5 de ago. de 2014

Universos abertos


Que parte não esteve à mostra?
Qual estrela foi oculta aos teus olhos?
Minhas galáxias e buracos negros todos ao teu dispor,
Como se me fosse íntimo desde o nascer,
Um eu diverso, vivendo uma vida alheia.

Sem chaves, sem portas.
Os contratos foram assinados com o primeiro olhar:
“Confio e amo, para sempre.”
Minha ingenuidade é quase bela...
Já não é mais que óbvio que a eternidade para uns é diferente da de outros?

Ainda assim te levei ao universo,
Falei quase todas as noites das estrelas,
Das que subiam e das que caíam,
Das que brilhavam tanto daqui do fim do mundo.
Sem portões, sem muros; apenas pontes, muitas pontes.

Então disse adeus, com hora para chegar e hora para partir.
Tudo tão coerente e preciso.
Lógico e recheado de dor.
E eu, feito criança tola que não aprende ao primeiro tapa,
Dançava valsas com a esperança até sua chegada.
Até que, enfim, todas as canções findaram, e eu enxerguei a mim,
Dançando só, sem a esperança, sem mais nada, e ouvi as batidas da vergonha na porta.
Mas ainda não abri, cansado demais para fazer sala para essa velha conhecida impertinente.





Prelúdio à memória


Te mostrei a rosa; nem viu a rosa, eu sei.
O mundo acabava-se, e toda atenção devia estar voltada ao útil.
E as palavras, 
que como um barco à vela te levariam as promessas, 
as razões para não dizer adeus, 
as memórias mais doces e as canções que nos uniram,
nem ao menos aportaram em nosso cais...
Naufragaram num oceano lacrimoso e cheio de soluços.

Quem seria eu para falar do melhor ou do pior caminho?
Falar da melhor ou pior decisão?
Falar da vida que poderia ser tão bela? 
Falar de sonhos?
Quem seria eu para questionar seus escombros?
Eu, que ergo um observando outro monumento desabar...

Nem mesmo as memórias são eternas.
E a custo de dias secos e ventosos como deste agosto, irão se perdendo.
Primeiro as mais delicadas e sutis, 
como o brilho do seu olhar e a gentileza do seu caminhar;
Depois, as mais poderosas e profundas, 
como seu sorriso naquela estrada longa e pedregosa.
As memórias vão acumulando poeira, como um diamante esquecido no porão.
O diamante, indestrutível, permanece lá, intacto, mas não é visto.
É um gracejo de Deus para tocarmos adiante esse barco... 
sabe-se lá pra onde.

Sei é que não chorarei mais.
Não só o coração, mas os olhos também jazem cansados em demasia.
Chega tempestade, parte tempestade; chega ventania, parte ventania.
E tudo se repete, numa falta de criatividade sem fim.
Enquanto o mundo acaba, vou plantando minhas flores...

“- A Beleza não é um luxo, é uma necessidade humana.”
Disse , sabiamente, a poetisa.
Não me importo de beber lágrimas, mas que sejam de boa emoção;
Não mais aquelas venenosas de tristeza.
Sorverei sim meus prantos, mas observando o desabrochar do jardim.
O jardim que antes dava desespero de tanta pedra,
E uma a uma tirei com as mãos,
O jardim que agora ressurge formoso em flor.

4 de ago. de 2014

Errados


Foi-se a flor de laranjeira, a flor que embelezava as noites e os habitantes dela.
Foi-se o perfume inebriante, os sons baixinhos de risos na madrugada sonolenta.
Toda a magia partiu, como um fogo de artifício bonito e colorido, explodindo no céu.
A luz do dia partiu, tão honrosa consigo mesma, mas não deixou estrelas a me consolar.

Não há nada de errado com o mundo.
Tudo está na mais perfeita ordem que a maioria deseja.
Nesta realidade gerida pelo inferno, nada tenho direito de criticar.
Errado estou eu, estamos nós, aqueles que acreditam nos malditos contos de fadas, sempre com finais felizes.
Só que, ninguém, jamais, se lembra de dizer que qualquer final que seja, é um final triste.

Não é isso o mundo?
Feras se matando por um bocado de carne?
Entorpecidas almas vagando com os músculos preenchidos de morfina?
Abutres egoístas digladiando por um pedaço de cadáver?

Errado estou eu, que gasto meus últimos centavos com roseiras,
Esperando que da terra morta e infértil brote alguma poesia,
alguma consolação aos olhos que só fazem ver adeuses,
só fazem ver gritos e distâncias.

