12 de ago. de 2015
Aos poucos, é o adeus.
Colho o que resta, dia após dia,
O que resta dos tempos áureos.
Há um pequeno resto deles na luz do sol poente,
Brilhando a poeira de agosto nos telhados velhos.
Deixe...
Deixe que a voz, o sussurro, a paixão da moça cansada
Preencha o coração de deliciosa dor.
É simples: é uma tristeza bela.
Até isso... A tristeza que ficou é bela;
Como um sopro frio no rosto
Quando saímos à rua pela manhã.
Um resto de noite ainda pairando
Onde não mais pode existir.
Já é dia, os sonhos adormecem...
De algumas cicatrizes cuidamos com mais carinho.
Carinho semelhante ao do olhar
Vendo as folhas vermelhas como sangue das árvores caindo...
Dando espaço para novas folhas verdes como esperança
Veja bem: é aos poucos, o adeus.
E até os mais amigos chamam de imbecis minhas lágrimas,
Mas eu sei que elas não são.
Aos poucos, é o adeus.
As preciosidades vão sendo roubadas do peito,
Pouco a pouco, uma a uma,
Enquanto eu finjo não perceber
Que é meu próprio coração sendo levado aos pedaços.
7 de ago. de 2015
Expandindo-se
Talvez por um pequeno momento,
Um resto de segundo,
Uma fração de tempo,
O Amor que eu tanto queria tirar do peito,
Estender,
Oferecer;
Esteja brotado só,
Como as roseiras brotam,
Ao imaginar a primavera ainda por chegar.
E ele cresce e não parte,
Ninguém o toma nos braços,
Reclama sua posse,
Sorve suas dores e cores.
Ele se alastra ao redor de si mesmo,
Envolve o espírito que o gera,
E como um farol em noite tempestuosa,
Sente-se pleno ao afastar os barcos desesperados
Dos perigos das rochas.
Acaricio suas pétalas com minhas mãos ainda macias.
Minhas mãos quentes que tanto já percorreram...
Talvez mais que meus pés.
Mãos de pouca força, mas firmes,
Lapidadoras de sonhos nunca colhidos.
Acaricio seus galhos que crescem
Expandindo-se,
Expandindo-se...
Enquanto a primeira brisa de liberdade faz marejar os olhos.
2 de ago. de 2015
Ao gosto
O vento pesado e sem vida de agosto já sopra.
A estiagem. O adeus. A indiferença;
Coisas que chovem num dia de sol displicente,
Num dia de amor indiferente.
Ao gosto das brisas, das horas, dos sentimentos
Velejo sem avistar porto;
Já percebendo que não há porto, nem mar,
Mas apenas solo abaixo de mim.
E eu observo o azul infinito que nunca tocarei,
Nunca mais.
O azul distante, silencioso, frio...
Não sei o porquê da insistência deste olhar.
As mãos são frias, a luz é artificial, os lábios são secos
E as palavras faltam;
Ou sobram.
Faltam para descrever o que ninguém entenderia,
Sobram na tentativa de auto-salvação.
31 de jul. de 2015
Glacial
Ainda amava.
Deus!
Nada mais que um único ano se completa,
Rápido e insolente,
Mas para o espírito esquecido,
Fora o início de uma longa era glacial,
Que o vem tornando mais frio e rígido
Que o próprio corpo que o abriga.
Ainda amava,
Ainda assim.
Como se fosse possível
Um amor tão belo resistir
Em um mundo agonizante;
De escassa poesia,
De dores medievais,
De distâncias agora intransponíveis.
Ainda amava,
Embora nevasse...
Nevassem dias insólitos,
Na realidade, idênticos;
Nevassem silêncios,
Numa existência que já fora canção;
Nevassem adeuses
Sobre o ancestral jardim de sonhos.
29 de jul. de 2015
Cidade dos Anjos
Nenhum dia deixou de existir após o fim do mundo.
Do mundo que era morno, e pulsava como um coração jovem;
Destemido, selvagem, louco.
Nenhum dia realmente existiu após o fim do mundo.
Como um fantasma enclausurado, permaneci.
Janelas e portas bem fechadas.
As estrelas não mais ascenderiam o céu.
A canção não seria mais ouvida.
A cidade perdera seus Anjos.
