29 de jan. de 2014

Como se todos os dias o sol fosse nascer


Eu não deixarei de cantar por medo de desafinar a voz.
A canção é, antes de tudo, a mais sagrada oração.
Não deixarei de semear o solo por medo do inclemência do sol sobre as delicadas flores.
Alguns sentimentos suportam o calor e o frio.
Não deixarei de amar por medo do que o amor já fez...
O que foi feito, foi feito.

Vamos deitar sobre a superfície espelhada do lago da vida e observar a tarde ceder espaço à noite estrelada.
Não há nada mais puro que o perfume da escuridão levemente esbranquiçada de luar.
Eu segurarei sua mão enquanto evocar seus fantasmas; dançaremos todos juntos então.
Todas as dores passadas serão diamantes reluzentes, pequenos troféus.

Vamos viver como se houvesse esperança,
Como se todos os dias o sol fosse nascer sobre os bons e maus.
Vamos viver como se a  chuva fosse o batismo divino,
Redimindo nossos santos e tão belos pecados.
Vamos dançar como se ninguém nos olhasse,
Vamos amar como se ninguém nos julgasse.
A existência é isso, meu bem.
Morremos num dia, renascemos no outro.

Vamos nos olhar com olhos amáveis,
Vamos guardar o que há de bom.
O tempo passa, meu bem,
Passa como as águas eternas de um rio calmo.
Desta vez, ao menos desta vez, vamos nos deixar levar por elas.

25 de jan. de 2014

De "Alma à tona"


Corpo e alma


Não partes por medo de deixar o que amas, o que conheces.
Não partes por acreditar que amas algo, que conheces algo.
Quando na verdade não sabes amar, quando na verdade nada conheces.
Tomastes o caminho mais seguro, o menos doloroso.
Fizestes escolhas baseadas no maldito bem de todos.
Então, admiras de tão longe as luzes que teus olhos nunca ousarão vislumbrar de perto.
Aspiras o perfume sutil e evanescente das ilusões que nasceram e morreram em terras desconhecidas.
Aceitas com falsa e asquerosa resignação o destino a que estás acorrentado.

A quem teus braços oferecem proteção?
Que coração tuas palavras confortam?
Para qual olhar teu sorriso tem significado?
Que canteiros, que ruas, que praças, que jardins são realmente teus?
Que sentimentos... que sentimentos prova-me terem sido verdadeiros?

Teu corpo teme,
tua alma voa.
Teu corpo recua,
tua alma entrega-se.
Teu corpo treme,
tua alma transpira.
Teu corpo degusta,
tua alma devora.
Teu corpo desiste,
tua alma luta.
Teu corpo silencia,
tua alma grita.
Teu corpo geme,
tua alma goza.

Aonde quer que aportes, não há paz para homens como tu.
Não há água suficiente para tua sede.
Não há beleza suficiente para a fome do teu olhar...
Pois o corpo é frágil, ínfimo, limitado.
Já a alma... a alma é imensa, e transborda, e galopa como cavalos selvagens pelas nuvens tempestuosas.
O corpo é uma jaula.
A alma é um mundo.







22 de jan. de 2014

Prisma


Há um jardim a ser cultivado,
Dois gatos dormindo juntos no tapete brilhante, e sim,
Haverá um belo sol nascendo pela manhã de amanhã.

Vamos pelas trilhas empoeiradas...
Lentamente, olhando as nuvens,
deitadas como doces senhoras num horizonte não tão distante.

Somos crianças perdoadas por quebrarem seus brinquedos caros.
Somos crianças passando a tarde em cima das goiabeiras à beira da estrada.
Somos crianças que ainda não descobriram que seus sonhos são impossíveis.

Não posso dizer que não dói,
Que tantas vezes o sangue quer ebulir nas veias.
Na verdade raros são os sons agradáveis à alma...

Mas se no escuro o coração não passa de uma peça fria,
À luz, é um prisma jorrando cores.
E não há noite que seja eterna, não há.

15 de jan. de 2014

"La tristesse durera toujours"


Algumas memórias  são expelidas pelo estômago da alma com força, 
como um alimento impróprio.
Elas passam pela minha garganta e boca como ácido e como fel.
Escorrem pelo chão branco poluindo o ambiente com seu cheiro azedo.

Vou para longe dos jardins em momentos assim.
Minhas flores não verão minhas dores.
Dores tão egoístas, tão mesquinhas.
Volto depois, exausto, de olhos lavados.

