19 de ago. de 2014
Cataplasma
Desperta com um murro a ferida que parecia jazer pacífica.
Escorrem líquidos quentes, amargos...
Dos olhos, da ferida.
Rompe-se novamente a represa de palavras.
E digo, e canto, e imploro pelo que já não deveria.
Novamente o silêncio explica: acabou.
Mas a ferida latejando não me deixa esquecer.
Insisto. Mais silêncio...
Persisto. O silêncio grita!
Repouso, enfim. Qualquer sofrer exaure.
Noite curta, estranha, sem sonhos, sem pesadelos.
Nada. Mais nada.
O escorrer de líquidos cessa.
Mais um dia limpo do vício da presença.
Mais um dia morto, apesar de vivo.
Morto como são as palavras oferecidas.
O olhar oferecido.
A mão estendida...
Flores, ervas, arrancadas do jardim,
colhidas sem dever.
Começo a partir, quebrar, triturar tudo o que murcha sem vida.
Canção, poema, pedido, sonhos.
Faço um cataplasma e coloco sobre a ferida.
Ela passa a latejar menos, a torturar menos.
Ao menos por mais um dia.
18 de ago. de 2014
Incomparável
Não fui eu que descobri, foi Lygia:
O amor é como uma bolha de sabão.
Coisa bonita e frágil demais para existir por muito tempo.
Flutua no ar como um encanto, e como por encanto se desfaz.
Fica só a memória; ela sim, tantas vezes firme como aço frio;
pesadíssima, tão diferente da bolha de sabão.
Comparações não faltam, na verdade:
Pela manhã pensava que amar é como patinar em um lago congelado.
Enquanto se está patinando, a sensação, creio eu, deve ser de voar;
o mesmo que amar.
Desata-se dessa carne bruta e se é um pouco de anjo prematuramente.
Mas um deslize, um morrinho de gelo, um desiquilíbrio, te leva ao chão.
Porém, não existe chão, há o gelo que se parte e há o mergulho indesejado na escuridão morta e gélida abaixo.
Buscamos comparações para o amor;
Lygia, eu, todos os poetas e todos os que pensam não o ser,
porque não podemos definir algo que ainda ultrapassa nossos sentidos primitivos.
É como se o amor fosse um descuido de Deus,
Uma benção gigantesca demais para seres tão miseráveis;
Ou tivesse caído nessa Terra por engano, por acaso, e no fundo não nos pertencesse de fato.
Mas sua presença, embora indefinível, é inegável.
Podemos facilmente rotular outros sentimentos.
A paixão, por exemplo, pode ser o desejo fortíssimo agindo através dos corpos.
A amizade, é o querer bem, o estar longe, mas perto. É estar conectado tão firmemente, mas sem correntes.
A saudade é a memória fazendo maldade...
Mas o amor... o que é?
Meu coração diz: eu ainda amo.
Mas não dizem os sábios que o amor é a sublimidade da alma humana,
dispensando até a presença para que exista e traga a felicidade?
Ou os sábios não são tão sábios assim ou eu amo errado.
Existe "amar errado"?
Dizem os sábios que o amor não traz tristeza.
Nisso acho que estão certos.
É a ausência dele que traz.
E como.
Despedir-se do amor equivale a um acidente automobilístico,
mas sem vítimas fatais.
Sente-se aquele fragmento infinito de tempo antes da colisão,
Cega-se pela luz forte oposta,
Ouve-se o estrondo,
Enfim o mundo parece que chegou ao fim.
Mas existe um depois, existe a dor, as lágrimas, a imobilidade,
o grito mudo por socorro, que parece nunca chegar...
14 de ago. de 2014
Ciclos
Veio ontem a primeira chuva após a longa e triste estiagem;
estiagem que se fazia lá fora, secando as roseiras e matando as flores mais sensíveis.
Veio ontem a primeira chuva após a longa e triste estiagem;
estiagem que se fazia aqui dentro, desde a partida, desde o naufrágio, desde o grande pranto.
Regressaram algumas nuvens, quem diria?
Acariciaram a terra com uma umidade humilde.
As roseiras agradecem.
E aqui dentro, onde tudo existia com dor,
senti algo sorrir.
A esperança não foi, tampouco o sonho;
pedi-lhes uma trégua, um espaço indefinido de distância.
O que sorri não sei, mas sei o porquê:
Sorri por estar limpo, ou quase.
A chuva voltou, levou embora o máximo que pôde da fuligem,
das cinzas, dos destroços de tudo o que sobrou após o coração ter entrado em erupção.
As águas foram carregando... o bom, o ruim.
