5 de ago. de 2021

05/08/2021


Inocentes luzes na jovem noite de agosto brilham acima do pequeno circo itinerante,

E brilham também os olhos por um instante.

E mesmo com seu vazio, 

Sem crianças correndo com doces e encantos,

E mesmo com suas lonas cerradas,

Com suas arquibancadas sem público e seu picadeiro sem quem a este anuncie o maior espetáculo da Terra;

É possível que a magia ali adormecida lembre a quem passa veloz subindo e descendo pela velha ladeira não apenas sobre os passados dias que eram repletos de preciosidades simples e tangíveis, 

Mas do sabor e do perfume de uma esperança que talvez não tarde a renascer. 

E brilham também os olhos por um instante... Brilham... diante do nascimento de um último poema bobo e enternecido,

Que é sempre o penúltimo, 

Que é sempre o antepenúltimo;

Porque pelo solo do coração desabrocham ainda e lentamente sentimentos puros, 

Feito flores delicadas,

Que sempre perecem pela aridez da realidade,

E que sempre ressurgem diante da primavera.

31 de jul. de 2021

31/07/2021




 Velhos versos em páginas manchadas pela beleza de um tempo em que sonhos juvenis transitavam sem medo por calçadas, ruas e rodovias. 

"Há teu cheiro no cheiro da noite que apenas eu sinto."

Eu dizia...

"No canto triste do pássaro enjaulado, há o meu canto: preso distante de ti.

A lua brilha, cheia, como a safira feliz dos teus olhos."

E já não me lembro sequer pela luz de quais olhos eu lamentava a ausência...

"Amo a noite como se te amasse.

Deixo os braços negros dela me tomarem.

Observo-a como você me observa: de lábios selados, olhar atento.

Sem palavras." 

E eu sorrio ao sentir na boca um gosto sutil da pureza daqueles antigos anos dos quais apenas rabiscos em letra torta sobraram. 

Em outras linhas eu digo como que a um reflexo: tudo o que fui prossegue em mim. 

E as palavras gentis do eu passado não servem de grande consolo diante dos ventos frios que sopram pelas frestas saudades amorfas,

Mas elas, depois do tanto que já partiu, permanecem aqui,

E estarão comigo quando estas mãos frias se levantarem novamente em um brinde à vida,

Estarão quando, se talvez, um dia, um novo verso de amor puder ser traçado,

Estarão aqui quando os sorrisos forem novamente permitidos e novas receitas para futuras saudades puderem ser escritas.

28 de jul. de 2021

28/07/2021

 


O sopro gélido parece ser o que sobra do movimento das asas dos anjos quando os sinto partindo mais uma vez. 

E eu atiro versos cansados, fracos, para alimentar a pequena chama que resiste a aquecer os cantos do espírito onde a luz quase não chega. 

Uma chama que já quase não aquece, mas que não posso deixar morrer.

E não é muito, mas o fogo frágil ainda exala um perfume de mirra e jabuticabeira em flor. 

Enquanto isso eu falava das coisas sagradas brotando sobre as rudes e frias montanhas da realidade que todos carregamos, 

Eu falava de algo de belo mesmo nas tardes cinzentas e quase sem vida.

Eu falava, falava...

Tanto.

Toneladas de desejos, lamúrias, desistências, memórias, desaguando em um infinito de esquecimento. 

E menos sozinho talvez estivesse se fosse aquele menino esquecido na terra estrangeira dos devaneios, porque havia um sorriso que me permitia sorrir também...

Lá, por onde eu seguia em caminhos pavimentados de utopias, eu podia sonhar com um pouco da claridade solar aquecendo ainda mais as mãos entrelaçadas,

Acreditando por um momento que talvez,

Na verdade, 

O sopro gélido esteja vindo do bater de asas dos anjos que se aproximam.

24 de jul. de 2021

24/07/2021



 Os doces antigos anos flutuam como lembranças quase esquecidas em uma atmosfera distante, inatingível, feito fossem pequenos vagalumes dissolvendo ínfimas porções da escuridão das longas madrugadas. 

Foram muitos dias de sol, vento e chuva castigando a fortaleza ebúrnea da inocência;

Muitas palavras, muitas mãos, muitos lábios...

E os poderes mágicos foram se tornando cada vez mais rarefeitos, o mundo foi se tornando mais cruel e a claridade do dia desaparecendo mais rápido. 

E chegam as noites onde a cidade cessa seus murmúrios e cantigas;

Noites frias, de céu profundo e limpo, com o luar leitoso de julho escorrendo suas luzes pelos muros e jardins. 

Então é agosto que se aproxima, penetrando por portas, poros e janelas com um perfume igual ao dos tempos dos pés descalços pela areia morna dos caminhos arborizados. E os olhos marejam um pouco pelas borboletas delicadas sobre as flores singelas que resistem ao inverno, por uma solitária canção que alguém dedilha não muito longe, pelo coração que já não é tão belo agora que com suas cicatrizes, mas que nem por isso se tornou frio 

Ou menor. 

