29 de jun. de 2015

Unhas roídas, esperanças milimétricas


A esperança, como as unhas roídas, cresce milímetros por dia.
O suficiente para, como as unhas, ser corroída de novo,
Sendo, em seguida, atiradas ao chão num sopro desdenhoso.
Para isso servem as unhas e a esperança em um homem:
Para serem extirpadas, ocupando as horas vazias da vida que já não reage.

Naquele dezembro, um mês desimportante, unhas e esperanças foram poupadas.
Havia uma direção, mesmo falsa, para os olhos se ludibriarem enquanto o resto passava.
O último suspiro da mais intensa claridade: o amor.
O costumeiro murro da mesma profunda treva: a indiferença.
Depois, o luto cede lugar ao inconformismo crônico; uma dor que é quase um membro.

Quando nada mais houve para provar ou para esperar,
O espírito se rende às suas mesquinhezas:
Libidinoso, carente, sôfrego, exausto.
Seria estúpido continuar depositando lágrimas e flores para velhos mortos;
Nunca mais voltariam, nunca mais vestiriam a mesma forma.

Tempo.

Aprisionamos o tempo em ideias, compromissos, possibilidades, férias, feriados;
Impomos regras a esse labirinto de luz/sombra,
Labirinto sem saída, sem espaço para arrastar sonhos gordos demais.
Pequenos tempos e pequenos sonhos; nos satisfazemos deles, agora que nada faz sentido.
Da mesma forma que nos distraímos com as unhas e com as esperanças milimétricas.

28 de jun. de 2015

Nem sei...


Você nem viu que eu sorri depois que o mundo acabou.
Nem viu que minha crueldade foi maior que a sua.
Que me abandonei além do tanto que me abandonou,
E que eu entendia tudo e chorava de raiva de entender tanto.

E aprendi a esquecer os milagres,
A tirar da pele o pó de luzes que os sonhos deixam.
Como um velho palhaço que ainda sabe mascarar o rosto
De uma felicidade que não sabe mais ter.

E ainda aqui, embarcado em palavras, tantas delas,
Que não levam nada  a lugar nenhum.
Tudo o que se move é um exército cinza de iguais;
Se move em círculos inúteis.

Teria o amor extirpado dos olhos seu pequeno dom?
Ou as pequenas belezas estão adormecidas,
Como manhãs de domingo, agora sem vida?
Nem sei...

26 de jun. de 2015

Sôfrego


E aquele doce, sutil adeus, ainda sussurra em minha mente
Palavra frias como o fio de uma navalha esquecida na neve.
Ainda olho para o amor, o inexistente, e vejo as mesmas antigas formas,
quando era primavera, quando era vivo, e o sol persistia.

Ainda olho para o corpo petrificado de um história incompreensível.
Que dor ainda falta sentir?
Que músculo ainda falta tremer?
Por que depositamos flores em lápides onde não habita nada vivo?

As lembranças cantam como assombrações,
E quem vê meu sorriso, não sabe o que ouço.
Não sabe que meu corpo e espírito ínfimos
Represam sentimentos imensuráveis.

Nenhuma paixão resistiu ao silêncio firme, duro, persistente.
O inacreditável e indiferente silêncio, substituto eterno do fulgor e consolo.
O coração bate estilhaçado, mas sôfrego,
Lutando pelo que se assemelha à uma vida, mas já não é.


24 de jun. de 2015

Vento, sorriso, lágrima


Nem se assemelha, aos velhos e sujos dias,
Este, com o primeiro vento gélido do inverno
Ultrapassando jovial as janelas poeirentas por onde ninguém olha,
Que penso:
Se o amor voltar a existir,
Bem que poderia ser em uma manhã assim.

E não preciso dizer a ninguém,
Nem aos homens, nem aos poetas,
Tudo o que foi sentido e tudo o que se sente,
Ou como o céu é palidamente azul
E o sol abraça como um pai amoroso
Edifícios, pinheiros e torres,
Digo a mim, e por hoje, basta.

