8 de ago. de 2014

Vó Sepha, Vô Chico


São semanas em que os adeuses rondam, tão silenciosos e frios.
Tantas despedidas, quase nenhuma chegada.
Dos vagões que passam sobre os trilhos da vida pouca coisa desembarca ultimamente...

É tempo de Mudanças. 
Esperanças infinitas são barradas por finais infelizes.
O mundo jaz em seu seu ódio por si mesmo,
num eterno e incompreensível ciclo escuro de estupidez.

Mas não foi há muito em que amores eram roubados pelas janelas.
Não foi há muito que a própria palavra "amor" era sagrada e imaculada.
Um contrato inquebrável.
Não há muito era possível ter coragem.

Dizem que é o fim dos tempos.
Tão ingênuos... 
Ingênuos por acreditar que, 
por seus olhos não verem apenas o que querem ver,
tudo chegou ao fim.
O Fim é uma benção que ainda não merecemos.
Começar tudo de novo, do primeiro passo, com o histórico reluzente.
A luta persiste, e adianto, será longa.

Também eu sou ingênuo e fraco e tolo, 
por fazer das rosas do jardim um dos meus poucos motivos para sorrir.
O Mundo é maior, e continua, além da minha dor, além da minha ignorância, além da minha mesquinhez, além da minha ganância.
Troque-se "minha" por "nossa".

Os tempos não se findam, apenas se transformam.
Como a rosa que sai da segurança do botão para os perigos dos ventos e das chuvas
(e dos gatos).
Mas se a rosa não saísse, não haveria cor e perfume, 
não haveria sentido para a existência do botão.
A rosa... poesia das mais puras.

Vó Sepha, Vô Chico... os maiores Poetas que já tive a honra de conhecer.
Ao Amor deles devo minha vida; à coragem deles, à loucura deles.
Talvez nunca tenham escrito uma linha sobre o papel,
Mas numa madrugada, por uma janela de madeira velha, 
o jovem Chico levava para qualquer lugar distante a jovem Sepha.
Nunca li poesia mais bonita.

E cresceram e amaram e sofreram e criaram.
Sempre tanto amor e dor,
Como se, ao receber essa moeda da vida, 
fosse obrigatório fazer uso dos dois valores.

Vô Chico se foi, como um passarinho,
aconchegado no ninho que tanto lutou para construir.
Vó Sepha descansa enfim.
Deita nos braços da eternidade e segue seu caminho na jornada comum de todos nós.
A vida não termina...

Os anos vão, a alegria vai, o desespero vai, a tristeza vai, a vida vai, as rosas vão.
Algo precisa ficar. 
Eu queria que fosse o Amor.






7 de ago. de 2014

Folhas secas


Os dias escorrem por conta-gotas.
Caem lentamente como os grãos de areia de uma ampulheta.
Os semanas levam o verde das folhas, 
mas trazem novos brotos, novas flores.
Os meses levam os dias felizes, também os tristes, 
mas deixam as lembranças.

Cada recordação feliz, adormecida no passado tão presente,
é um pequeno porto, uma relíquia, um refúgio ao coração.
Cada recordação triste, gravada na alma como uma cicatriz muito profunda,
é um pequeno troféu enferrujado conquistado pelas batalhas enfrentadas.

As memórias se esparramam pelo chão e dançam no vento como folhas secas...
Folhas que cumpriram sua sina. Uma hora caem, decompõem-se... 
E assim como a natureza inicia e encerra seus ciclos para que a vida se renove,
Também nós iniciamos e encerramos os nossos para que a esperança não esmoreça por completo.

Que fique uma semente, bem protegida nos confins da alma, e que um dia germine; quando todo verde, principalmente o daqueles olhos, houver partido por completo.

Apenas o Amor permanece inabalado, 
indiferente ao tempo e ao espaço.

