6 de out. de 2016

Scroll down



Scroll down.
Quais são as últimas?
O país está um caos.
Pobres putas, nunca teriam filhos assim!
São ciclos, carmas, chacras desalinhados, transição planetária.
A dona Joana ainda faz benzimento?
Deus queira que sim!
Descer todo santo empurra.
Já subir? Nenhum cristão à vista!

Scroll down.
Esta foto pode postar! Esta sim!
Pareço mais jovem, mais feliz, mais vivo.
Pensando bem, não posta, não. Nem parece eu!
Vá descendo...
Quanta coisa bonita, né?
Ninguém se importa com sua viagem para Paris, viu?
Fazer inveja é tão retrô...
Alguém avisa?

Sroll down.
Ai, que chic!
Metade do país agora é gringo!
Oh, thank you, Sir!
Yes! Of couse!
This is all yours, you can take it all!
More champagne?
Education, security, health? Hahahahaha
Oh! Don't you worry! This is Brazil.

Scroll down.
Outro match! Agora vai!
Não... não vai.
O feio quer o bonito
Que quer o lindo
Que quer o maravilhoso
Que não quer ninguém: está acima de tudo.
Estava certo aquele que disse isso.
Por onde ele anda?

Scroll down.
Absorva informação, mais, mais...
Como o ar podre da sua grande cidade vil.
Não seja um imbecil, não seja massa de manobra,
Se informe, porra!
Depois engula o que puder de Rivotril
Esqueça que a realidade é uma bêbada de casamento,
Louca e inconveniente, estragando a festa finíssima,
E tente dormir se for capaz. Bons sonhos.

Scroll down.
Setembro amarelo.
Outubro rosa.
Novembro azul.
Vamos amenizar desgraças, vender souvenirs,
Gastar nosso tato teatral fingindo imensa humanidade,
Enquanto olhamos pra baixo na mesa do bar,
Ignorando o mendigo que nem iria de fato se aproximar.
Somos patéticos. Mais uma dose, é sexta, nós merecemos!

Scroll down.
Continue descendo, ainda não é o fim.
Ou já passamos do fim faz tempo?
Isso aqui é o limbo, isso aqui fede!
Mas mantemos a civilização, a fina estipe.
Nada de barracos!
Facadas, só pelas costas, por favor! Bons modos!
É, meu amigo, toda essa ganância e fingimento...
Somos gafanhotos famintos. Atrás de nós, só desolação.

Ao vento


Tanto quanto sinto, resiste. 
Este inverso eternamente apaixonado
Por uma primavera meiga, doce, 
De perfumes brandos e cores tamanhas...
Bem como a alma:
Esperança e desespero em uma dança infinita. 
Sem mais perdedores, sem vencedores, 
Viajores confusos, 
Aves sem ninho, 
Clementes por colo, aconchego, palavra.
Mas apenas vem o vento,
Os salgueiros dançam, 
Os poetas ficam em seus êxtases...
Memórias, sonhos, medos.
Ameaçando um último verso
Que é sempre o penúltimo
Porque a vida não deixa sentimentos intactos
Ela salva e condena
Ama e odeia.
Suga nosso tutano
E nos brinda com o elixir da vida eterna.
O coração ainda bate, 
Sujo, cansado, 
Mas tão belo.

5 de out. de 2016

Culpado pela resignação


Retomo o andar pelas ruas sujas e vazias
Com o vento frio de um inverno que nunca termina
Agredindo meu rosto em silêncio
Enquanto vejo com olhos embaçados
As luzes amarelas dos postes altos
Que não abrigam mais casais de namorados.

Retomo o pranto diante da consciência
Da minha absoluta solidão
E sorrio por ao menos a ausência
Ser plenamente verdadeira.

Ouço aquela cansada canção,
Vinda de uma remota época
Em que eu considerava minha alma mais pura,
Ainda que ela nunca tenha sido,
Ainda que desde cedo
Seus sentidos tenham se aberto ao pecado.

