25 de fev. de 2021

25/02/2021

 



Esse tempo que passa agora de uma forma tão estranha não se faz mais necessário para tornar algo sagrado.

Sim, as coisas sempre precisaram se perder em um passado remoto para que seu brilho fosse mais raro e valioso, mas agora as velhas regras parecem não mais valer.
Isso é bom porque os instantes banais e solitários ganharam algum adorno de emoção.
Isso é ruim porque as mãos já estão feridas de garimpar dias brutos e repletos de distância em busca de algum sentimento mais nobre.
Mas eu quase me esqueço da auto condenação enquanto imagino que a leveza dos momentos idos pode em breve retornar...
A chuva que cai mansa sobre os telhados dos santos e dos profanos me faz sonhar com o caminhar pelas ruas sem medo; talvez mãos dadas, talvez um Lar.
São tempos em que até o mais ingênuo dos poetas teria receio em falar sobre a esperança, eu repito... E tanto já foi dito e sentido para preencher de alguma vida as horas que se arrastam sem encanto; mas eu ainda vejo no fundo de alguns olhos faíscas de uma vida tão pura e tão bela.
Estamos resistindo, cansados ou feridos, nos alimentado de migalhas de poesia e afeto; amando ou esperando, entorpecidos ou despertos.
Estamos resistindo, superando pecados e absolvições, o amor e a indiferença.
Estamos resistindo, porque estes são os tempos sagrados. Não os que se foram ou os que virão. Mas estes, onde, só neles, podemos ousar sonhar de novo.

23 de fev. de 2021

20/02/2021

 


Resta um ruído de esperança vindo das estrelas ecoando pelo caminho onde a escuridão impera.

E já há algum tempo não é mais possível ver onde se pisa, não é possível saber se o solo é firme e seguro o bastante.

Mas o fio dourado que o crepúsculo esquece sobre o horizonte me faz querer seguir adiante aquecido por alguma fé ainda mais uma vez.
Sei que não há muita beleza fluindo pelos dias que se seguem, e embora tudo pareça normal pelos templos e bares, para os demagogos e para os ébrios, esse lapidar incessante dos dias em busca de alguma faceta que brilhe um pouco mais parece uma luta inglória para fugir do medo, feito a antiga e tola espera pelas 3 palavras mágicas.
Mas resta um ruído de esperança vindo das estrelas logo acima... restam os passos firmes pelo caminho sombrio em direção à claridade que ainda persiste.
E eu não disse, no entanto, em meio ao caos e às quedas, eu me esqueci de todos os sorrisos que se apagaram, enquanto quase consegui deixar de ter vergonha da simplicidade do meu.

16 de fev. de 2021

14/02/21

 



O incomum vento frio num domingo de carnaval com avenidas vazias parece trazer do passado recente o perfume contido de poesias que não puderam florescer dada a aridez da realidade. 

E enquanto eu mais uma vez vago por caminhos em que tanto já deixei meus sorrisos e minha lágrimas, eu penso na possibilidade de não pedir mais para vencer qualquer sentimento que queira se apossar do meu coração. 

Porque este mesmo coração que traz à tona sentimentos que não têm mais raízes, tornando-o ridículo a qualquer olhar mais lúcido, é o que me faz levantar a cabeça para o céu onde o sol começa a dourar as nuvens, precedendo a promessa de uma noite menos escura que as anteriores até aqui. 

E aqui, sobre uma velha ponte observando os carros que passam apressados, eu me lembro de quando pedi que fossem levados de mim o medo e a vergonha, mas talvez sem todas as minhas partes eu não entenderia e sentiria tão puramente as canções que falam sobre o exílio e sobre a cura. 

É possivel que você doa de alguma forma para sempre, junto de todas as outras coisas que também foram perdidas ou libertadas e também doerão para sempre, mas volto a dizer que pelo menos por agora é uma dor que tem quase alguma beleza...

Já deita a noite à frente dos meus passos e as luzes da cidade parecem chamar delicadamente por meu nome, e eu nunca deixo de responder,

Embora às vezes eu não saiba quais últimas palavras dizer,

Embora, definitivamente, eu nunca saiba quais últimas palavras dizer.

13/02/21

 

E eu precisava dizer, pôr à tona. 

Ainda que ninguém ouvisse, ainda que ninguém houvesse, ainda que a ninguém fizesse sentido.

Porque a noite com seus aromas estranhos e relâmpagos no horizonte distante penetra pelos poros, por todos eles, e eu a absorvo como uma memória de eras ancestrais enquanto vago pelas mesmas ruas que me parecem tão outras agora que banhadas em tanta escuridão. 

E logo sinto ser eu a figura fantasmagórica que se esgueira pelas calçadas e trilhas, silencioso e esguio, sem ser notado, como em um sonho onde estou no tempo errado, mas ao contrário da realidade, de alguma forma, não estou profundamente sozinho. 

E essa sinestesia entorpece, mas não fere.  Por um instante nem mesmo a saudade e o sonho que me arranham a pele e me transpassam a carne todos os santos e profanos dias têm tanto poder. 

Em alguns anos os arrependimentos serão o tempero das lembranças e esses tempos loucos talvez façam falta... talvez.

Porque ainda há tanta beleza oculta lá fora;

Porque ainda há tanta vida guardada aqui dentro.

