Esse tempo que passa agora de uma forma tão estranha não se faz mais necessário para tornar algo sagrado.
Esse tempo que passa agora de uma forma tão estranha não se faz mais necessário para tornar algo sagrado.
Resta um ruído de esperança vindo das estrelas ecoando pelo caminho onde a escuridão impera.
E já há algum tempo não é mais possível ver onde se pisa, não é possível saber se o solo é firme e seguro o bastante.
O incomum vento frio num domingo de carnaval com avenidas vazias parece trazer do passado recente o perfume contido de poesias que não puderam florescer dada a aridez da realidade.
E enquanto eu mais uma vez vago por caminhos em que tanto já deixei meus sorrisos e minha lágrimas, eu penso na possibilidade de não pedir mais para vencer qualquer sentimento que queira se apossar do meu coração.
Porque este mesmo coração que traz à tona sentimentos que não têm mais raízes, tornando-o ridículo a qualquer olhar mais lúcido, é o que me faz levantar a cabeça para o céu onde o sol começa a dourar as nuvens, precedendo a promessa de uma noite menos escura que as anteriores até aqui.
E aqui, sobre uma velha ponte observando os carros que passam apressados, eu me lembro de quando pedi que fossem levados de mim o medo e a vergonha, mas talvez sem todas as minhas partes eu não entenderia e sentiria tão puramente as canções que falam sobre o exílio e sobre a cura.
É possivel que você doa de alguma forma para sempre, junto de todas as outras coisas que também foram perdidas ou libertadas e também doerão para sempre, mas volto a dizer que pelo menos por agora é uma dor que tem quase alguma beleza...
Já deita a noite à frente dos meus passos e as luzes da cidade parecem chamar delicadamente por meu nome, e eu nunca deixo de responder,
Embora às vezes eu não saiba quais últimas palavras dizer,
Embora, definitivamente, eu nunca saiba quais últimas palavras dizer.
E eu precisava dizer, pôr à tona.
Ainda que ninguém ouvisse, ainda que ninguém houvesse, ainda que a ninguém fizesse sentido.
Porque a noite com seus aromas estranhos e relâmpagos no horizonte distante penetra pelos poros, por todos eles, e eu a absorvo como uma memória de eras ancestrais enquanto vago pelas mesmas ruas que me parecem tão outras agora que banhadas em tanta escuridão.
E logo sinto ser eu a figura fantasmagórica que se esgueira pelas calçadas e trilhas, silencioso e esguio, sem ser notado, como em um sonho onde estou no tempo errado, mas ao contrário da realidade, de alguma forma, não estou profundamente sozinho.
E essa sinestesia entorpece, mas não fere. Por um instante nem mesmo a saudade e o sonho que me arranham a pele e me transpassam a carne todos os santos e profanos dias têm tanto poder.
Em alguns anos os arrependimentos serão o tempero das lembranças e esses tempos loucos talvez façam falta... talvez.
Porque ainda há tanta beleza oculta lá fora;
Porque ainda há tanta vida guardada aqui dentro.
Embora tudo, não deixou de haver nas manhãs de fevereiro um azul pacífico no céu.
Talvez não faça muito sentido, mas o sol incidindo e fazendo brilhar as folhas das palmeiras que dançam no vento me faz pensar em um recomeço.
Não que se anunciem dias mais brandos; os rostos cobertos, os gestos temerosos, as distâncias, não nos permitem esquecer por mais do que instantes da aspereza e da fragilidade da vida. E a mente ainda se parece com uma sala empoeirada, abarrotada de móveis velhos e desalinhados... e dói, e cansa, e dá medo o peso dos dias.
Mas se achegam palavras doces de uma alma gentil, algo como um agradecimento pelo que fui capaz de sentir, de dizer, de florir. E com isso os olhos merejam por um segundo; os olhos se tornam as janelas da sala escura e sombria, e se abrem para a luz suave do dia.
O peito se aquece.
Em minhas mãos são entregues papéis coloridos, cheios de sonhos rabiscados, cheios de sentimentos coloridos, cheios de vida e juventude, e eu descubro que recomeços podem ser singelos, delicados, silenciosos.
E abro ainda mais os olhos, as janelas, e deixo a claridade acolher os cantos da suja sala escura. Observo suas relíquias, seus cacos, os tantos objetos espalhados pelo amor, pelo descaso, e amo profundamente tudo o que essa luz do entardecer toca.
E ali, quase esquecida em um canto, meio oculta por um tanto considerável de sonhos partidos, reluz um pequeno punhado de esperança, um tanto tímido demais para abrandar todo o desamparo dos dias, mas um tanto suficiente para me fazer receber a jovem noite com um sorriso no rosto.
O olhar que se perde no horizonte na verdade é a janela para o espírito que garimpa e lapida sentimentos passados e remotos, na vã tentativa de lhes dar algum brilho e propósito.
Há algo de saudade nisso, mas quando em completa solidão a memória se arrisca a andar por ruas distantes demais, tudo está envolvido em uma penumbra acinzentada e sem vida.Não há mais juventude suficiente para que as palavras sejam um socorro.
