27 de abr. de 2014

"You're the one"


Cada sorriso teu é feito um desabrochar...
E sempre sinto a felicidade tomar meu coração nos braços e rodopiar pelo jardim quando as cores de uma nova flor se revelam.

Cada gesto teu é como a brisa fresca das tardes de outono...
Eu interrompo meus movimentos, fecho os olhos e sinto o vento acariciando toda minha alma, ao ponto das lágrimas se desprenderem leves.

Cada olhar teu é como o brilho de todas as estrelas numa noite sem luar...
Eu deito estático sobre o chão frio e admiro aquela beleza infinita.

Cada palavra tua é suave e bela como as borboletas que flutuam gentilmente.
Eu lembro delas e no meu peito sinto batidas descompassadas, um cavalo selvagem que corre forte e belo pelas colinas.

Que tempos foram aqueles em que aqui não esteve?
Quem era aquele eu?
Não houve...
Não houve tempo em que aqui não estivesse, pois a fé no amor que agora existe sempre queimou.
Não houve outro eu que não aquele que andava acima das neves amargas e das areias quentes à tua procura.

Por tanto tempo ainda sentirei o sabor amargo da imperfeição em meus lábios.
Quem dera houvesse em mim tais belezas magnânimas.
Porém, não.
Sou apenas mãos que acariciam com alegria a terra quase estéril e ajuda a tirar alguma flor simples dela.
Sou apenas homem qualquer que tece versos bobos com aquilo que não cabe mais no espírito, e transborda.
Mas trago em mim o amor, e por isso trago em mim uma faísca de Deus.

11 de abr. de 2014

Apenas saudade


Há certa dor na perfeição.
Quando lembro do teu sorriso naquela estrada empoeirada,
Quando lembro dos teus olhos, o azul esverdeado sublime deles,
E quando lembro do seu toque,
Teu toque que as palavras jamais estarão a altura de descrever,
Doem-me até os ossos.

Uma dor bonita, belíssima,
Como um raio de luz que se desprende do nascer do sol e acerta-nos a vista.
Uma dor meiga, carinhosa, como um abraço bem apertado.

E eu quero o silêncio para pensar nessas coisas,
Para sonhar com o vivido e com o que se viverá.
Mas não há silêncio, apenas saudade.

E em meio a estas tardes insossas e noites quentes,
Tento de alguma forma acreditar-me digno do teu amor.
Por vezes acredito, por vezes, não.

É que falta-me o fôlego ao te imaginar, ao te sentir.
É como um minerador ao encontrar um imenso diamante,
Um jardineiro ver um broto na planta que se acreditava morta.



8 de abr. de 2014

Novo livro: "Chiaroscuro"

       Nos dias, na vida, nos sentimentos há uma fusão entre claridade e escuridão.
       Bem e mal, felicidade e tristeza, amor e indiferença, andam mais que de mãos dadas, são as duas faces de uma mesma moeda. Uma coisa torna possível a existência da outra, como o lírio que necessita da lama escura do pântano para extrair forças das quais fará florescer suas alvas e perfumadas flores.

       “Chiaroscuro”, palavra italiana que significa “Claro e Escuro”, expressa perfeitamente tais constatações.
       Numa mesma tela, que é a vida, o contraste entre a luz e a sombra dá rosto às peculiaridades da existência.

       A poesia é uma observadora. De tudo. Uma investigadora do mundo sentimental, do mundo real e do mundo imaginário. Ela não serve para distinguir sentimentos e situações opostas, como a esperança e a desilusão, mas se propõe a mostrar a beleza que brota do convívio de tudo que é oposto.

       Estas poesias são os relatos físicos dessas observações. 

       À venda em: https://clubedeautores.com.br/book/161650--Chiaroscuro#.U22HUYFYMX0




26 de fev. de 2014

Limpo



O que penso do passar dos dias, do passar das horas, é que me lavo, me liberto, me desfaço.

O sol, quando nasce, lentamente aos meus olhos, mas velozmente na verdade,
é um banho.
A luz que queima minha pele tão pouco sagrada, queima também o que passou.
Queima os sentimentos velhos e retorcidos, como arbustos esquecidos no meio do agreste.
Aquilo tudo vai diminuindo, se transformando, virando adubo.
É isso, passado não passa de adubo.

A chuva então, nem se fala.
A chuva é a água santa que cai naquele sábado de calor infernal.
Há até quem ore pela vinda dela! Acho isso bonito...
A chuva não apenas lava a alma, ela hidrata a alma, faz germinar coisas da alma.
Vai arrastando para os bueiros da existência aquilo que o sol não queima por completo.

