5 de jun. de 2015

Outra vez


Talvez viéssemos de um tempo onde era impossível sentir lucidamente.
Mas eu e quem?
De qual tempo?

A verdade das coisas estavam em sua superfície,
A superfície morna e navegável,
Ou na profundidade fria e escura?

As roseiras estão fracas, é verdade.
É só o inverno, outra vez, o inverno.
E apenas eu vejo sua tristeza e alegria.

Onde está a lógica em amar um diamante impenetrável?
Valioso, insensível?
Onde está a lógica em amar?

4 de jun. de 2015

Eu serei o amor


Quando minha voz se calar, 
Eu ainda falarei do amor.
Quando minhas pernas perderem a força, 
Eu ainda caminharei em direção ao amor.
Quando o meu sangue secar, 
Meu coração ainda baterá pelo amor.
Quando minha esperança morrer,
Eu ainda esperarei pelo amor.
Quando meus ouvidos forem surdos,
Eu ainda ouvirei canções de amor.
Quando minha fé se tornar fel,
Meus lábios ainda serão doces para o amor.
Quando o amor me provar não existir,
Eu serei o amor.

1 de jun. de 2015

Valsa


Poderia ao menos uma noite se deitar ao nosso redor?
Deitar enquanto estamos vivos, de sangue quente e bem vermelho
Regando o solo onde frutificam paixões que jamais deveriam morrer.

Há um vale de olhares ao lado de um vale de memórias.
Tudo sem vida, estático, envolto na espessa bruma branca,
Macia e fria.
E o passado me chama por outra faces, outros nomes.

O mais cruel e belo dos fantasmas também sorriu ao meu sorriso,
E quase as portas do paraíso dentro de mim
Sentem mãos outra vez lhe acariciarem.
Mas não há nenhum milagre para consertar as ruínas.

A vida e a morte, a chegada e a despedia
Dançam sua valsa doentia de amor e ódio.
E eu assisto complacente,
como se não fosse eu todos esses personagens.

29 de mai. de 2015

Lado escuro da lua


Será o seu, entre todos os corações,
O primeiro a jamais olhar para trás?
Seria a sua voz, entre as centenas de ruídos que não cessam,
A única jamais lembrada outra vez?

A eternidade caminha com seus passos meigos.
Os dias surgem com o sol, um atrás do outro...
Frios, quentes, felizes, desesperadores.
Mas o amor nunca mais provou outra vez ser real.

Aqui estão minhas mesmas mãos,
Meu mesmo coração,.
E o espírito que ainda sonha poder voar na noite estrelada
É o mesmo se emocionando em silêncio ao sol poente.

Mas agora há esse sentimento onde a claridade se perde.
Eu não sei dos culpados.
Agora que a esperança, enfim, jaz sem vida,
Aceito ser outra vez o lado escuro da lua.

O lado onde não há calor ou brilho,
Mas apenas memórias.
Memórias de uma claridade transitória,
De um tempo talvez nunca vivido de fato, mas tão amado.

20 de mai. de 2015

Não há


Em algumas manhãs, é como se você ainda existisse.
É como se o sol pudesse emanar uma faísca da sua luminosidade,
Ou da luminosidade que meus olhos viam em você.

Em algumas manhãs, é como se um dia você tivesse existido,
E não fosse apenas um sonho esculpido por anjos inexistentes.
Um sonho tão oposto ao pesadelo das madrugadas.

Tudo em você era macio:
A pele, os lábios, a voz, o olhar.
Nos pesadelos, tudo em você é duro, frio,
Como um desmoronamento.

Mas não há você,
Nem nos sonhos gentis, nem nos pesadelos malignos.
"Nunca houve você."
Repetirei até acreditar.

18 de mai. de 2015

Voz da quimera


Nunca foram poemas, versos, canções:
Só segundos da eternidade em palavras ilegíveis.
A sempre frustrada tentativa de aprisionar a beleza,
A beleza que se esvai como fina areia na ampulheta.
A sempre arrogante tentativa de se libertar da dor,
A dor cujo antídoto nunca será teorias impossíveis de serem provadas.

Eu te mostro minhas asas imensas,
Em chamas escarlates, em movimentos insanos.
Você olha para minhas raízes já apodrecidas,
Mas ainda tão firmes no solo.
E esta é a última chance, como todas as anteriores
Também foram as últimas.

Mas há algo novo abaixo do mesmo sol,
E não é o vento de inverno que lambe minha face amarga.
Não há paixão pela sombra que confundiu meus passos,
Ou pela claridade que queimou meus olhos. Não há paixão.
Há o espírito em cinzas,
Talvez finalmente sendo levado pelo vento.

