemos viver tanto tempo sob o mesmo teto.
Confesso que guardo algumas de suas sementes,
E em certos dias, quando o vento é morno, acabo replantando.
Ver a esperança brotar e crescer e florir é tão lindo...
Quase até me esqueço do dia em que ela tentará me sufocar,
E eu a expulsarei de mim.
1 de out. de 2014
Humano
Não há sangue nestas veias finas,
há canção, memórias, ânsias.
E nesta mente, nunca o silêncio,
mas pensamentos e sentimentos em constante erupção:
livres, livres, livres.
E são santas as minhas lágrimas e as suas.
São santas nossas dores, nossos amores.
Que Deus se perdoe por nos ter criado...
Que Deus nos perdoe por sermos as mais horríveis criaturas da Terra.
Que Deus nos ame por sermos as mais Belas criaturas da Terra.
Não há nada mais mágico que a realidade;
A rua margeada de hibiscos vermelhos...
Não há mais quem culpar,
mas ainda existem os culpados.
E nesta noite eu não os perdoarei.
Eu só queria estar certo,
estar certo e dançar uma boa música em uma sala escura...
Sentir aquele beijo que eu via por dentro do sonho,
sentia por dentro,
era por dentro.
Talvez a canção já esteja tocando,
e ainda que o corpo não se mova,
a alma gire desvairada na brisa da madrugada.
Talvez o sonho tenha sido mais real que este agora.
Talvez eu esteja certo.
"...uma tarde no seu jardim."
Que dolorosa foi a vertigem!
Que cruel foi a ausência de ar!
Enfim, à tona, após mergulho terrivelmente escuro.
Como é saboroso respirar!
Como fez falta!
Ainda que por instante, evapora a aspereza do mundo.
Se quer algo de mim, é do que há em mim, apenas.
Se me vê, vê o que existe, sem rebuscada moldura,
que de fato não tenho,
que de fato não quero.
Enquanto flutuo ao lado do bosque no fim da rua,
o que vejo atrás é apenas o sol poente,
enquanto imagino as mãos que deram vida àquelas árvores,
tão verdes e perfumadas agora,
após as chuvas de primavera.
E é este o tutano da vida!
É este seu gosto mais doce...
Leve, descomplexo.
Feito as flores em que um dia pousará os olhos,
negros e cintilantes, como as noites de outubro.
Delicia-me o infinito da existência que reside nas miudezas.
Como pude ser levado a pensar que não?
Que já não há aqui uma fração de paraíso?
Quando nós mesmos somos uma fração dele...
Quando nós, reunidos, somos sua totalidade.
30 de set. de 2014
Livre
Já não é difícil lidar com a morte dos passados.
É um alívio, provavelmente.
O caminhar entediante e ininterrupto das coisas,
Gera também algumas curas, não apenas angústias.
O que resta de outros tempos são os sentimentos remodelados.
Como a marreta purificando o aço em fogo.
Não me interessa a marreta,
Me interessa o aço.
Tem dias em que o vento não sopra,
Não traz promessas ou canções do futuro.
Me assusta esse mar tão calmo,
Ainda que me doam os ossos quebrados pela última tempestade.
Resta esperança porque posso escolher o que fará de mim escravo.
Embora sempre sejam escondidas em lugares distantes,
Sei onde são enterradas as chaves das minhas algemas;
Isso dá a ilusão de que sou livre.
29 de set. de 2014
'Lúcido'
As palavras vêm porque algo dói.
Tudo isso dói, mesmo o mais leve dos ares.
Porque a solidão que causa esse infinito de pessoas sem vida é cruel.
Naquela tarde, enquanto chovia, e eu me espremia embaixo da marquise,
fugindo da chuva que na verdade eu desejava,
quis chorar.
Quis chorar porque o desamparo, por menor,
é horroroso.
Havia uma escolha: não me envergonhar da chuva,
ou dos que acham que um homem na chuva,
e feliz nela,
é insano.
Nossos aglomerados de gente, ou números, tanto faz,
geram insossa agonia.
Quis ajudar o homem a empurrar o carro parado no meio da avenida,
não pude, não tinha respaldo.
A nova etiqueta pede que sejamos egoístas e medrosos,
se assim não for, mais isolados ficamos. Assustador.
Quis chorar de novo.
Devia ter ajudado o homem, mesmo ele não precisando da minha ajuda.
Mas despertei a tempo da chuva não deixar de cair,
e pude sentir a dor do frio dela na minha pele.