Deixando aquilo que antes se parecia com belas montanhas escarpadas
como uma planície pacífica onde repousam sementes adormecidas.
A primavera não deve tardar...
Novamente,
Sei que sumirá a claridade,
Sei que sumirão as nuvens
e o pranto contido de dia irromperá por muitas noites ainda.
Não somos tão diferentes,
eu e a Natureza.
Ciclos: vida, morte, ressurreição, florescimento, fruto, apodrecimento.
Sabemos o que nos poluiu e o que cuidou de nos salvar.
Sabemos da divindade das borboletas e abelhas;
o simples que fornece a vida.
Sabemos da tristeza, mas não do ódio.
Sabemos do fim e do recomeço.
Pois não sou mais apenas um Jardim,
Mas um pedaço vivo de Terra.
12 de ago. de 2014
Estrelas tantas
Sonhei um céu de tantas estrelas.
Estrelas tantas que até se abraçavam,
formando um manto branco-prateado;
diamantes reluzentes.
E havia você.
E por haver você é que havia o céu e a claridade das estrelas.
Sorríamos ao firmamento, lado a lado,
como se a realidade fosse o pesadelo e ali é que estivéssemos acordados.
Aproveito o breve momento de alma leve, de trégua, nesta tarde
e convoco palavras para marcharem com doçura.
Todos estão fartos de dias tão escuros,
de dias tão secos.
Dói tocar o dedo de agora, só pele e osso.
Deixou-me o anel, o compromisso.
Parece nu o dedo, e está.
Parece sentir frio, e sente.
Mas há essa lânguida luz da tarde,
A doce menina que, paciente, ouve meu declamar de mais um poema triste,
Um abraço macio e amigo,
E um misterioso perfume de laranjeiras em flor.
A dor adormece por um instante,
exausta de me sentir.
Falo baixo, sei do seu sono leve.
E por uma noite completa, desde o Fim dos Dias, espero adormecer também.
Gravidade
Que são os estrondos que ameaçam de fora?
Nada.
É aqui dentro que se faz o pandemônio,
a corda bamba,
a beira do abismo que não vejo a fundura.
Flutuo,
como o trapezista que salta de uma barra para a outra,
mas a outra barra não chega, não chega,
e também não chega a queda fatal.
Paralisado, impotente.
O chão é a realidade, a outra barra, o sonho.
Um segundo eterno de distância é a separação.
Eu,
Um corpo qualquer orbitando Sol distante,
Um corpo frio.
Se com vida, novamente desconhecida.
Essa sensação persegue,
há dias - acordado ou entorpecido -
mais que os tigres, mais que os soldados, mais que os fantasmas:
Esse vácuo.
Uma parte do peito tirada, músculos e ossos levados,
Coração à mostra,
Pulsando, pulsando, pulsando...
Sentindo os ventos frios como açoites.
Sim, é por conta do adeus.
Ou adeuses.
Nada nem ninguém parte sozinho, sem levar muito consigo.
Permaneço medindo os estragos, calculando as faltas, registrando ausências.
Mas não quero o nome dos culpados.
Não por o meu, certamente, estar entre o deles,
Mas por não querer na mente companhia desafetuosa,
além da minha.
11 de ago. de 2014
Opostos
Você ainda não partiu,
está partindo.
O caminho é longo
e você caminha só.
E eu choro todo meu pranto sem som
por esse mundo belo que não posso dividir.
E eu choro todo meu pranto dolorido
por esse mundo horrível que não posso mudar.
Há espaço em seus olhos para os versos cansados do meu coração?
Ainda se recorda da minha alma que eu nunca disse ser maior do que é?
Por que nada parece certo no lugar que está?
Por que não cai de vez esse véu de mentira e a verdade não se mostra de vez?
Os dias morrem, junto deles morrem as certezas.
Ótimos atores somos nós, representando tão bem não sermos todos loucos.
Seguindo as sinas medíocres, absurdas,
atravessando as horas com medo, desespero, desejo, angústia
e sorriso nos lábios.
Ainda grito, ainda digo, ainda insisto...
Mas sei que a vida não demora em me calar,
a me pôr no meu lugar, a colocar um espelho diante dos meus olhos.
Desgraçado o homem de sonhos maiores que ele mesmo.
Que ironia é essa de querer pessoas próximas num mundo tão grande?
Os braços não se alcançam, os pensamentos não se conectam.
Sou eu ou tudo está mesmo virado?
Sou eu ou tudo precisa de conserto?
O amor é dado só àqueles que não o querem?
Ou aqueles que não o querem são os que verdadeiramente precisam?
Assim como os que se fingem de tolos são os mais sagazes?
Por que tudo precisa ser blindado por um enigma ridículo?