8 de fev. de 2021

08/02/21

 


Embora tudo, não deixou de haver nas manhãs de fevereiro um azul pacífico no céu.

Talvez não faça muito sentido, mas o sol incidindo e fazendo brilhar as folhas das palmeiras que dançam no vento me faz pensar em um recomeço. 

Não que se anunciem dias mais brandos; os rostos cobertos, os gestos temerosos, as distâncias, não nos permitem esquecer por mais do que instantes da aspereza e da fragilidade da vida. E a mente ainda se parece com uma sala empoeirada, abarrotada de móveis velhos e desalinhados... e dói, e cansa, e dá medo o peso dos dias.

Mas se achegam palavras doces de uma alma gentil, algo como um agradecimento pelo que fui capaz de sentir, de dizer, de florir. E com isso os olhos merejam por um segundo; os olhos se tornam as janelas da sala escura e sombria, e se abrem para a luz suave do dia. 

O peito se aquece. 

Em minhas mãos são entregues papéis coloridos, cheios de sonhos rabiscados, cheios de sentimentos coloridos, cheios de vida e juventude, e eu descubro que recomeços podem ser singelos, delicados, silenciosos. 

E abro ainda mais os olhos, as janelas, e deixo a claridade acolher os cantos da suja sala escura. Observo suas relíquias, seus cacos, os tantos objetos espalhados pelo amor, pelo descaso, e amo profundamente tudo o que essa luz do  entardecer toca. 

E ali, quase esquecida em um canto, meio oculta por um tanto considerável de sonhos partidos, reluz um pequeno punhado de esperança, um tanto tímido demais para abrandar todo o desamparo dos dias, mas um tanto suficiente para me fazer receber a jovem noite com um sorriso no rosto.

7 de fev. de 2021

04/02/21


 O olhar que se perde no horizonte na verdade é a janela para o espírito que garimpa e lapida sentimentos passados e remotos, na vã tentativa de lhes dar algum brilho e propósito.

Há algo de saudade nisso, mas quando em completa solidão a memória se arrisca a andar por ruas distantes demais, tudo está envolvido em uma penumbra acinzentada e sem vida.
As portas estão abertas e uma presença forte persiste em todos os cômodos da frágil fortaleza onde repousei por breve trégua. Porém, o que impera pelos cantos é apenas o vazio.
Não há calor, não há luz.
Mas de todo aquele ano o que ainda tira um quase sorriso foi o abraço roubado, os pés centímetros acima do chão, o perfume. Um instante efêmero, mas que tinha a maciez do que poderia ter sido o amor.
Tudo tão real e sólido antes do vento insípido da noite tudo dissolver e carregar.
E já entardece... e não há tanta beleza no céu. Daqui vejo as torres e os prédios banhados em uma claridade melancólica e cansada, e imagino todas as pessoas e seus universos particulares, também lutando para entender e dar algum sentido e beleza aos dias que passam cada vez mais estranhos.
E não há muito a ser dito...
Mesmo que em mim também nada seja completamente extinto ou esquecido, é preciso aprender a dizer adeus.

01/02/21




Não há mais juventude suficiente para que as palavras sejam um socorro. 

Todos os velhos cadernos preenchidos com letras tortas de paixão e sonho repousam no fundo do armário em um silêncio perpétuo; orações nunca ouvidas, esquecidas em um altar abandonado.

Mas quando o medo não é grande o suficiente para as mãos esconderem a face em um ato de delicado desespero, algumas linhas brotam sem pretensão por entre as últimas horas mágicas do dia, e por um momento eu não preciso me culpar por não saber mais pelo que lutar.

E essas palavras são como pequenos pássaros de canto bonito que sobrevoam um pouco do mundo ao redor e me contam das belezas do céu. Assim, o peito se envolve de uma luz humilde e quase morna feito um lar... fragmentos de liberdade penetram no espírito.

Sei que já é outro fevereiro e tudo está ainda mais tremendamente esquisito do que antes, como diria a poetisa.
Sei que não haverá um galho partido no ipê a florir, os salgueiros não dançarão ao vento das tempestades sem seus galhos chorosos, uma estranha saudade insistirá por alguns longos instantes em mandar lembranças e todos parecerão estar muito distantes de mim, cruzando alguma linha de chegada enquanto eu ainda não consegui calçar os sapatos, como sempre. Ainda assim... uma canção bonita insiste em tocar ao fundo, sem cessar, pedindo que eu sorria novamente, quase como quando havia esperança.

30/01/21

 



A noite tem um resquício do perfume do suor de sonhos ancestrais; das horas rápidas, dos corpos quentes.
E fragmentos desses velhos tempos mergulham céu abaixo como suave garoa... memórias que chovem mansamente.
Aqui todas as coisas se encontram fora dos lugares que deveriam estar, e precisamos fingir que está tudo bem, enquanto quase nada está.
Antigos e novos fantasmas disputam a carne da delicada paz que resiste defendendo um coração ainda mais frágil;
Mas eu caminho em direção às pequenas luzes artificiais de cabeça erguida, ainda completamente preenchido de vida, acreditando por um instante que algo do menino de 17 sobrevive abaixo dos escombros de tantos dias cinzentos, cantando e dançando uma canção boba de amor.
E eu me peço perdão novamente e me perdoo novamente, porque é preciso acreditar que virão dias de cantar e dançar novamente mesmo que há muito tenha se passado os 17 e sua esperança.
São tempos estranhos em que até os ditos consoladores trazem uma mensagem de resignação adornada de desespero. Suas vozes me confundem e se perdem pelo vento que uiva por entre as árvores.
E eu não sei mais quem diz a verdade.
E eu não sei mais pelo que espero.
Então fecho os olhos e caminho sem ver a direção... mas continuo a caminhar, incessantemente, enquanto a canção me pede para cessar o pranto.