23 de jul. de 2021

23/07/2021



 Três anos para uma década de adeus. 

Tudo já se foi, esvaiu, escorreu ladeiras abaixo junto ao silêncio para mergulhar em uma escuridão indecifrável. 

Em raros momentos, aqueles tempos sublimam-se, liquefazem-se, e chovem sobre a terra castigada. Uma rega rápida, vã, sobre o jardim sedento. 

Éramos tão outros, certa vez me disse no momento de mais uma despedida. Porque eu fui dividindo a ruptura, o abandono, a saudade que havia, em pequenos estilhaços menos cortantes e fui enterrando aos pés das flores para não ver. E já não vejo, só meus dedos cortados sabem que estão lá, para sempre talvez.

E tudo isso é porque você às vezes encontra um caminho para os meus sonhos e sem que eu abra a porta você volta para dentro, como uma assombração que não precisa de chaves. 

Mas eu não temo... As velhas ruínas são castelinhos de areia desfeitos por ondas agora calmas diante dos novos escombros, e já ninguém pode se dar ao luxo de sofrer por dores bonitas. 

Os olhos não secam, os estômagos rugem, o medo cavalga livre pelas ruas que não podem mais ficar vazias, a mentira ainda vence quase absoluta.

E você aqui por um fragmento de instante ou de loucura... ainda maior, com mais luz e beleza, como se a casa ainda fosse sua, como se os lençóis baratos ainda pudessem receber seu corpo. 

E quando a claridade da manhã enfim penetra afugentando os outros fantasmas, esses sim reais, sua imagem vai desbotando junto ao vazio e deixando apenas este pequeno e tolo elo. 

"Éramos tão outros", você dizia...

E eu só pude concordar, escondendo que ainda sou o mesmo, só que sem aquela bonita capacidade de voar.

19 de jul. de 2021

19/07/2021

 


O excesso de silêncio tem deixado uma cicatriz que não se cala. 

Um ruído ininterrupto que soa como um efeito colateral de tanta distância e temor.

E essas avenidas vazias por onde só o vento seco e frio caminha, são tão diferentes das vias internas de trânsito infernal por onde os pensamentos circulam sem lei e sem controle, causando pequenos estragos, pequenas fraturas. 

É estranho tudo isso que restou depois de todos os perdões terem sido oferecidos, depois que os sonhos adormeceram e as memórias tombaram exaustas. 

É um fim de batalha que não oferece paz, não traz calmaria. 

Mas é um fim.

Outros versos sem grande sentido virão em louvor às ventanias do agosto que de novo se aproxima. 

E tudo será dito mais uma vez, e será esquecido mais uma vez, em um incompreensível e sagrado ciclo de angústia e êxtase, de culpa e absolvição.

Porque é certo que a missão do tempo é rejuvenescer a alma, substituindo nocivas ilusões por construções de beleza singela, mas de alicerce firme. 

Por hoje, o sol já se deita suavemente dando lugar ao sopro gélido e escuro da noite, e eu volto a caminhar junto ao vento pelas vielas esquecidas, fugindo em busca da quietude que não existe pelas ruas do espírito.

15 de jul. de 2021

15/07/2021

 


Não é possível saber se vale de alguma coisa cultivar essas flores ingênuas nas brechas pelas quais as assombrações tentam se libertar,

Não é possível saber se as orações simples da infância podem mante-las calmas e afastadas por muito tempo,

Não é possível saber se na verdade isso que ouço arranhar as paredes cansadas da alma são mesmo antigos fantasmas ou meras consequências...

Então se por um instante me for permitido não pensar, eu gostaria de ser como os poetas

Que nunca morrem e nunca sofrem por nada além do amor e da estiagem.

Se me for permitido por um instante não sentir, eu gostaria de ser como o vento que o tempo não consegue ferir,

Ser como os zéfiros que rodopiam as folhagens amareladas pelos caminhos despovoados, anunciando outro enigmático agosto em que há tanto para sucumbir e tanto para renascer. 

E o que vem ao meu socorro é um raro e precioso silêncio sem saudade ou sonho.

Assim, volto a ferir as mãos na terra rude e aconchego frágeis belezas em seu âmago;

Ajoelho-me humilde,

Feito o menino que era livre da culpa,

E agradeço pelo coração que aos poucos conhece a cura,

O coração que aos poucos refloresce.

14 de jul. de 2021

14/07/2021

 


Discretos desesperos são silenciados pela voz macia e rouca não muito distante, 

Logo a imagem de um sorriso oculto,

E um aceno, 

E uma despedida;

E a realidade escorre para fora da pausa e volta a caminhar. 

Pouco há de tudo o que há, 

Já o disse, 

E disse novamente,

E repeti. 

