28 de mai. de 2023

 


Em algum lugar 

Alguém ainda espera por sua voz 

Enquanto você repara rachaduras 

E sonha em desenhar balões 

Em um quarto vazio de paredes brancas

E seus olhos brilham

Como uma criança de sete anos 

Repleta de tanto futuro 

E sobre a sua forma de cura 

Não ouvi relatos mais reluzentes

Colando

Adequando 

Plantando

Florescendo

Alvorecendo 

Somos nossas histórias

Não somos?

Disse para a gentil dama 

Somos sim 

E um pouco mais do que há de se viver 

Eu também já fui bem longe 

Acredite 

Procurando um sonho bonito que só 

E voltei pra bem perto 

Muito perto

Dentro de mim

Para poder fazer disso

De mim

Meu próprio lar

Enfim.

26 de mai. de 2023

Último fôlego



De tudo que era tanto 
Restaram apenas palavras 
Restaram apenas canções 
Restou pouco 
Menos que nada
 
Nenhuma prova física da deslumbrante existência 
Apenas um sussurro 
Uma voz 
Uma cor dos olhos 
O paradoxo de um adeus sem fim 

Mas alvorece enfim 
Outros ciclos se conectam 
E se encerram 
Enquanto a duras penas
Eu cresço um milímetro por milênio

Mas alvorece enfim 
Novas histórias serão contadas sob as luzes juvenis
E antes do profundo mergulho 
A esperança de um último fôlego 
Até que finalmente se beije a superfície.

20 de mai. de 2023

 


O já velho garimpeiro 

Outra vez 

Revolvendo o leito do rio cansado 

Em busca de algo que brilhe 

Algo que valha 

Algo que reste

Mas apenas memórias foscas surgem das águas 

Memórias que a correnteza sempre leva

E sempre traz de volta 

Nunca mais 

Nunca mais 

O inestimável diamante azul 

Com seu brilho inigualável 

Majestoso 

Impossível

Nunca mais a pureza extrema 

Perfeita 

Amada

Apenas as águas turvas 

O cascalho afiado cortando os dedos 

O cessar das luzes

A saudade

É então o fim 

É então tarde 

O garimpeiro repousa suas ferramentas

Gastas

Danificadas

E parte do rio 

Para o qual em algum momento há de retornar 

Para revolver de novo e novo

Sem esperança 

O leito silencioso 

Sem saber 

Que ali naquelas águas 

Só o

 que de precioso restara

Era ele. 

 


Houve um pequeno 

Um curto espaço de tempo 

Em que não havia tempo 

E por não se saber da passagem das horas 

Se era infinito

E tudo o que agora é tanto 

Os relógios

Os horários 

As hierarquias

As falsas promessas e falsos sorrisos

Os sonhos monumentais

Era nada 

Apenas um ruído distante

Ecoando no horizonte sem fim

E tudo de tão pouco 

Um aroma

Uma luz do sol

Uma flor 

Um riso de criança 

Um fim de tarde 

Um outono

Era o que era na verdade tudo 

E bastava 

Talvez eu soubesse antes 

Muito mais sobre tudo do que sei agora 

Com a memória ainda pura 

Límpida

Repleta de ecos fluorescentes

Da verdadeira vida 

Agora então 

Quando os anos passam displicentes 

Eu luto para levar o menino para brincar lá fora 

Como antes 

Quando o que doía

Era apenas a noite chegando e pausando a felicidade do dia 

Quando o que doía era só um joelho ralado 

E não um coração que se partia.



 A alma entoa uma canção como uma prece 

Uma melodia harmoniosa 

Uma voz sagrada 

Sem tantas súplicas 

Calma

Sem tantas saudades 

Branda

O que resta ainda a ser dito

Repousa dócil 

Sem pressa

Paciente 

Sem angústia

Esperançoso 

Pois não restam inimigos à porta 

Não restam luzes imaginárias a guiar escuridão adentro 

Começa enfim a reconstrução 

E é uma tarde de outono 

Mas alvorece 

No peito do homem 

Ainda bate forte o coração de menino

Sentindo sede de vida

E como na canção 

Eu vejo 

Onde eu estou

É tão bonito 

Porque eu estou livre.