Dou voltas completas e retorno ao início.
Sentido a vida deve ter, seria muita canalhice de Deus o contrário.
Mas o que é pior: desconhecer o sentido ou acreditar no sentido errado?
O que é pior: ter fé ou ter dúvida?
Na verdade você se foi, sim.
Já chegou; o caminho não é infinito.
Na verdade a verdade é nua e é crua,
desvendada e óbvia.
Na verdade tudo é certo e perfeito,
e tudo o que foi feito, foi bem feito.
Apenas acho que vou morrer não entendendo nada disso.
O poema ouve
Certo poema diz que a contagem do tempo é feita pelas batidas do coração,
não pelos giros dos ponteiros do relógio.
O poema entende que há meia eternidade falta a luz, falta o ar, falta o combustível.
O poema entende que, mesmo parado, imenso tempo se passou.
Só o poema, em sua silenciosa compreensividade.
Só o poema, generoso...
Quando a luz da tarde começa se deitar, o peito aperta.
Antes, a rotina quase morta em si mesma, cedia à lembrança:
à noite viria aquela voz.
Única, macia, tão sua, tão minha.
Viria aquela voz e qualquer dor partiria.
No silêncio, o coração bate lento, quase para.
As dores não passam, se acumulam,
como detritos que ajudam a causar as enchentes.
Assim está o peito: alagado nessa água turva de memórias e saudades.
Não podia durar, não iria durar, tudo parecia dizer,
mas a criança boba que pulsava no peito persistia em sua fé infantil.
Eu acreditava poder abraçar o mundo para abraçar você e sua história,
Um pensamento tão coerente quanto à minha crença em magia aos sete anos.
Seguem os dias, alheios à minha devastação.
Que dor é a minha perante às todas tão grandes dores?
Parece imenso egoísmo reclamar do meu derramar de sangue,
quando tantos e tantos já jazem sem mesmo o próprio sangue para derramar.
Então clamo e reclamo e rogo apenas ao poema;
que não responde, não aquece, não envolve, não salva, mas ouve.
Apenas ouve...
Até que eu me canso de dizer e o poema se cansa de ouvir.
Até que finalmente adormecemos, juntos e frios, em nossa solidão.
10 de ago. de 2014
Solidão
Como as pessoas convivem com todas as coisas mais lindas
sem dividir?
Solidão acho que é isso: não dividir.
A gente suporta distância, falta de abraço, de eu te amo, de sexo, de mão dada, aliança, almoço de domingo e sorvete de fim de tarde.
Suporta até enfrentar a vida sem ajuda, sem um: vai lá, você consegue!
E falo dessa vida chata, sem graça; criada pela burocracia, não por Deus; que nos inferniza os dias.
A gente até se suporta, veja só.
Mas não dividir o Belo,
aquela música, aquela poesia, aquele filme, aquele pensamento bom, aquela flor, aquele pôr do sol...
Isso não, isso dói por demais.
Por isso quando você foi embora para sempre chorei tanto e tanto:
O Mundo é bonito demais só pra mim!
Eu não posso suportar!
Porque a dor e a feiura a gente já divide automaticamente,
É só ver as notícias da estúpida eternidade das guerras estúpidas,
É só cruzar com Seu Qualquer na rua...
A gente olha o olho murcho das pessoas e sabe: tem coisa errada ali dentro.
Precisa nem dizer, não. É o tal do óbvio.
O desespero é como o ar, tá todo mundo dentro dele.
Todo mundo tem mágoa, tristeza, saudade, arrependimento, culpa.
Novidade nenhuma.
Quase todo mundo é feio se olhar bem de perto,
E não é feio de carne, não; porque carne é tudo carne,
como água é tudo água,
e como a água, a carne passa;
Quase todo mundo é feio por não dividir o Belo.
Hoje, quase matei a moça do coração.
A gente no carro, ela concentrada, eu avoado,
Daí grito: OLHA QUE LINDO O ARBUSTO!
Era um arbusto cheio de flor amarela que nasceu bem no meio de um portão, na calçada.
A gente quase morre por causa do arbusto,
e rimos depois.
Eu não poderia carregar a beleza daquele arbusto só pra mim,
precisava que ela carregasse também.
Assim, era como se o arbusto fosse mais um elo entre nossa amizade;
todo elo é bem-vindo.
Por isso chorei tanto quando a esperança partiu.
Porque a esperança é coisa das mais bonitas,
e eu não queria perder ou dar, queria dividir.
Ficar com toda ela também não podia, não.
Coisa grande demais.
Então fiquei foi sem nada, mesmo.