Meditava enquanto corria pelas ruas que pareciam minhas.
Nada havia.
A água não trazia memórias ou esperanças.
As memórias não quero, as esperanças não me querem.
E isso é bom. Como é bom todo fim ser também um começo.
O sentimento não parte, é verdade.
Já visitaram dores e promessas por demais, mas ele resiste;
Acho que não morre mais.
Nada anseia o sentimento, mas eu o guardo e protejo com afeto.
Em outras tardes ainda observo, mesmo que por segundos,
a bola vermelha do sol se deitando, e sorrio.
Nunca me bastei ou irei me bastar,
Sinto isso ao ver os sonhos famintos...
Mas ao menos eles estão de volta à casa.
28 de set. de 2014
Finitude
Sinto medo dessa imensidão.
O mundo é pequeno demais, mas o sentimento é imensurável.
Quando mais alimento o espírito,
mais o espírito se torna escravo de sua voracidade.
Já foi acariciado cada centímetro do jardim,
e sorvidas toda luz e toda escuridão do universo.
Já foram vistos paraísos e infernos,
Mas falta. É pouco. E dói.
Não nego a entrada de nenhuma ilusão.
Todas que batem à porta, adentram, bem recebidas.
Mas a porta agora já permanece destrancada,
e eu finjo não notar quando elas partem sem dizer adeus.
Finitude.
Mesmo acorrentado à eternidade, ela me persegue.
Um sem número de inícios e términos,
de tempestades e calmarias,
e eu sinto cansaço.
É isso a vida:
Irregular.
Indestrutível, mas transitória como um olhar,
como uma flor, como uma esperança.
27 de set. de 2014
Afã
Perdão pelo que eu quis,
e pelo que quero.
Pelo afã de mais um instante,
mais uma tarde.
Entenderia...
Qualquer vivente entenderia ter tomado o caminho errado,
ter cantado às estrelas que quase nem se via... Que nem me ouviam.
Frágeis ossos e músculos escolhiam a estrada, mas com o coração de guia.
Vislumbre, não são para mim as flores.
Ainda que as ame, ainda que as beije, ainda que as proteja;
são para o sentimento,
que busco e invento, premido pelo desejo de perpetuar o transitório.
Já não me envergonho, ainda que devesse, dos meus descaminhos.
É tão belo e vasto o universo em que me perco, embora silencioso demais.
Se somos atados às grosserias da vida, às suas feiuras,
Como não desejar criar laços com o que há de belo?
Eu me perdoo.
Perdoo pelas vezes em que o sonho falou mais alto que a sábia razão.
A tão séria razão, que impede o sofrer, o sangrar, o viver.
Dela finjo proximidade, mas mantenho boa distância.
Eu me perdoo e reincido no pecado de ter fé.
Continuo amaciando a terra com os dedos nus,
Continuo acariciando as pétalas com os lábios,
Continuo revivendo a alma com utopias.
Todos podem
Todos podem desmoronar;
Você, não.
Todos podem fugir;
Você, não.
Todos podem chorar em público;
Você, não.
Todos podem tem um ato ridículo;
Você, não.
Todos podem errar;
Você, não.
Todos podem ser autopiedosos;
Você, não.
Todos podem requerer abrigo;
Você, não.
Todos podem cuspir revolta;
Você, não.
Todos podem ter medo;
Você, não.
Todos podem sonhar alto;
Você, não.
Todos podem acreditar;
Você, não.
Todos podem insistir;
Você, não.
Todos podem dizer não;
Você, não.
Até que...
26 de set. de 2014
Lacuna
Por mais que tenha sido dito,
há lacunas de silêncio absoluto na história.
Não dei voz a toda dor, a todo amor.
Enterrei tanto sentimento em cova rasa,
cova descoberta pelas chuvas, pelos ventos...
Porém, ninguém vê o que apodrece abaixo do chão,
Ou o que floresce acima dele.
Ninguém vê.
E eu busco, mas respondem apenas as mesmas poesias,
as mesmas canções, as mesmas mentiras.
Não restam mais perdões a serem dados,
Fantasmas a serem expulsos.
Há noites em que até a solidão parte,
permanecem as memórias.
Sujas, embaralhadas, inúteis, como cartas de tarô.
Que faria eu com elas?
Assumiria eu o papel de um verme,
nutrindo-me do que já foi vivo, mas hoje se decompõe?
Isso parece certo?
Parece justo?
Cabem em mim todas as escuridões.
Não oferecem transtorno.