18/01/21

 



No último ou penúltimo amor foi preciso tirar a voz das palavras,
Pois que o vento já estava de ombros cansados de carregá-las para a distante e opaca atmosfera onde repousavam até evanescerem por completo.
No último ou no penúltimo ano houve mais medo que esperança, mais despedidas que encontros, tudo abrindo no peito uma ferida difícil de esconder.
Mas sempre há um mas...
E uma canção suave leva flores até os cabelos de uma lembrança que não sabe sorrir, mas que também já não faz tantas ameaças;
E meus pés quase flutuam por uma estrada que, mesmo sendo tão solitária, sempre me leva para casa;
E eu guardo as lágrimas para as orações, para os poentes, para as rosas deixadas na areia antes do mar as carregarem para o infinito azul.
Talvez isso que se mostra como poesia seja apenas a seiva da vida... Porque eu ainda me lembro do abraço forte em meio às árvores centenárias, e toda a força e toda a segurança, com o mundo apenas girando sem doer. 
E eu procuro o caminho ao velho sagrado jardim para mais vez curar com flores e frutos o espírito empobrecido de sonhos para assim deixá-lo reluzir, quem sabe, ainda mais uma vez. 


11/01/21

 



Pelas ruas tudo parece permanecer no mesmo lugar, no lugar certo, de alguma forma.
As pessoas parecem determinadas, firmes, com algum objetivo a alcançar na linha do horizonte.
E eu passo lentamente, com olhos turistas, pensando que a vida pode ser por um instante leve como a alma das crianças que brincam despreocupadas nos pequenos morros de terra na beira do pequeno bosque.
E também por um instante, tão breve, eu vejo o meu reflexo livre da dor que parece sempre residir nas rachaduras que vão se abrindo nas muralhas da fé, um pouco a cada dia, cada vez mais.
Ao menos não há pelo que esperar, nenhuma decepção nova e reluzente para aquecer o coração desta vez; ao menos, não há saudade.
Mas, de alguma forma, ainda há uma tentativa de perseguir a luz do sol por entre as sombras dos tempos...
E pelas frestas abertas no espírito pelo medo e pela dor, é por onde essa luz entra. 

30/12/20



A vida é esse paradoxo dançando livre pelo salão dos dias que passam como que indiferentes.
Em uma face, a beleza luminosa da força e da fé, em outra, a sombra tristonha da fragilidade.
E hoje descendo as ruas por entre as árvores e o sol que se punha ao lado da tempestade, eu pensava em mais uma vida que se foi... e trazia do fundo da minha memória o som daquela voz, a imagem daquele sorriso. E as últimas luzes solares douraram uma sutil e sincera lágrima. Uma lágrima que era também pelos outros quase 200 mil olhares que não verão hoje este poente, talvez...
São tempos em que até o mais ingênuo dos poetas teria receio em falar da esperança. Mas que falemos, que roguemos...
Que as palavras encontrem o caminho para se tornarem uma oração, e que o coração se sinta acariciado por um instante, certo de que, de alguma forma, mãos divinas não o deixarão novamente se partir. 
 

11 de dez. de 2020

11/12/10 - 11/12/20

 


Na noite de 11/12/2010 eu realizava um desejo muito especial que foi publicar meu primeiro livro de prosa poética. 

Sempre achei petulância dizer que fiz poesia, quando na verdade eu apenas senti a necessidade de colocar em palavras o que não cabia mais só na alma. Mas ao longo desses dez anos e de treze livros eu vi que o que eu fazia era sim também poesia, porque poesia deixou de ser um estilo literário e se tornou uma forma de sentir, se tornou um sentimento, se tornou um estado de espírito. 

Tenho a consciência de que a minha existência está entre as mais ordinárias das existências humanas, mas a palavra, o verso, o Belo, trouxeram muitas vezes a chuva para o agreste da alma, e a fizeram florescer. 

"Dez anos de poesia" encerra de forma singela, humana e feliz esse processo que se iniciou com "Em meu Jardim Secreto..." e o sentimento que persiste de tudo isso é a gratidão.

 

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."


Clarice Lispector


http://clubedeautores.com.br/livro/dez-anos-de-poesia

28 de set. de 2020

LANÇAMENTO - "DEZ ANOS DE POESIA"

 


Eu disse em um post anterior que eu gostaria de publicar "Dez anos de poesia" em um dia especial para mim. Então eu decidi adiantar o lançamento online do livro, porque hoje é um dia especial, sem dúvida. Porque durante semanas difíceis, e especialmente no dia de hoje, eu percebi como tenho pessoais incríveis, inigualáveis, ao meu redor, e como, mais uma vez, o amor delas me salvou. 

A poesia, em seu sentido mais amplo e mais nobre, é isso. Muito mais do que as palavras ou os versos, a poesia é o que há de Belo no sentimento humano. E hoje eu encerro esse dia com o espírito repleto de gratidão por ser digno de receber sentimentos tão nobres.