As flores, borboletas e bosques são sementes, acredite.
Quando passo pelas ruas bem lisas, com as mãos acariciando o peito,
Na verdade estou plantando o que meus olhos colhem.
Quem sabe não brota?
Quem sabe não dá bom fruto?

E isso tudo porque você chegou, não cansarei de dizer.
Você chegou e me despiu da armadura que estava encravada na minha carne.
Armadura inútil, como toda armadura.
Você chegou e limpou meu espírito com belezas e esperanças.

O que dói, deixo que doa.
O que envergonha, deixo que envergonhe.
O que dizem, deixo que falem.
Pois o que amo... ah, o que amo!
Não haverá quem impeça!

25 de fev. de 2014

Há em meu peito



Há em meu peito esta rocha que esquenta e esquenta
ao ponto de escorrer pelos poros, não suor,
mas líquido em chamas, lágrimas vulcânicas.

Há em meu peito esta flor delicada,
que desabrocha em noites de atmosfera limpa,
e é sensível ao sol e à chuva.

Há em meu peito a terra boa onde foram enterrados meus avós,
e por isso há o sagrado nele.
Um relicário de honras e memórias.

Há em meu peito um baú de dores aberto
e um baú de felicidades bem trancado.
As dores deixo que apodreçam ao vento, as felicidades deixo preservadas.

Há em meu peito um rugido insano,
um incômodo som de trovão.
É teu nome que chamo.

Há em meu peito canção doce e delicada,
é para embalar teu sono de anjo...
Quero ajudar teus sonhos a velejarem calmos.

Há em meu peito um coração forte,
embora este já não seja meu.
Pois é um coração quase belo, e tudo de belo é seu.

22 de fev. de 2014

O bastante (?)


Tenho tão pouco,
Meu jardim tem quase sempre o perfume das mesmas flores,
E no meu reino tudo é tão simples...
Sou um reles plebeu, apaixonado por alguém da alta realeza. 

Mas não existe outro nesse mundo que desejaria mais do que eu
segurar sua mão agora.

Aqui a chuva cai mansa e as noites são longas como devem ser.
Há muitas estrelas no céu,
E o luar permite caminhar sem outras luzes.
Apenas os detalhes são sagrados e admiráveis...

Mas não existe lugar nesse mundo em que você seria mais amado.

Meu coração é humilde.
A força e beleza dele estão tão abaixo da força e beleza do seu.
Ainda trago medos, receios, e sonhos tão pequenos.
Meu coração é quente, tudo sente e é seu.

E não há outro que bata mais forte e com mais certeza que este meu,
por você.

Não há perfeição aqui.
Não há perfeição em mim.
Mas há o sol, e o nascer e pôr dele.
Há flores brotando das calçadas...
É pouco, tão pouco, eu sei, eu sei.
Mas há também meu abraço,
Há também minha alma, 
Há também meu amor.

21 de fev. de 2014

Há um galho florido no ipê


Hoje eu vi a esperança, anjo meu.
Ela estava no galho florido do ipê.

É fevereiro, nenhum outro ipê está florindo...
Eles apenas florescem em meados de julho e agosto,
quando o inverno é presente e eles temem a morte.

É uma árvore poética.
Diante da ameaça imposta pelo frio, pelo vento, pela aridez,
os ipês dão o que poderia ser uma última explosão de vida,
escrevem um epitáfio com flores de cores intensas,
lançam suas sementes aos ventos numa tentativa de perpetuação.

Mas eles não morrem...

Os ventos frios, inclementes e secos, partem.
A morna primavera chega e os abraça como mãe carinhosa.
Eles ressurgem.
O verde volta aos galhos enegrecidos.
Volta a sombra onde brincam as crianças.

Como disse, é fevereiro, meu anjo.
Mas há um galho florido no ipê.
Um galho amarelo de flor.
É como uma esperança amadurecendo.

É uma resposta à última grande tempestade, eu sei.
A última tempestade que castigou o velho ipê.
Tirou suas folhas, derrubou tantos de seus galhos.
Sei que temeu a morte naqueles instantes, o ipê.

A vida tem dessas...
Ela nos ataca sem chance de defesa, tantas vezes.
Que fez o ipê para que a tempestade o ferisse?
Que fizemos nós para que fôssemos feridos?

Não sei, anjo meu.
Mas sei que nossa resposta, assim como a do ipê, será florescer.
Os galhos tirados pela tempestade, 
as lágrimas que nos forem tiradas por outrem,
tudo isso será o prelúdio de frutos e sementes.