6 de ago. de 2014

Direito à lágrima


Obrigado, Deus, por meu direito ao pranto.
Suave e doce, como a primeira chuva após a estiagem.
Obrigado, Deus, por meu coração sentir fome do Belo.
É necessário saciar aquilo que me guia.
Obrigado, Deus, pela esperança, tão surrada, não partir:
Eterna cúmplice.

A vida persiste, mesmo após o fim do mundo.
"Se você procurar bem, esses escombros estão cheios de tesouros."
Repouso, como uma pluma onde não venta, em minhas lágrimas.
Tão pacíficas, tão meigas, tão doces, tão abundantes. 
Dói a perda dos que silenciam: entejam na carne ou livres dela.
Só quero um momento para que minha dor doa também.

Que ela lateje, livre como um cavalo selvagem cavalgando numa costa desconhecida.
Que o medo se aproxime, sem alarde, e aperte minhas mãos, com olhar de velho conhecido.
"Estou aqui." Digo, ainda crendo, vejam só, que a vida é além do que se vê e do que fere.
Ainda entristecendo ao ver as flores murchando, os sentimentos sendo fracos.
Caminhando em meio aos destroços deixados pelo último terremoto, observo.

Observo descrente que a vida voltará a luzir e sorrir, 
embora saiba que ela sempre volta,
Ainda que pedaços faltem, ainda que relíquias sejam para sempre perdidas, ela volta.
E minhas ilusões adormecem então, sonhando com os dias em que tinham asas tão grandes, tão fortes. 
Adormeço junto a elas, e tento voar também.

Os dias após o fim dos dias


Que toda morte seja calma, como o balançar dos barcos ao flutuar em mares pacíficos.
Que toda lágrima, tanta e inevitável, escorra lentamente como uma carícia.
Apenas morremos mais uma vez, de uma outra forma;
E continuamos vivos, de alguma forma.

Já murchou a roseirinha que o gato, sem motivo, odiou e desplantou do solo.
São tempos de adeuses...
Mas os dias que seguem o fim parecem os mesmos.
Como sempre, tudo o que vemos como errado, está mais do que certo.

Após o pior adeus, olhei então Deus no fundo dos olhos e disse:
"Faça alguma coisa! Por Seu amor, faça alguma coisa!"
E Deus sorria... não da minha dor, mas da minha ira.
Eu sei, eu sei: não é aos meus pés que o universo se deita.

A amiga me leva para ver flores. Muitas, multicoloridas.
Orquídeas, explodindo tamanha vida.
E eu quase choro de novo...
Tanta espera, tanta luta, por uma flor tão rápida e frágil.

Aproveito e prometo: tal e qual Nosso Senhor, ressuscito ao terceiro dia.
O mundo chora, as esperanças murcham, os gatos destroem as roseiras,
apesar dos espinhos que deveriam protegê-las...
E eu aqui: quantos anos mais sepultado por meus fracassos?

Reabro as veias secas, tão preenchidas de pranto e clamor e frio,
e grito: "Vida, desculpa, volta pra cá!"
E ela volta, contente por ser novamente bem-vinda.
E nós não traçamos planos, apenas ouvimos uma música juntos.

Solenemente agradeço a presença dos anjos que acudiram meus clamores,
Mas peço que fiquem acordados. Não dou pouco trabalho.
E após as maiores alegrias e as piores dores,
tento pensar apenas no doce e suave sonho...

Uma senhora, repleta da beleza dos Humildes de Coração,
Com sua vassourinha varrendo a varanda de uma casa simples e aconchegante.
Eu observava as laranjeiras do quintal com grande admiração, e ela disse:
"Neste ano tivemos muitas abelhas e borboletas. 
As flores já se foram, mas os frutos logo vêm."


5 de ago. de 2014

O sentir




Onde fica o misterioso país das memórias,
em que tudo é revestido por uma falsa película de eternidade?

Eternidade... esses ventos de agosto, que quase me derrubam -
não por serem fortes - mas por serem doces e meigos demais,
e o galho florido do ipê, agora negro e ressequido - antes amarelo de flor -
me pareciam eternos...