Me despeço da esperança, da luz, com resignação.
Minha voz não atormentará mais nenhum ouvido celestial.
Que os anjos repousem pacíficos,
Ignorantes da minhas inúteis obsessões.

4 de out. de 2016

Siga


O que dizem os fantasmas
Em resposta às tuas amáveis palavras
Adornadas de um delicado desespero
E de uma farta quantidade de nostalgia?

Nada, não é óbvio?
Depois de arremessar com força tua esperança
Rumo à profundidade indizível da noite
Ainda espera algum sinal, algum lume?

Como é feio este teu esforço em sentir dor.
Como são feias estas tuas rotas roupas de luto
Por sentimentos há tanto sepultados.
Nada do que foi será outra vez, jamais.

Poe em riste este peito,
E como todos os demais imbecis, siga.
Siga a encenação sem murmúrios.
Em nada além da tua memória o sonho e a glória.


3 de out. de 2016

Página em branco


Versos e tantos versos.
Vazão incontrolável de sentimentos,
Súplicas, louvores, memórias.
Quem ouve a voz ecoando pelas fendas do tempo?

Segue o contador de histórias.
Caminha pela terra pálida;
Quem tecerá o destino?
Quais dores, quais amores?

A poesia acena de longe,
Meiga e encantadora,
Frágil como a luz rubra do poente.
Eu sorrio de volta.

Ninguém mais se aproxima,
Mas as canções ainda encantam.
A magia de todas as coisas permanece,
Mas todas as coisas se foram.

25 de set. de 2016

Lapso


Outro fraco lampejo de esperança
A repousar no encantador relicário em ruínas
Que já foi um coração de força invejável.

Vê?
Ainda insistimos,
Como se não soubéssemos da verdade.

Ávidos ao degustar a oportunidade,
Famintos por sabores que não existem mais.
Que nunca existiram.

De tanto, de tão bela e profunda ironia,
Guardo um reles instante,
Minutos velozes.

Um lapso de dormência da realidade,
Em que fechei os olhos, tive o peito envolvido de calor,
Antes do despertar frio. Mais uma vez.

19 de set. de 2016

A poesia é eterna


Nunca fui ou tive a pretensão de ser escritor. E ainda que desejasse muito, certamente me faltaria o dom para tanto. O que sei é sentir. Disso nasceram lampejos poéticos, sendo generoso comigo mesmo; e quanto mais senti, mais necessidade de expressão eu tive. Por quê? Eu nunca soube. 
Sempre fui consciente de que o que eu dissesse não alteraria a realidade das coisas, e talvez não fosse mesmo esta a intenção. Talvez tudo tenha sido uma forma de protesto. Uma forma de provar meu contentamento e descontentamento, ainda que a ninguém isso fosse relevante. Uma forma de descrever o sabor da vida e suas nuances.
Qual a importância que isso teria para o mundo? Nenhuma, provavelmente.
Ainda assim insisti, palavra após palavra, verso após verso, documentando os raros momentos intensos de uma vida ordinária.
Com isso, cheguei ao meu décimo livro de poemas: “Penumbra”. De certa forma, o capítulo final de um processo iniciado em 2010 com “Em meu Jardim Secreto...”. Uma longa viagem através de sensações, observações e sentimentos.
A lição que este processo deixa é: não existe vida sem poesia.
Conheci o amor e seu desespero, o encanto e a desilusão, a esperança e a incredulidade; mas quando eu olhava os galhos do salgueiro dançando na brisa, todas as vozes silenciavam, e o Belo de todas as coisas voltava ao meu coração, como uma chama que nunca se extingue...
Tudo pode ser fugaz e inconstante, menos a poesia.
A poesia é eterna.

https://www.clubedeautores.com.br/books/search?utf8=✓&where=books&what=Marcos+Serafim&sort&topic_id

29 de ago. de 2016

LANÇAMENTO: Penumbra



"Penumbra" é o livro onde mais consegui libertar meu coração. 
Sem claridades que cegam, sem escuridões que tudo escondem.
É um sutil ponto de equilíbrio e sobriedade, onde cada sentimento, mesmo e principalmente os mais simples, são tratados com importância e delicadeza.
Estando distante do amor e do ódio, o que se encontrou foi a convergência de uma infinidade de outras sensações que até então eram reprimidas por essas duas forças. Chamaria de paz, por falta de melhor designação, mas não uma paz resignada, que tudo sofre e aceita, mas a paz de enfim enxergar nitidamente.
Em uma visão simbólica e otimista, a alma é criada na escuridão e caminha em direção à luz; o que estas páginas retratam é a fase atravessada entre estes dois pontos.