É entristecedor que antes da flor, antes do amor, 
conheçamos o sofrer.
Dói profundamente, como profundamente estão as raízes do ipê,
sequer imaginar que alguém lhe cause dor.
Mas hoje eu vi a esperança, meu amor...
E meus olhos quase não contiveram o rio abençoado de emoções que se formou.

Eu olhava as meninas, tão alheias às diferenças, sentadas à sombra.
Eu sentia o olhar carinhoso de alguém que nos ama, 
mesmo sem nos compreender.
Eu lembrava da profusão magnífica do azul e verde dos seus olhos,
E de você chegando de braços lindamente abertos até mim...
Meu coração, então, mergulhava em límpida felicidade.

Eu vi a esperança, meu doce sonho,
e ela era amarela, era bela, como as flores do ipê.



18 de fev. de 2014

Como os flamboyants...


É uma pena que os anos passem e nos tornemos consequentes.
É uma pena temermos deixar coisas para trás...
Que doce seria ter a liberdade plena!
Que doce seria não ser apedrejado por meus sonhos tão simples.

A Esperança repousa tão delicada sob a terra do Jardim.
Há chuva, há sombra, há sol, há vento...
Haverá futuro à Esperança?
Dará frutos a esperança?

É uma Esperança tão jovem e cheia de beleza!
Se bem cuidada tão frondosa será, eu posso sentir!
Alta, forte, adornada de cores e chamas!
Como os flamboyants... como os flamboyants.

Nós conhecemos todos os sentimentos.
O Jardim é vasto, como vasta é a alma, como vasto é o céu.
Aqui tudo nasceu, tudo cresceu, tudo morreu e voltou a nascer.
Mas dentre minha flores o medo persiste; erva asquerosa!

Mas o medo não se alastrará por completo.
O medo não conhece o calor do coração dos Jardineiros.
Eu machucarei meus dedos na terra seca, pedregosa.
Porém, as sementes serão plantadas, todas elas, amorosamente.

Eu não subestimo o sol e a chuva,
Eu sei que ambos dão e tiram a vida.
Mas não será subestimado meu Amor às Flores!
Não será subestimado o poder que ele tem de ajudar a germinar a vida.

17 de fev. de 2014

Anatomia sentimental


Lembro das tuas palavras, 
Não apenas do que elas diziam,
Mas como escorriam dos seus lábios,
Como eram despejadas no ar,
Como a chuva mansa após longa estiagem,
gentilmente...

Lembro do teu sorriso,
Sutil e tímido,
Como toda perfeição.
Ele projeta uma luz adiante, 
como um farol.
E eu, eu sou o barqueiro perdido em noite tempestuosa,
vislumbrando distante e vital claridade.

Lembro dos teus lábios,
Uma delicada escultura angelical.
Cada traço tão bem delineado,
Como um diamante esculpido
pelas mãos Divinas.

Lembro do teu peito,
Do som único do teu coração,
Que eu distinguiria de mil outros.
E das tuas mãos, firmes, alvas, acolhedoras.
E de tudo, intensamente,
como se ao alcance das mãos estivesse.

E acima de tudo,
Lembro da anatomia da tua alma.
Nobre, reluzente, como o sol que se esgueirava por entre nuvens.
E olho para minhas mãos; tão simples e ásperas mãos,
Questionando se há nelas dignidade suficiente para acariciar-lhe a pele de veludo...
A pele que me cobriu e aconchegou como um cobertor no árido inverno.
Mas olho minhas mãos e sinto que há nelas também calor e vida.
E com estas mãos, simplórias e fracas mãos, ouso aquecer os pontos frios do teu espírito.


16 de fev. de 2014

Quero ser


Quero te por sob meus braços.
Eu, sempre viajante de mares tempestuosos, sempre à procura de abrigo,
Quero, enfim, ser porto.

Caminhou até agora sozinho por entre tempestades,
Imagino tuas lágrimas, imagino teu cansaço, imagino tua dor.
Quero ser a casinha humilde da colina, quero ser alimento, quero ser repouso...

Os dias passam, as feras rugem, mais e mais.
O sol maltrata a delicadeza das flores.
Quero ser o jardineiro de teu jardim, por perfumes à tua janela.

Há nestes olhos, belos como a profusão de céu e mar,
Um rio de tristezas.
Eu observo, tentando retirar, gota a gota, cada resquício de fel.

Em meio às batalhas, plantaremos jasmins e orquídeas.
Em meio aos amargores alheiros, saborearemos doces frutos.
Em meio à condenação pelos falsos santos, amaremos.

Minha mão não se estenderia se não fosse de toda vontade.
Meu coração não se abriria, se não fosse totalmente.
Minha alma não amaria, se não fosse completa e plenamente.