 


Há ainda um tanto tão grande de céu 

Na alma fincada na terra 

Uma ressurreição

O cessar de um pranto 

Uma prece 

Sempre uma prece 

Com os dedos 

Os lábios

Os olhos 

Obrigado Deus nosso 

Pela misericórdia tamanha ao filho falho 

Pelos pés na areia morna 

Caminhando caminhando 

Pelo coração se curando 

Resistindo 

Descansando

Pela trégua tão implorada

Pelo amor que floresce no próprio peito 

E que finalmente basta.

10 de mai. de 2023

Tempos de trégua

 




A paisagem ainda é a mesma lá fora 

Mas já são as últimas palavras antes do ponto final 

Que precederá as páginas do novo capítulo

E eu sei que ainda há amor

Ainda há vontade e saudade 

Eu sei sobre a terra fértil que traz no peito 

Onde tudo tão facilmente se abriga 

E cresce

Floresce

Frutifica

E eu te amo por isso 

Te amo por tua fragilidade e constância 

Por olhar esse mesmo céu tantas vezes com o mesmo encanto do menino que já fora 

Te amo pela forma como se reconstrói 

Ajuntando tuas pedras e plantando tuas flores

Como disse a poetisa

Te amo por nada em ti ser extinto ou apagado 

Como disse o poeta

Pois por isso verá a alvorada despertar no horizonte

Completo 

Sozinho 

Ou nem tanto 

Ao teu lado e em silêncio teus anjos também fitam o horizonte

Sorrindo pelos tempos de trégua que se aproximam.

2 de mai. de 2023



Em um dia estava tudo bem

Eu via a esperança andando de bicicleta na esquina 

Já em outro

Não 

Era meio dia e os pássaros da manhã já não cantavam 

Algumas lágrimas escorriam 

Sem conseguir abrir a porta 

A janela 

O sorriso 

Deitado, esperava

Mais alguns minutos 

O fim de mais essa canção 

E tudo bem 

Sua falta se fazia um pouquinho 

Talvez mais que ontem 

Talvez menos que amanhã 

Mas a minha falta se faz muita 

Todos os dias

Cada vez mais

Por isso acendo a luz 

Alguns passos até a janela 

Está um dia bonito 

É dia sagrado 

Dia daqueles que constroem os pilares do mundo 

Bonito também 

Ouso dizer

O aguaceiro de palavras dos últimos tempos 

Elas

Quase as únicas a nunca irem embora 

A não desistirem de mim 

Ou eu delas

Disseram 

Sonhei com você em minha vida 

E nem a quem mais amei disse algo tão belo

O mundo fazia muito barulho naquele momento em particular

Você não me ouviu 

Mas há essa atmosfera de outono 

Um azul límpido e ameno 

A luz dócil por entre as árvores 

Uma oração sincera 

Como se Deus estivesse de frente a mim

Não distante ou universos acima 

Mas ali

Olhando nos meus olhos 

Então começo a me reconhecer novamente 

Lentamente 

No que fica após o dissipar das tempestades 

E ao menos neste instante

Não sei de algo que seja mais digno do Amor 

Do que isso que vejo.

30 de abr. de 2023



Quando voltava a mim 

Eu entendia que a vida não era feita no desassossego

Mas nesse tecer delicado das horas e sentimentos 

Fio a fio 

Amarrando como que construindo 

E aí a gente olha pela janela com o olhar cansado 

Com o coração encolhidinho

Só que vê a esperança andando de bicicleta ali pela esquina 

De joelhos ralados

Cabelo desgrenhado

Sorriso meio amarelado

Doidinha a esperança 

Mas uma menina ainda 

Depois de tanto tempo 

Uma menina ainda 

E a gente chora ao mesmo tempo que sorri 

Quando ela acena 

Lá de longe

Toda faceira 

Porque a vida 

Meu amigo 

Dói na carne e no osso da gente 

A vida dói pra frente e pra traz 

Dói assim como se a gente fosse de ferro 

Só que a gente não é

Mas é bonita a danada 

Tão jeitosa 

Que a gente acaba por se apaixonar por ela 

De novo e de novo

E quer dela mais um bocado

Mais um tantinho 

Mais um gole 

E ela dá

Dá um céu limpo e bonito desse

Dá uma lembrança formosa de uma última dança 

Dá uma estradinha por entre um jardim 

Dá inspiração 

Pra mais uns versinhos simplórios.