"Dez anos de poesia" nasceu... está entre nós. Um trabalho simples, amador, mas repleto do que de mais precioso eu consegui enxergar nessa vida.

Que a poesia resista e traga um pouco de luz a tempos tão obscuros e difíceis;

Que o Amor, o Verdadeiro Amor, também resista, e continue a nos salvar.


Para adquirir, acesse: clubedeautores.com.br/livro/dez-anos-de-poesia

24 de set. de 2020

"Dez anos de poesia"

 


Foram 137 horas diante do computador editando, escrevendo, reescrevendo, sentindo, vivendo e relembrando. Foram cerca de 3 meses desde que decidi, em comemoração aos 10 anos do meu primeiro lançamento, elaborar uma coletânea de escritos, depurando tudo o que escrevi até hoje e resultando em "Dez anos de poesia". 
Hoje este trabalho está finalizado.
Eu não sou escritor, eu não sou poeta, e não digo isso por falsa humildade. Sou apenas alguém que sente, que absorve, talvez até demais, muitas coisas. A palavra, ou o que eu tenho a presunção de chamar de poesia, é o meu socorro, a minha salvação para lidar com o mundo que existe dentro e ao redor de mim. 
Talvez seja arrogância minha achar que a alguém possa interessar visões e percepções que podem ser tão íntimas, mas eu acredito que de alguma forma nossos sentimentos estão todos conectados, e a palavra, a prosa, o verso, muitas vezes podem acessar essa conexão e criar algo bonito. 
É esse meu objetivo com "Dez anos de poesia": criar algo bonito. Mesmo que algo muito simples, muito amador. Mas algo bonito. Porque como disse Adélia Prado: "O Belo não é um luxo, é uma necessidade humana".
Eu trabalhei nesse livro com absolutamente o máximo da minha alma, com uma vontade e um amor que talvez eu nunca tenha acessado antes. Enquanto o mundo vive uma pandemia, enquanto o amor chegava e partia, eu mergulhei o mais profundamente possível nas palavras para tentar buscar o que de melhor eu tenha a oferecer.
Nesse processo eu tive o estímulo de pessoas incríveis. Cada vez que sentido de tudo parecia se perder, alguém dizia algo ou emitia algum sinal me motivando a continuar. 
E por ter continuado eu anuncio que em 12 de outubro o livro estará disponível no site do Clube de Autores. Como é um trabalho tão importante para mim, quero que seja lançado em um dia sagrado também.
Desde já deixo meu imenso agradecimento aos meus amigos que puderem adquirir o livro, e aos que não puderem, meu imenso agradecimento também por todo apoio!


4 de jul. de 2020

Dez anos de poesia





A Poesia é atemporal, mas dez anos se passaram desde o início do meu humilde e amador mergulho por suas águas belas e profundas, e além de um motivo de alegria para mim, foi esse o principal estímulo para este livro.
Para ser exato, são dez anos passados desde o lançamento do meu primeiro livro de prosa poética “Em meu Jardim Secreto...”, mas a poesia sempre me acompanhou e sempre irá acompanhar, porque ela está muito além das palavras, dos versos, das prosas.
A Poesia está onde está o Belo, onde está o Sentimento, onde está a Emoção. Está no transbordar da alma! E nos dez anos subsequentes ao lançamento do primeiro livro, não foi ela a ser meu instrumento para materializar tudo isso, eu é que fui o dela. Um instrumento tão simples, rústico, desafinado, muito ciente das próprias limitações, mas que ela tenta com tanto amor tocar e tirar alguma beleza.

Dez anos de poesia nasce da gratidão pelo relacionamento tão gentil e duradouro que nós temos.
Aqui eu trago uma antologia dos meus escritos prediletos ao longo dessa década. Nesse período escrevi doze livros com poemas e prosas poéticas. Doze livros que são como diários de bordo pelos tantos mares de sentimentos que cruzei. Alguns calmos, azulados, repletos de brilho e vida; e outros densos, ameaçadores, com tempestades no horizonte próximo.
Então, o que considero essencial nos meus trabalhos anteriores está condensado e reeditado aqui, juntamente de escritos inéditos.
A minha pequena ambição com a escrita sempre foi criar algum tipo de conexão com quem lê, apenas isso. Mostrar que os sentimentos que habitam em mim também habitam no outro, mesmo que sejam traduzidos por formas e por palavras diferentes. Mostrar que de algum jeito estamos todos conectados, porque somos todos frutos da mesma essência. E embora não nos comovamos com as mesmas coisas, temos os mesmos sentidos para absorver aquilo que o mundo nos oferece.
Meu convite é que a partir de agora naveguemos juntos por essas águas, então.
Que façamos boa viagem!

20 de jun. de 2020

21/06


O primeiro e o último ❤
.
Foram 12 livros, centenas de páginas, milhares de versos, inúmeros sentimentos. Como uma grande e íntima amiga, a poesia sempre esteve ali. Às vezes em palavras, às vezes em silêncios e contemplações. E não há como saber se  a escrita é um resultado que parte de mim ou se eu sou um resultado da escrita. Nos fundimos; ambos tão amadores, tão imperfeitos, mas de coração sempre quente, mesmo quando sem suas chamas, mesmo quando resumido a pequenas brasas. 
E foi ela, a poesia, a me dar a mão, na chegada e na despedida do amor; foi ela a dar motivos de esboçar algum sorriso quando as luzes todas pareciam ter se apagado. E ela resiste nesses dias confusos e envoltos numa penumbra que nos assusta, como persiste na memória, como um arbusto se entranhando e florescendo pelos vãos de saudade de dias mais leves e ensolarados. 
Eu sei que ela ainda vive porque eu ainda vivo.
Já ninguém nos busca, ninguém nos encontra, mas nós nos bastamos, e seguimos semeando... dias após dia, páginas após página, sonho após sonho.