Volto quando a madrugada chegar,
Deitarei no escuro e no silêncio absoluto.
E assim contemplarei a plantação de estrelas...
Apenas assim acho deliciosa minha pequenez.

Vincent usou suas últimas palavras para dizer que a tristeza durará para sempre. 
Que dure...
Há beleza e esperança na tristeza. Há uma pausa.
Nós sabemos disso.

A tristeza, como doce e silenciosa amiga, 
sempre nos tomou delicadamente nos braços.
Adornou meu coração e minhas canções com pequenas flores perecíveis...
Quando ela parte o perfume continua pairando no ar.
Então se aproxima a esperança, acanhada e sutil, 
acomodando-se em seu lugar.

E eu o entendo, Vincent...
Eu também olho com desconfiança para a sanidade.
Eu o entendo, Vincent...
O mundo não seria tão bonito se o víssemos apenas com olhos felizes.

13 de jan. de 2014

Mais do mesmo


Nenhuma palavra varou a madrugada que chegara.
Não haverá nenhuma dança no pálido luar desta noite.
As fontes estão secas, o jardim está adormecido.
Os pensamentos permanecem como as estrelas:
Esparsos, perdidos, brilhando muito pouco.

Os sonhos continuam perturbados pela busca infinda ao inexistente.
O coração permanece como uma manhã de primavera ainda coberta pelo frio escuro do inverno.
As flores demoram a desabrochar e tão rápido caem, murchas.
Que seria a felicidade senão uma paixão pelo efêmero?
Com a passagem das horas tudo volta exatamente para o mesmo lugar.


8 de jan. de 2014

O baile


A taças foram poucas, o suficiente para que as luzes aparentassem brilhar um pouco mais do que realmente brilham...
Para o que os movimentos fossem um pouco mais doces e lentos.

Eu vi as nuvens vermelhas surgirem e sumirem,
Enquanto dançava solitário na terra úmida olhando as estrelas raras, 
quase sem brilho. Eu, as estrelas... quase sem brilho.
Abraçado por brisas e relâmpagos que estouravam nos quatro horizontes,
Dançava.

A canção faz-se meu sonho, meu amor.
Entrego-me a ela fingindo santa embriaguez.
Não há perdão a ser pedido,
Promessa a ser jurada,
Adeus a ser dito,
Socorro a ser clamado.

Aproximou-se a saudade do que ainda não houve,
Dançamos como se nos amássemos também,
E nos amamos.
Dançamos como velhos conhecidos, como loucos, como espíritos indomados.
Sujamo-nos da nossa vontade de vida, da nossa sede de sentimentos.

Sutilmente o desejo se aproxima toma-me nos braços fortes.
Toca-me delicadamente... Toca-me por completo.
O corpo silencioso...
Mas a alma excita-se, acende-se, ascende-se.
E o que era um baile solitário de um homem com sua pequena taça de cristal,
Meio cheia do doce sangue divino,
Torna-se um baile de corpo, alma, sentimentos, relâmpagos, estrelas, flores, ânsias...
Todos semi-entorpecidos, todos semivivos, todos semiluminosos, todos semi-insanos,
Todos completamente livres.

4 de jan. de 2014

Asas e raízes


Se bebi rápido demais era por medo do vinho esquentar.
De quente basta a noite, as paredes, o chão, a cama vazia.
Se não prometi a partida foi por medo de não conseguir levar na bagagem tudo de mim.
E já é tão pouco o meu tudo. Levar a você apenas metade seria desrespeito.
Se ainda não firo as mãos na terra dura que deve ser um jardim é por saber que à noite já existe uma plantação de estrelas, todas florescidas, desabrochadas, a acariciar meu olhar faminto de belezas. 

Existe esta necessidade de justificar os passos e os atos,
Mas não que se espere algum ato de compreensão,
Não existe compreensão. Aceitação, no máximo, se com sorte.
Existe esta necessidade como existe a necessidade de ouvir outra vez uma mesma canção.
Existe, como existe a necessidade de recordar os dias em que o abraço era refrigério para alma e corpo incandescentes de medos e loucuras atrozes. 