Pois que o vento mudou,
E atrás das grades e vidros
Por onde vejo a mesma cidade mesquinha,
Há também distante um fragmento ainda incandescente
Da minha esquecida alma.
Entre ventos, sorrisos e lágrimas digo em silêncio:
Não é que hoje a vida dói de tão bonita?!

Ouro dos tolos


Contidas as velhas e imprestáveis memórias,
A manhã desperta alguma tonelada mais leve.
Já podia varrer para fora
Os restos mortais de esperanças incineradas.

O coração quer acreditar que um ciclo se fechara:
As trezentas noites se despedem,
E junto da luz sóbria da manhã
Reluzem pequenas novas quimeras,
Saltitando livres na cidade fria.

Quimeras frágeis, sem valor, ouros de tolos.
Mas há de fato um suave fôlego a retornar.
Um primeiro gole de ar após longa submersão,
Por mais que a alma
Ainda flutue no mesmo antigo oceano.

23 de jun. de 2015

Livre



Eu costumava me sentir honrado com a sua presença, como se o mero fato de você estar aqui, estar em minha cama ou em meus lábios, fosse uma generosidade grande demais de Deus ou dos deuses para com um espírito tão reles, tão pequeno.
Eu costumava pensar que a vida, num surto de bondade, ofertara-me um empréstimo da mais pura felicidade, sem jamais cobrar de volta, sem acrescentar nenhum juro.
Em um mundo de sete bilhões, apenas você reluzia. Apenas você emanava a beleza e a pureza que se conectava ao âmago mais profundo e imaculado do meu coração.
Naquele domingo frio, após voltar da rodoviária de onde te vi pela última vez, ainda andando nas ruas rápido demais e sem enxergar bem o caminho por conta das lágrimas que embaçavam a visão, eu apenas repetia: "Anjos não existem!". Mas apenas fui entender isso dez meses depois, quando, ainda te amando, tive a óbvia percepção: anjos não são indiferentes.
A alma, este relicário, guarda mais uma cicatriz. Uma cicatriz adornada de memórias tão bonitas que nem parecem terem nascido num mundo tão árido, tão cheio de ódio.
De certa forma, você me disse que eu deveria ser grato pelo amor que recebi... E eu fui enquanto e se ele existia reciprocamente.
Já odiei esse amor, o que é bem irônico, já senti a falta dele como se o oxigênio do universo desaparecesse para sempre, já desejei nunca ter olhado em tais olhos, já tentei amar outra vez.
O que restou é uma canção distante, que toca ininterruptamente, mas cujas palavras já não sou capaz de entender.
O que quer que eu tenha amado, não existe mais. Existe a sua forma, os seus hábitos, a sua rotina, os seus gostos, mas nada mais daquilo que se mostrava existir há um ano.
Se ponho em palavra, sem medo, algo tão pessoal, é por saber que o campo dos sentimentos é tão íntimo, tão próprio e oculto, que nem seu possuidor tem permissão de deixar que nele adentrem ou dele saiam.
Digo porque apenas as palavras permanecem imutáveis, e através delas registro, ainda que apenas para mim mesmo, minha libertação.
Talvez, o que doeu um dia, doerá para sempre.
Talvez, o que amei um dia, amarei para sempre.
Mas hoje, ao menos hoje talvez, estou livre.

21 de jun. de 2015

Sobre a dinastia de sonhos


Quase não me reconheci ao não ter abraçada em mim a mesma velha ausência de todos os dias.
O que ainda resta para dar despedida, dizer adeus?
É hoje o início do inverno, os primeiros dias da promessa que não será cumprida, como nenhuma promessa é.
Essa falsa ideia de continuidade é o que nos destrói aos poucos...
E se eles estiverem certos?
E se tudo não passar de momentos?
E se o sentimento for apenas um grande e oco trapézio que construímos  de ilusão colorida para subirmos e vermos uns metros acima de nós mesmos?
Boas memórias e más memórias guardadas em compartimentos separados...
Meu problema foi não saber em qual caixa guardar certos instantes.