8 de mai. de 2015

Da lágrima e do vento


A ilusão é o cadáver atirado ao oceano.
Aquele, com os ossos já corroídos pelo frio,
Pela pressão, pelo sal.
E eu agradeço, enfim, o seu fim.
Sem a luz nos olhos, enxergo o que há.

Por isso os dias são poemas.
Não longos romances, histórias sem fim;
Mas relâmpagos de tempo,
Clarões momentâneos,
Queimando indóceis no fundo da alma.

O sentimento é o amor da lágrima e do vento.
Se desfazem enquanto se tocam.
Até não escorrer mais, não ventar mais.
Estrelas já não são anjos em vigília,
Apenas fragmentos mortos de luminosas memórias.

Perdoa-me: é isto. Mesmo só isto.
Um âmago de feras e flores,
Preso por mãos que já foram instrumento de felicidade,
Mas hoje repousam frias
Sobre o colo igualmente frio.

Ainda assim, os sonhos distantes sussurram que não tarda a alvorada.
Chegará o dia da claridade solar
Inflamar outra vez o peito inerte.
Por enquanto, abraço o inverno já presente,
O silêncio que nunca silencia.



4 de mai. de 2015

TEMPOS INVERSOS



Quem me dera estas fossem apenas palavras...
Palavras leves, gastas ao léu, em tardes mornas de domingo.
Mas não: oferecer um poema, um verso que seja, é oferecer um pedaço de alma que não cabe mais dentro do corpo.
Todo poema é uma dor, uma despedida, mesmo os felizes.
Todo poema é de Amor. É para o Amor.
Pois o Amor em tudo está, em tudo reside.
Em silêncio, em lentas lágrimas compostas dos mais diversos e possíveis sentimentos, trago à tona "TEMPOS INVERSOS", meu sétimo livro.
Em uma alegoria, colocaria o eu-lirico destas páginas como um peregrino em terra assolada por estiagem. Um viajor que já conheceu verdes prados, mas no instante, sente a areia quente nos pés feridos, enquanto olha com esperança nuvens esparsas no céu.
O tempo já não importa. O tempo não registra nas areias a história de um homem qualquer. O tempo se tornara as próprias areias.
Areias que se movem sempre, que mudam o horizonte sempre, mas nunca deixam de compor o mesmo deserto.

https://www.clubedeautores.com.br/book/186031--Tempos_Inversos#.VUhobo5Viko

1 de mai. de 2015

Meninice


Quem fica é quem sofre, ce sabe bem.
Os poeta tão tudo sempre certo,
Meu bem.

Perdoa o menino, seu moço.
Ele não sabe dos poco,
Tudo pra ele é muito.

Beleza demais faz o olho virar riacho,
Dor demais faz o coração não 
Lembrar dos paço da dança.

Deixa o menino sorrir, seu moço.
Perdoa os medo dele, 
Perdoa os sofrer dele.

Joga luz nos caminho do menino, seu moço.
Que há coisa boa pra crescer nesse chão,
Até flor pode se que se dê.

Deixa o menino sonhar com os vento no rosto,
Com o amor como encosto,
Com domingo sempre de sol.

Deixa o menino desejar a felicidade,
Temer o desamparo, querer abraço.
Acolhe o seu menino de dentro, seu moço,
Só assim ce vai saber como se home também.

Auge de outono


Deixarei passos nas ruas
Em busca das memórias que gravarei em luz.
Preciso imortalizar rosas vermelhas,
Eternizar sóis poentes em céus de ametista.

O calor das chamas do mundo também fere minha alma,
Amolece e fragiliza sentimentos ancestrais.
Sentimentos que se supunham sólidos, imaculáveis.
Os olhos jazem casados perante às misérias humanas.

E quase me esqueço dos dias sem distância,
Como aquele em que numa manhã, ao lado do Belo,
Caminhava pela perfumada feira, pelo antigo bosque.
Quase me esqueço do velejar do coração, hoje afogado.

Mas neste auge de outono, 
Há a brisa fresca, a luz macia no salgueiro, a borboleta amarela...
...e eu sorrindo, 
Lembrando da fé, minúscula e sempre existente.