Justifico os movimentos como quem acena dos escombros pedindo resgate.
Mas já sei que não há resgate que me tire de mim com vida.
Digo o que sinto e digo o que sinto e digo o que sinto,
Tantas e tantas vezes, embrulhado em palavras e expressões que são tanto e tão nada, porque os ventos, as marés, os homens, as flores, as luzes precisam saber: eu sinto!
Não que precisem, de fato. 
Eu é que preciso que saibam, para que eu continue meu sentir, que é meu sonhar, que é meu respirar...
Que são minhas asas... minhas raízes.

Saldos e baixas


A sensação é a de um fim de batalha.
Alguns membros ainda doem pelas escolhas feitas, pelos movimentos tomados.
Uma dor estranha, porque é como se o ferimento fosse mais profundo e perigoso que o incômodo que ele gera.
Há uma paz branca agora. Silenciosa demais.
Uma esperança sutil e quase imperceptível, como o verde das paredes.
Embora eu saiba que não há tempo para descanso; outra batalha se aproxima; eu deveria estar melhor.
Sorrindo mais ou cantando mais ou qualquer coisa do tipo mais.
Mas não.
Sei que não se vive com olhos voltados para trás, mas ainda olho as baixas no campo.
Olho a face de cada Anjo e cada Demônio que das minhas entranhas saiu e que por mim lutou e sinto um pranto gigantesco como uma tempestade se formando atrás dos olhos.
Eu os amava tanto, cada um deles.
Mas as Lágrimas, fiéis e queridas enfermeiras desta alma raquítica, não caem.
Mantêm-se condescendentes, mas imóveis.
Elas sabem, e eu sei: chegou a hora do adeus.
Chegou a hora de nos despedirmos deste campo de batalha, que já fora um vistoso jardim.
Chegou a hora de aceitar que os caminhos para os sonhos muitas vezes não são pavimentados.
Escorregões virão. Os sapatos se lambuzarão de lama. As roupas ficarão sujas.
As trilhas serão inseguras, escuras.
Talvez num desses caminhos o tombo venha, e junto dele o Medo e a Vergonha.
A Dúvida, a ingrata e constante companheira, será a primeira a gargalhar.
Provavelmente, além da morte, ela seja a única certeza da vida...
Doerá. Doerá porque será desejada uma mão, e essa mão não estará ali.
Doerá...
Mas se a queda é uma possibilidade, o levantar é uma certeza.
Talvez eu até gargalhe um pouco com a Dúvida.
Levantarei, mesmo com olhar baixo, e continuarei, mesmo com passos hesitantes.
Será mais uma dor válida a ser lembrada.
Uma dor guardada como uma pedra preciosa, uma consequente ao amor às coisas certas.
E depois de tudo, eu sei, restará apenas uma coisa a ser dita ao campo, ao jardim, ao caminho, aos Anjos e aos Demônios:

Obrigado, muito obrigado, novamente.

28 de dez. de 2013

"Processo ex-tático"


Deitei-me naquele véu pálido de luar,
E nos meus silêncios tão inquietos gritava por socorro.
Mas nada doía, nada queimava,
E era esta a dor mais insana, a chama mais faminta:
O não doer, o não queimar.

Deite-me no véu pálido do luar
Porque qualquer braço, qualquer ombro, qualquer peito
Se fazia distante demais.
Tão distante quanto o luar sobre a terra úmida 
É do seu foco de nascimento. 

Deitei e adormeci.
Os sonhos, cavalgantes, não demoraram.
Em instantes, mais heróis, monstros, asas e correntes
Que se possa contar!
Minha alma deleitando-se de suas quimeras...

Desperto, o silêncio.
Mas chegou a chuva; caindo melodiosa como boa música 
Sobre este telhado que não abriga mais meu verdadeiro lar.
Havia o cheiro e a saudade de um futuro desconhecido, aguardado.
Havia a mim, incompleto e lento, mas vivo.

27 de dez. de 2013

Promessas de Ano Novo


Um último minuto para as mesmas canções.
Um minuto de paz.
Um perfume oculto que devolve a divindade que um dia meus sonhos
possuíram.
Um momento para chorar meus adeuses, para sorrir minhas escolhas.
Observar com todo carinho cada um dos brotos do jasmineiro à minha porta.

Restará para sempre em mim aquela estrada junto do seu cheiro.
Restará em mim a humildade esculpida nas mãos, o elogio singelo.
Restarão em mim o abraço desejado e a lágrima que não evidenciei.
Olhe em meus olhos, colha seu perdão.