Repousam pacíficas já, como se não me cortassem.
Falta espaço para as luzes, que anseiam tomar fôlego,
Que necessitam algo para iluminar;
Mas são mudas,
Não há o que as ouça.
O soberano
Há vida nestes ventos de primavera,
anunciando chuvas que agradam as roseiras.
Há vida nos galhos escuros e retorcidos do ipê,
que pela manhã inspiravam piedade,
já agora, com sua erupção de flores brancas,
inspiram sorrisos e carícias aos olhos.
É vida até mesmo esta dor,
este silêncio e ausência,
e este barulho incômodo vindo dos porões da alma.
Não são meus invisíveis sangramentos
que impedirão o desabrochamento da rosa negra.
Sim, eu amo.
E faz muito.
E este Amor não nasceu no longínquo e desimportante olhar.
Meu Amor nasceu comigo.
Nos primórdios do meu espírito enquanto ainda habitava o âmago de Deus.
Por isso ele independe de mim.
Ele alcança as pedras, as ruas, os poemas, as canções.
Ele veleja por mares e ares, livre.
Pois não sou seu dono, não possuo poder sobre seus atos,
sou seu súdito,
E meus movimentos são rendidos aos seus passos, às suas ânsias.
Meu Amor é intacto, imaculável.
Imortal. Indestrutível.
Evanescem as ilusões, como a bruma aos primeiros raios solares;
Decompõem-se utopias e quimeras,
apodrecendo,
fertilizam o solo que alimenta lírios e primaveras.
Mas o Amor não. Ele é infinito.
É poupado das fúteis regras e leis humanas.
Se sobrepõe, soberano.
Não necessita residir em castelos,
de nuvens ou de concreto.
É benévolo.
Reside em mim,
um quase nada.
25 de set. de 2014
Alma
Não é enferma, a alma.
É faminta.
Não implora, oferece.
É flor simples. Uma em meio a tantas outras
Num jardim não visitado.
Mas é fiel à sua sina. Bela sina.
Tem cor, tem perfume, tem pele de veludo.
Embora também murche,
Embora também perca pétalas ao vento.
Mas é forte, a alma.
Aprendeu com o coração a ver o mundo girar
E a sobreviver às paradas.
É até admirável, pois se tanto se cansa,
Também sabe voltar à vida,
Como uma chuva de primavera.
Persiste. Um santuário secular.
Puído pelo tempo, pelo vento, pelo sonho que a desdenha.
Mas persiste. Os alicerces são profundos.
Agora é calma, embora eterna apaixonada.
Talvez tenha aprendido a controlar as chamas,
Talvez seja apenas chamas.
24 de set. de 2014
Âmago
De que me consola olhar a rosa e somente ver a rosa?
Não. Há algo além, e é nesse além que preciso chegar,
é esse perfume que preciso sentir.
É o espírito dela que preciso tocar.
As coisas não são as coisas.
As coisas são aquilo que se sente por elas.
O mesmo sol que há dois dias chovia gotículas de ouro,
hoje só aquece e parece tão pouco. É pouco.
A alma continua a desnudar-se,
como se infinitamente camadas e camadas ficassem puídas e acabassem.
Uma batalha interminável em busca do sentido, do âmago, da Luz,
que deve existir mais adentro, mais afundo.
E esta linda dor, esta maravilhosa e abençoada dor,
é quem sussurra aos meus ouvidos: você está vivo!
Os olhos não apenas sobrepassam como os ventos,
eles penetram como agulhas. Quero o que está dentro.
Sim, também questiono-me sobre outro caminho.
Os famosos caminhos razoáveis que todos seguem,
para assim ostentar uma vida razoável.
Talvez não eu. Ainda não aprendi tal boba lição.
E em minhas veias quem circula é o amor,
como o vermelho que repousa nas células da rosa de botão ainda negro.
Viremos à luz, um dia. Eu, a rosa.
Cumpriremos em verdade nossa sina, ainda que solitariamente.
22 de set. de 2014
Belo
É preciso que se recorde:
Aquela tarde se pôs mais dourada que qualquer outra tarde.
Ainda que a luz esbarrasse nas árvores e edifícios,
a alma, enfim livre, enxergava o horizonte sem fim;
sem medos, sem dores, sem muros...
Apenas os jasmins, os gramados, a imensidão.
Havia a rosa, tingida de paz por fora, de amor por dentro.
Tão bela a rosa, tão belo o momento.
E não causava angústia a fragilidade dela, ou a minha;
algo em nós é eterno. Eu sinto.
