14 de dez. de 2022



Apenas outro verão em que desabam os céus

E algumas outras coisas mais

Outro dia semelhante ao anterior

E ao próximo 

E eu daqui vendo essa tola criança frágil correndo da chuva 

Correndo da realidade que deságua 

E encharca seu corpo 

Seus pés pequeninos 

Seus olhos que deveriam ter algum brilho

Lutando contra o impossível 

Como em suas fantasias de menino 

Em que nada dói 

Em que de suas mãos jorram luzes

Que afugentam a escuridão

Os trovões me lembram de ontem então 

Daquela voz conhecida 

Antiga 

E de suas canções sobre alguém 

Cujo jugo é suave e o fardo é leve

Um alguém repleto de perfeição 

Mas que é manso e humilde de coração 

Um alguém de quem o abraço seria bem-vindo agora

E as palavras que por tantas vezes sobram

Faltam

Ainda que desaguem também

Abundantes

Porque não fertilizam 

Não nutrem 

Não alcançam 

Porque é como se nada nunca jamais

Fosse ou pudesse ser diferente do que é

Mesmo após a chuva 

Mesmo após a noite interminável.

11 de dez. de 2022



 Uma imensa sala escura 

E um pobre acendedor de velas 

Com fósforos nas mãos

De passos arrastados 

Cansados 

As acendendo 

Uma 

Depois outra

E mais outra 

E a escuridão maciça

Por vezes tangível até 

Quase não se acanha 

Mas cede

Pouco a pouco 

Ao esforço tolo e persistente 

Do velho homem 

Então que

Como em quase todas noites 

Algo

Alguém

Qualquer coisa das sombras 

Abre as janelas 

E penetram as mornas e violentas 

Rajadas de vento que precedem as tempestades 

Todas as suas velas se apagam 

E o homem teme o breu

O silêncio com seu assovio cortante 

A espera que nunca se finda

Uma lágrima escorre do canto esquerdo 

Seus olhos se fecham 

Um suspiro profundo 

É preciso então 

De novo e mais uma vez 

Reacender suas velas 

Afugentar a noite 

Proteger-se das trevas

Toma assim seus fósforos e caminha até a janela

É preciso que seja trancada com mais força dessa vez 

Seus fósforos estão no fim

Suas forças quase extintas

Mas antes...

Antes lança um olhar ao céu 

E então outras lágrimas escorrem

Agora do canto direito da sua face 

E entende 

Só com todas as luzes apagadas

Só com as janelas abertas

É possível ver como brilham as estrelas.

 


Eu não sei disso de não ter o que dizer se por dentro se faz tanto

E quando é assim 

Algo me faz pensar que todos os poetas

Vivos ou mortos ou que ainda virão 

Reunidos com suas mentes borbulhantes

Não seriam tão valiosos quanto uma flor que desabrocha 

Ou aquela visão do sol que se deita 

Sem barulho e arrogância 

E eu os vejo passando pela vida

Não os poetas

Os outros tolos

Como se tudo isso nada fosse

Isso

O ipê profundamente verde 

Afrente do céu azul azul

Manchado de tufos brancos 

Restos das últimas tempestades 

O olhar despindo a forma

Mergulhando além da carne 

Da pele pelos e apelos

Buscando a alma 

Talvez frágil talvez magnânima

E como Adélia

Também só melhoro quando chove

E se abrem as porteiras para eu ir vasculhar dias passados 

Com meus pés na lama 

Roupas encharcadas de memórias 

A procura de alguma saudade bonita 

Um vintém de infância

Uma promessa quebrada 

Uma esperança perdida 

E aí mulher me atrapalha 

Mas é pra mostrar os passarinhos 

Mais belos que a alegria cansativa dos meninos 

O telefone toca e ela se vai 

E volta 

Falando e falando tanta coisa sem sentido

Que eu até me esqueço do que é grave 

Do que dói 

Do que falta 

Do que me fez perder os cabelos 

E os amores todos

Então percebo 

Outra flor sem raridade desabrochou

Neste instante 

Através das mãos pouco belas

E nada santas.

5 de dez. de 2022

 


São versinhos simplórios por aquilo que não se perdeu 

Pelas chuvas mansas abrindo o caminho do verão 

Pelos presépios montados nas antigas praças anunciando a vinda do salvador

São palavras sem tanto valor 

Sem tanto sabor

Mas firmes o bastante 

Para atiçar as brasas que repousam ainda

Ainda...