Amanhã, se eu encontrar outro arbusto com flor amarela vou ter que ficar em silêncio,
Ninguém se importa muito com arbustos de flor amarela.
E vai doer uma dor só minha e talvez eu chore de novo,
Seguindo a vida que me foi dada pela burocracia.
Posso dizer que meu maior medo era ser um dos Feios,
Hoje já não é um medo, é um certeza.
Minha feiura assusta.
9 de ago. de 2014
Eu sabia que o Sol não nasceria
Não sei se por um sentido além dos cinco,
ou por ver de longe o óbvio,
- quando os motores de um avião explodem no ar,
você pode ter certeza de que ele vai cair -
eu sabia da Grande Dor.
E talvez seja simples o porquê de não antevermos o futuro com frequência:
É impossível consertar qualquer coisa antes que ela se quebre.
Mesmo assim eu soube, graças ao óbvio ou à premonição,
que em um dia, não muito distante, o Sol não nasceria mais.
E eu pensava:
"O Sol não nascerá mais! O Sol não nascerá mais!"
E me achava muito esperto por saber o futuro,
quando na verdade,
só estava sendo um tolo, como normalmente.
Teria eu forças para pegar o Sol nos braços e pôr no céu?
Seria o bastante dizer ao Sol:
"Veja, todas minhas flores precisam de você! Vão morrer, pobrezinhas!
E eu posso te levar alguma alegria, tornar os dias mais vivos?
Ou mostrar ao Sol todas as belas manhãs em que nascemos juntos,
e sorrimos e cantamos e amamos e fomos infinitamente felizes?
Não, para todas as perguntas.
Eu sabia que o Sol não nasceria e só fiz foi adiantar a escuridão iminente.
Não serviu de muito tentar me habituar aos seres da escuridão
e reconhecer os caminhos que seguiria sem sua luz.
Só adiantou foi o sofrer... este chegou bem cedo.
Já uma semana em penumbra...
Período de luto imposto, obrigatório.
Volta e meia pisca um vaga-lume e eu espanto logo:
a esperança não é mais bem-vinda.
Uma semana de trevas,
e veio, enfim, a última sentença do Sol;
breve, dizia:
"Já não sou luz, mas apenas dor. Me conceda a paz."
Tentei argumentar:
"Sejamos sombras juntos então!"
E o Sol se calou para sempre...
Acatou meu pedido.
Mas ser sombra não é o mesmo que ser luz.
E eu vi que não pensava bem quando fiz o pedido.
Já não vejo o Sol e o Sol já não me vê...
Parece mesmo que o inverno vai durar para sempre.
8 de ago. de 2014
Vó Sepha, Vô Chico
São semanas em que os adeuses rondam, tão silenciosos e frios.
Tantas despedidas, quase nenhuma chegada.
Dos vagões que passam sobre os trilhos da vida pouca coisa desembarca ultimamente...
É tempo de Mudanças.
Esperanças infinitas são barradas por finais infelizes.
O mundo jaz em seu seu ódio por si mesmo,
num eterno e incompreensível ciclo escuro de estupidez.
Mas não foi há muito em que amores eram roubados pelas janelas.
Não foi há muito que a própria palavra "amor" era sagrada e imaculada.
Um contrato inquebrável.
Não há muito era possível ter coragem.
Dizem que é o fim dos tempos.
Tão ingênuos...
Ingênuos por acreditar que,
por seus olhos não verem apenas o que querem ver,
tudo chegou ao fim.
O Fim é uma benção que ainda não merecemos.
Começar tudo de novo, do primeiro passo, com o histórico reluzente.
A luta persiste, e adianto, será longa.
Também eu sou ingênuo e fraco e tolo,
por fazer das rosas do jardim um dos meus poucos motivos para sorrir.
O Mundo é maior, e continua, além da minha dor, além da minha ignorância, além da minha mesquinhez, além da minha ganância.
Troque-se "minha" por "nossa".
Os tempos não se findam, apenas se transformam.
Como a rosa que sai da segurança do botão para os perigos dos ventos e das chuvas
(e dos gatos).
Mas se a rosa não saísse, não haveria cor e perfume,
não haveria sentido para a existência do botão.
A rosa... poesia das mais puras.
Vó Sepha, Vô Chico... os maiores Poetas que já tive a honra de conhecer.
Ao Amor deles devo minha vida; à coragem deles, à loucura deles.
Talvez nunca tenham escrito uma linha sobre o papel,
Mas numa madrugada, por uma janela de madeira velha,
o jovem Chico levava para qualquer lugar distante a jovem Sepha.
Nunca li poesia mais bonita.
E cresceram e amaram e sofreram e criaram.