Todos os velhos cadernos preenchidos com letras tortas de paixão e sonho repousam no fundo do armário em um silêncio perpétuo; orações nunca ouvidas, esquecidas em um altar abandonado.
Mas quando o medo não é grande o suficiente para as mãos esconderem a face em um ato de delicado desespero, algumas linhas brotam sem pretensão por entre as últimas horas mágicas do dia, e por um momento eu não preciso me culpar por não saber mais pelo que lutar.
E essas palavras são como pequenos pássaros de canto bonito que sobrevoam um pouco do mundo ao redor e me contam das belezas do céu. Assim, o peito se envolve de uma luz humilde e quase morna feito um lar... fragmentos de liberdade penetram no espírito.
Sei que já é outro fevereiro e tudo está ainda mais tremendamente esquisito do que antes, como diria a poetisa.
Na noite de 11/12/2010 eu realizava um desejo muito especial que foi publicar meu primeiro livro de prosa poética.
Sempre achei petulância dizer que fiz poesia, quando na verdade eu apenas senti a necessidade de colocar em palavras o que não cabia mais só na alma. Mas ao longo desses dez anos e de treze livros eu vi que o que eu fazia era sim também poesia, porque poesia deixou de ser um estilo literário e se tornou uma forma de sentir, se tornou um sentimento, se tornou um estado de espírito.
Tenho a consciência de que a minha existência está entre as mais ordinárias das existências humanas, mas a palavra, o verso, o Belo, trouxeram muitas vezes a chuva para o agreste da alma, e a fizeram florescer.
"Dez anos de poesia" encerra de forma singela, humana e feliz esse processo que se iniciou com "Em meu Jardim Secreto..." e o sentimento que persiste de tudo isso é a gratidão.
"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."
Clarice Lispector
http://clubedeautores.com.br/livro/dez-anos-de-poesia
Eu disse em um post anterior que eu gostaria de publicar "Dez anos de poesia" em um dia especial para mim. Então eu decidi adiantar o lançamento online do livro, porque hoje é um dia especial, sem dúvida. Porque durante semanas difíceis, e especialmente no dia de hoje, eu percebi como tenho pessoais incríveis, inigualáveis, ao meu redor, e como, mais uma vez, o amor delas me salvou.
A poesia, em seu sentido mais amplo e mais nobre, é isso. Muito mais do que as palavras ou os versos, a poesia é o que há de Belo no sentimento humano. E hoje eu encerro esse dia com o espírito repleto de gratidão por ser digno de receber sentimentos tão nobres.
"Dez anos de poesia" nasceu... está entre nós. Um trabalho simples, amador, mas repleto do que de mais precioso eu consegui enxergar nessa vida.
Que a poesia resista e traga um pouco de luz a tempos tão obscuros e difíceis;
Que o Amor, o Verdadeiro Amor, também resista, e continue a nos salvar.
Para adquirir, acesse: clubedeautores.com.br/livro/dez-anos-de-poesia
Foram 137 horas diante do computador editando, escrevendo, reescrevendo, sentindo, vivendo e relembrando. Foram cerca de 3 meses desde que decidi, em comemoração aos 10 anos do meu primeiro lançamento, elaborar uma coletânea de escritos, depurando tudo o que escrevi até hoje e resultando em "Dez anos de poesia".Hoje este trabalho está finalizado.Eu não sou escritor, eu não sou poeta, e não digo isso por falsa humildade. Sou apenas alguém que sente, que absorve, talvez até demais, muitas coisas. A palavra, ou o que eu tenho a presunção de chamar de poesia, é o meu socorro, a minha salvação para lidar com o mundo que existe dentro e ao redor de mim.Talvez seja arrogância minha achar que a alguém possa interessar visões e percepções que podem ser tão íntimas, mas eu acredito que de alguma forma nossos sentimentos estão todos conectados, e a palavra, a prosa, o verso, muitas vezes podem acessar essa conexão e criar algo bonito.É esse meu objetivo com "Dez anos de poesia": criar algo bonito. Mesmo que algo muito simples, muito amador. Mas algo bonito. Porque como disse Adélia Prado: "O Belo não é um luxo, é uma necessidade humana".Eu trabalhei nesse livro com absolutamente o máximo da minha alma, com uma vontade e um amor que talvez eu nunca tenha acessado antes. Enquanto o mundo vive uma pandemia, enquanto o amor chegava e partia, eu mergulhei o mais profundamente possível nas palavras para tentar buscar o que de melhor eu tenha a oferecer.Nesse processo eu tive o estímulo de pessoas incríveis. Cada vez que sentido de tudo parecia se perder, alguém dizia algo ou emitia algum sinal me motivando a continuar.E por ter continuado eu anuncio que em 12 de outubro o livro estará disponível no site do Clube de Autores. Como é um trabalho tão importante para mim, quero que seja lançado em um dia sagrado também.Desde já deixo meu imenso agradecimento aos meus amigos que puderem adquirir o livro, e aos que não puderem, meu imenso agradecimento também por todo apoio!