Em algum canto morno do peito 

Ante a um sorriso impecável 

Uma miragem quase tangível 

Um sentimento impossível

Uma construção de cristal 

Sobre a areia macia da ilusão 

Ainda assim

Falam-me em batalhas

Batalhas tolas

Enquanto fito o horizonte

Em que estouram relâmpagos silenciosos 

Cujo estrondo virá depois 

Nos dias em que os olhos pesarem 

As mãos tremerem sem quem as segure 

E os pés não escalarem as árvores para pendurar luzes de natal 

Mas hoje

Hoje a tempestade desliza longínqua

Inofensiva 

As mãos esculpem com firmeza mais uma despretensiosa relíquia 

A ser esquecida na prateleira das longas horas

O caminhar é certeiro para longe daqueles estranhos dias inglórios 

E o olhar ainda reluz 

Mesmo que frágil e bruxuleante

Desafiando a profunda noite escura. 

4 de dez. de 2022

 


Ainda há 

Quase completamente ocultas entre os estrondos 

Entre as horas velozes 

E dias amargos 

Manhãs de domingo 

Em que o único som é o do vento

Fazendo dançar as folhas 

Fazendo rodopiar as pequenas borboletas amarelas 

Enquanto visitam suas flores 

Ainda há a claridade solar atravessando delicadamente as cortinas 

E é então como se nada doesse 

Como se nada faltasse

E tudo estivesse no lugar em que deve estar 

Em momentos assim eu quase consigo imaginar 

Teu olhar amoroso 

Teu sorriso iluminado 

Protegendo e guiando 

Como o maior dos mestres

Por isso emociona ver as luzinhas anunciando tua chegada

Pelas praças

Pelas ruas

Pelas varandas humildes 

Pelos corações alquebrados

Por isso todas as palavras não bastam

E nem toda poesia 

Descreve a mansidão com que ainda nos acolhe em teu santo abraço 

E enquanto falam em teu nome trajados de ouro

Encarcerados em tempos suntuosos onde não porei jamais os pés 

Eu daqui 

Tão pequeno

Te vejo na chuva que verdeja os campos 

Na força e na gentileza de minha mãe 

Nos sonhos em que caminha também descalço ao meu lado 

Como se eu quase fosse digno de segurar tuas mãos

Como se eu quase fosse digno de ser teu irmão 

Eu te sinto aqui

Dentro desse peito que é repleto de máculas

Mas que um dia 

Eu sei

Também será repleto de Amor. 

1 de dez. de 2022

 


Como este

Já nasceram dias simples 

Mesmo com os discos roubados

As canções silenciadas 

Os sonhos impossíveis

Uma perigosa inocência 

Houve como este

Um céu bonito 

De luz macia atravessando as nuvens lentas

Iluminando as flores do jardim 

Os anos levados pelos ventos então 

E tudo de sagrado e tudo de profano 

Que foi amado e buscado 

Por entre veredas longas e estranhas 

Repousa calmamente como em um leito de rio

Até que eu 

Em horas assim

Mergulhe meus pés nas aguas frias

Caminhando e orando 

Ao que quer que de santificado 

Ainda exista acima e dentro de mim

Agora o vento sopra fraco e gentil

Como as palavras 

Sempre elas 

Apesar de tudo

Que tentam dar sentido 

A um coração que nunca se apaga

E também nunca se cura por completo.

24 de nov. de 2022

 


Como não ter medo?

Por vezes a realidade é uma dama cruel

Exata e fria

Como que de olhos vendados

De ouvidos tampados 

Às nossas súplicas e prantos 

E o que é a poesia

Senão essa adaga dourada

Bela e frágil 

Em riste para essa quimera gigantesca

Dantesca 

Que ruge faminta sem cessar?

Mas quando quase me rendo

Ao longe espocam pequenas felicidades ilusórias 

A noite quando chega

É recebida pelo perfume do jasmineiro em flor

As luzes de natal que se aproxima

Encantam nosso olhar cansado

A coragem de minha mãe 

Armada de esperança e fé 

Dilui o medo 

Como chuva de verão limpando a atmosfera

E por fim meu coração bate forte 

Firme

Como se nunca houvesse se partido

Em tantos pedaços 

Tantas vezes

Assim olho então a nobre e brava dama

Fundo nos olhos

E sorrio

Damos as mãos 

Decretamos trégua 

Ao menos por essa noite.