Sempre tanto amor e dor,
Como se, ao receber essa moeda da vida,
fosse obrigatório fazer uso dos dois valores.
Vô Chico se foi, como um passarinho,
aconchegado no ninho que tanto lutou para construir.
Vó Sepha descansa enfim.
Deita nos braços da eternidade e segue seu caminho na jornada comum de todos nós.
A vida não termina...
Os anos vão, a alegria vai, o desespero vai, a tristeza vai, a vida vai, as rosas vão.
Algo precisa ficar.
Eu queria que fosse o Amor.
7 de ago. de 2014
Folhas secas
Os dias escorrem por conta-gotas.
Caem lentamente como os grãos de areia de uma ampulheta.
Os semanas levam o verde das folhas,
mas trazem novos brotos, novas flores.
Os meses levam os dias felizes, também os tristes,
mas deixam as lembranças.
Cada recordação feliz, adormecida no passado tão presente,
é um pequeno porto, uma relíquia, um refúgio ao coração.
Cada recordação triste, gravada na alma como uma cicatriz muito profunda,
é um pequeno troféu enferrujado conquistado pelas batalhas enfrentadas.
As memórias se esparramam pelo chão e dançam no vento como folhas secas...
Folhas que cumpriram sua sina. Uma hora caem, decompõem-se...
E assim como a natureza inicia e encerra seus ciclos para que a vida se renove,
Também nós iniciamos e encerramos os nossos para que a esperança não esmoreça por completo.
Que fique uma semente, bem protegida nos confins da alma, e que um dia germine; quando todo verde, principalmente o daqueles olhos, houver partido por completo.
Apenas o Amor permanece inabalado,
indiferente ao tempo e ao espaço.
Caem lentamente como os grãos de areia de uma ampulheta.
Os semanas levam o verde das folhas,
mas trazem novos brotos, novas flores.
Os meses levam os dias felizes, também os tristes,
mas deixam as lembranças.
Cada recordação feliz, adormecida no passado tão presente,
é um pequeno porto, uma relíquia, um refúgio ao coração.
Cada recordação triste, gravada na alma como uma cicatriz muito profunda,
é um pequeno troféu enferrujado conquistado pelas batalhas enfrentadas.
As memórias se esparramam pelo chão e dançam no vento como folhas secas...
Folhas que cumpriram sua sina. Uma hora caem, decompõem-se...
E assim como a natureza inicia e encerra seus ciclos para que a vida se renove,
Também nós iniciamos e encerramos os nossos para que a esperança não esmoreça por completo.
Que fique uma semente, bem protegida nos confins da alma, e que um dia germine; quando todo verde, principalmente o daqueles olhos, houver partido por completo.
Apenas o Amor permanece inabalado,
indiferente ao tempo e ao espaço.
6 de ago. de 2014
Direito à lágrima
Obrigado, Deus, por meu direito ao pranto.
Suave e doce, como a primeira chuva após a estiagem.
Obrigado, Deus, por meu coração sentir fome do Belo.
É necessário saciar aquilo que me guia.
Obrigado, Deus, pela esperança, tão surrada, não partir:
Eterna cúmplice.
A vida persiste, mesmo após o fim do mundo.
"Se você procurar bem, esses escombros estão cheios de tesouros."
Repouso, como uma pluma onde não venta, em minhas lágrimas.
Tão pacíficas, tão meigas, tão doces, tão abundantes.
Dói a perda dos que silenciam: entejam na carne ou livres dela.
Só quero um momento para que minha dor doa também.
Que ela lateje, livre como um cavalo selvagem cavalgando numa costa desconhecida.
Que o medo se aproxime, sem alarde, e aperte minhas mãos, com olhar de velho conhecido.
"Estou aqui." Digo, ainda crendo, vejam só, que a vida é além do que se vê e do que fere.
Ainda entristecendo ao ver as flores murchando, os sentimentos sendo fracos.
Caminhando em meio aos destroços deixados pelo último terremoto, observo.
Observo descrente que a vida voltará a luzir e sorrir,
embora saiba que ela sempre volta,
Ainda que pedaços faltem, ainda que relíquias sejam para sempre perdidas, ela volta.
E minhas ilusões adormecem então, sonhando com os dias em que tinham asas tão grandes, tão fortes.
Adormeço junto a elas, e tento voar também.
Os dias após o fim dos dias
Que toda morte seja calma, como o balançar dos barcos ao flutuar em mares pacíficos.
Que toda lágrima, tanta e inevitável, escorra lentamente como uma carícia.
Apenas morremos mais uma vez, de uma outra forma;
E continuamos vivos, de alguma forma.