Porque em algum lugar flutua o aroma místico de perfumes raros,

E em algum lugar os pássaros cantam versos misteriosos e sublimes,

E em algum lugar o amor opera maravilhas desconhecidas em almas alquebradas,

Mas aqui apenas reina o mesmo sol de luz descorada

Sobre as cansadas horas, 

Legítimas indignações e

Flores frágeis.

A brisa, os transeuntes, os portões abertos, trazem apenas faíscas de algo embelezado,

Algo que se liquefaz nas mãos mornas da tarde. 

E busco por entre as páginas de bons e maus poetas algo que decifre o murmúrio ininterrupto que ecoa do peito,

Só que não compreendo as palavras que dançam e se misturam arrogantes como se eu não estivesse suplicante ali, 

Como se não precisassem jamais fazer algum sentido aos que clamam seu alento.

Mas sozinho algo eu entendo dos ruídos confusos que me chegam,

Uma melodia com ainda alguma pureza em si,

Que cantarola insistente:

Ainda pulso...

Ainda sou o mesmo,

Ainda estou aqui. 

13 de jul. de 2021

13/07/2021

 


Com as saudades todas gastas, não resta dor adocicada por aqueles dias em que se vagava pelos corredores declamando poesias profundamente sem sentido para amores ainda mais efêmeros.
Contudo, mesmo depois dos tempos das dores dóceis, o córrego raso de versos atravessa a tarde sem ambição, como tanto já fez, refrescando a alma. 
E parecem-me quase santas as pessoas que vagam nas ruas, sem pressa a algum destino confortável,
Parecem-me sagradas as crianças pelas calçadas antes do fim do dia,
Parecem-me dádivas os jardins com roseiras exuberantes nas casas de esquina. 
E é por isso, 
E pelo vento morno que que carrega algum perfume, e pelas vozes confusas não muito longe, e por uma canção antiga e ruim que não para de tocar, 
Que não posso deixar de insistir. 
Benditas essas palavras sem sabor, essas páginas não lidas, não amadas, o coração não disparado, a calmaria não clandestina.
Bendito esse pouco, 
Bendita essa ausência preenchida pelo lume fraco da fé.
A fé que bruxuleia feito a chama de uma vela posta na janela,
Mas que não se apaga, não se apaga. 
Tudo isso, eu sei, é libertação,
O reflexo puro no espelho,
A poesia bonita oculta em mais um poema horrível,
Como uma gema rara presa por entre rochas sem qualquer formosura.
Tudo isso, esse trivial,
Esse quase menos que nada,
É também tanta vida. 

12 de jul. de 2021

12/07/2021

 


"É preciso voltar a crer na força da vida!" dizia ela,

E eu pensava que não era mais possível seguir apenas sobrevivendo à estiagem, 

Às despedidas,

Às memórias,

Aos desencontros. 

Eu pensava que não era mais possível seguir apenas trancando as portas e apagando as luzes,

Observando nostálgico o velho e cansado ipê que um dia floresceu naquele fevereiro tão distante. 

Então percebo que acima do som rude e ruim que o medo entoa, que mais forte que seu cheiro triste e grosseiro,

A alma emite uma canção cheia de acalanto, utopias de tempos bonitos, sonhos pouco ambiciosos, que repousam pacíficos para o porvir. 

E de suas pequenas e delicadas mãos, florinhas de ilusão exalam um aroma adocicado de boa esperança.  

E me emocionou lembrar dos olhares que continuam a se tocar, 

Dos sorrisos ainda ocultos por escudos inevitáveis, 

Mas que permanecem lá, 

Luminosos. 

E me emocionou a voz envolvida em tanta ternura, 

Guiando-me a ver as preciosidades singelas que os versos pobrinhos conseguem por vezes esculpir. 

"É preciso voltar a crer na força da vida!" dizia ela...

E me emociona saber que,

Mesmo sem perceber,

Somos nós essa força. 

11 de jul. de 2021

11/07/2021

 


Sei que já não são os velhos e sagrados faróis a medir as obstinadas e tolas palavras;

O azul que me contempla repleto de um massivo vazio pertence apenas ao céu que precede o sétimo agosto. 

E abaixo do firmamento, uma calmaria suspeita foi se fazendo tão intensa e afiada que lentamente cria pequenos cortes na alma fraca quando esta vasculha outra vez ruas e memórias em busca da própria inocência;

E são dessas fendas que as palavras escorrem.

As palavras, de novo e de novo, elas.

Moldadas por mãos pouco hábeis,

Tomando a forma de preces, de súplicas, de flores, de canções de adeus;

Para em seguida se desmancharem no ar, como as nuvens que o inverno levou embora. 

Mas antes elas me dizem que a vida persiste.

Como os ipês que continuam a colorir os caminhos não muito distantes daqui;

Dizem que, oculto por pequenas flores roxas, 

Resiste o velho e frágil lírio da paz...

Aquele que já embelezou o caminho por onde os sonhos desfilaram.

E tudo, eu sei, é por medo da escuridão e do silêncio, 

Das avenidas continuarem para sempre desertas feito fossem o coração. 