28 de abr. de 2023

Kintsugi

 


A alma

Como uma rara porcelana

Partida novamente em cacos pelo chão 

As mãos então ferindo-se na coleta dos pequenos preciosos pedaços 

Tão pequenos e afiados 

Mais uma vez 

É preciso pacientemente recolocar cada parte 

Juntar as peças

Retomar a caminhada 

Mas exaustas

As mãos tremem 

Exitam

Recuam

Um anjo fala-me então sobre a fé

E as montanhas movidas com seu simples sopro 

E as mãos seguram firme novamente

Insistem

Persistem 

Mas noto a falta de algo precioso para que se juntem tantas partes

Outro anjo fala-me então sobre o amor

E sobre sua poderosa capacidade de juntar o que está quebrado 

E como um fio de ouro 

O Amor cola cada fragmento partido

E aos poucos vejo formar-se o mosaico da alma

Distante de sua pura e intocada forma primordial 

Mas tão mais valiosa que outrora 

Por último falo eu sobre a esperança 

E a alma refeita sorri 

E eu vejo o mais belo e verdadeiro sorriso

Aquele que resiste

Mesmo nas noites de escuridão mais profunda 

E eu vejo o mais belo e sincero sorriso

Ainda que com todas suas imperfeições.

27 de abr. de 2023

 




Feito dito na canção

Você era como um amanhecer

Uma tão aguardada alvorada 

Eu era como uma chuva da madrugada 

Um desaguar manso e contínuo

 

Naquele momento

Eu contemplava a vida

Você a vivia

E as proximidades tornaram-se menores que as distâncias 

Quando já não se pôde perceber

Que a chuva que sempre caía,

Junto à luz inebriante do sol,

Fariam florescer na terra devastada do peito 

Um jardim de milagres 


São estranhos todos esses tempos 

Em que jogamos fora o que há de sagrado 

Diante de encontrar-se nele alguma imperfeição

O esculpir, o curar, o salvar, o cuidar

Parecem custar tão mais 

Que simplesmente

Virar a página 


E serão estes os últimos versos antes do silêncio 

Não que se calará o coração 

Mas cessarão as palavras

Para que não se macule a dor 

Para que não se faça dela algo menos bonito 

Para que não se reprise ininterruptamente

O mesmo dolorido adeus.

 


Há também algo de belo nos dias em que a luz se recusa a nascer 

Lembro-me dos teus olhos tão vivos 

Cheios de verdade e despedida 

Das mãos estendidas 

Do sorriso límpido

Das mais novas páginas sendo escritas

Formando outro doce triste capítulo 

E não pudemos caminhar de mãos dadas pela chuva 

Não pudemos...

Mas houveram centenas de pequenos momentos sagrados 

Pequenos segundos cristalizados em canções que agora tocam sem parar 

Minhas canções tristes que você tanto não gostava

Por não sentir nelas a dor tão bonita que eu sentia 

Agora os sinais estão fechados

É momento de breve espera 

E sei que logo chove 

Há de ser limpa a atmosfera de densas esperanças 

Que escorrerão pelos telhados e calçadas 

E por nossas ruas que ainda se cruzam 

Enquanto levam para longe os passos que deixei enquanto te buscava 

O tempo dirá, disse a mim... 

Mas eu começo tão bem a voz do tempo 

E ela sempre ocoa para cada vez mais longe 

Cada vez mais para o nunca mais.

Prisão das flores

 


Volta, assim, à prisão do teu quase belo jardim,

Enquanto lá fora o mundo resplandece em vida.

Volta, assim, teu olhar ao solitário longo caminho,

E segue...