28 de abr. de 2015

Tempos Inversos - Lançamento 05/05/2015


Olá, amigos.
Usarei algumas linhas para falar sobre meu novo livro de poemas: "Tempos Inversos".
Acredito que, de alguma forma, toda expressão artística, explicitamente ou implicitamente, documenta seu tempo. Por mais que através da arte possamos velejar pelas eras, pelas lembranças, pelos estados de espírito, pelo futuro, provavelmente, ao mesmo tempo, estamos narrando aquilo que nos acomete no instante da criação.
Apesar disso, "Tempos Inversos" não tem a intenção de narrar uma passagem de vida, ou apenas um estado de espírito.
"Tempos Inversos" é uma inquietação.
O livro retrata um momento em que o próprio tempo se confunde. Vive-se como que em uma realidade paralela, vendo tudo por um reflexo. Não é uma mentira e não é uma verdade.
Estão presentes ali a busca e a perda do amor, a busca e a perda do sentido, o olhar de frente para estas forças antagônicas.
Há a dor, incompreensível e indescritível, ao não mais vislumbrar um campo de sonhos, e há a inocência de voltar a sorrir com o sol poente, com o perfume da noite, com o abraço macio.
Suas páginas podem estar impregnadas do peso que é não sustentar mais a fé em algo verdadeiramente bom... mas são apenas tempos inversos, por um outro lado, o coração é mais forte e crente do que jamais fora um dia.

"Tempos Inversos" será lançado Online pelo Clube de Autores (www.clubedeautores.com.br), no dia 05/05/2015, editora com a qual já trabalho há 4 anos e que sempre ofereceu grande profissionalismo e qualidade.

Agradeço profundamente a presença dos leitores do meu blog "Aventuras Internas", e os convido para adquirirem este novo trabalho que foi feito com grande amor e dedicação em seus mínimos detalhes.
Meu muito obrigado!
A paz a todos!





Já disponível em: https://www.clubedeautores.com.br/book/186031--Tempos_Inversos#.VUhobo5Viko

10 de abr. de 2015

Contrário


Me abandonei naquele dia,
Naquele ano passado,
Naquele início de inverno.
O que quer que houvesse de santo,
Puro,
Sagrado,
Deitou-se à lama, ao sangue fervente.
É muito adeus, meu Deus!
Muito adeus para mãos que sabem acariciar,
Mas não sabem dar despedida.

Tudo o que restou é o que não há.
É um rio calmo feito de silêncio,
O escuro amedrontador da mata fechada,
A fome, a sede, a ânsia.
Tudo o que restou é contrário a mim,
É o contrário de mim.
Um ator coadjuvante,
Um personagem sujo,
Desimportante,

Inconvincente. 

6 de abr. de 2015

Pandemonium


Os pensamentos se digladiam.
O silêncio, sagrado, desvia de homens impuros como eu.
Os estrondos jorram dos desejos, das ânsias, das memórias;
Do sabor inigualável dos lábios, da pele quente, da penumbra.

Apenas há calmaria em meio ao absoluto caos.
Quando todos sentimentos e sentidos entram em êxtase,
E a profusão insana de corpos e almas supera a poderosa razão:
Há paz.

O espírito, uma fera faminta em noite tempestuosa,
Adormece enfim, saciado de suculentas quimeras.
Uma breve trégua na dura luta,
Uma brisa morna numa terra presa em constante inverno. 

Que há de real neste vale de enganos?
Será emitida algum dia uma voz celestial?
Bastam as migalhas de claridade
Para guiar o coração cansado de labirintos?

3 de abr. de 2015

Dias de Paixão


Quem mais percebe o perfume triste que paira no ar?
Quem mais percebe que, embora seja uma tarde de céu sem nuvens,
Não há claridade.
Não há quem sorria na vazia cidade.

Bom Deus, o menino foi morto na cruz!
Bom Deus, o menino foi morto no morro!
E de que servem as lágrimas que secam
Antes de chegarem ao fim da face?

Eles falam de uma revolução se aproximando,
Mas não ouvimos nenhum sussurro.
Estamos mesmo lutando por algo
Ou apenas desejamos que alguém nos ame?

Bom Deus, os Dias de Paixão não se findarão?
Quantas mães ainda chorando sobre matéria inerte?
Onde estará a fonte de Água Pura?
Só bebemos de fontes contaminadas de indiferença.

Não há valas suficientes para tantos sonhos não sepultados,
Tantos sonhos assassinados antes de florescerem.
De que serve correr de um desespero para outro?
Mas ainda falam em uma revolução...