Um instante para agradecer a lição que trouxe cada uma das minhas
cicatrizes; um instante para agradecer a fé que retornou depois das várias
estações em que esteve dispersa.
Amar, com todo meu coração e alma, todos aqueles que acenderam estas
pequenas luzes que existem em mim.

Permanecerá em mim a criança; não a criança que sentia medo e vergonha, mas a criança que sabia voar.
Permanecerá em mim o beijo, o gosto.
Permanecerão em mim todos os instantes de contemplação das estrelas, dos imensuráveis milagres sutis.
Um tempo para parar, tomar fôlego, reciclar o brilho do olhar e mergulhar com toda força novamente neste oceano obscuro e fascinante que é a vida.

Renascerá em mim a esperança, a admiração pelos sorrisos ingênuos e
olhares doces, iguais aos dos anjos.
Renascerá em mim a voz dos Heróis que partiram sem se despedir: eles
voltam, eles voltam...
Renascerá em mim a claridade perdida, as asas murchas, o amor.
O Amor...


De "Em meu Jardim Secreto..."

26 de dez. de 2013

Louvores


Louvado seja o caminho desprovido de sentido e de fim, com todos seus
adeuses não ditos, guardados.
Louvada seja a poesia que cura, a palavra que salva. A poesia que me encontrou, a palavra que me foi dita.
Louvada seja a lágrima que salta confusa por culpa do solavanco não previsto, e marca meu rosto, escorre por minhas pernas e purifica meus passos.
Louvado seja meu medo por sua prudência e ainda mais louvada seja sua
amada filha bastarda: minha ousadia.
Louvada seja a espera fria e firme como pedra, assim como a esperança frágil e bela como flor. Louvada seja, insisto, a esperança: minha substituta para o Amor.
Louvada seja também a fé. A fé que ilude e que salva. A fé que cura e que
enlouquece. Louvada seja; embora as tantas mentiras que transformou em consolo e as tantas verdades que transformou em cinzas.
Louvadas sejam as transformações, das ínfimas às imensas, pois que são o
sobrenome da Vida.
Louvadas sejam até mesmo a dor e a saudade, já que fazem recordar, nós, seres frios e brutos, que temos um coração, uma alma.
Louvados sejam os olhares que se cruzam e permitem frutificar primeiro os sorrisos, depois as canções, por fim, o sentimento...
Louvados sejamos eu e você, o eu que existe, o você que invento.



De "Em meu Jardim Secreto..."

25 de dez. de 2013

Perdoo


Eu perdoo minha dor, mesmo tão amarga em meus lábios, rançosa. 
Pois é como terra fria onde, se Deus quiser, algo vai crescer em direção ao sol.
Eu perdoo minha fome, insana, atroz, mesquinha.
Porque talvez, quem sabe, seja ela que me obriga a não desistir. 
Eu perdoo a ausência, pois há vez que é tão bonita a saudade. 
Eu perdoo a distância, pois é bom saber-nos correndo ao encontro. 
Eu perdoo o silêncio, porque ele não tem culpa de nada...
Eu perdoo a dúvida: serei eu a água evaporada que comporá as nuvens para o próximo temporal? Se sim, não trarei apenas desconforto, ventos e pavores, também aguarei o girassol da calçada. 

Eu perdoo também o medo, mas só porque um dia ele passa...




De "Mais de mil palavras - A poesia da imagem"

23 de dez. de 2013

"Ser como o rio que flui"

A vida é tão longa,
E nós, tão precipitados.
Poderíamos ter sofrido depois de viver e sorrir tanto,
Mas escolhemos sofrer antes de sorrir e viver.
Poderíamos, talvez, nem sofrer.

Quem sou eu para questionar tão sólidas razões?
Um mero passageiro para a Terra do Nunca.
Mas eu escolheria uma imensa dor, adornada de flores de doces memórias,
A uma dor menor adornada de espinhos de expectativas não cumpridas.

Quem somos nós para definir para que lado devem seguir os rios?
Há os que descem, há os que sobem, há os que desafiam o que deles é esperado...
Mas todos, todos serão mar...
Talvez também fôssemos mar um dia.
Mas não saberíamos disso se não fôssemos doces e leves riachos antes.

Não carregarei mais outra culpa.
Estou aqui, e estou tão vivo.
A porta está trancada, mas as chaves estão nas minhas mãos.
Bata, e eu abrirei.