Caminha, lento andarilho, 

Ignora outra vez a voz rouca, 

Cansada, 

Disso que leva pesando no peito. 

Acalenta a nova dor,

A nova dúvida, 

A velha certeza: 

Para ti, só o tempo de companheiro. 

E mesmo ele,

Se esvai.

Sinais da estrada

 


Os sinais pela estrada dizem que ainda estamos distantes de casa 

Velhas memórias e velhas feridas

Que não partem

Nunca partem

Também 

Os pés cansados em sapatos ruins reclamam do caminho infindo 

Só o coração ainda canta

Uma melodia fraquinha, delicada 

Repleta de notas de uma esperança quase boba

Mas a noite que se achega após a tempestade não deixa de ser bonita e perfumada 

E já não há pressa 

Há tempo de observar nuvens esparsas onde talvez ainda repouse algum anjo em justo sono 

Há tempo de admirar um ou outro jardim que resiste a florescer

Quem sabe dizer ao certo se são passados os tempos insanos 

Já que nas almas pelo trajeto vejo tantas máculas

Tantos adeuses 

Tantas lágrimas?

Quem sabe dizer ao certo quanto sobrou de nós? 

As respostas todas pairam distantes

Como a luz do poente que se rende à madrugada próxima 

Por um instante eu absorvo então a paz de um santo silêncio enquanto sigo

Lentamente

Sem parar

Em minha própria direção.

23 de abr. de 2023




Eu te observei abrindo aquele portão 

Depois de tantos anos 

De tantas vidas que só você viveu 

De tantas batalhas que só você perdeu e venceu 

E te vi novamente de olhos cheios de esperanças 

Quase forte o bastante para ignorar

Todas as tantas vezes

Que iguais a essa vez

Foram proferidas palavras encantadas 

Feitiços sutis dissolvidos em pequenos gestos que 

Como que por mágica 

Sempre deixam de existir 

E caminhou então pela rua escura 

Abaixo de uma chuva leve

Ignorando os alarmes 

Ignorando as canções tristes que já começavam a tocar na sua mente

Ao ponto que 

Em um instante de sonho 

Ousou um salto olhando para o abismo repleto de belas cores e doces promessas 

Mas instantes antes da precipitação

Olhou uma última vez o horizonte 

E as cantigas fascinantes vindas do abismo começaram a cessar 

Como sempre

Sempre

Cessam

Olhou então o horizonte...

E toda uma vastidão de vida ainda se esparramava por todos os lados 

E viu o próprio reflexo pelas nuvens e campos 

Viu estilhaços da própria alma bailando pela atmosfera 

Sentiu o perfume dos tempos que ainda virão 

E pensou que talvez 

Talvez 

Não fosse necessária uma nova queda 

Uma nova memória partida 

Para entender que 

Mesmo diante de toda sua imperfeição

Mesmo diante de todos seus pecados

Antes de qualquer salto 

Sentimentos verdadeiros colocariam asas em suas costas 

E não espinhos abaixo dos seus pés

21 de abr. de 2023

Canto de Ossanha



Um dia então você saiu a navegar

E jamais retornou 

Jamais voltou outra vez

Seu olhar para a costa 

E era agosto 

E foi então sempre agosto desde então

O mesmo inverno 

O mesmo ex-voto sendo esculpido 

O órgão nunca curado

O mesmo tempo inverso 

Correndo como que para trás 

À tua busca 

A mesma discreta loucura contida 

Revivida hora após hora

Enquanto

O vento salgado do porto corta a pele

Fere os olhos 

Racha os lábios finos 

E nada no horizonte 

Nada 

Nunca mais 

Apenas a linha de pálido azul 

Sem vida 

Tão contrária ao seu magnífico azul 

Repleto de promessas e utopias 

Nunca mais 

Ditas ou a mim oferecidas

Mas seu canto 

Canto de Ossanha

Entoando peito adentro

Por dias

Meses

Anos

Eternamente 

Quando o coração é incapaz de se jogar novamente

E crer novamente 

Porque nenhum abismo será profundo o bastante 

Será belo o bastante 

Já que ainda me lembro 

Tão bem e dolorosamente 

Do breve mergulho 

Na vastidão incomparável da sua alma. 