Meu jardim ainda está lá, e eu sei de todas suas flores.
Sei das roseiras que já perderam suas folhas e flores para o outono, e agora dormem esperando a primavera.
Mesmo sem ninguém derramar o olhar sobre todos os pequenos milagres, eles permanecem lá...
Como em mim permanece inviolável uma esperança maior, mais fina e lapidada.
Eu sei que chegará o dia em que não haverá a necessidade de entregá-la a ninguém, mas reconhecer que ela já repousa no único lugar que deve repousar: dentro de mim.
Será um dia de tristeza, paz, alívio.
Ver a realidade sem projeções externas, perspectivas externas, pode ser o fim de uma longa dinastia de sonhos, mas o início da capacidade de enxergar o que de fato existe.

15 de jun. de 2015

Lá vai a vida


Tem vez que penso que a vida é uma coisa tão torta, sem jeito, mal-terminada, que nem vale a pena o tanto que a gente sofre por ela.
Ela dói. Dói pela menina violentada. Apenas um número somado à estatística.
Uma dor funda, fria, afiada, que nunca sairá dali de dentro dela, e nunca ninguém verá por completo.
Dói pelo menino agredido, pela sua existência assaltada tão cedo, de forma cruel, fanática, apenas por ele gostar de menino também.
Dói porque a gente não vê a dor do outro, e por não ver, finge que ela não existe, e por fingir, acaba acreditando que o outro não sofre.
Dói porque no fundo ninguém consegue ver a nossa dor também. Ela é só nossa.
Mas tem vez que a chuva cai no cinza frio da tarde, e o cheiro do chão se molhando tira um sorriso. Ele vai penetrando pelas narinas, pela pele, saindo pelas mãos.... E eu agradeço, como se isso fosse um afago de Deus numa Terra de Homens sem poesia alguma no coração.
Também tem aquelas vezes que alguém diz: "Vi uma borboleta amarela, lembrei de você." e essa frasezinha aquece a alma já quase acostumada a um inverno constante e rigoroso.
E eu me pergunto se estamos no lugar certo, ou se essa sacana da vida está nos testando: "Quero ver até onde tu aguenta! Te mexe!".
E eu não sei... Nem se é certo aguentar, continuar vendo o milagre que reside nas coisas ínfimas e rezando para o mundo não desabar, ou se é preciso pegar a primeira chance e partir. Partir de tudo: dos sonhos velhos, das ruas velhas, dos rostos que escondem almas velhas.
Enquanto isso a vida passa... Lá vai a vida.

14 de jun. de 2015

Nenhum anjo


É inútil questionar se o paraíso ainda está povoado o suficiente.
Serafins de seis asas ao lado de Deus,
Arcanjos e suas espadas e bravuras,
Querubins com sua doçura.

Ainda olho para as estrelas da sarjeta
De onde me despedi do Amor,
Envolto em uma esperança fina demais
Para espantar o menor dos frios.

É inútil a mágoa pelos anjos que desistiram de mim,
Embora suas promessas e sorrisos e olhares.
Nenhum sonho, nenhuma realidade, apenas momentos.
Os anjos nunca existiram de verdade.

Estão todos perdoados.
Perdoados por tudo o que usaram, roubaram, desperdiçaram;
Perdoados pelas pequenas mentiras, pelas grandes tragédias.
Um dia até me perdoarei pela fé que neles depositei.


12 de jun. de 2015

Liquefeito


O coração,
Aquela criança brincando lá fora com flocos de neve,
Que suavemente caem em suas mãos mornas,
Tão belos, perfeitos,
E logo desaparecem...

O coração,
Aquele tolo, ainda olhando para as mãos
Onde o brilho já não há,
Derreteu-se.
Sentimentos liquefeitos, escorrendo pelos dedos.

O coração,
O que insiste, insiste como as palavras.
Palavras que morrem, ressuscitam, sorriem sem se despedir.
Ele ainda bate no ritmo certo, mesmo após tantos fins:
De fé, de desejo, de luzes, de amor.

A canção suave e triste será ouvida mais uma vez,
E mais outra...
Louvados sejam os que acrescentam beleza
Às inevitáveis e numerosas dores.
Louvada seja a primavera que um dia substituirá o inverno.