21 de nov. de 2022

 


O sonho primordial ronda pelas madrugadas quando apenas há escuro e ausência 

Arranha portas e janelas 

Lamenta atrás das cortinas 

Me faz acender as luzes 

Errar as palavras das orações 

O nome dos anjos que ainda não voaram para longe

Soltam murmúrios na minha atmosfera

E eu me lembro de quando era um satélite danificado 

Sem claridade própria 

Sem mais uma rota certa

Girando ao redor de uma estrela que parecia imensa

Intocável

Uma inatingível ilusão magnífica 

E eu me lembro dos versos ruins onde nunca pousaria seu olhar 

Eu me lembro

Como se fosse agora o mesmo tempo simples de outrora

E todo esse vazio fosse a face mais grave da realidade

E então eu quase posso ver suas mãos dadas 

Eu quase posso fingir que eu possuo algo que possa perder dessa vez

Mas é apenas mais uma carta endereçada ao fogo pouco antes da alvorada

Mais um suspiro profundo pela confusa mistura do que não foi

Junto ao que jamais será 

E as canções que vêm ao socorro

Tão gastas canções

São gentis luminescências no breu profundo 

Dolorido 

Que apontam um caminho

Como uma trilha de pirilampos

Rumo a mais um esquecimento.


19 de nov. de 2022




Era 1997

E nós

Pequenas crianças diante da grande tela

Onde o transatlântico cruzava oceanos

Fazendo nossos olhos brilharem como as estrelas de uma noite glacial 

Enquanto sentíamos o perfume encantado

Que tempos mais simples exalam

Então 

As primeiras linhas

Os primeiros pecados

As primeiras despedidas

E o mundo se tornou tão menor desde aqueles dias

Mesmo depois daqueles olhos da cor mais rara na natureza 

Mesmo depois do amor e da desilusão

E as ruas da nossa velha cidade ainda são praticamente as mesmas

Um pouco menos seguras

Um pouco menos floridas 

E todos que aqui caminham 

Seguem como se soubessem para onde estão indo

Enquanto olham cada vez mais apenas para dentro de si mesmos 

E todas as novas canções 

Continuam como lamentos por tudo aquilo 

Que não foi

Que não poderia ser

Mas o jasmineiro volta a florescer

E o céu reluz nas suas horas finais

Exatamente como sempre fora

Acima nada está diferente

Há também as primeiras luzes de natal surgindo 

As pracinhas enfeitadas pelas cansadas senhoras 

O sorriso de minha mãe cheio de esperança 

Nada é perfeito

Mas há em tudo algo de tão Belo

Como se a realidade não fosse uma inimiga insensível

Mas quem sabe

Uma elegante deusa

Que todos os dias esculpe

E oferece

Uma nova alvorada.

 



Eu estava ali sonhando com os olhos bem abertos e fixos

Com uma segunda presença, uma primeira voz, uma antiga canção

Uma nova chance

Criando memórias etéreas de um tempo que nunca existiu ou irá existir 

Mas onde brilhávamos e dançávamos como se nós e o mundo estivéssemos curados

E não houvesse mais 

Por um tempo

O que temer, do que fugir, do que se esconder

Sendo um tão grande quanto o outro 

Enquanto olhamos para a mesma direção

Um ao outro

E tudo passando diante de nós

Sem nos atacar por uma única vez 

Ao menos

Sem contaminar nosso coração com medo e lágrimas 

Lágrimas que escorreriam por motivos contrários 

Aos que quase sempre escorrem 

E transformam o meio-dia em meia-noite

Por fim

Segurando sua mão

Admirando seu sorriso 

Caminho rumo à saída 

Desse lento fim dos tempos. 


17 de nov. de 2022

 


Não preciso pedir que ignore as palavras que lanço ao fantasma que restou daquilo que um dia foi maior que quase tudo.

Tudo isso, qualquer coisa sobre isso, é essa brisa suave que move as cortinas e desaparece por si mesma.

Apenas um murmúrio da memória que logo se cala...

Mas eu imagino seu caminhar, seu silêncio, ainda como aquela criatura nobre demais até para o chão abaixo dos próprios pés. 

Essas letras que gotejam dos dedos, do coração, deixaram de procurar sentido há algum tempo, deixaram de comover desde que aquela porta se fechou, talvez para sempre. 

São tempos frágeis, de vitórias modestas, de expectativas vitais, de fanáticos pelas ruas, de dias longos e sorrisos irreais. 

Então escavo a alma, como um artista pouco hábil lapidando uma pedra de pouco valor, buscando algum brilho oculto, algum reflexo raro. 

E assim volto sempre aos mesmos caminhos, na esperança de alguma relíquia esquecida entre os escombros,

E assim volto sempre aos mesmos templos, na esperança de ouvir a voz de algum anjo ainda a entoar alguma sagrada canção.