15/06


Todas as ruas se parecem com ruas de dias de domingo, mas sem as crianças correndo nos parques, sem os idosos pelas calçadas com seu aspecto doce e contemplativo, sem os fiéis reunidos em seus louvores e exaltações.
Alguns dizem ser tempos sombrios, enquanto outros dizem que momentos severos assim abrem frestas nos espíritos endurecidos, e que é só assim que a luz entra. Eu não sei quem está com a razão, eu já nem ao menos sei se a razão ainda nos acompanha.
Sei que o mundo não é mais o mesmo. Sei que somos extremamente humanos, com tudo de belo e tudo de miserável que tal fato nos concede.
Sei que nossas vidas não são números.
E a cidade naufragada em silêncio, em distância e em isolamento, me faz sentir saudade do som daqueles velhos versos, como vidros quebrados em uma caixa; versos tolos, ingênuos, em resposta a amores frágeis e sonhos tão delicados.
Então a poesia se achega, repousa no meu colo... Não há muito a ser dito, e eu já não contenho o pranto. Também tenho medo, também tenho frio. Mas o pranto é em oração pela Esperança que ainda não debandou dessas terras, nem desse peito. A Esperança, o pequeno dom que restara no fundo dessa Caixa de Pandora.
Agora que temos os lábios escondidos, aprendemos então a sorrir com os olhos; agora que não podemos contemplar a beleza de novos campos, aprendemos a semear e a esperar...
E eu enfim entendo a cidade como entendo meu coração, essas ruas e caminhos abandonados, por onde já não se deve mais caminhar...
Pequenos e grandes vazios, lá fora, aqui dentro.
O que virá depois se houver depois?
Abrir, talvez, essas comportas.
Dar vazão.
Deixar livre toda essa beleza contida.
Voltar para os Jardins do fundo da alma, cuidar, ressemear.
A claridade cinematográfica da tarde ronda os pensamentos junto de uma brisa de perfume delicado.
Uma canção ajuda a criar lembranças de coisas que nunca aconteceram.
  • É o coração que se recusa a parar de bater...

10/06





Parece cada vez mais distante um mundo de sabores mais intensos e cores mais vibrantes. Quando é que poderemos voltar a sonhar com algo além da sobrevivência? 
Parece ingratidão achar que não basta o céu azul lá acima, com suas nuvens delicadas se movendo na brisa suave; parece egoísmo querer mais que o perfume adocicado e gentil das flores tantas, que silenciosamente aguardam a noite de inverno. 
Hoje o homem me disse: "O mundo precisa de mais pessoas como você." Sem saber que assim como por ele, tão pouco faço pelo mundo. 
E já tantas palavras gastas falando de uma preciosidade escondida por montanhas de constrangimento e vergonha, mas e se ao vencer o medo, chegar ao âmago e nada encontrar? Ou menos que isso, encontrar o que se finge não ser?
É impossível não pensar, logo é impossível não sentir, logo é impossível não sofrer. 
Mas algumas cores resistem luzindo, uma canção fala de velho desejo tão puro, que mesmo sucumbindo como todos os demais, esteve ali enquanto conseguiu se alimentar de migalhas de uma ilusão preciosa. 
O sol já se deita dourando as copas floridas das árvores no pequeno jardim. 
E eu penso que deve haver um espaço neutro entre a tristeza e a felicidade, entre o medo e a paz, entre o amor e a indiferença; uma terra sem rei, sem lei. Onde por alguns instantes se deita e se o observa o rolar das nuvens do céu antes da próxima batalha, da próxima ânsia, da próxima súplica.

31 de mai. de 2020

31/05/2020



Eu queria acreditar que existia algo concreto, sólido e bom por trás de uma fantasia, uma casca, frágil e suja. Eu queria acreditar porque precisa haver algo a mais. Algo que dure, algo que resista.
E que as palavras são pequenas faíscas clareando a escuridão onde esse algo se esconde, como crianças abobadas brincando com a chama de uma vela.
Mas há essa voz doce e sóbria dizendo que talvez seja tarde demais. E ela não é cruel, pois não mente.
Eu continuo insistindo em distinguir alguma coisa com essa parca claridade, mas não faz sentido essa paixão pela ilusão de que existe algo vindo em minha direção. Tudo permanece o mesmo. E o que vejo se movimentar são escombros se diluindo lentamente no tempo. Quando nem eles restarem, eu ainda restarei?
Por enquanto eu posso lembrar de quando a chuva acalmava as batalhas. Lavava o sangue dos campos, dissolvia o medo. Lembro da luz que nascia silenciosa em seguida, e do espírito sonhando livre, acima da carne maculada.
Mas hoje não chove.
Nessas noites tristes e frias as dúvidas voltam... e se aquelas mãos não tivessem me contaminado? E se o amor não tivesse me curado? Contudo, não há mais juventude para a absolvição dos pecados, para a misericórdia. Essa suave angústia é apenas mais um dos dez passos dados para trás após um único passo dado à frente. E estamos cansados.
As chamas se apagam e eu deixo de acompanhar o destino dos escombros. Ninguém nos levará para casa.
É melhor não despir totalmente o que resta da fantasia.