"Fracos!"
Bradarão em coro todos os anjos ao chegarmos ao além.
"Fracos e mesquinhos, todos vocês!"
E calaremos, pois nada melhor que isso somos.

Entrego com mãos humildes e trêmulas todas as quimeras que me foram oferecidas.
Que fazer se não me render à turba insana?
Plantar flores, remover pedras?
O mundo agoniza, e o perfume das minhas flores não curam dor alguma.

Que alguém nos ouça!
Que alguém, Quem quer que seja, saiba o sentido de toda essa barbárie.
Pois a pouca carne e ossos que possuo já me cansa, 
já me é pesado demais,
E assim é com todos, todos.

Porque, mesmo com os pés na terra, 
acorrentado, átomo a átomo, à matéria,
vi que a vida persiste após a morte.
pois morri na última manhã de sábado,
e continuo aqui sentindo cada centímetro da minha pele em chamas,
bebendo cada litro do fel que se transformou meu amor ao não mais poder te oferecer.


3 de ago. de 2014

Pedras e rosas


Tantas canções, tantos poemas, tantas flores, tanto barulho e não há nada.
Não sorria enquanto colhia as pedras que colocaria aos pés das roseiras, 
cujo perfume você não sentirá,
cuja cor não será por mais ninguém vista,
cujo desabrochar apenas aos meus olhos murchos se revelarão.

De que serve agora meu Jardim? 
Ou minha certeza?
Ou minha fé?
Ou eu?

Sempre soube que as tempestades não viriam sem aviso.
Com uma mão de Deus no ombro, e a outra apontando o horizonte negro,
eu as prevejo.
Sempre foi assim.
E eu me encolhi, como um feto, como um botão não desperto e só fiz chorar.

Calei minhas certezas que nem a mim já serviam...
Um adeus é como uma maldição que quase nada no mundo pode quebrar,
Uma maldição criada pelo próprio amor,
Uma maldição que só o que a conjurou pode desfazer.

Recolhi pedras e plantei roseiras, como disse a Mestra.
E agora entendo que plantar roseiras e depositar as pedras
coloridas aos seus pés, é na verdade criar um túmulo aos sentimentos 
que não mais existirão.

Recolher pedras e plantar roseiras é um ato de sepultar sentimentos que partiram, ou que não partiram, mas não podem mais viver.
Plantei uma roseira negra para o Sonho,
Plantei uma roseira rosa o Amor,
Rodeei de pedras para que não sejam danificadas pelos ventos ou chuvas.

Todos os dias, enquanto esses dias forem sendo desperdiçados 
com essa realidade imbecil que idolatram, irei até o jardim-que-ninguém-vê para sentir o perfume do Amor e do Sonho.
Feito a criança que eu era, que subia nas árvores para tentar pegar nuvens.

Falta a terceira roseira, a roseira ainda sem cor, 
ainda não acolhida pelo jardim.
Falta a sepultura da Saudade, porque ainda ontem o Amor esteve aqui e o coração, sempre lento demais, ainda não se deu conta que ele se foi.

Amanhã eu planto.



2 de ago. de 2014

Elegia



Deita fria junto aos mortos a minha esperança.
E choro pelos mortos e choro pela esperança
e choro pelo choro, pelo grito, pela ânsia
represados.
Choro pela inutilidade das minhas lágrimas,
das minhas lembranças, das minhas palavras,
das minhas mãos negadas.

Do meu pior fiz meu melhor,
Do meu sangue fiz água fresca,
Da minha escuridão inverti as cores,
fiz luz.

E a quem importa, se não a mim?
Quem tem olhos para meus fracassos e meus troféus?
Para onde vão todas as promessas esquecidas?
Para onde vão todos os sonhos murchos?

Mas recolho dos ventos a que atirei minhas blasfêmias lamentosas.
Poupo da minha ira o frio mais gélido
que se torna o amor ao não mais o ser.
O frio que, eu já devia saber, nunca irá partir.
Poupo também meu peito de sentir minha mão o invadindo
para atirar ao solo úmido meu coração imbecil.

Apenas a esperança peço que parta,
que desapareça,
que morra,
para que,
quem sabe assim,
eu consiga viver em seu lugar.

23/07/2014

Cemitério de sentimentos


O amor... essa coisa imprevisível.
Ontem valia a vida, hoje é só saudade.
O silêncio brota dos canteiros onde foram plantadas esperanças,
Dores escorrem dos lábios que ofereciam sorrisos adocicados.