Disponível em: https://www.clubedeautores.com.br/book/216686--Penumbra





“Penumbra: fotografia” nasceu do processo de criação do meu décimo livro de poemas “Penumbra”. 
A música, o teatro, o cinema, a imagem; toda e qualquer manifestação artística, sempre me atingiu intensamente e serviu de inspiração, não só para minha escrita, mas para minha vida.
Longe de querer soar pretensioso, mas parafraseando Simone de Beauvoir, sempre senti a necessidade de transmitir o sabor da minha vida. Talvez não diretamente e principalmente aos outros, mas a mim mesmo. Um desejo forte de tornar “palpáveis” as sensações e sentimentos que absorvo.
Fiz meu melhor para expressar isso em meus trabalhos. 
“Penumbra” tem uma força especial sobre mim porque, ainda que a essência seja a mesma, talvez eu nunca tenha conseguido ser tão livre e entregue em algo que fiz antes.
Por esta razão o livro de poemas tem também sua versão fotográfica. Imagens que para mim ajudam a retratar as sensações que tive no decorrer do processo de criação. 
Não sou profissional da área fotográfica e não teria a arrogância de me apresentar como um fotógrafo, mas acredito que em tudo pode haver poesia, seja no corriqueiro dia a dia, seja através da criação das mãos e espírito de um artista. E de poesia continuo insistindo em falar, de alguma forma.
O que apresento aqui é a poesia que minhas palavras não puderam alcançar, mas meus olhos, sim. 

Disponível em: https://www.clubedeautores.com.br/book/216692--Penumbra#.V8TvsFQrIdU



20 de ago. de 2016

SP


Foi há dois anos, mas também foi ontem.
O sentimento crepita como uma fogueira eterna, inexaurível.
Luzes, automóveis, chuvas, penumbra. Eu, ali.
Ali onde um dia eu tinha a vida por entre os dedos,
E eu sabia para onde guiá-la;
Ali onde eu tinha você por entre os braços.
E sabia onde pousar o espírito,
Quisera, para sempre.

Naquela maldita cidade sagrada,
Abarrotada de tristezas imensuráveis e alegrias indescritíveis,
Eu era só mais outro apátrida perdido por ruas infinitas,
Por memórias que nunca se extinguem por completo.
A qualquer alguém confiei o segredo:
“Aqui jaz meu maior e único amor.”
E continuei com passos firmes, sem saber para onde ia.
Nenhum consolo seria válido.

Ao partir, deixei duas lágrimas.
Uma amarga e fria, porque todas as luzes partiram
E eu estava me comprazendo na escuridão.
Outra leve e doce, porque eu vislumbro uma centelha pequena,
Raquítica, dentro do um coração que bate aos solavancos.
Um dia toda aquela selva de concreto e vidro poderia ser um lar,
Meu lar. Nosso lar.
Mas hoje é um cemitério imenso de frágeis memórias
De onde eu tento partir de tudo que partiu de mim.

16 de ago. de 2016

"Havoc"



Sempre que eu pouso os olhos cerrados
Numa paz quase invejável;
Sempre que eu digo que estou forte o bastante
Para simplesmente não ter mais fé;

Você é o fantasma no quarto.
Você me arrasta para as memórias
Feitas de açúcar que construímos.
Mas agora está sempre chovendo...

Eu estou todo encharcado de coisas mortas e brilhantes.
Em algum lugar, de alguma forma você está vivo,
Mas também está morto;
Essa maldita ironia dos eternos finais.