Ele aguarda



Este lugar está distante dos velhos palácios,
Aqueles, repletos de nobrezas e fulgores;
Hoje, resumidos a escombros frios e submersos
Por camadas grossas de memórias mortas.

Este lugar, mero pedaço de paraíso e de inferno,
É onde repouso. Trazido por palavras tolas e desperdiçadas,
Mas ao menos, presentes, misericordiosas.
Daqui não vejo o futuro, mas vejo o céu.

Canto em tom suave para não despertar sentimentos ferozes.
O amor permanece quieto em seu sono leve...
Ninguém bate a porta, ninguém chama seu nome,
Mas ele aguarda... aguarda.

É aqui, o coração.
Morno como um lar, enquanto é inverno lá fora.
E não é arredio. Não é morto. Não é descrente.
É vivo, embora seu vazio.


9 de jun. de 2015

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É tarde


Que seria o amor além de uma trégua? 
Se as noites já foram portais mágicos para mundos mais belos, que são hoje além de escuridão? 
E estes dias, repletos de uma luminosidade falsa,
Onde os coração são vazios, escurecidos, e se digladiam? 
Eu já disse que bastariam certas memórias para reavivar o espírito entorpecido de solidões, 
Mas as memórias adormecem ao lado de sonhos já tão exaustos. 
E as lágrimas caem pelos poemas perdidos por descuido, 
Pelo sentimento incapaz de nascer e se manter vivo.
É tarde, os anjos dormem.
E eu começo a aceitar um destino absurdo, 
Quando, no fundo, a alma sabe-se tão imensa. 
É tarde, há apenas o fiel silêncio, que após cânticos e promessas, permanece, como fiel e não desejado amigo.
É tarde...
Então contenha o olhar inquisidor.
Estamos todos perdidos, 
Todos famintos de verdadeiro amor.
Todos famintos de verdadeiro amor.

5 de jun. de 2015

Outra vez


Talvez viéssemos de um tempo onde era impossível sentir lucidamente.
Mas eu e quem?
De qual tempo?

A verdade das coisas estavam em sua superfície,
A superfície morna e navegável,
Ou na profundidade fria e escura?

As roseiras estão fracas, é verdade.
É só o inverno, outra vez, o inverno.
E apenas eu vejo sua tristeza e alegria.

Onde está a lógica em amar um diamante impenetrável?
Valioso, insensível?
Onde está a lógica em amar?

4 de jun. de 2015

Eu serei o amor


Quando minha voz se calar, 
Eu ainda falarei do amor.
Quando minhas pernas perderem a força, 
Eu ainda caminharei em direção ao amor.
Quando o meu sangue secar, 
Meu coração ainda baterá pelo amor.
Quando minha esperança morrer,
Eu ainda esperarei pelo amor.
Quando meus ouvidos forem surdos,
Eu ainda ouvirei canções de amor.
Quando minha fé se tornar fel,
Meus lábios ainda serão doces para o amor.
Quando o amor me provar não existir,
Eu serei o amor.

1 de jun. de 2015

Valsa


Poderia ao menos uma noite se deitar ao nosso redor?
Deitar enquanto estamos vivos, de sangue quente e bem vermelho
Regando o solo onde frutificam paixões que jamais deveriam morrer.

Há um vale de olhares ao lado de um vale de memórias.
Tudo sem vida, estático, envolto na espessa bruma branca,
Macia e fria.
E o passado me chama por outra faces, outros nomes.

O mais cruel e belo dos fantasmas também sorriu ao meu sorriso,
E quase as portas do paraíso dentro de mim
Sentem mãos outra vez lhe acariciarem.
Mas não há nenhum milagre para consertar as ruínas.

A vida e a morte, a chegada e a despedia
Dançam sua valsa doentia de amor e ódio.
E eu assisto complacente,
como se não fosse eu todos esses personagens.

29 de mai. de 2015

Lado escuro da lua


Será o seu, entre todos os corações,
O primeiro a jamais olhar para trás?
Seria a sua voz, entre as centenas de ruídos que não cessam,
A única jamais lembrada outra vez?