Parece tão fácil estender a vida como um mapa e apagar as linhas que não se poderá mais seguir,
talvez seja,
ou talvez as linhas fiquem para sempre ali, como uma cicatriz, uma ode ao fracasso.

Adormecem as lembranças nessa terra, como as rochas?
Mortas e imóveis elas servem de abrigo a qualquer coisa?
Ou apenas o tempo, mestre de todas as coisas, tem poder de trazer qualquer mudança?
Eu apenas observo quando ele vem, 
trazendo novas filhas, levando para o desconhecido as antigas.

Tudo é assustadoramente aceitável aqui, no mundo dos Absurdos.
Ainda ontem o amor era muito, era completo, era profundo, era forte,
e hoje é adeus. 
Assim: adeus. 
Aqui, no mundo dos Absurdos nada fica firme por longo tempo.

Se não bastasse, recebo a visita indesejada da Realidade.
Velha ranzinza e amarga.
Orgulhosa, despeja fatos no meu peito como se eu não soubesse que ela mesma é a maior das ilusões.

"Não sinta!" 
Diz ela, sentada próxima demais ao ponto de eu sentir a frieza da sua pele.
"Cale, não sinta!" 
Repete ela....
Mas eu continuo tentando alimentar a alma, já raquítica de esperança, com algumas lembranças que começam a fugir do meu toque.
"Quero seu bem, cale, não sinta!" 
Ela insiste; estúpida, vazia, grosseira.
Respondo enfim: Eu sinto, não há escolha: eu sou o próprio sentir. 

Universos abertos


Que parte não esteve à mostra?
Qual estrela foi oculta aos teus olhos?
Minhas galáxias e buracos negros todos ao teu dispor,
Como se me fosse íntimo desde o nascer,
Um eu diverso, vivendo uma vida alheia.

Sem chaves, sem portas.
Os contratos foram assinados com o primeiro olhar:
“Confio e amo, para sempre.”
Minha ingenuidade é quase bela...
Já não é mais que óbvio que a eternidade para uns é diferente da de outros?

Ainda assim te levei ao universo,
Falei quase todas as noites das estrelas,
Das que subiam e das que caíam,
Das que brilhavam tanto daqui do fim do mundo.
Sem portões, sem muros; apenas pontes, muitas pontes.

Então disse adeus, com hora para chegar e hora para partir.
Tudo tão coerente e preciso.
Lógico e recheado de dor.
E eu, feito criança tola que não aprende ao primeiro tapa,
Dançava valsas com a esperança até sua chegada.
Até que, enfim, todas as canções findaram, e eu enxerguei a mim,
Dançando só, sem a esperança, sem mais nada, e ouvi as batidas da vergonha na porta.
Mas ainda não abri, cansado demais para fazer sala para essa velha conhecida impertinente.





Prelúdio à memória


Te mostrei a rosa; nem viu a rosa, eu sei.
O mundo acabava-se, e toda atenção devia estar voltada ao útil.
E as palavras, 
que como um barco à vela te levariam as promessas, 
as razões para não dizer adeus, 
as memórias mais doces e as canções que nos uniram,
nem ao menos aportaram em nosso cais...
Naufragaram num oceano lacrimoso e cheio de soluços.

Quem seria eu para falar do melhor ou do pior caminho?
Falar da melhor ou pior decisão?
Falar da vida que poderia ser tão bela? 
Falar de sonhos?
Quem seria eu para questionar seus escombros?
Eu, que ergo um observando outro monumento desabar...

Nem mesmo as memórias são eternas.
E a custo de dias secos e ventosos como deste agosto, irão se perdendo.
Primeiro as mais delicadas e sutis, 
como o brilho do seu olhar e a gentileza do seu caminhar;
Depois, as mais poderosas e profundas, 
como seu sorriso naquela estrada longa e pedregosa.
As memórias vão acumulando poeira, como um diamante esquecido no porão.
O diamante, indestrutível, permanece lá, intacto, mas não é visto.
É um gracejo de Deus para tocarmos adiante esse barco... 
sabe-se lá pra onde.