Nesta noite, eu amo de novo.
Sou humano de novo e tenho saudade mais uma vez.
Mas junto do sol amanhã, com as ruas secas,
Nascerá a realidade, você será novamente apenas uma mentira.

‪#‎penumbra‬

13 de ago. de 2016

PENUMBRA


"Penumbra" é o livro onde mais consegui libertar meu coração. 
Sem claridades que cegam, sem escuridões que tudo escondem.
É um sutil ponto de equilíbrio e sobriedade, onde cada sentimento, mesmo e principalmente os mais simples, são tratados com importância e delicadeza. 
Estando distante do amor e do ódio, o que se encontrou foi a convergência de uma infinidade de outras sensações que até então eram reprimidas por essas duas forças. Chamaria de paz, por falta de melhor designação, mas não uma paz resignada, que tudo sofre e aceita, mas a paz de enfim enxergar nitidamente.
Em uma visão simbólica e otimista, a alma é criada na escuridão e caminha em direção à luz; o que estas páginas retratam é a fase atravessada entre estes dois pontos.

Em breve.

12 de ago. de 2016

Golpe


Ainda que uma suja nuvem marrom paire sobre a cidade,
Não terei o triste destino de viver de memórias.
Como um cão faminto,
Vagando por ruas sujas e úmidas,
Se alimentando de restos já apodrecidos.

Ainda que céu permaneça por trás tão azul
E eu ouça o canto feliz de pássaros livres,
Eu não sorrirei para a esperança.
Não aceitarei seus braços estendidos, 
Se são como luzes artificiais, frias.

Quero me juntar aos desgraçados, aos pequenos,
E entre lágrimas e suor gritar,
Gritar até que as palavras tenham a força dos martelos e das foices,
Para salvar, para consolar.
Eu quero de volta a vida que nos tiram aos poucos.

Suas faces decrépitas, inumanas, 
Assombram nossos sonhos mais que os demônios da infância.
Temos medo e exaustão.
Mas quem nos vê ainda de pé, nos admiraria.
Ninguém imagina a força de quem já não tem o que perder.

11 de ago. de 2016

O tempo passa lento


Que tenho a dizer que não saiba, que não sinta?
Se te serve, o céu é azul hoje, como foi ontem.
O clima é ameno e a luz de agosto torna bonita a cidade.
As crianças correm acreditando na liberdade, como deve ser.
As árvores parecem dormir embaladas pela brisa.
Não muito longe, os ratos tomam o poder,
Enquanto os desesperados tomam as ruas.
São tempos sombrios, mas de esperança,
O que me parece estranho.
Os poetas marcam o tempo com as batidas do coração,
E o tempo passa bem lento...
Talvez a poesia seja também isso:
A repetição do banal até se tornar sagrado.
Todos parecem cansados,
E todos estão.
Mas seguem lutando, 
Mesmo com passados e futuros tão densos no caminho.
Às vezes me parece que nem tudo é uma mentira
E eu sorrio tentando fazer uma oração sem palavras.
Ora sim, ora não, sinto fé...
Hoje ela tem cheiro de jasmins.

7 de ago. de 2016

Engrenagem


Desperte. Suspire. Caminhe. Bom dia. Café. Tudo bem?
E o fim de semana? Sabe como é, descansei.
As coisas andam paradas. E o coração.
Anda parando também.
Horário. Chefe olhando o relógio. Fim do café.
Meu Deus, deve ser bonito algum lugar longe daqui.
Ele não respondeu. Deve estar ocupado.
Família. Obrigação. Protocolo. Rotina.
Devia ter dormido mais cedo. O dia não parece longo demais?
Luz artificial. Prateleiras cheias. Mentes vazias.
Comer. Rezar. Amar. Parece mentira. Vai que não é.
Acredita em carma?
Metade do mundo vai pro inferno pros hindus.
Pros católicos. Pros protestantes.
Haja inferno. O paraíso deve ser um tédio.
Não sente vontade de fugir antes que seja tarde?
De sair gritando socorro nas ruas?
Nem dá. Polícia. Opressão.
Puta burocracia pra alimentar os porcos gordos.
A gente se vira como pode.
Viu o preço do feijão? Quem ainda escreve poesias de amor?
Quem ainda as recebe?
Ingratidão. As pessoas dão é medo.
Está todo mundo perdido mesmo.
Nunca pensei que o fim dos tempos seria tão longo.
Mas ainda sorriem. Alguém deve ter esperança.
Eu te amo.
Estamos atrasados.