A esperança age por meios desconhecidos.
É preciso que se preserve:
Nunca foi observada tamanha doçura;
nos olhos, gestos, palavras, pensamentos.
Não foi preciso mais que a presença para tocar o paraíso.
Tão leve, tão profundo, tão próximo.
O Belo não era apenas admirado, o Belo era uma parte, uma extensão.
Tal experiência soprou vida à uma fé cambaleante.
E a intensidade do Belo me traga, absorve, aninha-me em seu âmago.
Faz-me vivo.
É preciso agradecer:
Houve uma tarde dourada, morna, dócil.
Houve uma felicidade desconhecida circulando por veias e jardins.
Houve um sorriso ininterrupto pelos quilômetros de distância.
Houve...
E ainda há.
16 de set. de 2014
Terra
A donzela me presenteia com gordas sementes de girassol;
Aceito com carinho e esperança.
Da terra fraca nascerão grandes flores amarelas...
Da minha alma, brotou um sorriso simples, sincero.
Em meio às tantas pessoas com suas tantas dores,
embalo as minhas; as minhas dores enfim pacíficas;
e observo como uma criança deslumbrada as pétalas cintilantes
da primeira amarilis a florescer neste fim de inverno.
Dentre tantas fórmulas, letras, lamúrias, pedidos,
apenas as pequenas rosas vermelhas,
juntas de um "para você!"
fazem alguma boa lágrima de emoção escorrer.
"Alguma coisa persiste bela e admirável nesse mundo!"
Eu penso enquanto os olhos nublam.
Então anseio acariciar a terra novamente
e fazer dela nascer cor e perfume.
A terra aceita meu reles amor.
Pois é sábia e sabe que não há amor reles.
A terra acolhe meu espírito ainda e já cansado, o acaricia.
E quase oro: "Perdão, meu Deus,
por não saber bem o que fazer da bela vida que me ofereceu.".
A terra responde: "O perdão não se faz necessário. O Amor, sim.".
14 de set. de 2014
Respirar novamente
Que saudade dos dias em que as ilusões não iam tão longe.
Saudade daquelas tardes em que o mundo ao redor, simplesinho que só,
abrigava reinos encantados e criaturas mágicas.
A infância dava invisibilidade, dava poderes.
O medo, se havia, se dissipava tão rápido.
E a vida, ainda que desmoronasse dia sim, dia não,
era tão viva! Exalava esperança.
Os dias mais adornados de trevas já estão esquecidos
num passado coberto por poeira e lençóis amarelados.
Todos aqueles fantasmas se foram,
também todos os arrependimentos.
Se olho para trás é por sentir falta de um tempo em que haviam tréguas.
O sonho - palavra agora proibida - não era projetado sobre algo ou alguém.
O coração era preenchido pelos pequenos milagres:
flor, sol, chuva, cheiro, gosto, canção, poema, amigo.
Depois de tudo,
sei que soa como ingratidão querer esquecer o que há pouco era vivo.
Mas entre tanta coisa torpe que estes olhos viram,
apenas a lembrança do paraíso fere. Fere inacreditavelmente.
Não assusta qualquer demônio, enfrento-os.
Assusta lembrar as cores do céu, agora que tudo volta a ser noite negra.
Assusta lembrar do anjo que um dia me emprestou suas asas,
mas as levou junto de si para sempre novamente.
Em cada esquina repousa um caco de coração.
Já não os recolho mais... para que quereria-o batendo outra vez?
Apenas observo complacente, e sigo adiante,
como se houvesse um 'adiante'.
Meu único desejo é sentir sabor no ar outra vez.
Meu único desejo é respirar novamente.
"Ex-voto"
Ofereço meu "Ex-voto", livro de poemas que escrevi com toda intensidade do coração.
Ele narra a trajetória de um coração que encontra seu sonho maior, o Amor, e o vê partir... Mas não apenas isso. Os poemas emanam a busca pelo divino, pela fé. Mergulha nos mistérios que a vida nos faz suportar a todo momento.
Todo ex-voto é uma prova de superação, uma prova de que a pior fase da Dor passou. Que assim seja...
Disponível em: https://www.clubedeautores.com.br/book/171792--Exvoto
3 de set. de 2014
Deserção
Repousa agora, alma devastada.
Tira dos ombros sangrentos e magros
os cadáveres do teu exército de sonhos.
Deita tua espada, descansa teu punho aberto.
É o fim.
Tuas armas sequer arranharam a grossa pele das quimeras.