E tudo, eu sei, é por esperança de um outro sorriso, 

Repleto de claridade e absolvição.

9 de jul. de 2021

09/07/2021

 


A poesia resiste para louvar tudo o que é eterno:

As flores novas no jardim sob o sol de inverno,

A canção que ecoa pelos vãos luminosos da alma,

O perfume da memória que o vento traz quando faz curvas sem pensar, 

As crianças que aos poucos voltam a correr pelas ruas de domingo, 

O amor...

O amor que disse adeus e que por isso jamais irá embora.

A poesia insiste por não ser vista. 

Ignorada ela cresce forte e lentamente pelas rachaduras que o tempo vai abrindo pelo chão e pelo coração,

Como as raízes dos belos e bailarinos salgueiros. 

A poesia permanece porque nem tudo precisa de cura ou perdão o tempo todo, só que sendo tantas vezes o único antídoto para todas as coisas, ela escorre docemente pelos trilhos, telhados e ladrilhos, 

Como a chuva santa que se esqueceu desses cantos inóspitos, 

Mas que quando retornar, trará como sempre vida em abundância.

A poesia se despediu junto dos dias ingênuos da infância que a cada estação que se esvai parecem mais um sonho,

E por isso ela nunca, 

Nunca deixará de estar bem aqui. 

7 de jul. de 2021

07/07/2021

 


Adélia e Cora passeiam pelas folhas vermelhas e caídas da tarde;

Não bem elas, 

Seus versos.

Eu suspiro...

"Desejo de beleza", me sussurra...

É sim, Dona Adélia.

É uma fome estranha que não passa, um vazio que não se preenche é nunca. 

A alma insaciável, desiludida,

Vivendo um pouco menos do que gostaria. 

As folhas como fogo despencando pela estação e pela estiagem são alguma coisa... 

Como o amor fora alguma coisa, como o adeus fora alguma coisa, como o medo e a alegria foram alguma coisa. 

E a gente aqui, gente besta, sem muito brilho, tentando ser alguma coisa também. Insistindo.

Sendo isso que parece pouco, mas é até que muito: gente.

Pouco depois da primeira e única estrelinha dourada no caderno de caligrafia pela letra bem feita, veio Cora com seus escritinhos, e eu me lembro que ela lembrava de um bolo pesado e pastoso, e que pra mim foi esse o primeiro gosto que a poesia teve e foi esse o gosto dela pra sempre.

Da mesma forma, a vida... Grossa, densa, pastosa.

E ansiamos, ansiamos, e só comemos também uma fatia tão delgada, tão insossa, antes dela ir pro alto do armário, impossível que só, 

E a gente aqui, crianças molengas querendo mais, mais,

Mas a vida fica lá quase intacta pro café das visitas, 

Fica só pros outros, 

A gente vai e fica e se conforma, fazer-o-quê,

Sem reclamar,

Sem blasfêmia.

E o sol se põe enfeiado, como é difícil de ser,

Contudo, eu sou também o homem de Cecília, 

O pobre com um balde regando o jardim para que não morra por completo de secura. 

Por isso os hibiscos bradam em cores exuberantes, mesmo abaixo de um céu de uma palidez amarronzada feia de dar medo,

Enquanto fico pensando que quem me dera a fé de uma, a força de outra e a doçura da última... Ou ainda, meu Deus, quem me dera esse olhar simples e emocionado,

Que torna mesmo as coisas mais banais,

Coisas santificadas.

4 de jul. de 2021

04/07/2021

 


Embora tudo, pelas imensas avenidas de chão rosado pela florada dos ipês, eu observo um fio muito sutil, mas forte, de algo que poderia ser esperança, ou talvez até paz. 

É sim um tempo de estiagem, as friagens e os adeuses ainda roubam a luz e o calor dos corações,

No entanto, a manhã de domingo em que se desperta como riso abundante das crianças, o canto dos pássaros e o cheio do café fresco me faz pensar nos tempos em que havia fé nos anjos, nos santos, no amor, na poesia. 

E não sei se são passados esses tempos de milagres, não sei se anjos, santos e poemas ainda têm algum poder de curar essas terras enfermas, mas sei que algum tipo de amor resiste, porque é ele que faz as crianças sorrirem, os pássaros cantarem e os ipês florirem. 

2 de jul. de 2021

02/07/2021


Rende-se o azul-safira do céu ao onix brando, frio e estrelado. 

Tamanha escuridez...

Desabaram das nuvens os castelos seguros da infância, e como um alquímico em busca do impossível, depuramos lascas de realidade afoitos por alguma beleza.

A noite se faz sem encanto, feito a pequena flor de lavanda que perfumava muito suavemente as horas tristes de mais uma tarde de despedidas.

E após a Deus, é diante das palavras que me ajoelho em busca do consolo.

Outro pranto, outro adeus.

Outra luz de sorriso que se apaga, outra estrada nunca mais cruzada. 