O amor, o erro mais tolo entre todos os erros todos.
A eternidade mais breve, a chama mais veloz, o buraco mais profundo.

Era tão importante, lembra?
Um suspiro, uma palavra, uma poesia, uma fotografia?
Então chega o futuro e o futuro rouba todos os arco-íris,
E nós olhando para o teto deitados em nossas camas distantes.

O amor e toda sua perfeição em mãos ásperas como as minhas nunca sobrevive muito.
Nós não sabemos amar, nós somos ilusionistas deslumbrados com as próprias mágicas,
Ignorando que tudo é um efeito especial deslumbrante.
Mas ignore, ignore o apelo insandescido do meu peito: 
amar é minha busca primordial, não a sua.


18/07/2014

O que termina, o que continua


A vida continua.
A felicidade termina.
Simples e óbvio.

Se em todas as coisas tão lindas,
todas as coisas que luziam,
todas as coisas que emanavam o sagrado,
eu vejo tua face,
e se agora tua face não vejo,
que resta?

A felicidade se foi.
Doce e delicada, se despede como o inverno.
Silenciosa; uma folha desprendida, uma flor despencada,
flutuando até o chão ressequido.

O inverno se despede... mas não virá a primavera.


31/07/2014

31 de jul. de 2014

Aos anjos


Peço aos anjos que despertem do sono que antes lhes permiti.
Rogo o vento de suas asas para atiçar o fogo frágil da minha fé.
Que ela reviva. Que ela reviva...
Pois passo pelas ruas a flutuar, quase sem vida,
mais sendo levado pelo caminho do que indo por ele.
De olhos estáticos, quase cegos,
deixando para traz clamores e esperanças para os quais sempre retorno.

Minha natureza torna-se a natureza ao redor,
minhas folhas caem e apodrecem e alimentam novas folhas.
Um ciclo doloroso de sobrevivência.

Os sentimentos, que deveriam trajar calmaria,
revolvem-se como as ondas tenebrosas dos mares que nunca conheci.
Os mares dos quais apenas imagino a imensidão;
O vazio acima, o infinito da criação abaixo.

Peço em tom mais alto que os anjos despertem!
Que ouçam a voz rouca do meu olhar sem brilho.
Que socorram corações que se liquefazem. 
Que me ajudem a calar minha voz, 
controlar as palavras que despencam em excessos, como cachoeiras.
Mas os anjos permanecem imóveis, embora eu os perceba aqui.
E duas lágrimas caem, num misto de conforto e desespero.

Reconheço que vejo apenas o que sinto,
Limitado sou, como qualquer outro vivente.
Vejo como sinto e talvez não como de fato é.
Vejo meu medo, meu desejo, minha saudade...
Vejo o que é próprio de mim,
Enquanto não vejo aquilo que não é, mas tanto amo.

Lírio da paz


Em meio às tempestades, com ventos ferozes
uivando nas árvores e cabos elétricos;
Em meio aos pesadelos em que eu, já velho,
me escondia embaixo da cama como qualquer criança;
Em meio às sementes que teimam em não germinar,
ele veio: um pequeno lírio da paz.

A coisa que pensei quando o coloquei naquele canto foi:
Quando o amor passar pela porta, será a primeira coisa que ele verá.
E talvez o coração do amor se alegre em ver aquela pequena beleza humilde.
Mas agora o observo com olhos marejados...
Talvez o amor não o veja.

Talvez apenas eu possa ver e dar importância àquelas flores.
E eu toco o lírio e cuido do lírio como se cuidasse um pouco do amor.
Ignorando as paredes sujas da minha alma,
Ignorando os estrondos que os fantasmas emitem de dentro dessas paredes,
Ignorando que a vida e o universo persistem além do sonho e do verso.

Mentimos tão bem quando dizemos não querer nada do amor.
Fingimos tão bem que não somos mais espíritos enlameados,
apenas rastejando rumo à angelitude.
Do amor queremos o amor.
Queremos que ele nos absorva em seu âmago,
Nos envolva como a terra envolve a semente.

Mas não mentimos quando dizemos que o amor é forte.
Forte como o Jardim que persiste vivo após a tempestade.
Forte como meu apreço pelo pequeno e doce lírio, que ali,
imóvel e silencioso, me obriga a entender como a esperança
e a vida
trabalham em seu tempo, e não no do meu coração.