1 de abr. de 2015

Cheiro de chuva


Quando olhei para as nuvens vermelhas
Paradas num céu doloridamente azul
Embaixo do velho ipê
Que em um dia de fevereiro
Uma tempestade partiu um galho
E o fez florir
Num tempo em que o amor ainda aquecia
Eu apenas desejei 
Naquele instante
Sentir o cheiro da chuva
E pedi a quem quer que estivesse além daquele céu
Que matasse meu coração de homem
E devolvesse meu coração de menino.

Porque um dia eu acreditei que o mundo era mágico
E por acreditar, ele era.
Um dia acreditei no fim da dor
E por acreditar, ela se findou.
Mas agora a súplica é pelo desacreditar, 
É pelo desconhecer.
A chuva que anseio não é a que vem do alto,
Mas a que escorrerá de dentro para fora de mim,
Eu quero o fim.
Quero tudo levado através das janelas da alma,
Para longe.
Até que apenas haja o nada,
E que do nada eu nasça outra vez.

31 de mar. de 2015

Uma alma


Não está tão fundo o que pode ser bom,
mas minhas mãos já são doentes,
Elas não podem mais cavar o solo duro.

Não estão tão escondidos os tesouros,
mas meus olhos já estão cansados,
Eles não podem mais ver o que reluz.

Não falta muito para o amanhecer,
mas a alma ainda treme de frio e medo,
Ela não pode esperar outra noite em silêncio.

Mas eu ainda me lembro daquela sensação
De haver outras mãos, outros olhos, outra alma.
Eu me bastava quando eu não era tudo.

Ainda lembro daquela oração, daquela imagem
Que clareava qualquer pesadelo;
Que afastava de mim o que não quero ser.

É necessário insistir nos últimos versos,
Pois a realidade se aproxima veloz...
Será preciso um dia se provar que já houve vida.

Sumidouro


Bastaria a delicadeza do brilho da primeira estrela da noite,
Ou o perfume da atmosfera limpa após a tempestade
Para fazer parar de girar este punhal dentro de mim?

Nenhum torpor, nenhuma reluzente e veloz ilusão;
Como estrelas ascendentes que nunca mais serão vistas;
Irão devolver o solo onde antes sonhos saltitavam.

E não ofereço rosas que crescem no velho jardim da alma,
O que quer que tenha levado todas as claridades,
Levou também todas as flores.

Toda Beleza é um lamento; todo lamento, um cansaço.
E tudo é tragado pela feia ferida do espírito,
Faminta ferida.

Quem dera devorasse memórias e desejos também.
Quem dera não tivesse existido o dia em que pisei no paraíso.
Quem dera algo verdadeiro sobrevivesse ao sumidouro dos dias.

21 de mar. de 2015

Claridade


Os olhos ainda nublam ao lembrar da claridade.
Aquela claridade que um dia pude emanar,
Que um dia pude enxergar,
Que um dia existiu. 

Sei que este coração não nasceu para a paz,
Mas para sentir o sabor do próprio sangue
Ao cultivar rosas ignoradas.
Rosas que dele nascem e nele morrem.

As luzes não se apagaram.
A claridade ainda viaja universo adentro,
Como o epitáfio de uma estrela morta;
Apenas não será outra vez vista.

Mas ainda há algo além da frágil carne.
O Amor devorou todos os sonhos,
Até mesmo a paixão.
Mas a esperança, pequena e insípida, passou despercebida.

O espírito ainda veleja por seus mares de infância.
Não faz mal lembrar dos dias em que o sol sorria.
Continuo lua mansa, sem luz própria;
Girando ao redor do que nunca tocarei. 


20 de mar. de 2015

Cidade fantasma


Não quero que evanesçam as memórias
Daquele passeio num vale de estrelas;
Da minha alma entorpecida de utopias,
E meu coração frágil como pétalas.

O que foi conquistado e o que foi perdido para sempre?

Ainda sonho com luzes de natal, iguais daqueles que me comoviam.
Ainda percorro as ruas sujas de uma cidade marrom e vazia.
Onde antes residiam sonhos, hoje restam escombros.
Por vezes, é o espírito, tal cidade.

A inocência e a paixão intoxicam meu sangue...

É o fim de mais um verão; as chuvas de outono devolvem o verde.
Quando os olhos fecham e a mente rompe seus grilhões,
Santos pecados escorrem do céu,
Como lágrimas puras de anjos sempre distantes.

Meus olhos acariciam a verdade ou um espetáculo?

Se pudesse, calaria todo e qualquer som.
Bastaria tocar seus cabelos, macios como música,
Bastaria o ruído afável do seu sorriso,
Para, quem sabe, acreditar outra vez em tudo o que não existe.