Que dizer dos laços inquebráveis do amor quando o amor para quase sempre se cala? 

Outro pranto, outro adeus...

E Deus em seu santo silêncio e as palavras que fluem ralas, insossas.

Que dizer sobre as mãos que não serão mais dadas?

Desconfio que nem algum grande poeta saberia.

Só que há alguma relíquia oculta na alma entoando uma canção sobre dias serenos. Sim, há.

E percebo que então a voz de Deus se mistura à voz de todas as coisas, e ela ecoa;

E as palavras tentam, insistem mais uma vez, mesmo em sua profunda modéstia, em acariciar com ternura o passar lento e dolorido dos dias.

1 de jul. de 2021

01/07/2021


Bethânia me canta seus breus, 

E eu, sempre em fuga e ao encontro dos meus,

Me lembro: o perfume amadeirado, o sol poente, as mãos livres parindo versos carentes de sentido e até de beleza, porém cheios de ternura. 

E tudo isso que havia depois que o amor não mais existia, não deixava de ser amor, só que menos brilhante, mais inquebrável, menos ausente. 

E pelas ruas há quem sorria, e eu mergulho em suas vozes, em suas mãos pelos cabelos, em suas pernas sobre o caminho, nos sonhos que imagino para eles e para mim. 

Mas como falar às almas se a minha ao menor tremor se cala? 

Minha voz serena contra corações bravos como rochas...

Como falar dos velhos lumes, das noites frias derrotadas por um instante de ilusória comunhão, se eu já suguei até o tutano das memórias, das flores, da chuva e do sol?

Já recosturei cada trapo de utopia trazido pelo ar nessa colcha fria e feia de retalhos. 

E ela se estende flutuando por todas as ruas, por todos os becos agora vazios e desencantados...

Enquanto eles voam, eu afundo há meses e meses junto das mesmas canções, 

Enganando a mim mesmo quanto ao valor dos tesouros submersos que ainda encontro.

E volto à tona,

E finda a canção.

Não resta muito a dizer por não haver muito a sentir. 

Melhor assim,

Talvez.

29 de jun. de 2021

29/06/2021

 



Tão pouco deslumbre para mais essa correnteza quase descabida de linhas e linhas.

Páginas e páginas rumo ao fogo simbólico do esquecimento.

Tão melhor já falaram desses ventos duros de inverno, desse céu azul enfeitado com fitas brancas de nuvens, desses ipês que florescem de forma tão bela e fugaz. 

Tão melhor já disseram sobre a saudade, sobre o olhar fixo em um horizonte sem grandes encantos, e sobre a angústia de tempos incertos, e sobre os sonhos levados como poeira e cinza pela brisa. 

E se for tudo solidão? 

O frio, o vento, a noite em pleno dia, o silêncio cortado de fora a fora por uma nota ruim e ininterrupta? 

E se for tudo a solidão que a tudo devora? 

E a utopia em parir sílabas e sílabas, seja o alimento pouco nutritivo dessa besta-fera que nunca se sacia? 

Se já não te espero, pelo que espero? 

Os campos, talvez...

Um silêncio puro, enfim. 

A luz que realmente guie.

Sobre o concreto dançam os mesmos chorões como fora há anos. 

Mas há anos eu não estava com os pés em uma armadilha que fazia temer passado e futuro. 

Em mais um pouco até o sagrado e gélido olhar despencará em um abismo de profundidade desconhecida; também os tapetes, as roupas, as canções, os arbustos de flores roxas, o abraço no ar, tudo em queda livre...

Sagradas e já triviais reminiscências mergulhando, mergulhando...

Então já é tarde, o vento finda, os fantasmas enfim adormecem. 

E mesmo depois te tanto, nenhuma poesia se achega, mas passa ao longe, acena, sorri, eu faço uma reverência em respeito. 

E adormeço também.

28 de jun. de 2021

28/06/2021

 


Não é preciso mais colher no vento gélido que inicia o inverno estilhaços cortantes de passado,

Não é preciso ajoelhar-se outra vez sobre esses cacos implorando a remissão dos mesmos enganos. 

Se já estão todos perdoados, é chegada a hora da misericórdia diante das próprias acusações. 

Ainda arrasta o coração exausto pelas ruas esquecidas, ferindo-o com teu olhar severo... 

Mas houve um dia, lembra-se?

Um dia em que não se deixou destruir e aconchegou roseiras no solo quase infértil, 

e elas floriram, 

e a dor quase passou. 

E não foi coragem isso de se desconstruir pedaço por pedaço e chorar diante da desordem e sorrir por cada peça que foi sendo colocada em lugar mais correto? 

Não foi o medo que te deu o machado para derrubar a frágil e imensa torre das tuas ilusões? 

Não virá a aprovação sorridente dos velhos anjos, e tudo bem, é passado seu tempo.

Hoje o reflexo ainda incompleto de todo causa certa angústia... E tudo bem, virá o seu tempo.