30 de jul. de 2014


Peço abraço à lágrima que não cai dos olhos,
como uma angústia sem remédio descoberto.
Peço abraço à bondosa velha cabocla, 
doutora da vida e dos ventos.
Peço abraço à poesia, que, como mãe,
acolhe seu filho repleto de medos e deformidades.

Peço colo ao sol, que veleja calmo na tarde morna,
que acolhe a alma frígida, dolorida.
Peço colo ao silêncio, que fere, mas também alivia.
Peço calma à memória, minha menina que chora.

Há tantos dias sendo poeira,
repousando sem escolha sobre diamantes e esperanças apodrecidas.
Um pó fino, suave manto sobre os telhados e laranjeiras.
Se não houvesse em mim o que sobrevivesse à carne eu não sentiria tanto;
nem a dor, nem o desejo, nem tanta saudade.

Mas calo o sofrer da minha alma diante de maiores sofreres.
Ainda há o sonho, em que os anjos, doces amigos, destroem medos e quilômetros.
Como antes e sempre, não sei onde pousar meus passos.
Meus pés, pouco usados, acostumados a levitarem ao bater das asas, 
sangram aos pedregulhos do chão.
E enquanto acaricio o que já são feridas, tento compreender a diferença entre nós e laços.

Seguro as lágrimas, como botões ainda despreparados para exposição de suas cores.
Seguro o peito frágil, carente do único abraço consolador.
E nesses dias de profunda escuridão, esforço-me para amar corretamente.
É assim, depois de rastejar nos pântanos e por fim conhecer a beleza dos bosques, é difícil não se acostumar aos milagres.

E nós, os sem-ambição, somos os piores ambiciosos.
Queremos a verdade, queremos a paz, queremos o amor e a luz.
Logo aqui, num mundo onde tudo parece mal colocado, desencaixado, fora do lugar.
Nós, loucos, sonhadores, marginais, poetas, amantes, deserdados, filhos-pródigos.
Nós, os ridicularizados, que acreditamos que também somos parte do paraíso. 

Você é poesia


Quando te encontrei, encontre foi a poesia.
Ali, suave e macia, de olhos azuis...
Sorria o sorriso mais belo, a poesia.
E eu te amei desde os primórdios,
pois desde os primórdios amei a poesia.
E eu te desejei desde muito antigamente,
pois desde muito antigamente desejei poder respirar o belo.

E meus olhos deslumbrados quase não viram que a poesia é viva,
e sente, e sofre.
Assim como as flores que murcham e as pedras que se tornam migalhas;
a poesia de carne sangra, e chora, e vê tristonha o céu poluído da noite sem luzes naturais.
Os sons poderosos e as palavras todas curam tão pouco...

Os ipês já iniciaram seus epitáfios:
Rosados, amarelados, branqueados.
Tento dizer a todos eles que não sofram, não.
A morte não virá.
O frio do inverno é só maldade do sol que não quer estar próximo.

Haverá primavera e estes dedos tão secos e fracos
permanecerão com as mãos na terra, como desde sempre.
E tentarei acreditar que cada semente simples germinada
é uma pequena esperança que retorna ao coração dolorido.

Que, sutilmente, essas esperanças possam serrar as correntes
que nos atam ao desespero.
Em tempos sombrios o que resta é continuar a semear.
Talvez com o desabrochar das flores a poesia volte a sorrir.

Volte a sorrir aquele sorriso que tanta falta faz à minha alma.

29 de jul. de 2014

Crescer dói


Há quanto não te falo da beleza da noite?
Diante da tamanha escuridão dos tempos
até parece que as estrelas não estão mais lá.
Mas estão, como um carinho de Deus aos olhos dos homens,
Carentes, famintos do que é belo.

Já sei que a esperança não jorra das palavras
como a água jorra de um buraco no chão no meio do agreste.
E se não basta cruzar os braços, tampouco bem-vindo é o desespero.
Vamos cavando, lentamente, até que a vida volte a florescer.

Crescer dói.
Dói porque temos de remover a casca grossa que envolve a alma.
Temos de deixar tradições, condições, filosofias, ilusões.
Tudo aquilo que foi abrigo, torna-se prisão.
Livrar-se do seguro é crescer. 

Como então não rogar pelo amor?
Como não ver nele o farol abençoado em meio a esse oceano absurdo de ilusões?
Algo precisa permanecer firme e eterno, 
algo precisa permanecer visível quando a noite e até os dias são escuros demais.