Nada do que foi será novamente, como já foi escrito em algum verão menos cruel,

Mas ficaram as marcas dos dilúvios, das estiagens, das madrugadas de uma escuridão muito profunda, da ferida cicatrizada com o toque de um ferro em brasa. 

15 de nov. de 2022




 Lembro-me de uma canção 

Daqueles tempos em que a chuva acalmava as espadas

Lavava o sangue dos campos de batalha 

E as lágrimas dos olhos mais cansados 

Lembro-me ainda de tudo

Nitidamente 

Como se os anos não houvessem roubado tanto 

Palavras 

Promessas

Histórias 

E a cada lembrar aquilo se revive 

Refloresce 

Éramos meninos encantados 

De um tempo em que não havia tempo

Ainda somos 

Talvez

De corações tão puros 

Que os segurávamos com nossos pequenos dedos

Ao notar a mais suave brisa fria

Lembro-me de uma voz

De não sentir medo

De um abraço secreto

Sincero

Nos sonhos inestimáveis 

Lembro-me de um jardim 

Da face de Deus na face de Seus filhos 

Lembro-me do Amor

Assim como Ele ainda se lembra de mim.

11 de nov. de 2022

 


Foi ontem

O abraço cheio de ternura,

Algumas lágrimas diante da imensidão incerta do futuro,

Como que dizendo:

O pequeno ponto escuro no peito 

Jamais contaminará todo amor que ali há.

E no velho papel amassado

A lembrança rabiscada:

A vida ainda é forte,

E refloresce.

Agora sinto que chove...

E as tintas frágeis com que pintamos nossos sonhos

Ameaçam escorrer pelos pilares

Que sustentam o coração.

Mas sei que a esperança surge nessas estações assim

Duras,

Inexplicáveis,

Quando as orações perdem suas palavras ordenadas 

E resta o olhar para o horizonte,

Para alguma beleza singela,

Para algum sorriso gentil.

Dói, como não? 

Os anos passando rápido como as águas de um rio

Que ressoa murmúrios sobre o fim daqueles tempos dourados,

Daqueles tempos em que o tempo não existia,

E se vivia de instantes

Costurados na infinita colcha de retalhos da existência.

Hoje então chove, como dito,

Mas chove feito entoado pela canção:

A chuva que deságua feroz 

Alimenta a nascente da vida que o medo tenta,

Sempre sem sucesso,

Secar.

8 de nov. de 2022

 


Nada mais sobre aqueles dias

Mereceria qualquer sílaba

Qualquer suspiro

Contudo

me lembro 

Um farol inatingível 

Aquela luz magnânima confundindo meu olhar

E eu deixando a terra firme

Dando braçadas em um mar escuro

Em direção à sublime claridade 

Que desapareceu ao meu toque mais delicado

Então eu amei a lembrança daquilo que tanto cintilava

Eu amei a memória 

Eu amei a dor

Enquanto as águas me envolviam com indiferença 

E tudo ao redor era imensidão 

E vazio

Tanto vazio

Centenas de páginas e lágrimas depois

Milhares de versos e horas após 

Aporto novamente nos instantes que antecedem a alvorada 

E todas as vozes estão frias aqui dentro

Caladas

Mas há a minha

Ressoando ininterrupta

Como se ainda clamasse

Como se ainda importasse

E eu começo a entender que era eu

A luz distante

A chuva constante 

O oceano obscuro

O porto de onde se partiu

E para onde

Finalmente

se regressou.


 


Não seria a primeira vez 

Que ao ser aquecido por uma voz terna

O silêncio fingiria se tornar menos cruel

E nos cantos da noite profunda

Brilhariam pequenos encantos intocáveis 


Essas pequenas gotas de um elixir mágico 

Que perde seu poder cada vez mais rápido

E logo só resta esse tolo esforço 

Em usar palavras exaustas para lapidar uma escultura 

Que derrete mesmo ao mais gentil toque 


São outros velhos dias

E eu observo todas as antigas poderosas memórias

Agora desfalecidas

Inofensivas 

Encolhidas pelos vastos cômodos vazios da alma


Então uma curta canção

Chovendo sobre o peito que tenta sempre florir

Mas cuja estiagem nunca cessa

E mais versos insípidos

Sobre a saudade de promessas nunca feitas 


Então uma pequena canção 

E todo o mundo a ser reconstruído outra vez 

De novo e de novo

Como um eco se perdendo na escuridão 

De mais uma madrugada como essa.

 


Todas as fontes de onde jorravam aquelas linhas incandescentes 

Parecem ter secado. 

Palavras como adeus, amor, esperança; 

Palavras como luz, espera, sombra...