20 de abr. de 2023

Ainda sobre a mais bela dor

 


Quantas partes sobraram ainda para cortar 

Serrar 

Moldar 

Polir

Esculpir

Tirar

Para que se caiba no abrigo cada vez menor 

Mais abafado 

Sufocante

Mal iluminado?

No escuro que antecede a alvorada 

É difícil decifrar o que sobrou para diminuir 

Esquecer

Superar

Deixar 

Já que pelo que clama a alma

Paira distante 

Dissolvido no azul dolorido dos céus de outono 

E tudo isso 

Porque ainda trago a recordação de alguma outra estação 

Quando pensávamos que estávamos perto de casa 

Para logo descobrir um outro caminho tão longo em frente 

A ser desbravado a pés descalços 

E tudo isso

Porque ainda trago a recordação de um sentimento profundo

Intraduzível 

Pouco antes da conversão na mais bela dor

Pouco depois do sopro gélido da realidade. 


17 de abr. de 2023

 


Injustas palavras se precipitando em uma queda perigosa 

Seus olhos de céu profundo novamente em ronda 

Embora nunca mais se recordem da minha face 

Do meu pranto 

Do nosso adeus

E eu aceitei você para sempre dentro de mim 

Mas há noites em que você viola a jaula sagrada da alma 

E quase alcança novamente o posto que sempre será seu 

Até o fim dos últimos dias 

E eu me lembrei pela última vez 

Que ainda te amo. 



Uma prece

Uma promessa 

Deus meu 

Que não tarde a alvorada 

A luz então por entre as nuvens 

O calor na pele 

Talvez um sinal 

Estou aqui 

E sua voz continua digna de ser ouvida

E uma canção sobre coisas amadas

E partidas 

E o canto suave do tecelão 

Saltitando na jabuticabeira em flor 

E os primeiros sinais de uma tão aguardada ressurreição 

De novo e de novo 

Palavras e palavras 

A pílula sagrada para a alma cansada 

Um lágrima 

E outra 

Pois que a beleza da vida às vezes dói

Às vezes fere 

Misericórdia então 

Pai

Misericórdia e perdão pelos tantos descaminhos 

Pelo coração já não tão puro

Pela fé pequenina 

Mas firme 

Firme.

 


Não que houvesse ainda algum espaço para a ilusão

Não que houvesse ainda algum espaço para a esperança

Mas houve uma flor de vermelho intenso desabrochando 

Houve uma canção sobre um carro veloz cortando a escuridão 

Enquanto em raro momento de uma face bela da vida

Passos lentos em uma valsa calma

E uma chuva leve caindo após a longa estiagem 

E um rio morno de promessas tão bonitas

Cruzando um sertão cansado e de pouca vida

Um porto não distante de onde partir e para onde chegar 

Nos poucos momentos em que não se navega pelas águas bravas do presente 

Que tão

Tão lentamente vai se tornando passado 

Então novamente outono 

E tantas súplicas pela renovação 

E os erros e falhas e perdas 

E novas chances 

Então novamente outono 

E a fé na frutificação.

7 de abr. de 2023

Sê comigo

 


Os anos que diminuíram distâncias 

E aproximaram corações

Também me trouxeram até aqui,

Na manhã de um dia santo,

Resumindo todas as longas e elaboradas orações em:

Sê comigo.

Pois que aquilo que há de santificado 

Não mais paira longe no firmamento profundamente azul de outono,

Mas baila por cada célula da matéria, 

Cada fragmento de luz do espírito.

Em gratidão,

Em súplica,

Em alívio e em sonho:

Senhor, sê comigo.

Sê com esta pequena única lágrima 

Que desce morna e purificada 

Ante as primeiras tão belas luzes da alvorada,

Sê também com tudo o que veio 

Para logo partir,

Deixando apenas cicatrizes disformes,

Ruins,

Mas que hoje compõem os canteiros irregulares 

Onde cultivo as flores do meu jardim. 