Já murchou a roseirinha que o gato, sem motivo, odiou e desplantou do solo.
São tempos de adeuses...
Mas os dias que seguem o fim parecem os mesmos.
Como sempre, tudo o que vemos como errado, está mais do que certo.
Após o pior adeus, olhei então Deus no fundo dos olhos e disse:
"Faça alguma coisa! Por Seu amor, faça alguma coisa!"
E Deus sorria... não da minha dor, mas da minha ira.
Eu sei, eu sei: não é aos meus pés que o universo se deita.
A amiga me leva para ver flores. Muitas, multicoloridas.
Orquídeas, explodindo tamanha vida.
E eu quase choro de novo...
Tanta espera, tanta luta, por uma flor tão rápida e frágil.
Aproveito e prometo: tal e qual Nosso Senhor, ressuscito ao terceiro dia.
O mundo chora, as esperanças murcham, os gatos destroem as roseiras,
apesar dos espinhos que deveriam protegê-las...
E eu aqui: quantos anos mais sepultado por meus fracassos?
Reabro as veias secas, tão preenchidas de pranto e clamor e frio,
e grito: "Vida, desculpa, volta pra cá!"
E ela volta, contente por ser novamente bem-vinda.
E nós não traçamos planos, apenas ouvimos uma música juntos.
Solenemente agradeço a presença dos anjos que acudiram meus clamores,
Mas peço que fiquem acordados. Não dou pouco trabalho.
E após as maiores alegrias e as piores dores,
tento pensar apenas no doce e suave sonho...
Uma senhora, repleta da beleza dos Humildes de Coração,
Com sua vassourinha varrendo a varanda de uma casa simples e aconchegante.
Eu observava as laranjeiras do quintal com grande admiração, e ela disse:
"Neste ano tivemos muitas abelhas e borboletas.
As flores já se foram, mas os frutos logo vêm."
5 de ago. de 2014
O sentir
Onde fica o misterioso país das memórias,
em que tudo é revestido por uma falsa película de eternidade?
Eternidade... esses ventos de agosto, que quase me derrubam -
não por serem fortes - mas por serem doces e meigos demais,
e o galho florido do ipê, agora negro e ressequido - antes amarelo de flor -
me pareciam eternos...
Parece tão fácil estender a vida como um mapa e apagar as linhas que não se poderá mais seguir,
talvez seja,
ou talvez as linhas fiquem para sempre ali, como uma cicatriz, uma ode ao fracasso.
Adormecem as lembranças nessa terra, como as rochas?
Mortas e imóveis elas servem de abrigo a qualquer coisa?
Ou apenas o tempo, mestre de todas as coisas, tem poder de trazer qualquer mudança?
Eu apenas observo quando ele vem,
trazendo novas filhas, levando para o desconhecido as antigas.
Tudo é assustadoramente aceitável aqui, no mundo dos Absurdos.
Ainda ontem o amor era muito, era completo, era profundo, era forte,
e hoje é adeus.
Assim: adeus.
Aqui, no mundo dos Absurdos nada fica firme por longo tempo.
Se não bastasse, recebo a visita indesejada da Realidade.
Velha ranzinza e amarga.
Orgulhosa, despeja fatos no meu peito como se eu não soubesse que ela mesma é a maior das ilusões.
"Não sinta!"
Diz ela, sentada próxima demais ao ponto de eu sentir a frieza da sua pele.
"Cale, não sinta!"
Repete ela....
Mas eu continuo tentando alimentar a alma, já raquítica de esperança, com algumas lembranças que começam a fugir do meu toque.
"Quero seu bem, cale, não sinta!"
Ela insiste; estúpida, vazia, grosseira.
Respondo enfim: Eu sinto, não há escolha: eu sou o próprio sentir.
Universos abertos
Que parte não esteve à mostra?
Qual estrela foi oculta aos teus olhos?
Minhas galáxias e buracos negros todos ao teu dispor,
Como se me fosse íntimo desde o nascer,
Um eu diverso, vivendo uma vida alheia.
Sem chaves, sem portas.
Os contratos foram assinados com o primeiro olhar:
“Confio e amo, para sempre.”
Minha ingenuidade é quase bela...
Já não é mais que óbvio que a eternidade para uns é diferente da de outros?
Ainda assim te levei ao universo,
Falei quase todas as noites das estrelas,
Das que subiam e das que caíam,
Das que brilhavam tanto daqui do fim do mundo.
Sem portões, sem muros; apenas pontes, muitas pontes.
Então disse adeus, com hora para chegar e hora para partir.
Tudo tão coerente e preciso.
Lógico e recheado de dor.
Lógico e recheado de dor.