A eternidade caminha com seus passos meigos.
Os dias surgem com o sol, um atrás do outro...
Frios, quentes, felizes, desesperadores.
Mas o amor nunca mais provou outra vez ser real.

Aqui estão minhas mesmas mãos,
Meu mesmo coração,.
E o espírito que ainda sonha poder voar na noite estrelada
É o mesmo se emocionando em silêncio ao sol poente.

Mas agora há esse sentimento onde a claridade se perde.
Eu não sei dos culpados.
Agora que a esperança, enfim, jaz sem vida,
Aceito ser outra vez o lado escuro da lua.

O lado onde não há calor ou brilho,
Mas apenas memórias.
Memórias de uma claridade transitória,
De um tempo talvez nunca vivido de fato, mas tão amado.

20 de mai. de 2015

Não há


Em algumas manhãs, é como se você ainda existisse.
É como se o sol pudesse emanar uma faísca da sua luminosidade,
Ou da luminosidade que meus olhos viam em você.

Em algumas manhãs, é como se um dia você tivesse existido,
E não fosse apenas um sonho esculpido por anjos inexistentes.
Um sonho tão oposto ao pesadelo das madrugadas.

Tudo em você era macio:
A pele, os lábios, a voz, o olhar.
Nos pesadelos, tudo em você é duro, frio,
Como um desmoronamento.

Mas não há você,
Nem nos sonhos gentis, nem nos pesadelos malignos.
"Nunca houve você."
Repetirei até acreditar.

18 de mai. de 2015

Voz da quimera


Nunca foram poemas, versos, canções:
Só segundos da eternidade em palavras ilegíveis.
A sempre frustrada tentativa de aprisionar a beleza,
A beleza que se esvai como fina areia na ampulheta.
A sempre arrogante tentativa de se libertar da dor,
A dor cujo antídoto nunca será teorias impossíveis de serem provadas.

Eu te mostro minhas asas imensas,
Em chamas escarlates, em movimentos insanos.
Você olha para minhas raízes já apodrecidas,
Mas ainda tão firmes no solo.
E esta é a última chance, como todas as anteriores
Também foram as últimas.

Mas há algo novo abaixo do mesmo sol,
E não é o vento de inverno que lambe minha face amarga.
Não há paixão pela sombra que confundiu meus passos,
Ou pela claridade que queimou meus olhos. Não há paixão.
Há o espírito em cinzas,
Talvez finalmente sendo levado pelo vento.

8 de mai. de 2015

Da lágrima e do vento


A ilusão é o cadáver atirado ao oceano.
Aquele, com os ossos já corroídos pelo frio,
Pela pressão, pelo sal.
E eu agradeço, enfim, o seu fim.
Sem a luz nos olhos, enxergo o que há.

Por isso os dias são poemas.
Não longos romances, histórias sem fim;
Mas relâmpagos de tempo,
Clarões momentâneos,
Queimando indóceis no fundo da alma.

O sentimento é o amor da lágrima e do vento.
Se desfazem enquanto se tocam.
Até não escorrer mais, não ventar mais.
Estrelas já não são anjos em vigília,
Apenas fragmentos mortos de luminosas memórias.

Perdoa-me: é isto. Mesmo só isto.
Um âmago de feras e flores,
Preso por mãos que já foram instrumento de felicidade,
Mas hoje repousam frias
Sobre o colo igualmente frio.

Ainda assim, os sonhos distantes sussurram que não tarda a alvorada.
Chegará o dia da claridade solar
Inflamar outra vez o peito inerte.
Por enquanto, abraço o inverno já presente,
O silêncio que nunca silencia.