Há esta força impenetrável e misteriosa,
Como diamantes adormecidos,
Jamais descobertos, jamais despertos.
O destino. A pena. A escolha.
Foi vivido o que era de se viver, nada mais.
Então os Anjos não mais se uniram.
E a cidade agora chora todas as noites,
Carente da claridade outrora tão vasta, abundante.
Um pequena cidade ainda ingrata...
Uma pequena cidade de coração em carne viva...
Viva!
Que ao menos hoje, chora mais leve.
Brasas
As memórias permanecem ao alcance das mãos como brasas.
Incapazes de iluminar,
Mas propensas a ferir.
E da mesma forma que a Terra cumpriu sua sina,
Também girei por 365 dias ao redor de algo maior, distante, intocável.
''É inútil!''
Bradam, com razão.
''Não se pode ganhar um jogo perdido...
Não se pode reconstruir um sonho partido!''.
Aprendemos a construir bombas e selvas de pedra;
Aprendemos a decifrar códigos perdidos na imensidão da vida e olhamos curiosos para os cantos sem luz do espaço;
Mas não aprendemos a amar.
Não aprendemos a lidar com a passagem das horas, com as consequências.
Somos crianças... tão jovens.
Carentes de misericórdia e amparo.
Mal compreendemos o que está sobre a nossa pele, que se dirá dos recôncavos da alma!
Somos inocentes.
Inocentes do nosso amor e do nosso ódio.
Inocentes e tolos...
Pois dominaremos as estrelas
antes de aprendermos a dominar nossos corações.
21 de jul. de 2015
Sirenes e sinos
Da torre do santuário próximo, sinos badalam pela manhã.
"É vida que nasce?" Pergunto às meninas.
"Não." Dizem. "Vida é coisa passada.".
Mas ninguém sabia ao certo...
E eu penso que toda vida merece mesmo ser recebida com o badalar de sinos.
Mas pela tarde,
Sirenes cortaram o silêncio frio das ruas pacatas.
"Não é morte!" Pensei. "É resgate!".
No dia em que a esperança faz morada na alma,
Tudo se volta à melhor hipótese.
E meus olhos, ninguém os vê;
Mas enfim voltam a marejar a cada beleza,
Como pelas avenidas, rosadas de tantos ipês agora floridos.
O coração, por um instante, é trégua.
Sem granadas explodindo numa zona de interminável guerra.
Hoje, ele parece este céu: ainda que nublado, emite dócil claridade.
18 de jul. de 2015
O rei foi deposto
Seus fantasmas rastejam por minhas entranhas
Como vermes vorazes.
Soldados famintos, servos de um rei de caos.
Eles me devoram, deixam um rastro de vazio;
Que se junta a outros tantos vazios,
Deixados por tantos outros reis indiferentes.
Mas eles consomem minha alma apodrecida,
A parte maculada e nunca mais bendita.
Pois suas mãos tocaram, suas mãos violentaram.
E eu me tornei um faminto de Luz,
De uma Luz que nunca existiu,
Que não tinha obrigação de existir.
Mas eu a perseguia, a perseguia...
E até a vi, pairando tão doce e distante.
E eu até olhei os campos floridos que margeiam o paraíso.
Olhei nos olhos de anjos e demônios.
E me tornei anjo e me tornei demônio.
Mas livre! Você já não tem poder...
Você foi deposto, você nunca reinará novamente.
Minha vitória, minha derrota, minha luz, minha escuridão
Nada mais devem a você.
Enfim uma natureza livre, errante;
Não mais envergonhada, mas selvagem,
Felina faminta na selva solitária.
O mau rei foi deposto.
Santo ou profano, apenas meu é meu espírito.
Seus vermes não têm mais do que se alimentarem.
Andamento
Alguém está tentando nos consumir outra vez.
Silenciar a voz dos nossos salvadores.
São tão fortes assim,
Seriam eles tão fortes assim?
Capazes de consumir as migalhas da nossa esperança,
Como pássaros famintos e indiferentes e enlouquecidos.
É humana minha carne,
É humano meu espírito...
...que santidade esperaram de nós?
Que santidade esperamos deles?
Todos crianças, nós;
Desabrigadas, desesperadas por um lar.
Mas tantas, tantas portas trancadas.