22 de dez. de 2013

Confesso


Assumo a culpa que nos cabe, fique livre.
Lembre-se de mim como o gentil covarde.
O hesitante cavaleiro...
Não será um julgamento injusto, não mentirás.

Aceito o sangue nas minhas mãos após o estrangulamento do sonho.
Aceito.
E se me justifico é por ter as palavras soltas demais, apenas.
Se justifico, diferença nenhuma fará mesmo.

Que é a vida, meu bem?
Uma colcha de retalhos tão confusa, esburacada.
Ontem era amor, hoje é distância.
Ontem era intensidade, hoje, só saudade.

Vamos nos habituando aos absurdos, não é mesmo?
O absurdo de partir, o absurdo de ficar.
Viver, apenas viver, já é um contrassenso.
Não é, meu bem?

Mas a gente vive. Ou pensa que sim.
E segue. Segue aceitando os sacrifícios.
Aceitando as perdas, aceitando ser mal visto.
A gente vive, porque tem que viver.

Não te esquecerei, meu bem.
As lágrimas que brotaram continuam presas nos olhos.
E um instrumento em particular sempre se sobressairá
Em qualquer canção. Fará um sorriso sutil nascer...

Dói, meu bem.
Mas passa; deve passar.
Hoje, por exemplo, nem chorei.
Mas também não deixei de te amar.

15 de dez. de 2013

Febre


O corpo é sempre dócil e pacífico,
Já a alma, arde, crepita, flameja.
A alma escorre lentamente pelos poros, pelos cheiros e desejos,
Como lava sanguinolenta, como ouro líquido, como dor desejada.

O corpo então transpira, reage, enrijece. 
Clama, suplica, contorce-se,
Mas a alma não ouve, não sente, não percebe,
Apenas queima... queima... queima!

É a libertação!
É a fênix ressurgindo em chamas absurdas!
São as feridas, imensas, profundas, sendo cauterizadas.
E as lágrimas vaporizam-se antes de despencarem dos olhos...

Sou eu.
Recebendo os milagres pelos quais roguei, 
Um a um, lentamente; como previa o vidente.
Sou eu...

Decompondo-me, tornando-me cinza, adubando-me; gemendo.
Gritando no mais absoluto silêncio.
Sou eu; e é você dentro de mim e por mim todo.
Sou eu, talvez finalmente, vivo.

14 de dez. de 2013

Quem me dera ser vento


Quem me dera ser vento...
Para cavalgar pelos picos e campos,
Acariciar faces e flores,
Secar lágrimas e espalhar perfumes.

Quem me dera ser vento,
Para afastar nuvens densas,
Fazer bailar os cabelos,
Levantar pássaros e pipas.

Quem me dera ser vento,
Para estar mais próximo,
Estar por você todo,
Refrescar sua pele ao me sentir.

Quem me dera ser vento,
Para não estar confinado, limitado.
Quem me dera ser vento,
Para não ter medo.

Quem me dera ser vento,
Para ser eu mesmo.
Quem me dera ser vento,

Para ser livre.

10 de dez. de 2013

Eu, palhaço



Não preciso ser mais forte que nada, não preciso ser mais belo que nada, não preciso ser mais que nada. Preciso apenas ser eu mesmo, e zombar disto.
Seu pranto se dissolve no meu sorriso.
Minha máscara é a menor do mundo.
Sou mais estado de espírito que Homem.
Sou apenas uma coisa, tanto por dentro quanto por fora: sou infinito.
Sou o prazer do risco torto de maquiagem forte no rosto; sou o único que consegue fazer rir a dor do ser humano.
Não tenho um lindo sorriso, mas nunca deixo de sorrir.
Não tenho poder mágico, mas nunca deixo de fazer sorrir.
Meu espírito é todo de florinhas douradas que são entregues a todos que
cruzam com meu caminho, com meu olhar, com minha alegria.
Aprendi a brincar de viver, brincar de amar; brincar de ser menino, brincar de ser gente grande.
Sou o que atravessa o mundo, mas nunca sai completamente do lugar.
Sou multiplicável.
Sou a pureza que cresceu; a inocência que não aceitou ser perdida.
Meus sapatos compridos e coloridos jamais serão usados para pisar em
alguém.
Minhas roupas brilhantes são pinguinhos de luz na escuridão do mundo.
Meu coração é um pedaço de doce que quanto mais se divide, mais aumenta.