Mas deixe sobre o vento que aos poucos se acalma o fardo da ingratidão e do vazio. 

Hoje a alma se encolhe e silencia, amanhã ela renasce, imensamente.

Publicações

 "Eu quero que a minha voz seja ouvida

Não por vaidade ou por achar ela bonita,

É porque carrego no peito a esperança de dias melhores."

Criolo



Meus livros estão disponíveis em: https://clubedeautores.com.br/livros/autores/marcos-serafim-teixeira


Em breve: "Ruas de domingo - Prosa poética em quarentena."





27 de jun. de 2021

27/06/2021


 O fluir do tempo foi trazendo essas rachaduras pelas paredes, pelo chão, pelo peito. E ao contrário do que disse a poetiza, não sinto que é por elas que a luz entra.

Apenas permanecem ali aqueles pequenos vãos que eu não sei se são inofensivos ou se são sinais de algum perigo. Mas tento não temer.

E quando sozinho pelas ruas ainda inebriadas por vazio e calmaria, eu consigo não notar o tempo por instantes. Mesmo sendo aqueles caminhos tão ancestrais e tão meus, nada de memórias, nada de sonho ou de saudade. Então agradeço pelas nuances de trégua

E foi por isso o primeiro verso e será por isso o último talvez, e tudo o que houver entre eles: uma tentativa fugaz de não deixar partir o querido menino. 

Não o menino transpassado por ânsias vis, mas o menino que corria de pés nus pela areia esbranquiçada com as flores do canavial nas mãos brilhando ao pôr do sol, antes da noite devorar toda a claridade e deixar apenas um assovio incômodo em seu lugar.

Ainda há nos fundos da alma um velho jardim que abriga em suas terras tudo o que foi amado. O jardim que pede por cuidado e alento, onde com ferramentas danificadas ainda perfuro o solo que esconde grandes pedras de medos e remorsos, e insisto a semear sentimentos doces e simples, insisto, insisto... Regando-os em seguida com aquela mesma antiga luminosidade do poente da infância, e algumas rasas lágrimas de fé.


25 de jun. de 2021

25/06/2021

 


Pelas frestas abertas após as quedas, escuridões sorrateiras penetram.

Sei que um delicado e rápido toque da realidade poderia estilhaçar todo aquele reino mágico construído sobre o alicerce frágil de milhares de palavras simplórias e sonhos desgastados.

Mas eu ainda tenho a voz dos anjos sussurrando alguma docilidade por entre as horas das tardes amargas, tenho o riso fácil deles mesmo diante das lágrimas inevitáveis dos dias; tenho, mesmo que não pareça, esperança. 

E perambulo por memórias alheias, fingindo por um instante que estou a uma distância segura dos fantasmas que também não deixam de me observar. 

Perambulo pelas minhas memórias... E volto e volto, recolorindo e retemperando imagens e sons que já se perderam todos pelo tempo, mas que não podem ser substituídos porque nada se pôde viver. 

E aos poucos as frestas vão se fechando mais uma vez, até o próximo solavanco, até o próximo susto. Mas se fecham. Antes que a alma se torne por completo apenas noite e inverno.

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#ruasdedomingo

23 de jun. de 2021

23/06/2021

 

Mesmo os tons mais singelos do crepúsculo me pareciam muito dignos de louvor e gratidão. E mesmo com a consciência áspera de que talvez nada seja novamente tão belo como fora um dia, o riso das meninas que correm descalças e leves pela estradinha de terra me faz sorrir também. 

E há a lua que nasce suavemente e a canção transportando o pensamento para quando havia felicidade apenas por você querer estar aqui...

O aroma empoeirado que o vento traz é o mesmo daqueles anos, anos quando eu também era um menino correndo descalço pelas estradas de terra, acreditando que havia algo de mágico em todas as coisas.

Mas eu olho o sol que se põe pelo lado oposto e sinto que talvez não precisemos mais de algo que vá muito além dessas pequenas memórias que o tempo cravejou com um pouco mais de encanto do que talvez mereçam, ou dos dias mornos em que a luz é macia e o coração experimenta uma dose do sabor adocicado da paz. 

E talvez isso não seja crescer, talvez seja o contrário disso. E tudo bem. Talvez tudo esteja só na minha cabeça, como todas as vezes em que vi os anjos e as estrelas de muito perto. E tudo bem. E talvez eu não queira me importar por uma tarde... Apenas adormecer junto da claridade que deita na linha do horizonte e junto dela sonhar com dias com menos distância, com ruas menos vazias, com menos despedidas. 

E tudo bem...