Minhas batidas nas madeiras frias já são leves.
Sei que inaudíveis, sei que ignoradas.
E eu volto, volto ao velho e silencioso Jardim.
O Jardim que cresce sem a necessidade de milagres.
O Jardim onde nem o Amor nem os Pesadelos residem.
Apenas um pedaço de Terra onde descanso minhas mãos,
Apenas uma trégua ao coração fatigado.
17 de jul. de 2015
Ai!
A nossa carne em suas pedras,
Nossos pés nos seus espinhos,
Nosso sangue em seus cálices de ouro.
E não temos direito aos "ais!"?
Não temos coração em chamas?
Não temos almas em farrapos?
É vergonhosa a lágrima pura
Sincera e humana.
Quente como o Amor que um dia senti?
Não posso?
Não devo?
Não é de bom tom ainda sentir?
Sentir a noite e sua generosa suavidade;
Sentir o corpo em fúria dentro de outro corpo;
Sentir o medo da inevitável partida de tudo, de todos?
Clemência, rogo.
Ao menos a minha dor, tão minha:
Não a faça sentir vergonha.
Jaz todo resto, frágil, passageio, efêmero.
Deixa-me a minha dor menina, tão boazinha,
Aqui acolhida, num âmago já esquecido.
Mas manhã começa outro dia.
E nasce sol, esperança, desabrocha flor.
Amanhã, eu começo de novo.
Livros em promoção!
A poesia sempre foi a materialização dos sentimentos e sensações extraídos do meu mundo externo e interno. É o transbordar. Aquilo que não cabe mais apenas dentro da alma torna-se sentimento em palavra.
"EM MEU JARDIM SECRETO..." (2010) foi meu primeiro trabalho. Nas prosas-poéticas do livro, o eu-lírico é um Jardineiro, cultivador de si mesmo. Um Jardineiro descobridor de terras férteis e terras estéreis dentro da própria alma.
"ALMA À TONA" (2012) é a emersão, o amadurecimento. É o olhar de frente para si e para o mundo, extraindo desses fatos e ralações a poesia que em tudo reside.
"MAIS DE MIL PALAVRAS - A POESIA DA IMAGEM" (2012) figura-se na necessidade de dar cor e forma aos sentimentos. É um livro poético-fotográfico.
"NUVENS DE JANEIRO" (2013) é a expressão metafórica da força e da suavidade. Nuvens são calmas, brancas, pacíficas; ou ameaçadoras, perigosas, destruidoras. As poesias desse livro trazem essa leveza e esse peso de sentimentos.
"CHIAROSCURO" (2014) é ao mesmo tempo uma coletânea e uma ode ao amor.
Ao passar dos anos notei como a escrita ganhou corpo e personalidades mais consistente. A vida, esse misto de dor e prazer, luz e escuridão, é retratada nessas páginas sob a perspectiva da dualidade que a mesma apresenta em todas suas peculiaridades. "Chiaroscuro" traz os poemas que julgo mais relevantes das obras "Alma à tona", "Mais de mil palavras" e "Nuvens de Janeiro", além de dezenas de novos poemas. Este trabalho deve ser visto como um retrato, um quadro, uma imagem, regada a claridades e escuridões.
"EX-VOTO" (2014) foi o livro de poemas que escrevi com a maior intensidade que havia na alma. O livro marca a trajetória de um coração que encontra seu sonho maior, o Amor, e dele é obrigado a se despedir. Contudo, não apenas isso. Os poemas emanam a busca pelo divino, pela fé e os mistérios que a vida nos faz suportar a todo momento. Todo ex-voto é uma prova de superação, uma prova de que a pior fase da Dor passou.
"TEMPOS INVERSOS" (2015) é o caminho que se segue após a Grande Dor de "Ex-voto", é o sobreviver após o "apocalipse", encontrar o que ainda resta de divino nos escombros de uma realidade seca e não alentadora; porém, aquilo que é a cerne da alma continua vivo, pulsante: O Amor ainda é a seiva que nutre seu âmago, e seu âmago resiste. Muitos poemas são áridos, como o inverno, mas esperançosos de uma nova primavera. O Tempo já não faz sentido, nem impõe suas regras; passado muito ou pouco dele, tudo é medido pela intensidade das emoções.