Minha alma é pura felicidade.

7 de dez. de 2013

Pequena Tristeza


Ó pequena Tristeza, doce princesa, não se aproxime, não se aproxime tanto de mim.
Deixe-me ver o sol se pondo sem me importar com o local onde ele irá dormir.
Deixe-me caminhar com meus passos leves e lentos pelas avenidas vagas,
sentir o perfume dos jardins simplesinhos, o cheiro da refeição saindo pelas janelas.

Ó pequena Tristeza, velha conhecida, deixe-me de olhos abertos para os ínfimos milagres.
Deixe em paz minha tão bonita Fé no amor.
Deixe reluzir a ínfima claridade do meu espírito pequeno.
Deixe as crianças correrem ao meu redor.

Ó pequena Tristeza, fiel companheira, não faça barulho,
Deixe meu Medo dormir seu sono justo.
Caminhamos tantos anos juntos, 
Em tantos momentos era ele meu único e bom amigo.
Deixe, deixe meu Medo sonhar com a Coragem, seu amor platônico.

Ó pequena Tristeza, bela e fria donzela, sente-se aqui.
Ouça esta canção tão bonita...
Você não é má-vinda, eu até admiro sua beleza, sabe disso.
Já tivemos nossos bons momentos, lembra?

Mas eu peço, de toda alma, pequena Tristeza.
Ouça apenas mais esta canção,
Roube apenas mais este sorriso,
E vá de volta...
Vá de volta para o canto que já herdou em meu coração.

6 de dez. de 2013


Está tudo aqui dentro, acontecendo ao mesmo tempo: agora.
O adeus não dito, bendito.
O amor, sutil e puro, como o orvalho da manhã sobre os capinzais,
após as tempestades da noite quente.
O desejo, perfumado e incendiário, como as damas da madrugada;
uma brasa acariciada pelas mãos.

Você... um diamante, reluzindo do alto de uma montanha coberta por cerejeiras em flor; 
e eu, um simples peregrino de trilhas poeirentas, trilhas já à beira do esquecimento, 
olho para cima, humildemente, desejando mais e mais daquela luz tão distante e tão, tão próxima.

Olhando levemente os passos dados, vejo que os últimos antes desta maravilhosa visão não aparecem no chão;
Sei bem o porquê:
É meu coração que já não batia, pois um dia lhe disseram: não há o que valha!

Mas há! E como há!

O que não há é saudade de qualquer jardim outrora cultivado; 
abençoados e rigorosos invernos e verões deram cabo de todos.

Há... Há saudade do futuro.
Saudade do sabor ainda são sentido; imaginado;
Da canção ainda inaudível, não composta, não tocada,
Do sorriso ainda não visto,
Do olhar que ainda não acariciou meu olhar.
Há saudade do brilho desse diamante que minhas mãos ainda não alcançaram, mas que meu coração, revivido e pulsante, já guarda dentro de si...

Como um farol,
Como a lua,
Como o sol.

3 de dez. de 2013

Blues


Sonhei contigo numa certa tarde poeirenta. 
E enquanto segurava suas mãos, admirava seu sorriso, ainda tão distante, suavemente eu suspirava: Jesus Cristo, de onde quer que esteja, eu sei que você continua velando por nós...
Em meio aos meus fracos poderes mágicos, escalagens nos céus, volitações sobre os campos de flores; estava contigo...
Então passei a nos sentir juntos todos os dias. E em alguns dias, em todos os instantes.

Você estava no meu café da manhã, no alimento que saciava as sutis necessidades do meu corpo enquanto eu admirava o céu e sentia a brisa que vinha pelas frestas da janela.
Estava nas canções que penetravam em meu âmago e explicavam tudo de mim... saciando minha alma.
Estava no descer a rua à tarde com o sol se pondo às costas, enquanto meu coração me dizia para apenas fugir, fugir, fugir...
Estava na luz artificial que iluminava meu quarto à noite enquanto eu rabiscava minhas poesias tortas; já estava em toda minha existência, esta que até então ninguém nunca pôde provar que realmente é uma vida.
Estava em todas minhas flores que nasceram e murcharam, e na minha história que nunca deveria ter sido contada.
Estava na mais esplendorosa quimera que minha imaginação seja capaz de conceber, e no simples desejo de estar ao seu lado numa sessão de cinema, em algum domingo quente desses...