#penumbra

Minh'alma


Eis esta alma, Senhor.
Minh’alma.
Que mãos bondosas teriam a misericórdia
De a elas se estenderem?

Que olhos teriam clemência
Ao sondar cada um dos tantos pecados,
Das tantas máculas, dos tantos medos?

Quem seria indulgente em advogar por um ser pífio?
Por um destino adornado de falsas glórias,
De mentirosos amores,
De medos colossais?

Mas mesmo encarando meus demônios nos olhos,
Ouvindo calado suas justas acusações,
Eu volto meu coração à luz celestial.
No âmago, ainda adormece imaculável divindade.

#penumbra

6 de ago. de 2016

A besta interior


Toda angelitude é pérfida.
Uma galáxia toda de luzes
Consumidas por uma massa escura,
Uma cratera negra incompreensível.

Não há uma luta entre anjos e demônios,
Pois não resta algum anjo.
O espírito primitivo e insano
É uma besta selvagem.

Mas não é livre.
A imundície esbarra na epiderme,
Não passa.
Devora-me por dentro como um verme odioso.

Oh deuses, oh puros!
Vejo o asco em vossos olhos ao me fitarem.
Como ainda ofertar misericórdia

A este que é tão mais carne que espírito?

5 de ago. de 2016

À tona


Nas profundezas jazem passados mórbidos.
Escombros oníricos, desilusões aos restos, lixos sentimentais.
Nas profundezas faz escuro e frio,
O silêncio tudo envolve com sufocante abraço.

Tanta pressão esmaga velhas e doces esperanças,
Em nada remetem seus tempos de glória.
Porém, da superfície feixes luminosos ainda descem
Entoando suaves canções.

Eu quero emergir.
Quero degustar os lábios que chamam meu nome,
Lábios que exalam calor.
Quero flutuar à tona por ondas calmas.

Distante, num horizonte de ouro e rosas, um anjo sorri.
Se Deus existe, ele deve mesmo ser bom...
Por essas vezes que a vida de momento em momento
Muda das trevas para luzes magnânimas.

Se tanto clamo é pela impureza do espírito,
Ainda ébrio e faminto.
Mas sagrado,
Pois em seu âmago nada existe além do amor.

4 de ago. de 2016

Sê como agosto


Banha-me de tuas tempestades e alvoreceres
Acolha meu corpo exitante, minha alma exausta, minha mente em ebulição.
Envolva-me com silêncios e bondades.

Acompanha comigo a derrota do inverno.
Veja como os lábios do sol prometem uma primavera calma e clemente.
Olha-me sem medo, toma-me sem pudor.

Pois minhas ânsias são por tua alma, não por teu corpo.
Sê como agosto, onírica criatura, bailante quimera.
Adornada de florescentes sonhos e reluzentes memórias.

Há pouco, era o fim.
Mas não houve outros prantos, nenhuma saudade.
Apenas minhas lágrimas levaram as mortas flores dos ipês.

Minha alma, feito fragmentos,
Agora veleja suave por ares e mares.
Perdida em seus devaneios inocentes... distante.

Não há pouso, talvez. Remição.
Mas ainda é quente e vibrante,
Ansiosa pelo sorriso que se fez belo e morno como um lar.