Aos que desejam um mergulho, ou melhor, uma emersão no universo da poesia e do sentimento, fica aqui meu convite: http://migre.me/qNZb2
15 de jul. de 2015
Antes do mundo acabar
E os dias escurecidos,
Sem um brilho não mais como aquele antigo
Apontam que algo muito valioso e belo,
Delicado e gentil,
Foi atirado ao chão e ali permanece destroçado.
Os bárbaros estão vindo...
É o fim da infância, meu inexistente amor.
Eles querem nos silenciar,
Eles querem que tenhamos medo.
Mas eu ouvirei mais uma canção antes do mundo acabar.
Que eu morra de mãos estendidas,
E que nelas seja visto que um dia tocaram o Sonho.
Não o Sonho que parte, não o Sonho que desiste,
Mas o que queima vivo como lava
Dentro de um peito cada vez mais endurecido.
Ainda estão lá aquelas velhas estrelas,
Aquelas velhas ilusões...
Seriam mesmo uma mentira?
Seria mesmo tudo uma mentira?
Mas eu vi, eu vi uma estrela ascender.
Eu vi um pedaço de arco-íris
Numa manhã de sábado sem chuva;
E por um instante acreditei em bons presságios.
Eu vi uma delicada rosa esconder
O brilho orgulhoso do sol.
Por um ano bebi da indiferença,
Como se não a tivesse bebido também em todos os anteriores.
Talvez seja o fim do mundo, meu inexistente amor,
Mas eu ouvirei mais uma vez aquela bela canção,
E de alguma forma, a canção não mais findará.
12 de jul. de 2015
"Paciência"
São tempos loucos, meu bem.
Os amantes estão dispersos
E os odiadores, todos juntos.
Onde estamos errando?
O que não vemos bem diante de nós,
Como nosso próprio nariz?
Sempre houve essa dor primordial,
Que ninguém vê, toca, alcança;
Pela qual ninguém chorou.
Talvez, alguém...
Um dia, numa praça,
Num banco de ladrilho azul.
Já não busco expor o sentido,
A graça, a beleza, a ventura.
Nem o pranto que cai quando partem,
Quando retorno, quando desmorono,
Quando mais uma vez,
A vida prova ser instantes.
"Paciência, paciência, paciência.".
Repetia dócil senhora...
É disso que vamos vivendo:
De paciência ou de revolta.
Ou das duas coisas;
Elas fabricam o amor.
10 de jul. de 2015
Sem me alcançar
Mostra tua face, demônio covarde!
Que prazer sórdido te consome
Ao enegrecer meu sonhos,
Esta minha parte ainda pura e menina?
Mostra tua face e avança. Vem,
Que não fugirei feito felino assustado,
Que não me terá em tuas mãos podres,
Que não te entregarei a lágrima que é apenas para o amor.
Para o amor que já existiu e também como eu
Fugiu.
O que será que tem de doce minha esperança,
Para sorve-la assim com tanta ânsia?
Mostra tua face, demônio amigo!
Que perdoo tua inveja, perdoo tua solidão.
Já não me persiga na madrugada congelada,
Mas caminha ao lado deste que também nada tem de santo.
É também triste meu rosto, é também oculto por sombras.
Também persigo sem jamais alcançar sonhos pairando distantes.
E o que há em você, talvez também seja o que restou em mim
Depois que todas as luzes partiram.
9 de jul. de 2015
Eu e o lugar
Mais dos versos a ninguém...
Mas eu lembro: estes olhos já se encantaram,
Este corpo já foi mais poesia que carne.
Pedi trégua. A quem?
Tentei acreditar que alguém tinha as rédeas de peito,
E guiava muito mal.
Ah, eu já voei por essas ruas e labirintos...
Já pensei ter um lar, antes de sentir que lares
Não são lugares, são pessoas.
Ouço o chamado quase mudo de sentimentos mortos.
Sentimentos longínquos... facilmente substituídos.
E lembro que por uma vez eu parti.
Parti das velhas ruas, de mesmos perfumes e pessoas,
Onde já nas noites de paz, tão raras, não flutuo mais.
Parti em busca do lar, o lar tão morno e gentil...
Mas que estava de portas trancadas.
Bati nas janelas, chamei pelos vizinhos, fiz drama no portão.