29 de mai. de 2020

30/05/2020



O que há para os poetas dizerem sobre tempos feitos de tempestades?
E se a lição não for aprendida, e se o passado berrar sem misericórdia, e se os pecados não forem absolvidos?
Joelhos assassinos continuam sufocando gargantas pretas,
Os vermes no controle se regozijam em uma orgia maquiavélica,
E ainda que as vozes se levantem, quem as ouve?
Quem as teme?
Se os anjos cantam, cantam de um céu distante demais...

Você ainda se lembra de quando a chuva não era tão fria e o silêncio não causava temor,
Havia uma pequena canção de adeus, pedindo que se arredasse todo mal.
E era belo, pacífico.
Eu tento segurar com força numa essência que talvez não seja mais tão doce e pura, mas que permanece honesta.
Aquele abrigo dos sonhos não será encontrado, ele não existe mais...
É passado seu tempo.
E mesmo que não pareça, talvez resistir seja um bom plano; o único plano.
Ainda que seja um resistir com menos pensar, com menos sentir.

24 de mai. de 2020

25/05/2020


O passar rastejante do tempo foi tirando o direto à dor, ao lamento.
Sem importar quão vivas fossem as memórias ou as saudades, tudo deveria repousar em um leito frio, onde a luz não chega.
O passar do tempo foi tomando o direito ao sentir.
Tantas novas batalhas a se perder no porvir, que mais nenhuma lágrima está disponível à longínqua grande derrota.
E todas essas palavras... batidas, gastas, surradas, cansadas. As palavras foram friamente e maquinalmente extirpadas dos meus dedos, dos meus lábios. Porque a poesia se viu farta de carregar sozinha por anos à fio um espírito alquebrado, um coração que não conhecerá a cura.
A jornada é esta noite fria que desliza sorrateiramente, movendo as peças de lugar, colocando suas vítimas em lugares perigosos, instigando-os a passos desconcertados e imprudentes.
É então que uma claridade débil cintila nos meus olhos, e eles lançam pra dentro da mente uma espécie de oração que confunde imagens e vocábulos, refletidos em si mesmos, ondulando como folhas secas no vento, confundindo futuro, passado e presente, tornando-os uma coisa só, e coisa alguma... uma perda, um vão, um caos calado.
E desperto, mas é dentro do mesmo sonho ruim, e minhas mãos nunca alcançam a luz, nunca alcançam. E a questão não é onde, mas quando estou. E é quando é dito o adeus, é quando a calmaria é farta de uma ironia que sussurra ameaças.
Então eu sei sem que os anjos me digam que meus pecados não são meus erros, meus danos, meus apelos; meu pecado é a covardia. A covardia de esticar os braços infantilmente em direção ao alvorecer que não se fará. Minha covardia de desviar o olhar da imutável engrenagem dos dias que a tudo, a tudo consome.

6 de mai. de 2020

06/05/2020




Onde antes ondulava um manso oceano esmeralda de palavras saturadas de amor e vida, jaz um leito seco e salgado. Entre as rachaduras, pequenas relíquias partidas de um passado já remoto tentam causar alguma comoção. Mas tudo é findo.
Sem rancor, saudade ou sonho, as palavras, como as águas, foram sendo drenadas pela realidade; prática, sintética, mecânica. Um interminável sol escaldante de silêncio profundo dissolveu e consumiu o que restara. Mas o que vem agora? Deixo de caminhar por uma trilha de memórias mortas e a luz adiante fere meus olhos... Um imenso vale de fatos, é que me aguarda. Exalam um cheio amargo de lucidez. O primeiro fato diz que o amor não virá, mas esse é um fato já reconhecido. O segundo fato aperta em suas mãos ásperas um resquício de poesia, com tristeza e afeto. Apenas observo e avanço; não sei se resta fé o bastante para que eu possa salvá-la. Um terceiro fato mantém o silêncio. E essa é sua mensagem.
Então a noite desce com delicadeza. As estrelas continuam no céu. O que virá depois do infinito?
E me pergunto se existe algum caminho que faça sentido... O mundo pode acabar amanhã e todo esse oceano de palavras que hoje faz tanta falta, não significará mais nada. Talvez o mundo já tenha acabado... e o significado já não exista, de fato.
Mas eu me levando, tiro o sal das roupas e escolho uma direção. Qualquer direção.
Eu não posso esquecer que passei por aqui. Que senti. Que amei. Que em tempos mais bonitos mais leves, eu mergulhei nas águas que aqui repousavam,  e que para onde quer que tenham ido todas as palavras, também foram as minhas partes perdidas, talvez.
Lentamente caminho para lá.
Lentamente.
Uma lua imensa no céu ilumina meus escombros...
Eu sigo.