12 de mar. de 2015

Irmãos


Em uma coisa somos todos irmãos: na dor.
A miséria que afronta o gênio, sugando-lhe o tutano da vida, 
É a mesma que suga o meu.
Somos iguais no vazio que fica.

Em uma coisa somos todos irmãos: na utopia.
O combustível que move a máquina da alma dos santos
É o mesmo que move a minha.
Somos iguais na necessidade do Amor.

Em uma coisa somos todos irmãos: no cárcere.
A carne que enclausura meu espírito pobre
É a mesma que já enclausurou aqueles que hoje são anjos.
Somos iguais na sede pela Liberdade. 

Em uma coisa não somos todos irmãos: no sentir.
Aquilo que meu coração abraça, talvez nenhum outro abrace.
Nunca parece ser o mesmo o brilho nos olhos.
Somos tão desiguais nos sentimentos.

11 de mar. de 2015

A cor dos olhos


Finalmente não assusta meu amor pelo mar.
Toda aquela vastidão azul... tanta violenta vida.
Já não há mar, mas uma infinita cratera silenciosa.
Para sempre silenciosa.

Sei que ao secar, o mar também levou muito de mim.
Meu reflexo que agora vejo nas areias quentes não me agrada.
Em nada mais lembro aquele viajor guiado por estrelas ascendentes.
Também se foram as estrelas.

Não me dá esperança meu recente amor pela terra.
A maciez castanha e morna em que pousou meu olhar,
Não mais será sentida. 
Sem as paixões que me guiam, volto a ser um estranho.

Um estranho de passos hesitantes,
Perambulando por um caminho que sabidamente não é o meu;
Mendigando ínfimos milagres para saciar uma fome de fé cruel.
Uma súplica inútil, todos os milagres adormeceram.

Eu sinto a lenta dor de perder o pouco que ainda resta.
Mas quando a escuridão for plena, meus olhos verão no escuro.
Lembrando da tarde em que, lavadas pela tempestade,
Todas as coisas refletiam fabulosamente toda claridade do sol.

9 de mar. de 2015

Noite clara


Todas as estrelas se foram.
No céu plúmbeo posso ver as pesadas nuvens 
Formando paredões displicentes.

Todas as estrelas se foram.
Se foram do céu para dentro de mim,
Partículas de luz perdidas em imensas escuridões.

Aqui dentro ninguém as contempla.
Meus olhos opacos não denunciam seu brilho,
E aquilo para que vivo já não existe.

As vozes dos heróis continuam a sustentar,
Como profundas raízes.
Porém ainda temo a força das tempestades.

Não há o que me fará deixar de ser noite,
Nem a bondade dos anjos, nem o resquício de fé no amor.
Em minhas veias as trevas fluem.

Mas se de mim jamais será emitida uma luz do dia,
Emanarei as sutis poesias que nascem ao luar.
Talvez a noite seja eterna, que então seja clara. 



8 de mar. de 2015

Peito frio


Serão necessárias muitas das minhas lágrimas de pouco valor
Para pagar o preço de cada uma das minhas crenças.
Crenças em belíssimas e inexistentes coisas.
Crenças caras demais.

A única coisa real é a distância.
A única coisa tangível é o silêncio.
As maldições não serão quebradas com a chama de meia vela,
Não serão quebradas com os pés nus dançando na terra úmida.

E amanhã não serei eu aquele que sorrirá,
Não serei eu aquele que fará orações insinceras.
Eu estarei em algum lugar acima da razão,
Deslumbrado com a luz de um sol que nunca deveria ter tocado.

E eu rogo a misericórdia dos anjos,
Suplico que busquem e tragam de volta o coração.
Mas a forma como treme meu peito frio, meu peito vazio,
Explica porque ele prefere o calor daquele lindo inferno.


Queria de ti o que queria das rosas


Sei amar as rosas sem incomodá-las,
Sei que saberia acariciar seu coração 
Sem a necessidade de segurá-lo em minhas mãos.

Minha insanidade sabe até onde pode chegar.
Eu não almejaria possuir uma força da natureza;
Sua beleza está em sua liberdade e fúria. 

Queria de ti o que queria das rosas...
A inebriação do perfume, 
O toque no veludo das pétalas, da pele.

Há em teus olhos a cor da terra fértil,
E deles brotam belezas como da terra brota a vida.
Que quero eu da terra além de apenas louvar seus milagres?

Como uma criança deslumbrada admiro a tempestade distante.
Admiro a água sagrada que tão longe jorra do céu
A água da qual jamais sentirei outra vez o sabor.