Quimeras que lamberam tua carne com língua de aço,
com saliva ácida.
Quimeras que criastes.
Deixa o campo, deixa os mortos, deixa...
Por que ainda pousa teus olhos sobre esse vale de desgosto?
Não haverá mais vida em outro canto?
Insistes... criança tola. Não tens mesmo um pingo de orgulho!
Mas sei que ele nunca te fez qualquer falta.
Contudo, levanta teu queixo da lama que bebes, e segue.
Num outro lado deve nascer o sol.
Não há culpado para a luz ou para a escuridão.
Agradece por teu coração sangrar. Sinal que vive.
Esqueça a guerra perdida e as batalhas vencidas.
Esquece dos golpes tomados e das flores colhidas.
Esquece de tudo. Até deste conselho inútil.
Não esquecerá de nada. Bem sei.
Alma teimosa feito a vida!
Revive e revive os dias de frágil glória.
31 de ago. de 2014
Distância
Peço a Deus coisas que ele pede a mim.
"Troque os muros por pontes, Senhor,
A saudade, por esquecimento."
Peço a Deus, mas não em tom de oração.
É como o "ai!" gritado pela dor.
Dor insana, autoflagelação.
As estradas me doem...
cada quilômetro, cada prédio, cada árvore.
Mas não são as estradas, são as distâncias.
A distância que a roda da vida percorre,
Amassa, deixa para trás.
E eu choro.
Choro e suplico. Como se o choro curasse e a súplica fosse ouvida.
Nada cura, nada ouve-se.
Tudo houve.
Lembro também de nomes.
De vilas, cidades, megalópoles, flores, anjos e passarinhos.
Tudo isso dentro de mim ocupando tanto espaço.
E eu sobro, eu sou espremido e escorro pelas frestas. Dilacerado.
Que significa essa dor, meu Deus? (agora é uma oração).
Que sentido tem carregar memórias?
Enfim entendo o porquê de tudo ser esquecido quando mergulhamos na carne:
Não é por conta dos pecados, ou erros, ou angústias pretéritas,
É pelo Belo. Pelo Belo que se perde na poeira dos séculos. Ou dias.
Quanta lonjura percorremos em vida e em morte...
Não ferem as assombrações, os pecados, as trilhas erradas,
Fere a Felicidade; o adeus que, de tempos em tempos, damos a ela.
De "Ex-voto".
30 de ago. de 2014
Criança
De nada serve a escuridão da estrada e a velocidade na estrada,
Nem a lua que sorri simpática como menina feliz.
O mundo ao redor não existe.
Embora eu visse as árvores, os reflexos,
Embora eu ouvisse os barulhos, os cantos dos pássaros noturnos,
Embora eu sentisse o frio, e o calor, o perfume.
Nada há.
E mesmo tudo que há, soa vão,
sem nexo, não conectável.
Não haverá mais lamentos por memórias,
Não haverá mais lamentos por dias cristalizados no passado.
O lamento é pelo silêncio dos anjos, pelo barulho dos fantasmas.
Mas oh, pequena alma!
Que sabe da dor, do medo, da lágrima ácida?
Criança cega de desespero por seus brinquedos partidos!
Criança tola que tenta colher nuvens e comover heróis.
Enquanto o mundo é isso, nada além disso:
Vazio.
De "Ex-voto".
29 de ago. de 2014
Sala de Milagres
Repouso meus pés cansados neste Solo Santo, Senhor.
Venho depositar mais uma relíquia.
Uma memória das mais profundas, das mais fortes, das que mais queimam.
Dentro do Santuário da minha Alma, há esta Sala de Milagres.
Deixo, delicadamente, mais este ex-voto.
Meu frágil coração de pedras e flores.
Não exatamente uma desobrigação, mas algo que necessita repouso.
Ainda que não exista santidade em mim ou em meus passos,
Ainda que sejamos tortos, cambaleantes,
como mariposas confusas com a luz e temerosas com a escuridão,
Há o Divino também construído entre minhas sujidades.
Há Comunhão.
Existe o fim, Senhor?
Tantos dizem que sim. Que o passado são águas que jamais retornam.
Se enganam, eu penso. Até mesmo águas passadas retornam, sob alguma forma.
Mas acredito mesmo que a existência é um livro escrito em tinta eterna.
Se muito, o que consegue-se é virar a página, jamais apagar qualquer coisa.
A Alma tudo guarda, mesmo o que por tão pouco permanece em seus braços.
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