Exaustas então se deitam pelos caminhos idênticos, vazios,

Aguardando o esquecimento.

Passou o tempo das quimeras,

Depois passou o tempo seguinte dos sonhos,

Depois passou o tempo seguinte da saudade,

E aos poucos fui me distanciando,

Distanciado passo após passo,

Da imensa vitrine abarrotada

Em que todos os expostos cintilam tanto,

E buscam a posição perfeita para causar encanto.

E meu espaço foi sendo tomado,

Minha voz ficando mais baixa,

Meu coração batendo mais seguro,

Menos quente. 

Pois que após cada pequena vitória

Ou grande derrota

Deságua quase que sem aviso a forte chuva

Que prenuncia nova batalha.

E eu assim fecho os olhos...

E quando os abro,

É quase dezembro,

E há ipês brancos florindo

Mostrando que talvez a vida

Ainda cometa alguns erros bonitos...

'Aguente firme.'

Diz por fim a canção...

'Aguente firme até a próxima estação.

É possível que algum anjo gentil logo acolha sua oração.'

4 de nov. de 2022

 


Tantos estrondos por todos os lados,

Não se calam.

Não se calam.

Estilhaços afiados penetrando na mente

Enquanto essa voz gentil demais,

Essa canção suave demais,

Tenta limpar da atmosfera 

A grossa camada escura de ilusão e mentira

E alcançar algo imenso e sagrado 

Que de algum lugar nos observa.

Mas há no horizonte luz tamanha:

Não se apaga.

Não se apaga.

E o que caminha em sua direção 

É aquilo que no peito ainda bate.

Se deixarmos, 

Cruéis como são,

Roubariam até a claridade afrente dos nossos passos,

Nossa primavera, nossa poesia.

Então insisto,

Insistimos,

Temerosos, exaustos,

Insistimos.

Porque se há vida, 

Há esperança, dizem.

Então dançamos pelas esquinas,

Acreditamos que o pesadelo vai acabar,

Abraçamos como se o pior já tivesse passado,

E sorrimos,

Como se o amor existisse.

28 de out. de 2022

 


Os passos continuam pelas ruas

Só que mais lentos, desatentos,

Guiando olhares que esbarram em um horizonte repleto de enigmas.


A cidade é um coração que pulsa em silêncio,

Sem vozes, cansada,

Como um campo antes da batalha.


Mas há um hino, tímido, ecoando,

Prenunciando uma estrela que voltará a brilhar,

Falando de um povo ainda em riste, resistindo. 


Alguns dizem que adentramos para sempre em um reino sombrio,

Um vasto vale de desesperança sem volta,

Povoado por bestiais soberanos,


Outros, que a Luz não tarda,

E essa fria escuridão é o prelúdio da inevitável alvorada.

O sol se erguerá, iluminando as faces afáveis.


E eu rogo aos anjos que despertem do sono que um dia lhes permiti...

O santificado peso do amor arqueia nossas almas frágeis.

Mas antes o peso dele, que a leveza da indiferença.

25 de out. de 2022

 


Tudo já não tem nada 

Daqueles tempos simplificados 

Em que fabricávamos pequenas memórias preciosas 

E as guardávamos nas prateleiras da alma sem saber

Que não muito depois

O tempo nos cobriria com uma névoa amarga e densa de realidade

Quase nos sufocando 

Quase nos despertando 

Aqui dentro apenas temos vivido na espera de um velho milagre 

Que ao menos mantenha esse trem perigoso nos trilhos por mais alguns instantes

Enquanto lá fora hordas de lunáticos  fantasiados de palhaços malignos

Dançam sobre covas rasas e recentes

Mas como pequenas absolvições

A chuva no auge da estiagem

O jardim resistindo e florescendo 

A nova doce e forte canção 

Sobre sentimentos escarlates 

O cheiro do quarto sempre vazio

Estranho e bom

Como o perfume das cortinas daquela antiga locadora de filmes 

Em que íamos quando jovens

Então pelos corredores de lembranças pequenos brilhos despencam lentamente 

Uma garoa delicada acariciando o corpo envergonhado 

Que naqueles antigos dias talvez até tenha conhecido o amor 

Agora nos sonhos confusos

Há sempre uma mão entre as minhas mãos

Há uma fortaleza 

E há seu sorriso 

Embora sua face nunca esteja voltada para mim.