6 de mar. de 2015

Descomunhão



Foram ditas em bom som as verdades inaudíveis.
Inaudíveis porque o espírito, entorpecido pelo cântico das ânsias, 
Prefere banhar-se em chamas falsas. 
Chamas que queimam sem aquecer. 

Mas após as erupções há certa calmaria.
Embora a brisa ainda traga delicadamente canções distantes,
Já não sorrio.
O espírito demorará a ser desperto, mas seu sono é leve, enfim. 

Não só a boa audição se fazia comprometida,
Mas todos os sentidos.
Olhos famintos, mãos ávidas, boca ansiosa...
Coração crente.

Há erro na carne que se mostra?
Há impureza na excitação dos músculos?
No arrepio, na lágrima?
Não há... Nada há.

É o que dói: a descomunhão.
A falta do sagrado mesmo no ardor das tentações.
Almas desconectadas, mesmo que os corpos se façam colados.
É o que dói: a efemeridade. 




5 de mar. de 2015

Perfumes e feras


Paz é a luz da lua sobre a pele nua
E a roseira tão carregada de gordas rosas brancas e vermelhas;
Também as nuvens que bailam em silêncio
Num céu anil pontilhado de estrelas.

Paz é a maciez da terra castanha, acolhedora como abraço de mãe;
Mãe que de fato é.
Também a canção, que com gentileza decifra a alma,
Pinta seus sonhos.

Mas o sentimento, uma forte fera indomável, quando desperta, é voraz.
Ele corta o peito, mas não tira a vida.
Como um bisturi elétrico, cicatriza ao mesmo tempo que talha a carne. 
Eu sinto suas garras penetrando fundo, tão fundo. 

Por vezes mascara-se de perfume de alecrim,
Gentil e doce.
Com grande afabilidade envolve o coração ressequido, 
O banha em esperanças desconhecidas. 

Eu aceito. 
O espírito é campo vasto, repleto desses perfumes e feras.
Aceito me desfazer diante de tamanha força, tamanha beleza.
Suporto meu inegável desejo, a fúria da ânsia libidinosa.




4 de mar. de 2015

Bons tempos



Todas essas folhas ao vento, ainda em branco;
E os dias sem qualquer promessa: também vazios;
Também as memórias, já pálidas, fracas... inservíveis;
Todas as eternidades tão efêmeras, superficiais, rasas...
Eis o que me assombra, o que me caça.

De que vale ordenar versos e louvores à maciez
tão meiga daqueles cabelos negros encaracolados?
De que vale a exuberância generosa da roseira,
cujo vermelho vivo lembra a beleza do olhar que não mais será visto?
Parece pesado demais este fardo de tanto sentir...

Mas estes são os bons tempos.
Tempos em que a voz forte ainda ecoa pelos labirintos abandonados da alma, 
arrancando-lhe ecos e suspiros;
Tempos em que o luar reluz como um convite para mergulhar de braços dados na docilidade estrelada da noite.

Estes são os bons tempos.
Em que o pulsar do músculo mestre ainda pode ser descompassado por um sorriso;
Em que a sensibilidade ainda é aguçada, como um faminto felino selvagem.
Em que os olhos ainda brilham, ora de paixão, ora de dor.

Bons tempos, em que os ossos ainda fortes, suportam as pancadas,
E após se partirem, recuperam a firmeza, a força. 
Em que o espírito ainda voa nos ombros de quimeras aladas, tão corajoso,
Ignorando que por elas pode e certamente será devorado. 
Tempos... em que ainda resta insanidade suficiente para crer no amor.

2 de mar. de 2015

Basta-te


De que serve a beleza da rosa mais perfeita,
Se apenas o sol inclemente observa suas cores?
De que serve o coração já lapidado, exausto de golpes,
Agora mais forte e reluzente, se repousa no fundo do mar?

Derrama teus sonhos e tua fé aos pés da flor frágil.
Livra-te deles, livra os outros deles.
Segue leve, porque a montanha iluminada não existe,
Como não existe nenhum culpado além do visto no reflexo.

Que te falta para ser fera?
Para saciar tua fome e sede do sangue das esperanças?
Pobre criatura em jaula de luz!
Jaulas são sempre jaulas.

Em silencio busca o perfume e o brilho dos olhos vermelhos,
Já delegando a eles o motivo do teu sorriso...
Se assim é, já aguarde o pranto, o batimento lento do coração.
Basta-te, porque lá fora não haverá nada teu.