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#ruasdedomingo

22 de jun. de 2021

Ruas de doingo - prosa poética em quarentena

 


Prosa poética em quarentena
Eu não pretendia escrever sobre os tempos de pandemia. De que serviriam mais palavras diante de tudo o que vivemos e sentimos? Elas não me pareciam úteis, necessárias e até bem-vindas. Ainda que em algum momento eu tenha acreditado ser capaz de extrair alguma poesia dos dias, o que haveria de Belo em tempos tão “tremendamente esquisitos”, como disse a poetisa?
Contudo, a vida continua fluindo por entre as pedras de angústia e de temor que foram despejadas em quase todos os corações, e as palavras, ainda que desprovidas de muita grandeza e poder, continuam com seu anseio humilde de acalentar o espírito alquebrado.
Então, quando dei por mim, percebi que eu não estava escrevendo sobre a amargura de uma fase repleta de nuvens tão escuras e ameaçadoras, eu estava como que caminhando por uma rua, uma rua de domingo, vazia, silenciosa, que em momentos passados foi o trajeto para tanto movimento e vida, e que em momentos próximos, voltaria a ser.
Um vão.
E nesse caminhar eu fui observando algumas coisas ao redor e algumas coisas internas. Coisas às vezes simples, mas ainda repletas de encanto, e coisas não tão felizes, como não poderia deixar de ser, mas que ainda assim, de alguma forma, anunciam a promessa de dias menos difíceis.
As palavras que nasceram dessas observações pediram então por uma organização, como as peças que compõem um mosaico e transmitem uma mensagem.
“Ruas de domingo” traz prosas singelas com algum gosto de poesia, nascidas por entre os tantos meses de isolamento. São retratos de dias inundados por sentimentos controversos de desalento e também de esperança, adornados com fragmentos de memórias, de ansiedade, de sonho, de amor e de espera. Momentos que creio eu, em distintíssimas intensidades, todos conhecemos muito bem.


20 de jun. de 2021

20/06/2021 II

 


Daqui já não ouço os sinos que clamam pela presença dos fiéis. 

Também não sei se eles voltaram a tocar, mas ainda assim, imagino os passos calmos a caminho, as vozes mansas, os aromas, as cores, as mãos enfim dadas. 

Pelos jardins recém plantados e pelos parquinhos repletos de simplicidade, as crianças já correm e brincam novamente. E por um momento eu dou as costas para a angústia e me lembro de dias mornos como aqueles de Nossa Senhora em que choviam pétalas do céu. 

E mesmo eu sabendo que tudo já foi dito e vivido tantas vezes, bem no fundo eu percebo que ainda amo tudo o que amei e que ainda sinto tudo o que senti. 

Nada é extinto ou apagado. 

Por isso quando o mesmo sol se põe da mesma forma atrás das mesmas árvores que adornam o mesmo caminho, eu ainda paro e faço uma oração, talvez uma mesma oração também... Aquela de uma criança que se enrolava com as palavras e com seus medos, mas que via Deus em todas as coisas. 

20/06/2021


 Como as nuvens que deslizam pacíficas no firmamento, há dias em que o coração parece ainda ser o mesmo. 

E eu posso voltar a sentar no solo trincado e tentar salvar as pequenas flores que insistem em não desistir de levar algum encanto. No fundo, com pequenos gestos, o que tento salvar é a mim mesmo, todos os dias. 

E são poucos os que não perdem o fôlego ao olhar para além dos próprios muros. Quantos olhares inundados de angústia hoje se voltam a esse mesmo céu em busca de consolo e respostas? 

Não teríamos lágrimas para cada uma das quinhentas mil vidas...

Mas eu me lembro da história do homem que acalmou os ventos e as águas apenas com a voz, dizendo que um dia, se quiséssenos, faríamos o mesmo ou mais... 

E eu, que ainda não acalmo nem as brisas que sopram para dentro do peito, volto a olhar o céu, tentando acreditar que existe uma linha sagrada e invisível conectando e dando sentido a todas as coisas, enquanto pela mente vagam imagens confusas de sorrisos após pesadelos. 

E se eu pudesse, mesmo que não fizesse qualquer diferença, eu gostaria de ainda poder te dizer que eu fui em busca da parte bonita que também existia aqui dentro, e que eu a reencontrei, danificada abaixo de escombros e ruínas, restos das minhas falhas; eu a encontrei. E é essa parte que continua a observar o céu agora, que continua vagando pelas ruas silenciosas de domingo, não mais em busca, mas em paz.

17 de jun. de 2021

17/06/2021

 


Aquele rio dócil e calmo de palavras que escorriam facilmente com delicadeza e até inocência, ainda que nunca tenham sido bons versos, ou sequer versos, não deixavam de ser uma luz morna penetrando pelas frestas abertas em um inverno que nunca respeitou os calendários para chegar. 

As tantas páginas eram como retratos de momentos e sentimentos de trégua e quase esperança. E mesmo que tola, a fé no amor germinava flores abundantes pelas paisagens em que o olhar vagava. 

Ainda faz bastante frio... Só que não aquele das manhãs que custavam a nascer até que aos poucos o sol fosse dando vida às ruas, calçadas e jardins. É um frio com mais silêncio, com mais sombras, com mais t(r)emores. 