21 de out. de 2022

 

Como há muito não era e não deveria ser

O céu imóvel 

Sem poesia

Nenhum verso oculto por entre as nuvens estéreis 

E as canções

Tão novas canções

Quase sem emoção

Vozes delicadas se chocando 

Em grossos muros

Altos 

Altos

E sua face evanescendo na memória 

Fugindo do toque do meu olhar 

Sorrindo para o horizonte longínquo

Mas foi hoje

Mas também foi há mil anos

Tudo como no mesmo sonho confuso 

Que nunca termina

Que nunca começa 

É só a calmaria antes da tempestade 

É só o tempo roubando as cores da realidade

É só a chuva lavando as fantasias 

Derretendo as máscaras de papel

Mostrando os rostos impecáveis

As almas deformadas 

É só a chuva purificando o ar e adoçando a atmosfera 

Perfumando, desacelerado

Cantando 

Enquanto no labirinto da mente 

Os fantasmas se descobrem

Deixam seus velhos lençóis pelo chão 

Suas correntes sobre os móveis danificados 

E vão caminhando enquanto tocam a minha mão 

Ao menos eles

Entrelaçando nossos dedos

Em direção a uma saída daqui.

3 de out. de 2022

 


Pessoas melhores viveram tempos piores, e se hoje ainda temos direito ao grito, e gritamos, é por esses que gritaram antes, até perderem a voz. Gritamos hoje por aqueles que tiveram suas vozes usurpadas, caladas, pela fome, pelo descaso, pelas políticas de morte alimentadas por veias contaminadas de ódio e escuridão.

Gritamos, até que nossa voz seja temida. 

E choramos, como não? 

Por desespero, por alívio, por esperança. 

Mas choramos abraçados, como irmãos.

Porque não estamos presos em uma sala de espelhos, onde só nosso reflexo existe por todos os lados. 

Vemos o outro. 

Somos o outro;

Ainda que o outro tantas vezes não nos veja, não nos seja;

Ainda que o outro, tendo a mesa farta, jamais sinta algo sobre quem nem a mesa mais tem. 

Agora as ruas estão silenciosas... Talvez pelo prelúdio da batalha, talvez pelo cansaço das almas, talvez por um luto que parece nunca ter fim.

E assim chegamos ao mês da Doce Mãe... Olhando o horizonte como pequenas crianças perdidas, como filhos confusos presos em vórtices de sentimentos.

Em meio a isso o perfume das manacás atravessa as grades e hostilidades, apascenta os corações em busca de trégua. 

Esperamos então... Mas não afiando espadas e alinhando escudos, esperamos de mãos dadas, novamente, como irmãos; em prece, os que têm fé, com a bandeira da cor do sangue em riste, os que têm coragem, com o peito aberto, os que têm Amor.

24 de set. de 2022

 

Alguma palavra certo tanto mais doce, mais bonita quem sabe, vai insistindo em romper a grossa camada de nuvens que camufla a luz. Do céu, da alma. 

A primavera nascera assim, com as ruas e avenidas envoltas em bruma suave, com alguns corações mergulhados em dolorosos adeuses, com a chuva caindo fininha e uma canção falando sobre o fim do inverno. 

Ainda são tempos extremamente esquisitos, como disse a poetisa. Mas já podemos vislumbrar alguns sorrisos, aqui ou acolá. E como são lindos, todos eles... Podemos falar até em, quem sabe, meu Deus, dias mais felizes. Talvez fosse sobre isso que os ipês cantavam através das suas últimas florações ao longo do caminho.

Pois que ainda que seja tão simples ou tão estranha, tão bela ou tão amendrontadora, isso que flui pelas vozes, pelos abraços novamente possíveis, pelos sonhos guardados e esquecidos nas noites profundas, isso, não tenho dúvida, é vida.

19 de set. de 2022

 


Há essa atmosfera, e sua radiante e limpa claridade quase líquida escorrendo pelos espaços abertos e galhos ressequidos dos ipês com as suas últimas flores do ano. 

Falam-me em pecado, mas essa luz tamanha me faz lembrar das palavras do jovem mestre ao pregar que o amor cobriria uma multidão deles. 

E há o vento fresco, puro, e o mundo que ainda não se cansou de girar, renovando de novas cores a vida que às vezes vai empalidecendo aos poucos, desbotando...

Talvez sejam dias como este, de céu lavado por chuvas mansas e inesperadas, em que pelas esquinas olhares gentis ainda se cruzam e pelos jardins frondosas flores vermelhas desabrocham cada vez mais e mais, que anunciem uma espécie de prelúdio do fim de tempos sombrios. 

Há tanto que a palavra Esperança não é usada, talvez por medo de banalizar o sagrado e fazer dela o mesmo que fora feito do Amor, uma imensa e delicada utopia, algo tão belo e vasto e sem razão de existir.