Sê comigo, Mestre,

Para que eu caminhe em seus caminhos 

E leve comigo aquilo que será Amor.

Sê comigo,

Ainda que no dia da sua dor

Talvez fosse eu algum algoz 

Até entender 

Que sou menos,

Tão menos,

Que uma farpa da cruz que carregou nos ombros. 

2 de abr. de 2023

A fortaleza



Meu coração 

Como uma fortaleza fria 

Vasta 

Vazia 

O vento soprando pelos corredores 

A luz ínfima penetrando pelas frestas 

Pelas rachaduras 

Filhas do tempo 

Pelo chão

Restos de tempestade

De passado 

De cansaço 

De presente

Do futuro 

Que não alcanço 

Pelas paredes 

Retratos de dias ancestrais 

Sequelas 

O cheiro rude de memórias corroídas 

Mas então 

Você 

E a leveza

E a doçura

Vendo beleza em meio ao caos

Vendo grandeza na quase plena escuridão 

E assim suas mãos firmes 

Tateando 

Girando velhas chaves 

Destravando fechaduras

Abrindo uma janela 

Então uma porta 

E mais outra

Sorrindo

Cantando 

Anunciando 

Observando com olhos que brilham 

Algo de sagrado na construção antiga

Por todos esquecida 

Logo

Um sopro de vida 

Ao âmago partido 

Congelado 

Que lentamente se aquece 

E promete enfim

Relembrar-se da vida

E

Alvorecer uma outra vez.

31 de mar. de 2023

Pontas dos dedos

 


Talvez algo de sagrado ainda resida 

Nas pontas desses dedos cansados 

Embora já não os veja tocando o vento 

Desenhando poemas bobos de felicidade 

Acariciando qualquer face


Eles ainda dançam é verdade 

Rendidos a algumas canções 

Que o tempo não teve força de contaminar 

E eles ainda secam

Uma ou outra lágrima de alívio 

Ou de espera

Muita espera


E tudo isso que passa sem cessar 

Ferindo a pele e penetrando ao âmago

Purifica o que não se perde 

Mais palavras virão então 

Sobre coisas que não podem ser ditas.

27 de mar. de 2023

 São ainda tempos estranhos

Chega a ferir a profundida do azul desse céu de outono

No entanto, é um incômodo santificado 

Pois abaixo dele

A florista dava conselhos sobre a vida e o amor 

Ao homem de espírito alquebrado 

Que buscava orquídeas para sua amada que partiu

E quando o azul se fez breu

A sobriedade propôs sutil trégua 

Os suaves passos de dança 

Os abraços amistosos 

O passar suave das horas 

A boa música sobre pequenas e grande vitórias 

Tudo dizendo que talvez a vida não fosse assim tão terrível 

Como sempre, nos sonhos, a fuga

Mas nessa vez eu consegui escapar 

Do mundo que sucumbia a forças exóticas

E havia uma alvorada 

Uma rua iluminada pelas últimas luzes artificiais da noite 

Uma palavra

Uma proposta 

Um sorriso não visto

Alguém disposto a não desistir 

Uma chance 

Um talvez

Quem sabe?

De nascer de novo. 

14 de mar. de 2023

Lar



Nos sonhos, sempre 

A busca, a luta, a súplica 

Pelo porto, pelo lar.

Os braços como paredes,

Envolvendo, abrigando.

As janelas como olhares,

Iluminando.

As portas como sorrisos abertos,

Sinceros.

A alma florida, feito jardim.

A fé, então,

Pequena, mirrada, preciosa.

Os joelhos ao solo,

Implorando, implorando,

Misericórdia, Pai!

Minha voz te alcança?

O fim do temporal,

O canto dos pássaros,

O desabrochar completo.

Porém, não ainda,

Não ainda.

O céu envolto em pesadas nuvens,

Um aguaceiro sem fim.

Alvoradas estranhas, com luzes cansadas.

O peito vulnerável, fechando, 

Emudecendo.

 Por um instante já não dói, porque posso sonhar.