Silêncio.
Voltei para o velho lugar, mais sujos, mais densos, mais feios,
Eu e o lugar.
E passei pelas velhas ruas, desviando de memórias em decomposição.
Todo dia ainda é um adeus, entende?
Um adeus a tanta, tanta coisa...
Adeus.
Sete bilhões de universos
Nada menos que um nervo pulsando, exposto.
Não como todos, protegidos por duros ossos,
Por claros objetivos; mas apaixonado por nuvens passageiras.
Chorando à brisa que o acaricia com sua voz de menina.
E já não importa que alguém entenda, que alguém sinta.
Pois se até o amor se despediu tão facilmente... o que resta?
Ele pegou a estrada e nunca mais voltou,
E está bem nas ruas frias da cidade suja.
Não é preciso mais fazer qualquer um
Sentir qualquer coisa.
Estamos todos desconectados.
Sete bilhões de universos opostos num planeta mesquinho.
Nada mais que um nervo pulsando, externo.
Na chuva, no sol, na súplica,
Meu pequeno príncipe...
Escravo de suas quimeras famintas.
Mas a poesia vai continuar,
Ainda que não sirva a nada depositar nos escombros
De um mundo louco,
Sementes de flores de pouco perfume.
Aqui, da terra dos lunáticos e amantes,
Também podemos ver tudo pulsando errado.
Alguns se escondem atrás de grades e indiferença,
Outros, atrás de versos.
30 de jun. de 2015
O vício
Sempre nessa penumbra semi-lúcida...
Tomando o mesmo café, nos mesmos domingos estáticos,
Acordando às sete, olhando com melancolia para o jardim às doze,
Mas não estando aqui, nunca plenamente.
Estou naquela tarde cinza, de céu revolto,
Correndo entre concretos e mais concretos, permeados de pessoas vagas,
Atrás de um sonho que não olhava para trás, nunca olhou,
Mas também nunca estava realmente logo adiante.
Era apenas eu, como nas noites de ano novo,
Vendo as luzes que espocam no céu,
E desaparecem para sempre em seguida,
Como se nunca tivessem brilhado.
Que fazia este deslumbrado estrangeiro em terra indiferente?
Apenas seguindo uma claridade difusa?
Observando, clamando, distante do que é a realidade,
Feito sempre.
O que restou depois do fim de todas as coisas?
Todas as coisas mais bonitas... O vício.
Restou o vício de quando as vivia,
E agora, o vício de odiá-las por amá-las tanto.
29 de jun. de 2015
Unhas roídas, esperanças milimétricas
A esperança, como as unhas roídas, cresce milímetros por dia.
O suficiente para, como as unhas, ser corroída de novo,
Sendo, em seguida, atiradas ao chão num sopro desdenhoso.
Para isso servem as unhas e a esperança em um homem:
Para serem extirpadas, ocupando as horas vazias da vida que já não reage.
Naquele dezembro, um mês desimportante, unhas e esperanças foram poupadas.
Havia uma direção, mesmo falsa, para os olhos se ludibriarem enquanto o resto passava.
O último suspiro da mais intensa claridade: o amor.
O costumeiro murro da mesma profunda treva: a indiferença.
Depois, o luto cede lugar ao inconformismo crônico; uma dor que é quase um membro.
Quando nada mais houve para provar ou para esperar,
O espírito se rende às suas mesquinhezas:
Libidinoso, carente, sôfrego, exausto.
Seria estúpido continuar depositando lágrimas e flores para velhos mortos;
Nunca mais voltariam, nunca mais vestiriam a mesma forma.
Tempo.
Aprisionamos o tempo em ideias, compromissos, possibilidades, férias, feriados;
Impomos regras a esse labirinto de luz/sombra,
Labirinto sem saída, sem espaço para arrastar sonhos gordos demais.
Pequenos tempos e pequenos sonhos; nos satisfazemos deles, agora que nada faz sentido.
Da mesma forma que nos distraímos com as unhas e com as esperanças milimétricas.
28 de jun. de 2015
Nem sei...
Você nem viu que eu sorri depois que o mundo acabou.
Nem viu que minha crueldade foi maior que a sua.
Que me abandonei além do tanto que me abandonou,
E que eu entendia tudo e chorava de raiva de entender tanto.