Sei é que não chorarei mais.
Não só o coração, mas os olhos também jazem cansados em demasia.
Chega tempestade, parte tempestade; chega ventania, parte ventania.
E tudo se repete, numa falta de criatividade sem fim.
Enquanto o mundo acaba, vou plantando minhas flores...

“- A Beleza não é um luxo, é uma necessidade humana.”
Disse , sabiamente, a poetisa.
Não me importo de beber lágrimas, mas que sejam de boa emoção;
Não mais aquelas venenosas de tristeza.
Sorverei sim meus prantos, mas observando o desabrochar do jardim.
O jardim que antes dava desespero de tanta pedra,
E uma a uma tirei com as mãos,
O jardim que agora ressurge formoso em flor.

4 de ago. de 2014

Errados


Foi-se a flor de laranjeira, a flor que embelezava as noites e os habitantes dela.
Foi-se o perfume inebriante, os sons baixinhos de risos na madrugada sonolenta.
Toda a magia partiu, como um fogo de artifício bonito e colorido, explodindo no céu.
A luz do dia partiu, tão honrosa consigo mesma, mas não deixou estrelas a me consolar.

Não há nada de errado com o mundo.
Tudo está na mais perfeita ordem que a maioria deseja.
Nesta realidade gerida pelo inferno, nada tenho direito de criticar.
Errado estou eu, estamos nós, aqueles que acreditam nos malditos contos de fadas, sempre com finais felizes.
Só que, ninguém, jamais, se lembra de dizer que qualquer final que seja, é um final triste.

Não é isso o mundo?
Feras se matando por um bocado de carne?
Entorpecidas almas vagando com os músculos preenchidos de morfina?
Abutres egoístas digladiando por um pedaço de cadáver?

Errado estou eu, que gasto meus últimos centavos com roseiras,
Esperando que da terra morta e infértil brote alguma poesia,
alguma consolação aos olhos que só fazem ver adeuses,
só fazem ver gritos e distâncias.

"Fracos!"
Bradarão em coro todos os anjos ao chegarmos ao além.
"Fracos e mesquinhos, todos vocês!"
E calaremos, pois nada melhor que isso somos.

Entrego com mãos humildes e trêmulas todas as quimeras que me foram oferecidas.
Que fazer se não me render à turba insana?
Plantar flores, remover pedras?
O mundo agoniza, e o perfume das minhas flores não curam dor alguma.

Que alguém nos ouça!
Que alguém, Quem quer que seja, saiba o sentido de toda essa barbárie.
Pois a pouca carne e ossos que possuo já me cansa, 
já me é pesado demais,
E assim é com todos, todos.

Porque, mesmo com os pés na terra, 
acorrentado, átomo a átomo, à matéria,
vi que a vida persiste após a morte.
pois morri na última manhã de sábado,
e continuo aqui sentindo cada centímetro da minha pele em chamas,
bebendo cada litro do fel que se transformou meu amor ao não mais poder te oferecer.


3 de ago. de 2014

Pedras e rosas


Tantas canções, tantos poemas, tantas flores, tanto barulho e não há nada.
Não sorria enquanto colhia as pedras que colocaria aos pés das roseiras, 
cujo perfume você não sentirá,
cuja cor não será por mais ninguém vista,
cujo desabrochar apenas aos meus olhos murchos se revelarão.

De que serve agora meu Jardim? 
Ou minha certeza?
Ou minha fé?
Ou eu?

Sempre soube que as tempestades não viriam sem aviso.
Com uma mão de Deus no ombro, e a outra apontando o horizonte negro,
eu as prevejo.
Sempre foi assim.
E eu me encolhi, como um feto, como um botão não desperto e só fiz chorar.