Ressoam os acordes pelo fim da manhã de luz extrema 

Há uma voz, os cabelos ao vento

E a trilha sonora 

Para que dancemos nas nossas turbulências 

Rosas são entregues, abraços são dados 

Sorrisos são lançados 

E as nuvens que se movem sem pressa 

Parecem cantar sobre a ausência de finais felizes ou trágicos

Mas apenas sobre a vida sendo aos poucos reescrita, 

Renascida.

E se



Estenderia os dedos e alcançaria 

Se quisesse

Se pudesse 

E veria então nos olhos brilhantes o reflexo de mil estrelas 

E entre elas 

Uma maior

Após os hinos, canções, chuvas e trovões

O devaneio 

E se os tempos voltassem a não passar?

E se as noites voltassem a ser simples?

E se

Antes da realidade me colocar diante de espelhos que refletem completos opostos

Ousar-se um breve sonhar?

Apenas 

Apenas isso 

Até o dia em que o peito volte a ser o lar daquilo 

Que foi construído para abrigar.

10 de mar. de 2023

Superfície

 



Falará ainda sobre intensas alvoradas 

Lembrando talvez com leve sorriso das manhãs de ainda céu fechado 

De canções ruins tocando não muito longe 

E das tantas mesmas vozes

Mesmas faces 

Mesmos caminhos 

Mas já será outro, 

ainda que sendo o mesmo 

E já estará longe, 

ainda que no mesmo lugar.

Sei que já sente como velhos 

Esses seus novos belos sonhos 

Pois que quanto tempo mais a água tão acima dos olhos? 

Mas não tarda novo fôlego,

Suspira algum anjo

Não tarda a superfície.

4 de mar. de 2023

Alvorada

 


Sei que algum anjo ainda me olha com ternura, mesmo eu não soltando de suas asas antes da promessa de levar meus sonhos aos céus.

Não deixaram de ser tempos estranhos, mas olhando para trás eu vejo milhares de flores cultivadas pelos caminhos, centenas de páginas com poemas singelos levados pelo vento, flutuando na atmosfera, alcançando outros corações igualmente simplórios.

E eu me lembro de estar no mesmo lugar e de receber o mesmo abraço sincero quando a fala foi embargada pelo medo, e tempos depois, pela gratidão. 

Vejo então ao longe os primeiros pilares cintilantes se erguem lentamente, delicadamente, sem alarde, mas cortando a escuridão de uma longa noite sem estrelas. 

É possível que tenha chegado o momento de colher as luzes da Alvorada, de semear novas páginas, de reescrever jardins. 

E talvez, talvez junto às luzes você se aproxime também, e exista na sua face um sorriso de calmaria, e em seus olhos, finalmente, o brilho de um novo dia.


27 de fev. de 2023

Páginas em branco




Estamos longe do fim, pois ainda me lembro
Hoje o sol se deitava da mesma forma, nem mais nem menos encantador 
Mas havia, eu via...
Algo além do ordinário correr das horas
Pelas esquinas esburacadas e pelos antigos pátios 
As pessoas que passavam brilhavam 
Emanava delas algo de cintilante 
Como o ouro se destacando no cascalho abaixo de águas rasas 
Eu deveria sentir medo, alerta a mente 
São dias estranhos, densos, imprecisos 
Eu deveria sentir medo 
E senti, e sinto 
Mas vejo algo que talvez seja amor em todas essas coisas miúdas e preciosas que o tempo vai moendo como um moinho feroz e despejando na atmosfera das vidas
Só que ainda há estrada afrente 
Ainda há essa claridade meiga 
Algumas palavras desengonçadas dançando sozinhas no vasto e vazio salão da alma 
Há alguma prece sincera aos anjos que talvez não tenham voado para muito longe
Não estamos perto do fim, pois ainda sonhamos
Quem diria 
Ainda sonho também 
E no sonho
Há o abraço, a ternura, a cura, o lar
A remissão dos pecados 
E pelo chão, pelos muros e jardins
Esparramadas pelo peito
Pelo caminho desse longo túnel com  apenas uma vaga promessa de luz ao fim 
Há ainda muitas mais páginas em branco.