Contudo, como dito, há o céu, a luz, o vento, o olhar, as nuvens filiformes que são como pinceladas leves decorando o firmamento, então o peito se aquece por um momento e parece valer a pena acreditar, talvez, em tempos mais bonitos.

25 de ago. de 2022

 



Nada faria questão de mais alguns versos pobres sobre um breve sonho em que dedos se entrelaçavam. 

É passado o tempo em que suaves ancantos assim colocavam asas de cera em um coração que sempre tentou voar perto demais do sol. 

Mas havia uma canção bem composta que permaneceu após aquele rápido aconchego se dissolver na luz da manhã como neblina... Ela ainda toca.

Mas é agosto, e mesmo que não tão belos quanto outrora, os ipês florescem, e o vento faz chover flores bem amarelas pelo pátio onde as crianças correm e brincam, alheias à estiagem brava que acerca as almas humanas. 

E eu sei que tudo sempre esteve apenas na minha cabeça, todos os reinos e pesadelos, anjos e vilões. Cada personagem vestiu o figurino que lhe fiz, alguns cobertos de safiras e pérolas, outros de trapos e estilhaços. Agora enfim respiro aliviado, estamos todos perdoados. 

E já não faz mais sentido ainda viver como se o melhor estivesse para acontecer, como se houvesse um milagre esperando na próxima esquina, na próxima ilusão. O melhor e mais belo é este agora, simples assim como é, com seus sabores escassos, com seus perfumes não muito raros, com sua paz delicada, porque isso é a vida, não é? 

Os ciclos... O crescimento, a despedida, a regeneração, junto dessa voz cada vez mais tímida, mas que não se cala, não se cala. 


13 de jul. de 2022



 Talvez por uma tarde o mundo gire sem solavancos;

...os meninos empinem suas pipas, o sol se ponha exalando uma luz macia, as mangueiras floresçam e o seu perfume adocique esses ares que por tanto tempo foram duros e pesados...

Talvez por uma tarde, uma canção volte a fazer desaguar o olhar e o reflexo que se mostra não assuste, mas conforte;

...o tempo se esqueça da própria crueldade em não passar, ou passar célere demais...

E mesmo sem você aqui, todas as coisas se sustentem em pé, em seus lugares;

Mesmo sem todo seu heroísmo e luminescência, o céu não desabe e a claridade do sol ainda embeleze a copa das árvores e o caminho por onde as crianças correm e riem de si mesmas. 

Resta coração para mais alguns versos, mesmo que chamuscados, fragilizados e feridos pelo calor da realidade, 

Porque há alguma coisa sagrada e bela que flui oculta no âmago dos ossos da vida, e é isso que o olhar, essas palavras, os passos e essa fé ainda não desistiu de buscar.

9 de jul. de 2022



 É o mesmo sol daqueles tempos se pondo lá fora. 

O mesmo sol dos dias em que era mais fácil sorrir,

O mesmo sol dos dias em que era difícil não chorar.

E é essa luz calma que penetra pelas paredes rachadas da alma e ainda faz brilhar suas preciosidades cada vez mais escassas. 

O passar rastejante dos minutos e a velocidade imensamente incalculável com que os anos voam,

A visão embaçada das cores, o assovio cortante e incessante do silêncio,

Os nomes se apagando todos na minha mente,

O medo, enfim materializado bem diante de mim;

Tudo girando a chave que tranca a porta de um quarto em muita desordem, sem perfume, sem calor, onde a luz não entra.

Mas inicia-se uma canção...

A melodia daqueles dias de céus de quartzo e águas de esmeralda,

De sabores, aromas, sorrisos,

E eu vejo os jovens correndo pelas ruas, ainda com seus sonhos intactos,

E chuvisca nesses meus olhos ainda tão vivos,

Ainda caçadores do que é Belo,

Eu vejo o jardim mais que resistindo, florindo, 

E eu me lembro daquelas antigas palavras gentis:

"Você também ainda vai florescer de novo.

Na verdade, você já floresce."

25 de jun. de 2022

Gravidade

 


Havia um último resquício de recordação,

Recordação do trajeto, da busca, do caminho. 

Um último resquício guardado, amassado,

Quase esquecido, no fundo da pequena caixa de papelão,

Uma caixa de memórias. 

Um bilhete, uma passagem,

De onde eu voltaria, 

Metaforicamente,

Apenas quase dez anos depois. 

Não era amor, não apenas,

Era mais. 