E aprendi a esquecer os milagres,
A tirar da pele o pó de luzes que os sonhos deixam.
Como um velho palhaço que ainda sabe mascarar o rosto
De uma felicidade que não sabe mais ter.
E ainda aqui, embarcado em palavras, tantas delas,
Que não levam nada a lugar nenhum.
Tudo o que se move é um exército cinza de iguais;
Se move em círculos inúteis.
Teria o amor extirpado dos olhos seu pequeno dom?
Ou as pequenas belezas estão adormecidas,
Como manhãs de domingo, agora sem vida?
Nem sei...
26 de jun. de 2015
Sôfrego
E aquele doce, sutil adeus, ainda sussurra em minha mente
Palavra frias como o fio de uma navalha esquecida na neve.
Ainda olho para o amor, o inexistente, e vejo as mesmas antigas formas,
quando era primavera, quando era vivo, e o sol persistia.
Ainda olho para o corpo petrificado de um história incompreensível.
Que dor ainda falta sentir?
Que músculo ainda falta tremer?
Por que depositamos flores em lápides onde não habita nada vivo?
As lembranças cantam como assombrações,
E quem vê meu sorriso, não sabe o que ouço.
Não sabe que meu corpo e espírito ínfimos
Represam sentimentos imensuráveis.
Nenhuma paixão resistiu ao silêncio firme, duro, persistente.
O inacreditável e indiferente silêncio, substituto eterno do fulgor e consolo.
O coração bate estilhaçado, mas sôfrego,
Lutando pelo que se assemelha à uma vida, mas já não é.
24 de jun. de 2015
Vento, sorriso, lágrima
Nem se assemelha, aos velhos e sujos dias,
Este, com o primeiro vento gélido do inverno
Ultrapassando jovial as janelas poeirentas por onde ninguém olha,
Que penso:
Se o amor voltar a existir,
Bem que poderia ser em uma manhã assim.
E não preciso dizer a ninguém,
Nem aos homens, nem aos poetas,
Tudo o que foi sentido e tudo o que se sente,
Ou como o céu é palidamente azul
E o sol abraça como um pai amoroso
Edifícios, pinheiros e torres,
Digo a mim, e por hoje, basta.
Pois que o vento mudou,
E atrás das grades e vidros
Por onde vejo a mesma cidade mesquinha,
Há também distante um fragmento ainda incandescente
Da minha esquecida alma.
Entre ventos, sorrisos e lágrimas digo em silêncio:
Não é que hoje a vida dói de tão bonita?!
Ouro dos tolos
Contidas as velhas e imprestáveis memórias,
A manhã desperta alguma tonelada mais leve.
Já podia varrer para fora
Os restos mortais de esperanças incineradas.
O coração quer acreditar que um ciclo se fechara:
As trezentas noites se despedem,
E junto da luz sóbria da manhã
Reluzem pequenas novas quimeras,
Saltitando livres na cidade fria.
Quimeras frágeis, sem valor, ouros de tolos.
Mas há de fato um suave fôlego a retornar.
Um primeiro gole de ar após longa submersão,
Por mais que a alma
Ainda flutue no mesmo antigo oceano.
23 de jun. de 2015
Livre
Eu costumava me sentir honrado com a sua presença, como se o mero fato de você estar aqui, estar em minha cama ou em meus lábios, fosse uma generosidade grande demais de Deus ou dos deuses para com um espírito tão reles, tão pequeno.
Eu costumava pensar que a vida, num surto de bondade, ofertara-me um empréstimo da mais pura felicidade, sem jamais cobrar de volta, sem acrescentar nenhum juro.
Em um mundo de sete bilhões, apenas você reluzia. Apenas você emanava a beleza e a pureza que se conectava ao âmago mais profundo e imaculado do meu coração.
Naquele domingo frio, após voltar da rodoviária de onde te vi pela última vez, ainda andando nas ruas rápido demais e sem enxergar bem o caminho por conta das lágrimas que embaçavam a visão, eu apenas repetia: "Anjos não existem!". Mas apenas fui entender isso dez meses depois, quando, ainda te amando, tive a óbvia percepção: anjos não são indiferentes.