10 de fev. de 2014

Foi ontem a primavera


Foi ontem que o sol nasceu dócil, adornado por nuvens cintilantes.
A claridade deitou sobre a cidade adormecida, lentamente.
Os fantasmas recolheram-se aos seus escombros,
As feridas pararam de latejar,
O passado repousou, inerte, sobre as relvas orvalhadas.
Decretei que fosse impedida a presença que qualquer medo, qualquer vergonha.
Era minha Primavera que desembarcara no meu peito, em pleno verão árido.
Minha sagrada Primavera, que tornou as ruas macias como algodão e perfumadas como os bosques após as tempestades.

Foi ontem a Primavera...
Mas já tanta saudade sinto da Flor Perfeita.
Pétalas aveludadas, perfume suave, beleza magnânima... 
Foi ontem minha amada Primavera,
E eu, tão humilde jardineiro, ando pelos canteiros da memória resgatando cada instante.
Foi ontem minha sempre esperada Primavera,
E hoje o que há nas avenidas é o sabor amargo do verão e da ausência.
Mas foi ontem... minha primavera.
E dentro do meu peito repousa a mais sagrada das sementes, 
O filho soberano, fruto da nossa tão veloz quanto intensa união.
Dentro do meu peito repousa o Amor. 

9 de fev. de 2014

Tão próximo


Faço traços no ar como que desenhando as linhas do seu rosto.
As linhas de um relicário sagrado pelo qual meus dedos deslizaram... 
Eu tento reconstruir com mãos e memórias o fragmento da perfeição divina que esteve diante do meu toque.
Mentalizo seus lábios, o contorno perfeito deles e a forma tão bela que eles tomam quando sorri, como uma escultara muito trabalhada.
E entre todas as palavras, tantas palavras, nenhuma seria digna de qualificar a beleza dos seus olhos...
Com isso, minha mente perpetua sua expressão indescritivelmente perfeita.

Eu tento reconstruir você, agora que está tão distante novamente.
Eu deixei em meu coração, impresso como uma tatuagem, sua poesia ao partir:
"Agora que minhas mãos tocaram você;
Agora que meus olhos olharam os seus;
Agora que meus lábios beijaram os seus,
Como suportarei a distância?"

O caminho é longo, meu raro e único anjo.
Longo como é a vida...
Mas lentamente a vida vai passando, e o caminho que nos distancia também.
Se não ousarmos ser quem nós somos, o caminho não será trilhado, mas a vida passará sem misericórdia.

Mas não se importe com minhas palavras, não tanto.
Importe-se com a forma com que meus olhos rendem-se ao seu esplendor.
Meus olhos, calmos e silenciosos, que buscam você em todas as coisas,
São como as nuvens pacíficas que lavaram os ares e as estradas antes da sua chegada.
Mesmo distante, meu olhar estará perto, 
Admirando e guardando o novo e imenso sentimento a que demos vida.


7 de fev. de 2014

Você se aproxima


Você se aproxima,
E os medos vão voltando para dentro do guarda-roupas.
Você se aproxima,
Como o sol ressuscitando das montanhas no horizonte.
Você se aproxima,
Como a noite que deita seu véu negro na cidade silenciosa.

Você ilumina,
Como o belo e delicado luar.
Você brilha,
Como as estrelas que povoam o céu quando a escuridão é mais intensa.
Você dá cor à esperança,
Como as nuvens solitárias que prometem à terra um banho reconfortante.
Você dá vida aos meus olhos,
Eles enxergam uma nova vida nascendo hoje.



3 de fev. de 2014

Você não sentiu tudo


Eu já senti tudo; já senti as lágrimas e os sorrisos de árvores e crianças, e já dancei com elas nas brisas primaveris.
E senti uma fração do ódio dos Homens que crucificaram sua mais doce
salvação, e uma faísca do Amor daqueles que tentam iluminar o mundo.
Eu senti parte das dores de muitas vidas que terminaram antes do final, e
estive lá para ver o dia em que a esperança ressuscitou.
E já senti o toque dos anjos e o gosto dos demônios; não sei o que mais eu careceria sentir...
(Você já sentiu a maresia ou as ondas quebrando nas suas pernas?)
Eu fico satisfeito em dizer que já senti muitos banhos de chuva...
(Já sentiu o abraço da pessoa com a qual irá passar o resto dos seus dias? O cheiro do lar onde você terá sua felicidade?)
A simples existência dos sonhos também alimenta a alma do Homem.
(E o amor? Você já sentiu o Grande Sentimento?)
Todo sentimento é grande se o coração não for mesquinho...
(Eu sei que você nunca sentiu que havia chegado onde queria...)
Sim, eu senti! Apenas precisei voltar ao começo novamente.
(O reconhecimento? Um minuto que fosse de glória?)
Isso, com toda certeza, não faz de ninguém alguém melhor.