Pedem-me lógica e coerência;
todos absorvidos por um cotidiano que zomba de nós e zomba de si mesmo.
Não me peçam nada, por favor.
Ao menos meu coração deixem em paz...
Que cresça da forma que lhe convém. 

Mais dia, menos dia, a realidade nos devora a todos,
Como uma fera enjaulada que por descuido escapa.
Mas enjaulado também há o pássaro, que toda noite canta alegremente
a todos da vizinhança; ignorante, pobrezinho, de sua condição de escravo.

Também eu canto, ignorante da inutilidade do meu canto.
Canto e persisto, como a noite que volta com seu bordado de estrelas 
após tempos de céus apenas enegrecidos.
Canto e persisto, como as plantas que sugam flores da terra tão surrada, tão pobre.
Eu canto, porque crescer dói, mas ser maior é bem bonito.


28 de jul. de 2014

?


De onde virá o socorro?
Do sol que nem se mostra?
Do frio que envolve os dias num abraço apertado?
Das flores que desabrocham belas e perfumadas, mas despedaçam-se velozmente?

De onde virá o calor?
Das lembranças mágicas onde já pousa fina camada de poeira?
Da estrada vazia e não muito bela que talvez nossos pés não pisem mais?
Do anel tão bonito e eterno, como assim deveria ser o amor?

De onde virá o consolo?
Das palavras e mais palavras atiradas ao vento?
Do jardim frágil, que mera chuva levaria à lama do solo?
Da canção tão bela que já não ouvimos mais?

De onde virá a paz?
Do torpor que mergulha a mente num sono negro e sem lembranças?
Dos aplausos falsos?
Dos sonhos, em que a alma é livre e o amor não é perseguido  pela realidade faminta?

De onde virá a esperança?
Agora que o silêncio é mais bem-vindo que a presença?
De onde virá o sorriso agora que os olhos apenas fitam o chão?
De onde virá o amor, agora que apenas a tristeza parece reinar?

22 de jul. de 2014

É só Agosto...


Ecoa por algum canto meu clamor pelo que transcende a vida que se vê?
No que poderiam pousar os sentidos além desta fria ilusão?
A carne, a distância, os móveis, as casas, os jardins, as ruas, tudo parece ocultar o que de raro, verdadeiro e eterno existe.
Cascas, alegorias; áridas, espinhentas, duras.

A fantasia ainda me acena das nuvens, como nas épocas idas de menino.
A fantasia... uma pequena ponte florida aos verdadeiros mundos.
Com o passar dos segundos, das décadas, a ignóbil realidade penetra.
É injetada à força nos meus braços fracos.
Quanto mais ela me preenche, mais de mim morre, mais de mim fica vazio.

Não é gloriosa a missão de buscar o indestrutível em um mundo transitório.
Não espanta o frio e o medo buscar abrigo em um castelo de cartas.
E não parece certo repousar nos ombros do Amor o fardo pesado da minha última esperança.

Se às árvores foi dado o solo que as sustenta e aos pássaros a leveza do ar em que bailam,
Por que negar aos Homens algum sentido nesse caos de Dante ao qual somos atirados?
Diziam-me que era errado não ter qualquer fé,
Agora dizem-me que ter fé é para os tolos.

Mas pelos ventos, eu sei:
É só Agosto que se aproxima,
Lábios e ares secos anunciam.
Agosto traz esse inconformismo perante o que,
de fato,
é inconformável. 
A luz é difusa, e difusos também são as sensações e o pensamento.
Some-se à proximidade de Agosto uma distância de centenas de quilômetros...
Não há Homem são nessas condições.

Perdão


Peço perdão à palavra.
A palavra que soprei ao vento, como semente alada,
e observei, complacente, deitar sobre rochedos estéreis.
Não há culpa para a palavra,
Nem há culpa para o rochedo.
É minha a culpa.

Peço perdão ao silêncio, que grita e grita,
pedindo que eu o veja, que eu o toque.
E eu nego, firme, como se o silêncio não existisse,
Como se o silêncio não me preenchesse
e não fosse eu mesmo.

Peço perdão às flores, às quais dei o duro fardo
de serem esperança.
E ainda sofro e me revolto ao vê-las murchar 
e abandonar meu jardim.
Que obrigação teriam elas com minha fé?

Peço perdão à realidade que recuso,
recuso com veemência,
entorpecido por sonhos infantis, quimeras, utopias, epifanias.
Como se em minhas veias não corresse sangue vermelho e quente,
mas apenas sentimentos.
Como se a ilusão ainda pudesse me salvar,
quando na verdade, é minha pena.