A alma, este relicário, guarda mais uma cicatriz. Uma cicatriz adornada de memórias tão bonitas que nem parecem terem nascido num mundo tão árido, tão cheio de ódio.
De certa forma, você me disse que eu deveria ser grato pelo amor que recebi... E eu fui enquanto e se ele existia reciprocamente.
Já odiei esse amor, o que é bem irônico, já senti a falta dele como se o oxigênio do universo desaparecesse para sempre, já desejei nunca ter olhado em tais olhos, já tentei amar outra vez.
O que restou é uma canção distante, que toca ininterruptamente, mas cujas palavras já não sou capaz de entender.
O que quer que eu tenha amado, não existe mais. Existe a sua forma, os seus hábitos, a sua rotina, os seus gostos, mas nada mais daquilo que se mostrava existir há um ano.
Se ponho em palavra, sem medo, algo tão pessoal, é por saber que o campo dos sentimentos é tão íntimo, tão próprio e oculto, que nem seu possuidor tem permissão de deixar que nele adentrem ou dele saiam.
Digo porque apenas as palavras permanecem imutáveis, e através delas registro, ainda que apenas para mim mesmo, minha libertação.
Talvez, o que doeu um dia, doerá para sempre.
Talvez, o que amei um dia, amarei para sempre.
Mas hoje, ao menos hoje talvez, estou livre.
21 de jun. de 2015
Sobre a dinastia de sonhos
Quase não me reconheci ao não ter abraçada em mim a mesma velha ausência de todos os dias.
O que ainda resta para dar despedida, dizer adeus?
É hoje o início do inverno, os primeiros dias da promessa que não será cumprida, como nenhuma promessa é.
Essa falsa ideia de continuidade é o que nos destrói aos poucos...
E se eles estiverem certos?
E se tudo não passar de momentos?
E se o sentimento for apenas um grande e oco trapézio que construímos de ilusão colorida para subirmos e vermos uns metros acima de nós mesmos?
Boas memórias e más memórias guardadas em compartimentos separados...
Meu problema foi não saber em qual caixa guardar certos instantes.
Meu jardim ainda está lá, e eu sei de todas suas flores.
Sei das roseiras que já perderam suas folhas e flores para o outono, e agora dormem esperando a primavera.
Mesmo sem ninguém derramar o olhar sobre todos os pequenos milagres, eles permanecem lá...
Como em mim permanece inviolável uma esperança maior, mais fina e lapidada.
Eu sei que chegará o dia em que não haverá a necessidade de entregá-la a ninguém, mas reconhecer que ela já repousa no único lugar que deve repousar: dentro de mim.
Será um dia de tristeza, paz, alívio.
Ver a realidade sem projeções externas, perspectivas externas, pode ser o fim de uma longa dinastia de sonhos, mas o início da capacidade de enxergar o que de fato existe.
15 de jun. de 2015
Lá vai a vida
Tem vez que penso que a vida é uma coisa tão torta, sem jeito, mal-terminada, que nem vale a pena o tanto que a gente sofre por ela.
Ela dói. Dói pela menina violentada. Apenas um número somado à estatística.
Uma dor funda, fria, afiada, que nunca sairá dali de dentro dela, e nunca ninguém verá por completo.
Dói pelo menino agredido, pela sua existência assaltada tão cedo, de forma cruel, fanática, apenas por ele gostar de menino também.
Dói porque a gente não vê a dor do outro, e por não ver, finge que ela não existe, e por fingir, acaba acreditando que o outro não sofre.
Dói porque no fundo ninguém consegue ver a nossa dor também. Ela é só nossa.
Mas tem vez que a chuva cai no cinza frio da tarde, e o cheiro do chão se molhando tira um sorriso. Ele vai penetrando pelas narinas, pela pele, saindo pelas mãos.... E eu agradeço, como se isso fosse um afago de Deus numa Terra de Homens sem poesia alguma no coração.
Também tem aquelas vezes que alguém diz: "Vi uma borboleta amarela, lembrei de você." e essa frasezinha aquece a alma já quase acostumada a um inverno constante e rigoroso.
E eu me pergunto se estamos no lugar certo, ou se essa sacana da vida está nos testando: "Quero ver até onde tu aguenta! Te mexe!".