Está no blues que nasce quando toma fôlego minha dor...

Estava no semblante calmo e na voz serena da menina, que após ter a sua vida salva pela esperança, cantava: Esta minha luzinha vou deixar brilhar, vou deixar brilhar. Escondê-la sob um alqueire, não, vou deixá-la brilhar...


29 de nov. de 2013

Luzes mortas



As lembranças permanecem, como o céu.
Lembra, aquele céu que sempre admiramos?
Mas assim como o céu está repleto de luzes mortas,
Estrelas que se foram,
Assim está o passado...
Repleto de fotografias amareladas vagando num lago calmo e azul.

Dizem que o verdadeiro amor nunca parte,
e se parte,
nos leva toda a claridade,
Dizem tantas coisas... que nem sei.

Sei que estou aqui, partido.
Com ou sem o que foi o amor.
Mais provável que sem, porque quando deito naquela cama ao lado,
Já nos altos da madrugada,
Sei que ninguém está a pensar em mim.
Sei que não haverá com quem dividir neste momento 
a garrada do saboroso vinho já envelhecido sobre o guarda-roupas. 

Toda noite estou a caminhar por este cemitério de estrelas e lembranças,
Até que o sono vem, e o espírito viaje, tão liberto desta carne suja, 
até seus paraísos eternos e instantâneos.
Todos os dias são como uma luta feliz,
Todas as noites são como uma paz tristonha.

Mas foi-se o dia, e a noite, minha amada amiga, é sempre bem-vinda.
Mesmo tristinha, mesmo com suas estrelas mortas... 
mesmo com a saudade de um sonho que não será sonhado mais.

26 de nov. de 2013

Novo mundo

Houve aquele tempo em que havia tempo para molhar o olhar de lágrimas enquanto o sol ia deixando-se esconder pela baixa colina.
Houve aquele tempo em que o coração velejava num mar tão vivo, colorido e perfumado de ilusões...

Mas que novo mundo é este em que aporto?
Que ruas são estas? Que juízes são estes? Que gentes são estas?
Tudo tão rude, amargo, autoproclamado perfeito.
Agora o coração se aloja fundo no peito, esconde-se, 
como se sua própria natureza fosse criminosa.
Como se as flores fossem culpadas por serem amarelas ou vermelhas,
perfumadas ou desprovidas de perfume.
Como se as flores fossem culpadas por terem nascido flores.

Nunca doeu antes, por que dói agora?
Nunca doeu tanto a ignorância alheia, o julgamento desprovido de sentimentos alheio.
Como é estranha esta terra, onde o errado condena o inocente enquanto esconde as próprias mazelas.
Como é estranha esta terra, onde uns desejam o sangue dos outros.
Por pura sede, por puro prazer!
Como é fria esta terra...
Como é escura...

Não negarei meu desejo de voar!
Meu constante e ancestral desejo de regressar às Terras do Nunca.
Para sempre rogarei as asas que jamais me serão dadas!
Para sempre serei o caçador de um tesouro inexistente!
Eu ouvirei as vozes nas ruas,
Olharei nos olhos,
ainda assim.
Desejarei, talvez por mais que alguns instantes, estar imerso naquele abraço:
Aceito, acolhido, nutrido, acalentado.

Não há coração que não pare às vezes.
Não há sonho que não nos exploda de ansiedade.
Não há esperança que morra para sempre.


24 de nov. de 2013

Nada


Foi a transitoriedade da eternidade que me deixou assim:
Perplexo. Mudo. Pacífico. Resignado.
Fugindo por querer ficar, enganando a esperança com flores de papel,
Despedindo por querer amar.

Quando a noite deita, junto de nuvens e raios, sobre os telhados,
Tudo parece ser mais difícil.
Os sentimentos do passado, mais doces do que realmente foram,
A solidão do presente, mais amarga do que realmente é.

Sinto medo é deste não sentir.
O susto que não vem quando os raios estouram lá fora,
O controle absurdo sobre cada passo, cada palavra, cada músculo.
Para o que me guardo? 

Sinto medo é desta espera,
Como se houvesse uma estação mais florida à frente,
Como se novos perfumes fossem adentrar pela janela.
Não, nada baterá nesta porta. Apenas o nada.

Também não haverá próxima estação, enquanto este for o mesmo.
Também não haverá mais qualquer poema de amor.
Também não haverá o adeus ou o olá.
O também... o Também não haverá.