Eu sorvi as luzes da cidade e degustei a escuridão dos Homens.
Eu senti a doçura da paz e a obscenidade da guerra.
Eu senti o forte e o frágil.
Eu senti o que desejei e o que precisei sentir.
E se isso não for o suficiente; eu continuo sentindo tudo que fui e já sinto tudo o que serei; não existe mais nada que eu ainda precise sentir.

(Você pensa ter sentido tudo, mas sei que ainda lhe dói o vazio; você é como o oceano que suporta qualquer coisa sem variar seu volume. 
Sei que você sentiu o que desejava e até o que não era capaz de suportar. Sentiu amor pelo claro e pelo escuro, pelo ínfimo e pelo imenso. Mas eu digo: sei de tantas coisas que você não ainda pôde sentir. Agora mesmo começa florescer outra bela primavera em seu Jardim... 
Você ainda não sentiu nada.)


De "Em meu Jardim Secreto..."

1 de fev. de 2014

Estrela Ascendente


Alta madrugada, vestida de um silêncio profundo.
Aconchego-me na escuridão, em seu colo macio, em seu perfume suave.
Mas Morfeu não me toma em seus braços delicados,
Os olhos não cerram, ao contrário:
De ambos escorre líquido divino, uma materialização da gratidão.

Entrego-me a imaginar o primeiro toque em sua pele...
A velocidade da sua respiração e do pulsar do seu coração.
Seriam minhas mãos macias o bastante para acariciar a tão nobre textura que reveste seu corpo?
Seu corpo... um relicário.
A fortaleza que guarda inestimável tesouro: seus sentimentos, sua alma.

Fui então ter com as estrelas.
Daqui, tantas, tão pequeninas e belas.
Foi quando pela primeira vez nesta vida vi uma estrela ascendente. 
Ela não caia como as demais, mas subia, do horizonte rumo ao firmamento.
Um sorriso jorrou em minha face trazendo à minha boca o sabor da esperança.

Você repousa agora, quase tão distante quanto as estrelas.
Talvez esteja segurando minha mão em algum sonho leve...
Não serei tolo de achar que posso segurar a beleza e a felicidade para que nunca partam.
As borboletas só pousam em nossos dedos se formos muito gentis com elas, e mesmo assim, sei que elas pertencem aos ares.
As estrelas, cadentes ou ascendentes, só são vistas na escuridão absoluta... e por tão veloz momento.

Contudo, ainda assim, é completamente válida a paciência gasta com as borboletas.
É completamente válida a espera pela madrugada plena, onde as estrelas florescem com toda intensidade.
É válido ressuscitar a fé adormecida, fazer germinar a semente que repousa esquecida no solo úmido.
É válido esperar com o coração sorrindo sua chegada, mesmo consciente da partida.
É válido permitir a entrada do amor... 
Que ao contrário das borboletas e estrelas, 
certamente não irá embora em um instante.

29 de jan. de 2014

Como se todos os dias o sol fosse nascer


Eu não deixarei de cantar por medo de desafinar a voz.
A canção é, antes de tudo, a mais sagrada oração.
Não deixarei de semear o solo por medo do inclemência do sol sobre as delicadas flores.
Alguns sentimentos suportam o calor e o frio.
Não deixarei de amar por medo do que o amor já fez...
O que foi feito, foi feito.

Vamos deitar sobre a superfície espelhada do lago da vida e observar a tarde ceder espaço à noite estrelada.
Não há nada mais puro que o perfume da escuridão levemente esbranquiçada de luar.
Eu segurarei sua mão enquanto evocar seus fantasmas; dançaremos todos juntos então.
Todas as dores passadas serão diamantes reluzentes, pequenos troféus.

Vamos viver como se houvesse esperança,
Como se todos os dias o sol fosse nascer sobre os bons e maus.
Vamos viver como se a  chuva fosse o batismo divino,
Redimindo nossos santos e tão belos pecados.
Vamos dançar como se ninguém nos olhasse,
Vamos amar como se ninguém nos julgasse.
A existência é isso, meu bem.
Morremos num dia, renascemos no outro.

Vamos nos olhar com olhos amáveis,
Vamos guardar o que há de bom.
O tempo passa, meu bem,
Passa como as águas eternas de um rio calmo.
Desta vez, ao menos desta vez, vamos nos deixar levar por elas.