4 de mai. de 2015

TEMPOS INVERSOS



Quem me dera estas fossem apenas palavras...
Palavras leves, gastas ao léu, em tardes mornas de domingo.
Mas não: oferecer um poema, um verso que seja, é oferecer um pedaço de alma que não cabe mais dentro do corpo.
Todo poema é uma dor, uma despedida, mesmo os felizes.
Todo poema é de Amor. É para o Amor.
Pois o Amor em tudo está, em tudo reside.
Em silêncio, em lentas lágrimas compostas dos mais diversos e possíveis sentimentos, trago à tona "TEMPOS INVERSOS", meu sétimo livro.
Em uma alegoria, colocaria o eu-lirico destas páginas como um peregrino em terra assolada por estiagem. Um viajor que já conheceu verdes prados, mas no instante, sente a areia quente nos pés feridos, enquanto olha com esperança nuvens esparsas no céu.
O tempo já não importa. O tempo não registra nas areias a história de um homem qualquer. O tempo se tornara as próprias areias.
Areias que se movem sempre, que mudam o horizonte sempre, mas nunca deixam de compor o mesmo deserto.

https://www.clubedeautores.com.br/book/186031--Tempos_Inversos#.VUhobo5Viko

1 de mai. de 2015

Meninice


Quem fica é quem sofre, ce sabe bem.
Os poeta tão tudo sempre certo,
Meu bem.

Perdoa o menino, seu moço.
Ele não sabe dos poco,
Tudo pra ele é muito.

Beleza demais faz o olho virar riacho,
Dor demais faz o coração não 
Lembrar dos paço da dança.

Deixa o menino sorrir, seu moço.
Perdoa os medo dele, 
Perdoa os sofrer dele.

Joga luz nos caminho do menino, seu moço.
Que há coisa boa pra crescer nesse chão,
Até flor pode se que se dê.

Deixa o menino sonhar com os vento no rosto,
Com o amor como encosto,
Com domingo sempre de sol.

Deixa o menino desejar a felicidade,
Temer o desamparo, querer abraço.
Acolhe o seu menino de dentro, seu moço,
Só assim ce vai saber como se home também.

Auge de outono


Deixarei passos nas ruas
Em busca das memórias que gravarei em luz.
Preciso imortalizar rosas vermelhas,
Eternizar sóis poentes em céus de ametista.

O calor das chamas do mundo também fere minha alma,
Amolece e fragiliza sentimentos ancestrais.
Sentimentos que se supunham sólidos, imaculáveis.
Os olhos jazem casados perante às misérias humanas.

E quase me esqueço dos dias sem distância,
Como aquele em que numa manhã, ao lado do Belo,
Caminhava pela perfumada feira, pelo antigo bosque.
Quase me esqueço do velejar do coração, hoje afogado.

Mas neste auge de outono, 
Há a brisa fresca, a luz macia no salgueiro, a borboleta amarela...
...e eu sorrindo, 
Lembrando da fé, minúscula e sempre existente.

28 de abr. de 2015

Tempos Inversos - Lançamento 05/05/2015


Olá, amigos.
Usarei algumas linhas para falar sobre meu novo livro de poemas: "Tempos Inversos".
Acredito que, de alguma forma, toda expressão artística, explicitamente ou implicitamente, documenta seu tempo. Por mais que através da arte possamos velejar pelas eras, pelas lembranças, pelos estados de espírito, pelo futuro, provavelmente, ao mesmo tempo, estamos narrando aquilo que nos acomete no instante da criação.
Apesar disso, "Tempos Inversos" não tem a intenção de narrar uma passagem de vida, ou apenas um estado de espírito.
"Tempos Inversos" é uma inquietação.
O livro retrata um momento em que o próprio tempo se confunde. Vive-se como que em uma realidade paralela, vendo tudo por um reflexo. Não é uma mentira e não é uma verdade.
Estão presentes ali a busca e a perda do amor, a busca e a perda do sentido, o olhar de frente para estas forças antagônicas.
Há a dor, incompreensível e indescritível, ao não mais vislumbrar um campo de sonhos, e há a inocência de voltar a sorrir com o sol poente, com o perfume da noite, com o abraço macio.
Suas páginas podem estar impregnadas do peso que é não sustentar mais a fé em algo verdadeiramente bom... mas são apenas tempos inversos, por um outro lado, o coração é mais forte e crente do que jamais fora um dia.