Meus livros à venda

Meus livros "Microcosmo", "Discreta Loucura" e "Tempos Invernos" já estão à venda também na Livraria Cultura em formato ebook, pelo link: http://www.livrariacultura.com.br/busca?N=0&Ntt=marcos-+serafim+teixeira

E no Clube de Autores: https://www.clubedeautores.com.br/books/search?utf8=%E2%9C%93&where=books&what=marcos+serafim+teixeira&sort&topic_id

Incentive a poesia a resistir! :)




26 de jul. de 2016

Talvez amanhã



Talvez amanhã não nasça o sol,
Tudo fique amarelo e murcho,
Como se o mundo estivesse preso em um agosto eterno,
De parca vida e beleza.

Talvez amanhã meus olhos se esqueçam de ter brilho,
Minhas mãos desistam de acariciar a terra,
Minha alma não absorva mais qualquer poesia,
E se depare enfim com a realidade insípida que a assombra.

Talvez amanhã eu descubra que o amor
Não é nada além de uma mentira mal contada,
Um entorpecente escasso
Para consolar mentes em ebulição.

Talvez amanhã a vida perca definitivamente sua cor,
Seu calor, seu sentido.
Talvez amanhã.

Mas não hoje.

24 de jul. de 2016

Não posso sentir meu Amor



Desde sempre habitou no âmago criatura celestial.
Eu sentia seu calor dentro de mim,
Via sua luz saindo por meus poros,
Ouvia as canções que cantava.

Não havia nada que eu não faria para dividir meu Amor.
Eu caminhava por um mundo tão doce e puro.
Sem passados, pecados ou medos.
Sem distâncias.

Mas pousa em meus ombros uma escura noite fria.
Fantasmas gemem atrás das paredes.
Os sonhos não se sustentam muito tempo firmes.
As doces lágrimas de emoção não conseguem escorrer.

Eles me venceram.
A esperança, brava, foi a última a cair... mas caiu.
E eu já não volto meus olhos para as estrelas,
Agora que não posso mais sentir meu Amor.

13 de jul. de 2016

É quase agosto



Começou a morte do poeta quando cortou seus impulsos.
Há alguma fé na promessa do começo após os fins.
Há alguma fé... mesmo que esmurrada por dúvidas.

As ruas têm muita luz, poeira e perfume de laranjeiras,
E tanto eu sinto, tanto.
O coração, desnorteado, enjoa-me com sinestesias.

Cada caminho canta uma história antiga,
Lendas esculpidas por vozes de fantasmas insones.
Não ouso levantar a voz, dizer palavra.

Apenas observo com olhos ardendo, olhos cansados,
O destino traçando seus atalhos com descaso,
Abrindo meu peito sem misericórdia.

 É quase agosto...
E quero chorar a morte de sentimentos sagrados outra vez,
Mas a vida me recobra furiosa... ela ainda permanece aqui.

11 de jul. de 2016

Já não corre


Corre, o garoto perdido, busca braços macios;
Mas as canções silenciaram,
As doçuras são fingidas,
As belezas, sem encanto.

Corre, o garoto perdido, do destino;
Frio, duro, escuro,
Feito de escombros de sonhos de outrora,
Sem qualquer vestígio de vida.

Corre, o menino perdido, de si mesmo;
Das memórias insepultas,
Dos desejos insaciáveis,
Dos encontros inconcebíveis.

Já não corre, o menino perdido;
Para todo lugar, é o nada.
Nenhuma voz, nenhuma chama,
Nenhuma esperança.


#Penumbra

5 de jul. de 2016

Anjo caído


Sim, belo demônio,
Encantadora criatura dantes celestial.
Sim, eu disse sim.

Te aceitei em meu corpo e alma.
Flutuei contigo por auroras místicas,
Lindíssimas ilusões.

Sim, minha última chance,
A ignóbil memória não morre,
Mas a cada dia cheira mais mal.

Sou como tu,
Outro asqueroso anjo caído,
Rendido ao sabor agridoce das sombras.

Mas nada mais resta da tua santidade na minha carne,
Nada mais resta da minha própria santidade.
Somos agora homens marcados, sem reflexo.


Poema noturno


Qual o destino das palavras,
Lágrimas vertidas por mãos cansadas,
Soltas, ásperas, pálidas?