25 de mar. de 2020

25/03/2020


A cidade naufragada em silêncio, em tanto silêncio, me faz sentir saudade do som daqueles versos, como vidros quebrados em uma caixa; os versos que um dia eu fiz a um você.
Novos versos são pedidos, não mais de amor ou de saudade, mas de esperança.
A esperança, nossa doce maldição.
Entendo a cidade como entendo meu coração, essas ruas e caminhos abandonados, por onde já não se deve mais caminhar.
O que virá depois se houver depois?
Abrir, talvez, essas comportas. Dar vazão. Deixar livre toda essa beleza contida.
Voltar para os Jardins do fundo da alma, cuidar, ressemear.
A claridade cinematográfica da tarde ronda os pensamentos junto de uma brisa de perfume delicado. Uma canção ajuda a criar lembranças de coisas que nunca aconteceram.
É o coração que se recusa a parar de bater...

23/03/2020


Todas as ruas já pareciam ruas de domingo.
Tantas portas fechadas e tão poucos olhares que se confundiam com a luz difusa e ocre do entardecer.
Distantes, isolados.
Mas mais do que nunca todos se pareciam meus irmãos.
No inusitado silêncio da minha mente e nos olhos que quase não continuam na borda as pequenas lágrimas, eu os envolvia e abraçava.
Apesar do medo, eu sei que a primavera não tarda.
E nessa dolorida pausa vemos os corações se revolvendo, as sementes delicadas, frágeis, caindo nesse solo fertilizado com medo, dúvida, mas também esperança.
A poesia acena, de longe, e eu sorrio. E ela se achega, sinaliza o fim da nossa despedida, da nossa quarentena. Talvez tenhamos muito a contar um ao outro... São tempos de intensas transformações. De vida, de morte. De temor, de êxtase.
Mas apenas sentamos lado a lado, semi abraçados, vendo a tarde adormecer, as ruas ficarem ainda mais desertas, as pequenas luzes do jardim acenderem. Ela repousa no meu colo... não há nada a ser dito, e eu já não contenho o pranto. Também tenho medo, também tenho frio. Mas o pranto é em oração pela esperança que ainda não debandou dessas terras, desse peito.
E já é tarde, estamos seguros. Faz silêncio entre o canto intermitente dos passados e o riso das crianças.
Vai ficar tudo bem.
Boa noite.

19 de nov. de 2019

Ponto final.


Sentirei tua falta.
Foram tantos anos envolto ao teu abraço, tua graça e claridade; mas te vejo fraca, relutante...
Em alguns momentos já me abandonaste por completo. Eu em vão te procurava e procurava, como um sedento por uma fonte límpida, mas recuavas, recuavas.
Cresci, não foi?
As paredes do coração foram se andurecendo, fortificando, encouraçando, e já quase nem tentas mais penetrar.
Foram anos áridos, minha querida.
Essa luta por manter essa paixão viva já me cansa. Como te querer se com ninguém consigo te compartilhar?
Fomos nos deixando aos pouquinhos, pelo que me parece.
Um dia percorri uma longa entrada em mais uma vã esperança, e o sol que se punha era apenas o sol que se punha... de cores pasteis, opacas. Ao retorno, as tantas árvores floridas em amarelo, como num delírio de Van Gogh, pareciam não ter estado ali antes... Eu sei que era um aceno teu, mas que logo me esqueci. Era preciso atenção ao caminho e à próxima inevitável despedida. Despedidas tantas...
Não digo que sentirei tua falta, poesia, como se perdesse a capacidade de te enxergar nas belezas da vida, mas verei em silêncio, porque tua voz soa fina e distante demais para que me sirva outra vez de algum socorro.
Passarei eu o resto desses dias falando de ti apenas a ti? Não vejo sentido...
Adormeça em todas as coisas sagradas e  acredite que meus olhos ainda te buscarão sempre apaixonados, como quando o mundo era mais leve, o jardim era jovem e eu sorria ao ver sacolinhas de doces penduradas na maçaneta pelo meu pai... era como ele conseguia dizer que me amava.
Tenho saudade do meu pai.
Tenho saudade de tudo.

17 de mai. de 2019

Invernal


Quando os primeiros ventos do inverno começavam a mover lentamente as nuvens baixas e um tristonho murmúrio ecoava pelas copas das velhas árvores, o coração, por uns instantes feliz e quase que envolto em abraço terno, precisou ser lembrado das razões de eu tê-lo revestido, há muitos invernos, de pesada e desconfortável armadura.
Os invernos mudam, mas sua sina é sempre tão semelhante.
Isso é bom. Isso é ruim.
Há nele fortes reminiscências dos sonhos primaveris de outrora, dos dias de aromas doces e acolhimento. Aquela tola e infantil espera esperançosa pelas manhãs de sol. Se o banho nas gélidas águas da realidade é para manter para sempre algo dessa sua beleza já tão surrada, ano após ano.
Essa dor quase poética me faz enxergar as cores vibrantes de todas as coisas, faz sentir com mais intensidade a luz acariciando a pele e me faz planar pelo silêncio absoluto e pacífico de uma tarde inexplicavelmente bela.
Assim nasce delicadamente alguma cura para a alma que sofre ao ver suas mais ricas sementes perderem o dom da vida por repousarem em solo ainda coberto por densas cinzas de um glorioso passado do qual só fuligem insepultas restam.
Um dia há de haver algum solo morno e pronto para germinar, então os inícios de inverno darão lugar à abundante poesia e vida de uma verdadeira Primavera.
Pois que o coração, se ainda dói, é porque bate.