E eu continuo para além de uma década depois enfileirando letras endereçadas a um vazio que se aprofunda dia após dia. 

Mas há de belo esse céu de um imenso azul e a brisa do início da tarde tirando os salgueiros do pátio para dançar lentamente, mesmo que nada disso agora seja o bastante...

E por entre o passar gotejante das horas e as notícias amargas que tanto têm tardado a cessar, o rio continua a fluir, talvez mais caudaloso e sem tanta beleza, mas ainda repleto de vida.

13 de jun. de 2021

13/06/2021




 Eu posso ouvir a canção perguntando se o céu já não tem anjos o suficiente, posso ouvir as cantigas para Santo Antônio pelos bares onde homens ainda não muito embriagados observam o horizonte vago com o olhar perdido, talvez sonhando com algo precioso que foi perdido, e o riso fácil das crianças correndo e brincando pelas esquinas antes da noite ser plena.

E eu entendo que não deixa de ser bonita essa busca tola por mais alguns versos, por mais alguma inspiração por entre esses dias de tão pouco encanto. 

É preciso renascer, disse o mestre. 

E junto de cada perdão, de cada despedida, fomos renascendo, dia após dia. 

Ainda passo pelas ruas e pelas fotografias onde os fantasmas ainda pairam, mas eu vejo enfim o coração luzindo um tanto suficiente para caminhar por entre a escuridão sem voltar a ser parte dela, jamais.

E era estranho não sentir saudade, era estranho não doer ser indigno de algum amor;

Pois que nada havia passado, nada havia que não fosse o amor, de alguma forma

12 de jun. de 2021

12/06/2021

 


Em algumas horas, quando for em busca do chão coberto das flores trazidas pelos dias que antecedem o inverno, que em sua mente haja ainda o alívio trazido pelas pequenas doses de esperança que aos poucos vão sendo aplicadas por entre esses dias de luz ainda escassa. 

Que você possa olhar o céu novamente com olhos simples e imaginar as estrelas que se ocultam atrás do azul profundo, mas que estão lá, e que nenhuma outra vez você se iluda com o brilho falso de cadáveres celestes. 

Estamos longe de estar fora de perigo. E eu sei quando a mente se rende aos adversários e se junta aos cobradores de uma dívida já paga. Você vai precisar terminar de cruzar o pântano até chegar ao jardim, e até lá seus pés continuarão cobertos de lama. 

E em algumas vezes eu perdoo seu medo, porque é preciso tirar toda e qualquer armadura para mergulhar na verdade. E dói enxergar a olho nu o tamanho da nossa vulnerabilidade.

Então abra a janela, vire seu rosto de volta para o sol. Deixe que repousem em absoluto silêncio as batalhas que foram perdidas e a ansiedade pelos dias melhores do porvir. 

Resistir também é uma forma de vencer. 

8 de jun. de 2021

08/06/2021




 Mais nenhum poema de amor usando a velha receita que misturava perigosamente desespero e utopia;

Nenhuma canção com significados ocultos, cravejada de memórias baratas, como uma jóia falsa, sem valor;

Mais nenhuma tomada errada de rota. 

E quando olho hoje para trás o que vejo são minhas mãos de menino segurando um velho e grosso livro antes da revolução que nasceria de dentro para fora, mas que só agora começaria a conhecer a vitória. 

E me pergunto como seria se as primeiras palavras de cura e libertação não tivessem vindo só depois da carne já ter sido maculada, me pergunto como seria se eu tivesse vencido desde o princípio.

Mas eu vou até lá, vou até os dias onde você estava indefeso, vou para te levar o perdão, vou para dizer que tudo ficará bem, de alguma forma. Vou para dizer que, ao contrário do que tudo deixa transparecer, mesmo nos dias cinzentos e frios que precedem o inverno, o chão se cobrirá de flores e cores, como se já fosse primavera. E haverá muitas canções e muitas paisagens, e nada será menos bonito, mesmo depois de tantos adeuses. 

E você renascerá de novo e de novo, e cada vez maior e maior, e cada vez mais livre e cada vez mais puro.

5 de jun. de 2021

05/06/2021

 


Pelo vendo que põe em dança as árvores e trás balões coloridos de festas distantes, pelo zumbir dos insetos em euforia pelos canteiros do já cansado jardim, pela lágrima presa no canto dos olhos diante de mais uma despedida silenciosa, pacífica, eu sei que agosto não demora. 

Agosto não demora a preencher as ruas com sua poeira dourada e sua nostalgia dos tempos em que eu ainda tentava fazer o amor se sentir bem-vindo.

E olhando as pequenas abelhas rodopiando por entre as flores humildes eu me pergunto se o paraíso já não tinha anjos o suficiente quando te chamou de volta. 

A verdade é que tem sido agosto por muito tempo... Semanas, meses e anos observando o céu sempre azul esperando que a primavera realmente chegue com força suficiente para embelezar um mundo árido, sofrido.