E eu, feito criança tola que não aprende ao primeiro tapa,
Dançava valsas com a esperança até sua chegada.
Até que, enfim, todas as canções findaram, e eu enxerguei a mim,
Dançando só, sem a esperança, sem mais nada, e ouvi as batidas da vergonha na porta.
Mas ainda não abri, cansado demais para fazer sala para essa velha conhecida impertinente.
Prelúdio à memória
Te mostrei a rosa; nem viu a rosa, eu sei.
O mundo acabava-se, e toda atenção devia estar voltada ao útil.
E as palavras,
que como um barco à vela te levariam as promessas,
as razões para não dizer adeus,
as memórias mais doces e as canções que nos uniram,
nem ao menos aportaram em nosso cais...
Naufragaram num oceano lacrimoso e cheio de soluços.
Quem seria eu para falar do melhor ou do pior caminho?
Falar da melhor ou pior decisão?
Falar da vida que poderia ser tão bela?
Falar de sonhos?
Quem seria eu para questionar seus escombros?
Eu, que ergo um observando outro monumento desabar...
Nem mesmo as memórias são eternas.
E a custo de dias secos e ventosos como deste agosto, irão se perdendo.
Primeiro as mais delicadas e sutis,
como o brilho do seu olhar e a gentileza do seu caminhar;
Depois, as mais poderosas e profundas,
como seu sorriso naquela estrada longa e pedregosa.
As memórias vão acumulando poeira, como um diamante esquecido no porão.
O diamante, indestrutível, permanece lá, intacto, mas não é visto.
É um gracejo de Deus para tocarmos adiante esse barco...
sabe-se lá pra onde.
Sei é que não chorarei mais.
Não só o coração, mas os olhos também jazem cansados em demasia.
Chega tempestade, parte tempestade; chega ventania, parte ventania.
E tudo se repete, numa falta de criatividade sem fim.
Enquanto o mundo acaba, vou plantando minhas flores...
“- A Beleza não é um luxo, é uma necessidade humana.”
Disse , sabiamente, a poetisa.
Não me importo de beber lágrimas, mas que sejam de boa emoção;
Não mais aquelas venenosas de tristeza.
Sorverei sim meus prantos, mas observando o desabrochar do jardim.
O jardim que antes dava desespero de tanta pedra,
E uma a uma tirei com as mãos,
O jardim que agora ressurge formoso em flor.
4 de ago. de 2014
Errados
Foi-se a flor de laranjeira, a flor que embelezava as noites e os habitantes dela.
Foi-se o perfume inebriante, os sons baixinhos de risos na madrugada sonolenta.
Toda a magia partiu, como um fogo de artifício bonito e colorido, explodindo no céu.
A luz do dia partiu, tão honrosa consigo mesma, mas não deixou estrelas a me consolar.
Não há nada de errado com o mundo.
Tudo está na mais perfeita ordem que a maioria deseja.
Nesta realidade gerida pelo inferno, nada tenho direito de criticar.
Errado estou eu, estamos nós, aqueles que acreditam nos malditos contos de fadas, sempre com finais felizes.
Só que, ninguém, jamais, se lembra de dizer que qualquer final que seja, é um final triste.
Não é isso o mundo?
Feras se matando por um bocado de carne?
Entorpecidas almas vagando com os músculos preenchidos de morfina?
Abutres egoístas digladiando por um pedaço de cadáver?
Errado estou eu, que gasto meus últimos centavos com roseiras,
Esperando que da terra morta e infértil brote alguma poesia,
alguma consolação aos olhos que só fazem ver adeuses,
só fazem ver gritos e distâncias.
"Fracos!"
Bradarão em coro todos os anjos ao chegarmos ao além.
"Fracos e mesquinhos, todos vocês!"
E calaremos, pois nada melhor que isso somos.
Entrego com mãos humildes e trêmulas todas as quimeras que me foram oferecidas.
Que fazer se não me render à turba insana?
Plantar flores, remover pedras?
O mundo agoniza, e o perfume das minhas flores não curam dor alguma.
Que alguém nos ouça!
Que alguém, Quem quer que seja, saiba o sentido de toda essa barbárie.
Pois a pouca carne e ossos que possuo já me cansa,
já me é pesado demais,
E assim é com todos, todos.
Porque, mesmo com os pés na terra,
acorrentado, átomo a átomo, à matéria,
vi que a vida persiste após a morte.
pois morri na última manhã de sábado,
e continuo aqui sentindo cada centímetro da minha pele em chamas,
bebendo cada litro do fel que se transformou meu amor ao não mais poder te oferecer.
3 de ago. de 2014
Pedras e rosas
Tantas canções, tantos poemas, tantas flores, tanto barulho e não há nada.