25 de jan. de 2014

De "Alma à tona"


Corpo e alma


Não partes por medo de deixar o que amas, o que conheces.
Não partes por acreditar que amas algo, que conheces algo.
Quando na verdade não sabes amar, quando na verdade nada conheces.
Tomastes o caminho mais seguro, o menos doloroso.
Fizestes escolhas baseadas no maldito bem de todos.
Então, admiras de tão longe as luzes que teus olhos nunca ousarão vislumbrar de perto.
Aspiras o perfume sutil e evanescente das ilusões que nasceram e morreram em terras desconhecidas.
Aceitas com falsa e asquerosa resignação o destino a que estás acorrentado.

A quem teus braços oferecem proteção?
Que coração tuas palavras confortam?
Para qual olhar teu sorriso tem significado?
Que canteiros, que ruas, que praças, que jardins são realmente teus?
Que sentimentos... que sentimentos prova-me terem sido verdadeiros?

Teu corpo teme,
tua alma voa.
Teu corpo recua,
tua alma entrega-se.
Teu corpo treme,
tua alma transpira.
Teu corpo degusta,
tua alma devora.
Teu corpo desiste,
tua alma luta.
Teu corpo silencia,
tua alma grita.
Teu corpo geme,
tua alma goza.

Aonde quer que aportes, não há paz para homens como tu.
Não há água suficiente para tua sede.
Não há beleza suficiente para a fome do teu olhar...
Pois o corpo é frágil, ínfimo, limitado.
Já a alma... a alma é imensa, e transborda, e galopa como cavalos selvagens pelas nuvens tempestuosas.
O corpo é uma jaula.
A alma é um mundo.







22 de jan. de 2014

Prisma


Há um jardim a ser cultivado,
Dois gatos dormindo juntos no tapete brilhante, e sim,
Haverá um belo sol nascendo pela manhã de amanhã.

Vamos pelas trilhas empoeiradas...
Lentamente, olhando as nuvens,
deitadas como doces senhoras num horizonte não tão distante.

Somos crianças perdoadas por quebrarem seus brinquedos caros.
Somos crianças passando a tarde em cima das goiabeiras à beira da estrada.
Somos crianças que ainda não descobriram que seus sonhos são impossíveis.

Não posso dizer que não dói,
Que tantas vezes o sangue quer ebulir nas veias.
Na verdade raros são os sons agradáveis à alma...

Mas se no escuro o coração não passa de uma peça fria,
À luz, é um prisma jorrando cores.
E não há noite que seja eterna, não há.

15 de jan. de 2014

"La tristesse durera toujours"


Algumas memórias  são expelidas pelo estômago da alma com força, 
como um alimento impróprio.
Elas passam pela minha garganta e boca como ácido e como fel.
Escorrem pelo chão branco poluindo o ambiente com seu cheiro azedo.

Vou para longe dos jardins em momentos assim.
Minhas flores não verão minhas dores.
Dores tão egoístas, tão mesquinhas.
Volto depois, exausto, de olhos lavados.

Volto quando a madrugada chegar,
Deitarei no escuro e no silêncio absoluto.
E assim contemplarei a plantação de estrelas...
Apenas assim acho deliciosa minha pequenez.

Vincent usou suas últimas palavras para dizer que a tristeza durará para sempre. 
Que dure...
Há beleza e esperança na tristeza. Há uma pausa.
Nós sabemos disso.

A tristeza, como doce e silenciosa amiga, 
sempre nos tomou delicadamente nos braços.
Adornou meu coração e minhas canções com pequenas flores perecíveis...
Quando ela parte o perfume continua pairando no ar.
Então se aproxima a esperança, acanhada e sutil, 
acomodando-se em seu lugar.

E eu o entendo, Vincent...
Eu também olho com desconfiança para a sanidade.
Eu o entendo, Vincent...
O mundo não seria tão bonito se o víssemos apenas com olhos felizes.

13 de jan. de 2014

Mais do mesmo


Nenhuma palavra varou a madrugada que chegara.
Não haverá nenhuma dança no pálido luar desta noite.
As fontes estão secas, o jardim está adormecido.
Os pensamentos permanecem como as estrelas:
Esparsos, perdidos, brilhando muito pouco.

Os sonhos continuam perturbados pela busca infinda ao inexistente.
O coração permanece como uma manhã de primavera ainda coberta pelo frio escuro do inverno.
As flores demoram a desabrochar e tão rápido caem, murchas.
Que seria a felicidade senão uma paixão pelo efêmero?
Com a passagem das horas tudo volta exatamente para o mesmo lugar.


8 de jan. de 2014

O baile


A taças foram poucas, o suficiente para que as luzes aparentassem brilhar um pouco mais do que realmente brilham...
Para o que os movimentos fossem um pouco mais doces e lentos.