Anunciação


Percebi que era certo que o coração tentava romper a caixa de concreto que o protegia e aprisionava quando, instintivamente, os olhos encontraram os ínfimos primeiros sinais da floração do imenso e velho ipê.
A busca pelo Belo, pelo desejo de florescer, é a anunciação da primavera tentando desabrochar no peito.
Ah se não fosse a indomável lucidez a segurar as rédeas... eu me permitiria até sentir esperança.
As flores do ipê desabrocharão, a expectativa se diluirá no silêncio dos dias, o amor, outra vez, não deitará em solo que o germine; mas por hora o peito pulsa, as paredes frias e escuras desabam e o coração, que é sim imenso, admira o sol poente. Uma pequena e bem-vinda trégua antes das engrenagens começarem novamente a funcionar e tudo perder sua magia para a mecânica insaciável dos dias.

Santificado


É assim com todo mundo...
Lamentamos o amor que se foi fechando lentamente as cortinas para o amor que quer se aproximar. Sabemos todas as respostas, todas a razões, mas a dúvida traz consigo um calor esperançoso, e é tão mais sedutora que a certeza, que tenta entrar como a luz do sol pelas frestas de lucidez.
Faz um dia lindo lá fora e isso pode ser considerado um sinal de que as coisas estão resistindo. As flores desabrochando, os gatos preguiçosos ronronando quase derretidos nos muros, ouvindo os pássaros, os insetos polinizando as flores que se tornarão sementes e serão novas vidas.
Tudo continua girando, insistindo, cumprindo sua sagrada sina.
Eu queria que naqueles dias cinzas de um velho agosto alguém houvesse me dito que tudo se curaria. Que passado o torpor imposto pela paixão, o coração luziria novamente; uma luz única e abençoada que continuaria a brilhar mesmo depois dos piores dias que viriam.
Eu queria de novo me lembrar de como se iniciavam os versos de amor, e com eles descrever a luz da tarde, o colorido das flores, os desejos do meu coração.
Mas bastam talvez essas humildes palavras um tanto desnorteadas... para dizer que a essência ainda se encontra protegida no frasco santificado da alma.
Jamais irá se perder.

30 de abr. de 2019

Ainda vive



Ainda estava tudo em um santo repouso no fundo de uma alma envolta em penumbras. 
Mesmo o que havia morrido, em partes, ainda vivia. 
Eu sentia enquanto desconhecidas canções tentavam resgatar algum resquício do meu amor pela esperança. 
Era uma tarde de domingo qualquer. Sem memórias, sem expectativas, apenas com o sol deitando suas luzes pelas frestas dos muros e dourando algumas flores simples do jardim. 
Ainda assim era tanto, tão raro, tão precioso. Era vivo.
E os olhos quase jorravam, como naqueles dias espetaculares que eu tirava para perdoar a mim mesmo, para enxergar a minha própria claridade. 
Me escondi das palavras porque tudo o que procurou fazer morada em meu coração foi a aridez bruta desses tempos insanos. Como poderia ser diferente?
Mas há de haver uma trégua, um momento onde o olhar pode se dirigir para o céu em que a primavera lança suas primeiras flores. 
Sejamos nós, talvez, pequenos oásis nesse imenso deserto de corações letárgicos, quase mortos. Sejamos nós a brisa, o perfume sutil. 
Sejamos nós os que, de alguma forma, ainda acreditam.

21 de abr. de 2019

Ser


Na maior parte do tempo, mesmo com todo o ranger enlouquecedor das engrenagens da vida, o que estava à tona era uma silenciosa espécie de não-ser. Uma incógnita, uma ansiedade, uma espera conscientemente inútil pontilhada por cacos nocivos de uma saudade morta-viva, indecomposta.
O mundo se tornara vulgarmente árido e óbvio. E contrário disso, a vida em exuberância, claridade e mistério, abria uma janela memorial para um passado que jamais deve ser tocado ou sentido, ainda que pulse.
Eu queria que restasse nos cantos da alma aquelas pequenas preciosidades bobas que eu oferecia tão carinhosamente... Quando, mesmo com toda a densidade e escuridão já tão profundamente conhecidas, vividas, sentidas, havia um riacho de docilidade que jorrava pelo sertão amargo dos dias.
Talvez se eu conseguisse me ver com os olhos que você fingia me ver antes de para sempre partir, eu entenderia algo mais perene sobre o verdadeiro amor.
Eu não gostaria de viver satisfeito apenas por ter tempo suficiente para tomar fôlego para o próximo susto. Acredito que você também não.
Eu estou com o papel em branco em mão, e mesmo com as forças que seguram e endurecem meus dedos, talvez eu ainda possa reescrever um final ou dois, um caminho que traga novamente aquele fogo ao olhar. Quais palavras ainda não foram por mim ditas, que suplicas não foram lançadas ao universo, o que ainda não foi exposto do coração, mesmo para seres estranhos, incapazes, frios? Parece mais difícil agora descobrir.
Eu sempre irei voltar para esse vórtice de gratidão, confusão, medo e ódio por ter sido um dia abençoado com a maldição do seu amor...
Mas mesmo nessa penumbra dos dias, mesmo nessa ausência aparente de claridades e belezas e sonhos recém-nascidos, o que existira do verdadeiro Eu ainda existe na mesma proporção, ainda que encarnado em uma forma completamente diferente.