24 de fev. de 2011

Nada além

Não quero nada além do luar.
Interrompa aquela canção que fala sobre as dores.
Eu penso demais sobre as soluções,
E me esqueço de ver as borboletas voarem...
O mundo nunca fará sentido,
E eu nunca serei completamente preenchido.
Mas isso não vai impedir que o alvorecer seja belo num amanhã.

Não quero nada além da batida certa.
Para calar minha mente e mover meu corpo.
Um vinho vagabundo e uma madrugada fria.
Falando trivialidades, pois detesto aquelas coisas ditas “importantes”;
Elas pesam e doem e são inúteis.

E quando eu começar a viajar para muito longe
E apenas meu corpo permanecer ao seu lado,
Não diga que devo encontrar ajuda,
Diga que flutuará comigo.

Estou completamente exausto,
E meus pés doem enquanto vou ao seu encontro.
Minhas palavras são peso de papel,
E meu coração não enlouqueceu o suficiente para me permitir a felicidade.
Pois eu prefiro um violão, uns amigos e você ao meu lado, a pensar em tudo o que eu deveria ser.

Onde quer que eu tenha me perdido,
Já não quero me encontrar,
Já não quero me curar,
Já não quero ser explicável.
Nada me será mais fascinante do que amar, lutar, perder
e procurar, por mim.

Sinais

Cada passo que dei era um sinal.

Os lugares onde meus olhos se perdiam,
As canções onde eu buscava abrigo,
O "eu estou bem" fingido,
O segurar sua mão fortemente...

Tudo era meu corpo tentando responder suas perguntas,
E as minhas perguntas.

As poesias que você não absorveu,
Minhas palavras que te confundem ainda mais.
Tudo isso sou eu.

Estou em todos os detalhes despercebidos.
O "olha aquela estrela próxima à lua",
Era eu tentando chegar a você.
A minha fuga sem explicações,
Era a espera que você me pedisse para voltar.

Meus músculos tremendo,
E o abraço forte em teu corpo suado,
Era eu mostrando não estar pronto,
Ou não tendo a fé necessária,
Ou perdendo a esperança, novamente...

Mas você não pode enxergar nem meu coração,
Esse  imenso circo tragicômico.
Como poderiam serem dignos de sua atenção, então, meus sutis e acanhados sinais?

Fecundação

Que sentido darei à tinta sobre o papel?
A tinta delineada, tentando salvar meu espírito desse vazio.
Recuso-me a acender as luzes.
Nego até meu medo, o sempre companheiro.

Os sentimentos serão empilhados em pacotes marrons,
Aqueles sentimentos enfim fecundados...
Tentarei me vender aos pedaços.

Dezenas de possíveis portas ao amor,
Mas meu amor, este suculento e doce fruto raro, contorce-se enquanto dúvidas o corroem por dentro como um verme faminto.

O tímido poeta então me fala de seus Navios Fantasmas,
Me fala de suas quimeras escravizadas.
Ele produz alojamentos aos sentimentos que minha alma gera e rejeita.

Digo ao reflexo: e agora, olhos de esperança?
O que fará com todas as sementes colhidas daquele jardim?
Mas não há resposta...
Eu retorno ao silêncio,
às ínfimas gotículas de chuva que vão descendo tão suavemente.

Extremo em mim sempre foi aquele vazio, te digo.
Meu indócil e velho vazio...
Com seus retratos amarelados,
Com seus trajes empoeirados.
Não sei o que farei com o que crescerá nas entranhas de mim.

Meu também tão honesto vazio...
Que agora cederá seu lugar à vida que se anuncia.
Fecunda já está.
Basta crescer um tanto mais.

A gestação

Não sinto estrelas ou lua,
Mas nem chuva...
Tudo recusa-se a existir.

Que noite ingrata... tanto te amo, tanto te anseio,
E faz-se tão indiferente a mim.

Eu sei, eu sei.
Tão belo eu sorrio,
enquanto alguns olham meu ventre esperando grande criatura.
Mal sabem que carrego apenas feridas de gosto ruim, madrugadas com seus fantasmas camuflando-se por entre chuvas frias.
E umas poucas florinhas...
O que carrego sou eu mesmo,
e tanto me movo, tanto me esmurro por dentro, que enfim me acredito até forte por tão só suportar tamanho tormento.

‘Aquieta-te!’
Eu suplico-me.

‘Há de chegar tua hora, Cultivador de Sentimentos!’
‘Aquieta-te que o mundo além das paredes que te aprisionam não se faz muito diferente da insanidade da qual te nutro.’

‘Pacifica-te, que bem planejo tua vinda, ser-eu.’
‘Quero receber-te com luzes pequenas,
Panos coloridos,
E violetas na janela.’

O parto

Escorrem-me faíscas pelos poros,
Meu suor reluzirá.

Cada sentimento adequou-se à sua forma,
À sua sílaba,
Ao seu fonema.

As pequenas partes deterioradas agora são células agrupadas. Vertiginosamente gerou-se um arquétipo meu, de vida particular.

Eis o momento,
A noite fará as honras, será a madrinha,
Espero por uma lua que brilhe junto de suas estrelas.

Torná-los-ei matéria,
Sentimentos meus.
Batizá-los-ei com nomes e significados.

Imenso gozo e imensa dor é arrancá-los de mim,
Pois nascerão e continuarão aqui dentro do meu ventre,
Do meu peito,
Dos meus lábios,
Fazendo-se cada vez maiores e mais intensos.

O que serão as partes minhas que no mundo vagarão,
sorrindo e chorando?
Não sei;
não sei mesmo.

Sei que de alguma forma tornarei claridade,
o que em mim tanto foi sombra.