Eu vi as nuvens vermelhas surgirem e sumirem,
Enquanto dançava solitário na terra úmida olhando as estrelas raras, 
quase sem brilho. Eu, as estrelas... quase sem brilho.
Abraçado por brisas e relâmpagos que estouravam nos quatro horizontes,
Dançava.

A canção faz-se meu sonho, meu amor.
Entrego-me a ela fingindo santa embriaguez.
Não há perdão a ser pedido,
Promessa a ser jurada,
Adeus a ser dito,
Socorro a ser clamado.

Aproximou-se a saudade do que ainda não houve,
Dançamos como se nos amássemos também,
E nos amamos.
Dançamos como velhos conhecidos, como loucos, como espíritos indomados.
Sujamo-nos da nossa vontade de vida, da nossa sede de sentimentos.

Sutilmente o desejo se aproxima toma-me nos braços fortes.
Toca-me delicadamente... Toca-me por completo.
O corpo silencioso...
Mas a alma excita-se, acende-se, ascende-se.
E o que era um baile solitário de um homem com sua pequena taça de cristal,
Meio cheia do doce sangue divino,
Torna-se um baile de corpo, alma, sentimentos, relâmpagos, estrelas, flores, ânsias...
Todos semi-entorpecidos, todos semivivos, todos semiluminosos, todos semi-insanos,
Todos completamente livres.

4 de jan. de 2014

Asas e raízes


Se bebi rápido demais era por medo do vinho esquentar.
De quente basta a noite, as paredes, o chão, a cama vazia.
Se não prometi a partida foi por medo de não conseguir levar na bagagem tudo de mim.
E já é tão pouco o meu tudo. Levar a você apenas metade seria desrespeito.
Se ainda não firo as mãos na terra dura que deve ser um jardim é por saber que à noite já existe uma plantação de estrelas, todas florescidas, desabrochadas, a acariciar meu olhar faminto de belezas. 

Existe esta necessidade de justificar os passos e os atos,
Mas não que se espere algum ato de compreensão,
Não existe compreensão. Aceitação, no máximo, se com sorte.
Existe esta necessidade como existe a necessidade de ouvir outra vez uma mesma canção.
Existe, como existe a necessidade de recordar os dias em que o abraço era refrigério para alma e corpo incandescentes de medos e loucuras atrozes. 

Justifico os movimentos como quem acena dos escombros pedindo resgate.
Mas já sei que não há resgate que me tire de mim com vida.
Digo o que sinto e digo o que sinto e digo o que sinto,
Tantas e tantas vezes, embrulhado em palavras e expressões que são tanto e tão nada, porque os ventos, as marés, os homens, as flores, as luzes precisam saber: eu sinto!
Não que precisem, de fato. 
Eu é que preciso que saibam, para que eu continue meu sentir, que é meu sonhar, que é meu respirar...
Que são minhas asas... minhas raízes.

Saldos e baixas


A sensação é a de um fim de batalha.
Alguns membros ainda doem pelas escolhas feitas, pelos movimentos tomados.
Uma dor estranha, porque é como se o ferimento fosse mais profundo e perigoso que o incômodo que ele gera.
Há uma paz branca agora. Silenciosa demais.
Uma esperança sutil e quase imperceptível, como o verde das paredes.
Embora eu saiba que não há tempo para descanso; outra batalha se aproxima; eu deveria estar melhor.
Sorrindo mais ou cantando mais ou qualquer coisa do tipo mais.
Mas não.
Sei que não se vive com olhos voltados para trás, mas ainda olho as baixas no campo.
Olho a face de cada Anjo e cada Demônio que das minhas entranhas saiu e que por mim lutou e sinto um pranto gigantesco como uma tempestade se formando atrás dos olhos.
Eu os amava tanto, cada um deles.
Mas as Lágrimas, fiéis e queridas enfermeiras desta alma raquítica, não caem.
Mantêm-se condescendentes, mas imóveis.
Elas sabem, e eu sei: chegou a hora do adeus.
Chegou a hora de nos despedirmos deste campo de batalha, que já fora um vistoso jardim.
Chegou a hora de aceitar que os caminhos para os sonhos muitas vezes não são pavimentados.
Escorregões virão. Os sapatos se lambuzarão de lama. As roupas ficarão sujas.
As trilhas serão inseguras, escuras.
Talvez num desses caminhos o tombo venha, e junto dele o Medo e a Vergonha.
A Dúvida, a ingrata e constante companheira, será a primeira a gargalhar.
Provavelmente, além da morte, ela seja a única certeza da vida...
Doerá. Doerá porque será desejada uma mão, e essa mão não estará ali.
Doerá...
Mas se a queda é uma possibilidade, o levantar é uma certeza.
Talvez eu até gargalhe um pouco com a Dúvida.
Levantarei, mesmo com olhar baixo, e continuarei, mesmo com passos hesitantes.
Será mais uma dor válida a ser lembrada.
Uma dor guardada como uma pedra preciosa, uma consequente ao amor às coisas certas.
E depois de tudo, eu sei, restará apenas uma coisa a ser dita ao campo, ao jardim, ao caminho, aos Anjos e aos Demônios:

Obrigado, muito obrigado, novamente.