"Tempos Inversos" será lançado Online pelo Clube de Autores (www.clubedeautores.com.br), no dia 05/05/2015, editora com a qual já trabalho há 4 anos e que sempre ofereceu grande profissionalismo e qualidade.

Agradeço profundamente a presença dos leitores do meu blog "Aventuras Internas", e os convido para adquirirem este novo trabalho que foi feito com grande amor e dedicação em seus mínimos detalhes.
Meu muito obrigado!
A paz a todos!





Já disponível em: https://www.clubedeautores.com.br/book/186031--Tempos_Inversos#.VUhobo5Viko

10 de abr. de 2015

Contrário


Me abandonei naquele dia,
Naquele ano passado,
Naquele início de inverno.
O que quer que houvesse de santo,
Puro,
Sagrado,
Deitou-se à lama, ao sangue fervente.
É muito adeus, meu Deus!
Muito adeus para mãos que sabem acariciar,
Mas não sabem dar despedida.

Tudo o que restou é o que não há.
É um rio calmo feito de silêncio,
O escuro amedrontador da mata fechada,
A fome, a sede, a ânsia.
Tudo o que restou é contrário a mim,
É o contrário de mim.
Um ator coadjuvante,
Um personagem sujo,
Desimportante,

Inconvincente. 

6 de abr. de 2015

Pandemonium


Os pensamentos se digladiam.
O silêncio, sagrado, desvia de homens impuros como eu.
Os estrondos jorram dos desejos, das ânsias, das memórias;
Do sabor inigualável dos lábios, da pele quente, da penumbra.

Apenas há calmaria em meio ao absoluto caos.
Quando todos sentimentos e sentidos entram em êxtase,
E a profusão insana de corpos e almas supera a poderosa razão:
Há paz.

O espírito, uma fera faminta em noite tempestuosa,
Adormece enfim, saciado de suculentas quimeras.
Uma breve trégua na dura luta,
Uma brisa morna numa terra presa em constante inverno. 

Que há de real neste vale de enganos?
Será emitida algum dia uma voz celestial?
Bastam as migalhas de claridade
Para guiar o coração cansado de labirintos?

3 de abr. de 2015

Dias de Paixão


Quem mais percebe o perfume triste que paira no ar?
Quem mais percebe que, embora seja uma tarde de céu sem nuvens,
Não há claridade.
Não há quem sorria na vazia cidade.

Bom Deus, o menino foi morto na cruz!
Bom Deus, o menino foi morto no morro!
E de que servem as lágrimas que secam
Antes de chegarem ao fim da face?

Eles falam de uma revolução se aproximando,
Mas não ouvimos nenhum sussurro.
Estamos mesmo lutando por algo
Ou apenas desejamos que alguém nos ame?

Bom Deus, os Dias de Paixão não se findarão?
Quantas mães ainda chorando sobre matéria inerte?
Onde estará a fonte de Água Pura?
Só bebemos de fontes contaminadas de indiferença.

Não há valas suficientes para tantos sonhos não sepultados,
Tantos sonhos assassinados antes de florescerem.
De que serve correr de um desespero para outro?
Mas ainda falam em uma revolução...

1 de abr. de 2015

Cheiro de chuva


Quando olhei para as nuvens vermelhas
Paradas num céu doloridamente azul
Embaixo do velho ipê
Que em um dia de fevereiro
Uma tempestade partiu um galho
E o fez florir
Num tempo em que o amor ainda aquecia
Eu apenas desejei 
Naquele instante
Sentir o cheiro da chuva
E pedi a quem quer que estivesse além daquele céu
Que matasse meu coração de homem
E devolvesse meu coração de menino.

Porque um dia eu acreditei que o mundo era mágico
E por acreditar, ele era.
Um dia acreditei no fim da dor
E por acreditar, ela se findou.
Mas agora a súplica é pelo desacreditar, 
É pelo desconhecer.
A chuva que anseio não é a que vem do alto,
Mas a que escorrerá de dentro para fora de mim,
Eu quero o fim.
Quero tudo levado através das janelas da alma,
Para longe.
Até que apenas haja o nada,
E que do nada eu nasça outra vez.