Silêncio...
Silêncio absoluto no peito
Acostumado a sinfonias,
A voz dos anjos.

Que difere o mundo chamado real
Do chamado onírico?
Ambos desabam ao mais delicado toque.

Meus olhos insones não brilham,
A beleza, antes seu afago,
Já não reluz...

É noite. Sempre noite.
Mas sem a magia, a doçura,
Apenas a escuridão.

Realidade


O que pode haver de glorioso
Em uma alma frágil que rasteja
Longe de qualquer resquício de luz?

Meu coração,
Aquele que abrigava calor nos invernos,
Frescor nos verões...

Meu coração,
Agora repousa, inerte, sóbrio,
Distante das quimeras que o alimentavam.

A noite é sempre noite,
O dia, sempre dia,
As palavras, meras palavras.

Já não resta imaginação para sustentar o encanto,
E talvez, nunca mais,
Outra carta de amor seja escrita.

Não há mais um jardim
Para poetas, amantes, sonhadores,
Apenas os braços fortes da realidade, sufocando-os.

4 de jul. de 2016

Lançamento online de "Microcosmo"

Meu nono livro, "Microcosmo" já está disponível no Clube de Autores pelo link: https://clubedeautores.com.br/book/212467--Microcosmo#.V3qSpFQrIdU, na versão física e digital, com 25 % de desconto até dia 10/07!
Enquanto houver quem necessite da poesia, a poesia resistirá!
Meu muito obrigado àqueles que mais uma vez me entusiasmaram a insistir em fazer o que tanto amo! <3


Foi um grande prazer compor este “Microcosmo”.
Entre canções favoritas, tardes de sol, madrugadas regadas a pensamentos inebriantes, embaladas pelo frio sutil do inverno, os sentimentos foram se condensando como nuvens e desaguando em forma de palavras, mansamente. Sem expectativas, sem medos, sem grandes sonhos, sem grandes decepções.
O sabor da essência que a alma guarda protegidamente foi o guia. 
Sorri com memórias, chorei com saudades. Fui ingrato e também olhei para o céu pensando em como a vida pode ser tão perfeita em todos seus detalhes.
A eterna contradição: a besta que busca o divino. Afinal, nós, seres brutos, inacabados, somos os que precisam crer no amor, lutar pelo amor. Nós, seres mesquinhos e escuros, é que precisamos buscar a luz.
“Microcosmo” é meu nono trabalho, que como os anteriores, nasceu sem pretensões; é mais outra criança correndo na chuva ou brincando com as flores dos ipês que cobrem os chãos de inverno.
Mas ao contrário do que possa parecer, quero bem mais do que apenas expressar meus sentimentos e sensações. 
Acho que a poesia tem um poder único. É uma força bela e rara de conexão.
Para mim é um prazer sem tamanho passar os olhos pelas palavras dos mestres e ver algo de mim, algo do que sinto ali. Fico maravilhado com a capacidade que eles têm de falar para almas e de almas que nunca chegaram perto. 
Então, este não é apenas um convite para conhecer o microcosmo de quem colocou estas palavras no papel, mas é um convite à comunhão dos nossos microcosmos. Dos nossos sentimentos. De quem escreve e de quem lê.
Existe uma série imensa de cores e sentidos a serem explorados, mas de alguma forma todos nós sofremos de um certo grau de “daltonismo” que nos impede de enxergar além daquilo que nossos olhos já estão condicionados. Mas podemos ver mais, ver adiante, dentro e fora de nós. Sair da estrada em que caminhamos sem questionar e olhar para os lados que ninguém nos mostra. Sim, estes poemas falam do medo, do amor, da perda, da esperança, da luz e da claridade, mas sua principal proposta é: o que tiramos disso? Que visão temos daquilo que essas coisas nos deixam? Como lidamos com elas ao longo dos dias?
A vida tem uma infinidade de cores, uma infinidade de sentimentos, e nós podemos ver mais, sentir intensamente cada um deles. Meu desejo é que estas palavras possam fazer algo para ajudar nisso.