15 de jul. de 2014

Sob água


Lembro sorrindo dos dias de sol.
De manhãs não tão frias, em que o vento delicado trazia bailando
o perfume de flores recém-desabrochadas.

Ainda me acalenta o calor, como se ele nunca se despedisse,
E sua presença silenciosa,
Ainda nas roupas, nas paredes, nos lábios, no espírito.

Meus pés recordam-se da terra firme,
Uma terra de certezas e abrigos.
A terra que agora é mar, e o mar nos sobrepõe.

Meu coração segura memórias como fotografias inalteráveis,
Ignorando a pressão que as águas exercem,
Ignorando a imensidão delas.

Acalma-te, peço ao peito, 
enquanto as correntes marítimas o seguram no fundo.
Apascenta-te, ainda que ventos submarinos o impeçam de ser firme.
Ilumina-te, mesmo que com a luz caleidoscópica da superfície.

Após a noite de estrelas ausentes e tempestades presentes,
Poderemos voltar à superfície, mesmo feridos pelo frio das profundezas.
Poderemos repousar em terra firme e morna.
Sorveremos a calmaria e a claridade meiga de um sol recém-nascido. 

9 de jul. de 2014

Dias




Persisto em minhas palavras inservíveis.
Se não curam a mim,
A quem curariam?

Mas persisto,
Como se torcer o coração arrancasse-lhe 
os litros de fel.

Não arranca. Não muda nada.
Não existe fel...
Existem os dias, um após o outro.

Existe a lentidão e a rapidez deles que,
dependendo do desejo,
faz-se o contrário.

Dias banhados em gentileza,
Dias com tantas flores a desabrochar,
Dias de perfume suave e peito quente.

E dias assim, em que o sol desaparece antes do previsto,
E junto do céu de cobalto sopra o vento frio
que derruba ao solo as flores mais frágeis.

Não me visitaram as fiéis borboletas nessa manhã,
Mas apenas o silêncio e a distância.
Que bom que amanhã será outro dia.


5 de jul. de 2014

O porquê das flores


Não que terra seja gente, 
mas penso que tudo que é criação de Deus gosta de carinho.
Por isso, antes de plantar acaricio a terra úmida e
e me emociono por lembrar que abaixo dos homens duros, 
das mulheres duras, dos prédios, ruas e calçadas duras,
existe terra macia e fofa.
Me emociono também, e principalmente, porque aquela maciez 
é quase próxima à maciez da pele de quem tanto amo.

E quando penso no amor tanto, lembro da árvore imensa, coberta de flores enormes.
Minha irmã disse que os galhos pareciam labaredas, 
assim, cobertos de tantas flores de vermelho vivo como fogo,
E por dentro o coração sorriu, porque lembrou de uma velha infância em que ambos passavam momentos e momentos embaixo de árvores, em cima de árvores, rodeados de árvores,
falando de um pouco tudo ou apenas em silêncio, que diz mais ainda.

Dizem que não existe amor grande ou pequeno,
Que não existe amar muito ou amar pouco.
Que existe só o amar.
Dizem... dizem.
Se a alguém fosse dado o poder de definir a dimensão do amor,
qual seria a serventia da poesia, do poeta, do coração mais ou menos acelerado?

O que sei da serventia, é das flores.
Elas servem para alimentar o amor.
Vê a borboleta, a abelha, o besouro?
São pedacinhos de amor, pra lá e pra cá, 
Cumprindo frágil e vital sina.

As reles, humildes flores desse meu Jardim
também são para alimentar o Amor.
São para agradar aqueles olhos cor de céu e de mar.
São para consolar
um pouco
meu coração quando o Amor aqui não está.





30 de jun. de 2014

Obrigado por partir meu coração


Obrigado por partir meu coração.
Obrigado por enterrar meu coração.
Obrigado por ser paciente com meu coração.
Obrigado por enxergar meu coração.

Meu coração é semente,
Antes tão dura e seca sobre areias mortas,
Antes tão dura e seca sob o sol escaldante.
Obrigado por germinar meu coração.

Agora, deste coração partido cresce vida esverdeada de esperança,
Frágil e bela como toda criança.
É semente de flor o que dei às tuas mãos.
Obrigado por fazer do meu coração perfume e cor.  