21 de nov. de 2013

Bandeira branca


Não se sinta mal; se você ainda guarda algo de valioso seu dentro de mim;
com a bandeira branca pendurada na minha porta.
É tão simples: o tempo das lutas inúteis passou.
Quem bater nesta porta será recebido em paz.

A lições que o fogo e o sangue deixaram permanecem.
O líquido que borbulha em minhas veias continua mais apaixonado pela vida do que nunca.
Nada em mim está morrendo, nada em mim está desistindo.
Ao menos não desistindo de si mesmo.

Sempre fica a amargura depois do fim.
Sempre é eleito um culpado mesquinho diante da perfeição suprema da outra parte.
Tudo bem, eu entendo. Talvez, pouco tempo atrás eu até concordasse.
Entregue a culpa numa caixa dourada e coloque num cômodo vazio qualquer desta casa suja, num lugar onde não me atrapalhe dançar, por favor.

Logo partirei para tão longe e nenhum arrependimento, nenhuma culpa será levada na mudança.
A caixa dourada e tão pesada ficará no mesmo lugar, até que se decomponha.
Convidarei amigos e heróis, carregaremos as flores e os seis gatos.
E novos sonhos irão ser adubados com todas as histórias que foram morrendo com o tempo.

E o amor... o amor retornará a ser a busca mais doce e inútil.
E a busca... a busca retornará a ser o amor.
Minúsculos instantes levados como pétalas pelo vento...
Instantes tão bonitos e irreais.

17 de nov. de 2013

Trancado


Eu tranco a porta.
Eu não digo adeus.
Eu esqueço a dor.

Desta página em branco não jorrará uma obra-prima.
Daquele telefone não sairá mais o som de uma voz que aqueça meu sangue.
Deste Jardim não sairão rosas para mãos quaisquer. 
Deste coração não sairá mais um sinal pedindo socorro.

Serei eu meu infinito, meu reino, minha paz.
Adianto desculpas pelas obrigações que impus ao seu peito.
Nenhum herói será novamente rogado.
Nenhuma canção de chegada ou despedida será cantada por estes lábios.

Desta vez também não aceito a presença da solidão; fiel amiga.
Da autopiedade, autocomiseração; coisas tão não excitantes. 
As lágrimas que escorrerem. estão por conta delas.
O que sangrar, sangrará por si mesmo.

Ainda que os desejos borbulhem, como a lava lenta e infernal dos vulcões.
Ainda que filetes de saudade volta e meia escorram pelas paredes rotas.
Ainda que a fé tenha partido antes do previsto, outra vez.
A porta permanecerá trancada até que a verdade bata nela.
Caso a verdade exista...

16 de nov. de 2013

Instante


Nos abandonamos reciprocamente, lentamente, dia após dia, semana após semana, mês após mês... Até não restar nada, nem dor, nem amor, nem culpa.
O fim veio silencioso como a noite; chegou, restabeleceu o silêncio que já queria imperar, traçou as linhas e limites de distância.
O fim não é algo tão triste quanto dizem. O fim é algo brando e pacífico. Apenas uma etapa.

Talvez meu amor volte a ser um amor pela procura.
Isso não era de todo mal.
Não posso negar a beleza disso, embora doa.

Como nesta noite, naquele sonho, em que um abraço desconhecido envolvia todo meu corpo e minha alma e eu me sentia intra-útero novamente, ou aninhado, ou soterrado, como uma semente aguardando a primavera.
Aquele abraço que, meu Deus, era tão pouco e ao mesmo tempo, tanto!
Um abraço suave, frágil, ermo, delicado, como as pétalas das minhas flores simples, e poderoso como os trovões que rugem no céu cinza lá fora deste quarto escuro que sou.
Nem mesmo as palavras, as palavras que gostamos tanto de despejar aos sete ventos e por qualquer motivo, foram necessárias.
Apenas o instante foi necessário.
Apenas a desnecessidade de compreender, ser, fazer, conquistar, foi necessária.

Mesmo que os anjos, com sua aura prateada, fossem invisíveis a estes olhos sujos.
Mesmo que os demônios estivessem liquefeitos sobre os lençóis.
Mesmo em minha infinita confusão e desejo e medo e pequenez e grandeza...

Havia o instante, e o instante foi tudo que precisei para ser salvo.
Outra vez.