Não sorria enquanto colhia as pedras que colocaria aos pés das roseiras,
cujo perfume você não sentirá,
cuja cor não será por mais ninguém vista,
cujo desabrochar apenas aos meus olhos murchos se revelarão.
De que serve agora meu Jardim?
Ou minha certeza?
Ou minha fé?
Ou eu?
Sempre soube que as tempestades não viriam sem aviso.
Com uma mão de Deus no ombro, e a outra apontando o horizonte negro,
eu as prevejo.
Sempre foi assim.
E eu me encolhi, como um feto, como um botão não desperto e só fiz chorar.
Calei minhas certezas que nem a mim já serviam...
Um adeus é como uma maldição que quase nada no mundo pode quebrar,
Uma maldição criada pelo próprio amor,
Uma maldição que só o que a conjurou pode desfazer.
Recolhi pedras e plantei roseiras, como disse a Mestra.
E agora entendo que plantar roseiras e depositar as pedras
coloridas aos seus pés, é na verdade criar um túmulo aos sentimentos
que não mais existirão.
Recolher pedras e plantar roseiras é um ato de sepultar sentimentos que partiram, ou que não partiram, mas não podem mais viver.
Plantei uma roseira negra para o Sonho,
Plantei uma roseira rosa o Amor,
Rodeei de pedras para que não sejam danificadas pelos ventos ou chuvas.
Todos os dias, enquanto esses dias forem sendo desperdiçados
com essa realidade imbecil que idolatram, irei até o jardim-que-ninguém-vê para sentir o perfume do Amor e do Sonho.
Feito a criança que eu era, que subia nas árvores para tentar pegar nuvens.
Falta a terceira roseira, a roseira ainda sem cor,
ainda não acolhida pelo jardim.
Falta a sepultura da Saudade, porque ainda ontem o Amor esteve aqui e o coração, sempre lento demais, ainda não se deu conta que ele se foi.
Amanhã eu planto.
2 de ago. de 2014
Elegia
Deita fria junto aos mortos a minha esperança.
E choro pelos mortos e choro pela esperança
e choro pelo choro, pelo grito, pela ânsia
represados.
Choro pela inutilidade das minhas lágrimas,
das minhas lembranças, das minhas palavras,
das minhas mãos negadas.
Do meu pior fiz meu melhor,
Do meu sangue fiz água fresca,
Da minha escuridão inverti as cores,
fiz luz.
E a quem importa, se não a mim?
Quem tem olhos para meus fracassos e meus troféus?
Para onde vão todas as promessas esquecidas?
Para onde vão todos os sonhos murchos?
Mas recolho dos ventos a que atirei minhas blasfêmias lamentosas.
Poupo da minha ira o frio mais gélido
que se torna o amor ao não mais o ser.
O frio que, eu já devia saber, nunca irá partir.
Poupo também meu peito de sentir minha mão o invadindo
para atirar ao solo úmido meu coração imbecil.
Apenas a esperança peço que parta,
que desapareça,
que morra,
para que,
quem sabe assim,
eu consiga viver em seu lugar.
23/07/2014
Cemitério de sentimentos
O amor... essa coisa imprevisível.
Ontem valia a vida, hoje é só saudade.
O silêncio brota dos canteiros onde foram plantadas esperanças,
Dores escorrem dos lábios que ofereciam sorrisos adocicados.
O amor, o erro mais tolo entre todos os erros todos.
A eternidade mais breve, a chama mais veloz, o buraco mais profundo.
Era tão importante, lembra?
Um suspiro, uma palavra, uma poesia, uma fotografia?
Então chega o futuro e o futuro rouba todos os arco-íris,
E nós olhando para o teto deitados em nossas camas distantes.
O amor e toda sua perfeição em mãos ásperas como as minhas nunca sobrevive muito.
Nós não sabemos amar, nós somos ilusionistas deslumbrados com as próprias mágicas,
Ignorando que tudo é um efeito especial deslumbrante.
Mas ignore, ignore o apelo insandescido do meu peito:
amar é minha busca primordial, não a sua.
18/07/2014
O que termina, o que continua
A vida continua.
A felicidade termina.
Simples e óbvio.
Se em todas as coisas tão lindas,
todas as coisas que luziam,
todas as coisas que emanavam o sagrado,
eu vejo tua face,
e se agora tua face não vejo,
que resta?
A felicidade se foi.
Doce e delicada, se despede como o inverno.
Silenciosa; uma folha desprendida, uma flor despencada,
flutuando até o chão ressequido.
O inverno se despede... mas não virá a primavera.
31/07/2014
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