Meu coração é pequeno,
Ínfimo numa Terra tão grande, num universo cheio de tanto infinito.
Até dói tanta imensidão lá fora...
Obrigado por acolher meu coração.

Obrigado por tirar a distância entre a realidade e o sonho.
Obrigado por ser o guardião nas noites que são escuras demais.
Obrigado por não deixar para sempre meu coração como semente.
Obrigado por trazer a primavera para dentro de mim.

29 de jun. de 2014

O tempo


Os dez minutos anteriores à chegada: eternos.
As doze horas seguintes: um relâmpago.
As horas de insônia: longas e frias como um inverno inteiro.
As horas adormecidos juntos, no calor dos corpos: ligeiras como o sol se pondo.

A fotografia: saudade eternizada.
O instante registrado: veloz, veloz, veloz...
O rápido beijo da borboleta numa flor: fecundada.
A flor fecundada: abrigo da eternidade.

Banhar meu corpo: outra ligeira obrigação.
Banhar seu corpo: ocasião sagrada para acariciar templo divino. 
O abraço de chegada: mais longo que onze anos de escuridão.
O abraço de partida: um infinito falho, que não cumpre sua função.
O beijo: a duração de um desabrochar. 
O olhar: o nascer do sol após a noite tão escura...

Que ninguém se engane:
O que conta a passagem do tempo não são os ponteiros do relógio,
Mas as batidas do coração.

25 de jun. de 2014

Pedras atrás das flores




Escondi todas aquelas pedras atrás das flores.
Pedras tão sujas, tão ásperas, tão frias.
Eternamente duras em sua inumanidade. 

As recolhi, uma a uma, sujando as mãos que anseiam te acarinhar,
Abaixando até elas, me aproximando do que elas são.
Aproximando-me daquela vergonha e feiura.

Eu não via o céu enquanto as recolhia,
Mas sentia o sol arder nas minhas costas magras.
O céu permanece lá... também a esperança.

Escondi minhas pedras atrás das flores sem perfume,
Flores belas, cor de fogo.
Escondi apenas aos olhos, pois na alma elas ainda permanecem...

Elas ainda permanecem...
Pequenos troféus inglórios,
Troféus para as fraquezas, medos, derrotas.

Cada uma delas, um pequeno pecado tão pesado,
Amontoados e, enfim, ignorados.
Elas agora sustentam erguidos os galhos tão floridos da Primavera.

23 de jun. de 2014

Correr


Se eu pudesse aproveitar as ruas vazias,
os corações vazios;
Aproveitar que todos mudaram de dimensão,
aproveitar que os olhos cegos ainda mais cegos estão...
Para correr, correr, correr...
Me aproximar.

Se eu não temesse minha pequenez,
a miudeza em tantos sentidos,
A imensidão das limitações e dos defeitos;
Se eu não temesse o temor...

Eu estenderia à luz do sol poente as imensas asas,
E como nos sonhos fugiria dos fantasmas sem nome;
Iria ao teu encontro, velozmente.
Deitaria você em minhas costas, em penugem macia.

Para que enfim
tudo fique logo para trás, como um dia irá mesmo ficar.
Para que enfim
tudo se consume de fato, como um dia irá mesmo se consumar.
Para que enfim
tudo seja visto do alto e completamente, não mais em fragmentos.

Sem mais silêncio,
Sem mais frio,
Sem mais ausência.
Apenas a ânsia,
Apenas o calor,
Apenas o amor.

20 de jun. de 2014

Solo Sagrado


Deixo aos filósofos a dor da questionável verdade,
Deixo às crianças os mundos mágicos, 
que certamente existem,
E apenas elas são capazes de ver e adentrar.
E não criticarei os autoproclamados "sãos" por não enxergarem algo além.

A mim, permito o amor,
Mesmo tão consciente da minha indignidade perante ele.
Certa vez um Homem disse que aquele que muito ama
tem seus muitos pecados perdoados...

Então acalento em mim amor imenso,
Capaz de envolver e abraçar meus tantos erros;
Como a terra que, carinhosa, aninha a semente falha e faz dela bela flor.
Trago em em mim imenso amor porque por anjo ele me foi dado.

Caminhei onde nossos pés deixaram suas marcas leves,
Naquela doce tarde azulada, de sol tímido, de beleza recatada.
Pus-me em silêncio a agradecer, a sofrer de doce saudade,
a admirar o ipê rosado no horizonte não tão distante.