28 de dez. de 2013

"Processo ex-tático"


Deitei-me naquele véu pálido de luar,
E nos meus silêncios tão inquietos gritava por socorro.
Mas nada doía, nada queimava,
E era esta a dor mais insana, a chama mais faminta:
O não doer, o não queimar.

Deite-me no véu pálido do luar
Porque qualquer braço, qualquer ombro, qualquer peito
Se fazia distante demais.
Tão distante quanto o luar sobre a terra úmida 
É do seu foco de nascimento. 

Deitei e adormeci.
Os sonhos, cavalgantes, não demoraram.
Em instantes, mais heróis, monstros, asas e correntes
Que se possa contar!
Minha alma deleitando-se de suas quimeras...

Desperto, o silêncio.
Mas chegou a chuva; caindo melodiosa como boa música 
Sobre este telhado que não abriga mais meu verdadeiro lar.
Havia o cheiro e a saudade de um futuro desconhecido, aguardado.
Havia a mim, incompleto e lento, mas vivo.

27 de dez. de 2013

Promessas de Ano Novo


Um último minuto para as mesmas canções.
Um minuto de paz.
Um perfume oculto que devolve a divindade que um dia meus sonhos
possuíram.
Um momento para chorar meus adeuses, para sorrir minhas escolhas.
Observar com todo carinho cada um dos brotos do jasmineiro à minha porta.

Restará para sempre em mim aquela estrada junto do seu cheiro.
Restará em mim a humildade esculpida nas mãos, o elogio singelo.
Restarão em mim o abraço desejado e a lágrima que não evidenciei.
Olhe em meus olhos, colha seu perdão.

Um instante para agradecer a lição que trouxe cada uma das minhas
cicatrizes; um instante para agradecer a fé que retornou depois das várias
estações em que esteve dispersa.
Amar, com todo meu coração e alma, todos aqueles que acenderam estas
pequenas luzes que existem em mim.

Permanecerá em mim a criança; não a criança que sentia medo e vergonha, mas a criança que sabia voar.
Permanecerá em mim o beijo, o gosto.
Permanecerão em mim todos os instantes de contemplação das estrelas, dos imensuráveis milagres sutis.
Um tempo para parar, tomar fôlego, reciclar o brilho do olhar e mergulhar com toda força novamente neste oceano obscuro e fascinante que é a vida.

Renascerá em mim a esperança, a admiração pelos sorrisos ingênuos e
olhares doces, iguais aos dos anjos.
Renascerá em mim a voz dos Heróis que partiram sem se despedir: eles
voltam, eles voltam...
Renascerá em mim a claridade perdida, as asas murchas, o amor.
O Amor...


De "Em meu Jardim Secreto..."

26 de dez. de 2013

Louvores


Louvado seja o caminho desprovido de sentido e de fim, com todos seus
adeuses não ditos, guardados.
Louvada seja a poesia que cura, a palavra que salva. A poesia que me encontrou, a palavra que me foi dita.
Louvada seja a lágrima que salta confusa por culpa do solavanco não previsto, e marca meu rosto, escorre por minhas pernas e purifica meus passos.
Louvado seja meu medo por sua prudência e ainda mais louvada seja sua
amada filha bastarda: minha ousadia.
Louvada seja a espera fria e firme como pedra, assim como a esperança frágil e bela como flor. Louvada seja, insisto, a esperança: minha substituta para o Amor.
Louvada seja também a fé. A fé que ilude e que salva. A fé que cura e que
enlouquece. Louvada seja; embora as tantas mentiras que transformou em consolo e as tantas verdades que transformou em cinzas.
Louvadas sejam as transformações, das ínfimas às imensas, pois que são o
sobrenome da Vida.
Louvadas sejam até mesmo a dor e a saudade, já que fazem recordar, nós, seres frios e brutos, que temos um coração, uma alma.
Louvados sejam os olhares que se cruzam e permitem frutificar primeiro os sorrisos, depois as canções, por fim, o sentimento...
Louvados sejamos eu e você, o eu que existe, o você que invento.



De "Em meu Jardim Secreto..."