E eu não sei... Nem se é certo aguentar, continuar vendo o milagre que reside nas coisas ínfimas e rezando para o mundo não desabar, ou se é preciso pegar a primeira chance e partir. Partir de tudo: dos sonhos velhos, das ruas velhas, dos rostos que escondem almas velhas.
Enquanto isso a vida passa... Lá vai a vida.
14 de jun. de 2015
Nenhum anjo
É inútil questionar se o paraíso ainda está povoado o suficiente.
Serafins de seis asas ao lado de Deus,
Arcanjos e suas espadas e bravuras,
Querubins com sua doçura.
Ainda olho para as estrelas da sarjeta
De onde me despedi do Amor,
Envolto em uma esperança fina demais
Para espantar o menor dos frios.
É inútil a mágoa pelos anjos que desistiram de mim,
Embora suas promessas e sorrisos e olhares.
Nenhum sonho, nenhuma realidade, apenas momentos.
Os anjos nunca existiram de verdade.
Estão todos perdoados.
Perdoados por tudo o que usaram, roubaram, desperdiçaram;
Perdoados pelas pequenas mentiras, pelas grandes tragédias.
Um dia até me perdoarei pela fé que neles depositei.
12 de jun. de 2015
Liquefeito
O coração,
Aquela criança brincando lá fora com flocos de neve,
Que suavemente caem em suas mãos mornas,
Tão belos, perfeitos,
E logo desaparecem...
O coração,
Aquele tolo, ainda olhando para as mãos
Onde o brilho já não há,
Derreteu-se.
Sentimentos liquefeitos, escorrendo pelos dedos.
O coração,
O que insiste, insiste como as palavras.
Palavras que morrem, ressuscitam, sorriem sem se despedir.
Ele ainda bate no ritmo certo, mesmo após tantos fins:
De fé, de desejo, de luzes, de amor.
A canção suave e triste será ouvida mais uma vez,
E mais outra...
Louvados sejam os que acrescentam beleza
Às inevitáveis e numerosas dores.
Louvada seja a primavera que um dia substituirá o inverno.
Ele aguarda
Este lugar está distante dos velhos palácios,
Aqueles, repletos de nobrezas e fulgores;
Hoje, resumidos a escombros frios e submersos
Por camadas grossas de memórias mortas.
Este lugar, mero pedaço de paraíso e de inferno,
É onde repouso. Trazido por palavras tolas e desperdiçadas,
Mas ao menos, presentes, misericordiosas.
Daqui não vejo o futuro, mas vejo o céu.
Canto em tom suave para não despertar sentimentos ferozes.
O amor permanece quieto em seu sono leve...
Ninguém bate a porta, ninguém chama seu nome,
Mas ele aguarda... aguarda.
É aqui, o coração.
Morno como um lar, enquanto é inverno lá fora.
E não é arredio. Não é morto. Não é descrente.
É vivo, embora seu vazio.
9 de jun. de 2015
Livros em promoção!
Meus livros, à venda no Clube de Autores, estão com 25% de desconto até o dia 12/06/2015.
Adquira o seu! Incentive o trabalho de novos autores!
Disponíveis no link: http://migre.me/qcUBY
Adquira o seu! Incentive o trabalho de novos autores!
Disponíveis no link: http://migre.me/qcUBY
É tarde
Que seria o amor além de uma trégua?
Se as noites já foram portais mágicos para mundos mais belos, que são hoje além de escuridão?
E estes dias, repletos de uma luminosidade falsa,
Onde os coração são vazios, escurecidos, e se digladiam?
Eu já disse que bastariam certas memórias para reavivar o espírito entorpecido de solidões,
Mas as memórias adormecem ao lado de sonhos já tão exaustos.
E as lágrimas caem pelos poemas perdidos por descuido,
Pelo sentimento incapaz de nascer e se manter vivo.
É tarde, os anjos dormem.
E eu começo a aceitar um destino absurdo,
Quando, no fundo, a alma sabe-se tão imensa.
É tarde, há apenas o fiel silêncio, que após cânticos e promessas, permanece, como fiel e não desejado amigo.
É tarde...
Então contenha o olhar inquisidor.
Estamos todos perdidos,
Todos famintos de verdadeiro amor.
Todos famintos de verdadeiro amor.
Assinar:
Postagens (Atom)