Deixo a nós o amor,
Um traço feliz num mundo de tantas cicatrizes profundas, amargas.
Deixo a nós aquela fé infantil e pura,
Porque em todos os caminhos que passamos
persiste o perfume dos nossos sonhos.



19 de jun. de 2014

Placebo


Todas aquelas canções sobre saudade...
Remédios tão doces para uma dor tão amarga.
Placebos, na verdade...
O que cura a alma é apenas a carícia da outra alma.

Nas tempestades agarro-me ao mastro roto do navio da minha fé.
Lambo o sal do mar que pousa em meus lábios,
Os músculos enrijecem-se, preparam-se, temem...
O coração esfria.

A tempestade passa.
A calmaria deita sobre oceano, 
Como uma feiticeira silenciosa,
Mas eu ouço sua respiração, eu prevejo seus planos.

Está em meus olhos esse oceano,
Esse mar, esse rio, esse riacho.
Não há espaço na Terra para mais lamentos, mais cansaços,
Então, nunca mais direi outra vez que minhas lágrimas são de tristeza.

Todo dia é o último dia em que uso palavras,
Todo dia eu morro, todo dia eu venho à luz.
Todo dia o silêncio de Deus me fala mais sobre ele.
Todo dia adormeço em seus braços macios,
distante quinhentos quilômetros deles.

17 de jun. de 2014

In color


Ainda existem flores quando você não está.
Ainda existe o jardim com suas humildes belezas.
Mas não há cor para os meus olhos...
Cada pétala desbota-se com sua ausência,
E os suaves perfumes são levados pelos ventos da saudade.

E quando preparo-me para abrir o peito ao meio,
Sonhos e lembranças seguram minhas mãos,
Com delicadeza.
O Sonho, uma criatura linda e otimista, 
projeta aos meus olhos a imagem de um próximo abraço, um próximo beijo.
A Lembrança, refinada dama, entrega-me um álbum de fotografias;
Imagens apenas nossas,
Partículas luminosas de passado.

Então se aproxima humilde e delicada menina,
Menina ora feliz, ora tristonha:
É a Poesia.
Entrelaça seus dedinhos meigos aos meus, tão rudes e maculados,
Convidando-me para brincar no jardim.
É insano, eu digo, faz escuro e não há cor ou perfume aqui...
E ela, com a inocência e o carinho de toda criança, me diz:
"Mas há dentro de ti!"

16 de jun. de 2014

Eu que não sei quase nada de amar



Eu que não sei quase nada de amar, amo.

Uns dizem que o amor morreu, lá atrás, junto das rosas e das cartas
E de um tempo em que existiam mais eternidades.
Outros, que o amor é o ouro dos tolos,
Um último refúgio, abrigo, esperança, em meio ao caos estúpido e sem sentido aparente da vida.
A frágil dama disse que o amor é um jogo de azar, que se joga acreditando nunca perder.
A bela deusa disse que o amor é como a chuva, que cai lavando a tristeza, levando embora a dor.
Para o menino, tão pequenino, o amor são asas fortes, que quebram as correntes de vento e o elevam acima do que há acima das nuvens.
Para o pecador, o amor é a remissão dos pecados, 
A segunda chance divina, 
A prova de que Deus tem bons ouvidos.

E para mim, que não sei quase nada de amar, mas tanto amo,
O amor é uma tarde de outono, quase inverno...
Os ipês que margeavam o velho e humilde córrego faziam chover suas flores rosadas, lentamente;
O sol flutuava no céu como uma memória feliz;
E você estava ali, ao meu lado - com seus olhos que, de tão perfeitos, causam inveja até ao azul do firmamento -
Oferecendo docilidades, pequenas promessas, um toque de leve na pele para não incomodar os mais ignorantes.
O amor, todo ele, toda a imensidão dele, é estar sentado ao seu lado;
Olhando para a mesma direção, para os mesmos sonhos.
Com uma corda de felicidade amarrada de um lado do coração, 
e uma corda de tristeza amarrada ao outro lado, 
cada uma puxando para o seu lado.

O amor é ter o coração ao meio, e continuar em vida.
É descobrir, maravilhado, que o sagrado reside em todas as coisas.
Que tudo, cada átomo, está impregnado de uma força Superior.

O amor é olhar sem desespero para a distância,
Pois só ele torna o mundo um grão de areia,
E aqueles que o sentem, maiores que os oceanos.

Para mim, mesmo não sabendo quase nada de amar,
O Amor é o que mantém acesa e aquecida a alma,
O que mantém, verdadeiramente, a vida viva.