Era o céu, o ipê florescendo em fevereiro,

Era toda a imensa distância,

As estrelas cadentes e ascendentes,

Era toda uma trilha sonora,

As novas roseiras plantadas no jardim,

Era toda a esperança e poesia do mundo;

Era o último amor:

Que agora, 

Nada é.

Então para junto dos discos,

Do suéter perfumado,

Do único anel de prata usado,

Vão os pequenos pedacidos de papel,

Dissolvendo-se também no mar ácido do tempo. 

Mais um último adeus que floresce no gigantesco jardim de adeuses, 

Mais um último poema,

Mais um último minuto silêncio,

Pelo que tanto prometeu ser.

Cessa enfim o poder da sua gravidade...

Nada entre mim e o espaço longo, infinito.

Mas eu me lembro de um último gesto de doçura 

Onde me dizia que meu amago é que luzia

Quando eu acredita apenas refletir claridades distantes. 

Agora vejo, é pouco, mas a cada desabrochar, a cada passo afrente,

O coração pulsa em luzes sutis...

Mesmo agora, principalmente agora,

Em que você não mais faz morada nele.

16 de jun. de 2022

 


Nada, sequer uma fotografia...

Qualquer imagem.

O som da voz perdeu-se também,

Dissolvido por entre milhares de ruídos,

Ruídos emitidos pelas promessas partidas,

Quebradas, em cacos, ferindo-se entre si,

Afiadas pelo passar das horas,

Dos dias, dos meses, dos anos.

E eu, como um fantasma faminto, consumindo

Cada boa memória, 

Cada mínimo fragmento.

Dissolvendo tudo o que foi vivido em palavras fracas, frágeis, empobrecidas,

Retorcendo a minha alma com cada vez mais força,

Em busca do resto de alguma vida,

Em busca do resto de alguma nobreza. 

Então, o gotejar amargo de mais algum sentimento que repousava como um lago intocável surgia...

Mais algumas linhas ilegíveis,

Mais algum canto por todos inaudível.

Mas no mesmo sonho assombrado

Onde você destruía toda minha fortaleza,

Apenas por existir,

Onde você vagava displicente 

Por meus tantos vazios,

No mesmo sonho repleto de um profundo adeus,

Um abraço morno...

Um sorriso brando...

A luz do sol nascente escorrendo das janelas,

Inundando a cama, os lençóis. 

Um nome já esquecido,

Eu, digno do amor outra vez,

Talvez,

Ainda mais, até. 

4 de jun. de 2022

 


Eram e talvez, 

Em alguns momentos inocentes,

Ainda sejam

As palavras

Os raios luminosos a derreter

A gélida e grossa

Camada de realidade

Que cobre a superfície 

Acima de mim.

Eram e talvez ainda sejam elas,

Apenas elas,

A desnudar a doçura de alguma canção 

Por entre as noites em que o silêncio,

Falso e estranho,

Corta lentamente a pele da lucidez.

São elas, ainda, talvez,

A adornar de memórias preciosas,

Não vividas,

A envolver de aromas raros,

Imaginados,

Alguma ilusão sutil que suavemente sorri

Enquanto vaga vagarosamente

Por essas ruas que já foram tão minhas.

São elas, eu sei, 

Unicamente elas,

A persistir e ficar

Junto de mim,

Das minhas mãos,

Removendo pedras,

Plantando roseiras,

Como disse a mestra.

São elas, eu sinto, que renascerão,

Ainda que menos vivas, 

Ainda que mais esquecíveis,

Enquanto algo de Belo sobreviver no coração.

22 de mai. de 2022

 



Há ainda em alguns inícios de tarde, embora o azul magnânimo e clemente do céu, essa chuva branda de delicados fractais dos tempos em que o tempo não passava. 

Esse suave perfume da jabuticabeira em flor, a memória dos velhos papéis de carta, a luz do sol se diluindo por entre as árvores, resgatam dos porões trancados da memória o aroma do primeiro amor, o aroma dos primeiros sonhos que exalavam vida por todos os poros... E eu sempre achava que recebia demais, que já era muito meu amor ser tolerado, e não celebrado; eu sempre achava que as flores floresciam pelo acaso, e não pelas minhas mãos que se feriram na terra ao semeá-las, não pela minha fé em cultivá-las mesmo quando era inverno e todas as cores pareciam tão cansadas.

São apenas os primeiros passos nessa estrada infinita...

São os primeiros minutos de claridade após a madruga... 

Tudo o que amei ainda está aqui, repousando agora bela e inofensivamente, 

Mas é o que eu finalmente amo que verdadeiramente me guia,

O coração