Calei minhas certezas que nem a mim já serviam...
Um adeus é como uma maldição que quase nada no mundo pode quebrar,
Uma maldição criada pelo próprio amor,
Uma maldição que só o que a conjurou pode desfazer.

Recolhi pedras e plantei roseiras, como disse a Mestra.
E agora entendo que plantar roseiras e depositar as pedras
coloridas aos seus pés, é na verdade criar um túmulo aos sentimentos 
que não mais existirão.

Recolher pedras e plantar roseiras é um ato de sepultar sentimentos que partiram, ou que não partiram, mas não podem mais viver.
Plantei uma roseira negra para o Sonho,
Plantei uma roseira rosa o Amor,
Rodeei de pedras para que não sejam danificadas pelos ventos ou chuvas.

Todos os dias, enquanto esses dias forem sendo desperdiçados 
com essa realidade imbecil que idolatram, irei até o jardim-que-ninguém-vê para sentir o perfume do Amor e do Sonho.
Feito a criança que eu era, que subia nas árvores para tentar pegar nuvens.

Falta a terceira roseira, a roseira ainda sem cor, 
ainda não acolhida pelo jardim.
Falta a sepultura da Saudade, porque ainda ontem o Amor esteve aqui e o coração, sempre lento demais, ainda não se deu conta que ele se foi.

Amanhã eu planto.



2 de ago. de 2014

Elegia



Deita fria junto aos mortos a minha esperança.
E choro pelos mortos e choro pela esperança
e choro pelo choro, pelo grito, pela ânsia
represados.
Choro pela inutilidade das minhas lágrimas,
das minhas lembranças, das minhas palavras,
das minhas mãos negadas.

Do meu pior fiz meu melhor,
Do meu sangue fiz água fresca,
Da minha escuridão inverti as cores,
fiz luz.

E a quem importa, se não a mim?
Quem tem olhos para meus fracassos e meus troféus?
Para onde vão todas as promessas esquecidas?
Para onde vão todos os sonhos murchos?

Mas recolho dos ventos a que atirei minhas blasfêmias lamentosas.
Poupo da minha ira o frio mais gélido
que se torna o amor ao não mais o ser.
O frio que, eu já devia saber, nunca irá partir.
Poupo também meu peito de sentir minha mão o invadindo
para atirar ao solo úmido meu coração imbecil.

Apenas a esperança peço que parta,
que desapareça,
que morra,
para que,
quem sabe assim,
eu consiga viver em seu lugar.

23/07/2014

Cemitério de sentimentos


O amor... essa coisa imprevisível.
Ontem valia a vida, hoje é só saudade.
O silêncio brota dos canteiros onde foram plantadas esperanças,
Dores escorrem dos lábios que ofereciam sorrisos adocicados.

O amor, o erro mais tolo entre todos os erros todos.
A eternidade mais breve, a chama mais veloz, o buraco mais profundo.

Era tão importante, lembra?
Um suspiro, uma palavra, uma poesia, uma fotografia?
Então chega o futuro e o futuro rouba todos os arco-íris,
E nós olhando para o teto deitados em nossas camas distantes.

O amor e toda sua perfeição em mãos ásperas como as minhas nunca sobrevive muito.
Nós não sabemos amar, nós somos ilusionistas deslumbrados com as próprias mágicas,
Ignorando que tudo é um efeito especial deslumbrante.
Mas ignore, ignore o apelo insandescido do meu peito: 
amar é minha busca primordial, não a sua.


18/07/2014

O que termina, o que continua


A vida continua.
A felicidade termina.
Simples e óbvio.

Se em todas as coisas tão lindas,
todas as coisas que luziam,
todas as coisas que emanavam o sagrado,
eu vejo tua face,
e se agora tua face não vejo,
que resta?

A felicidade se foi.
Doce e delicada, se despede como o inverno.
Silenciosa; uma folha desprendida, uma flor despencada,
flutuando até o chão ressequido.

O inverno se despede... mas não virá a primavera.


31/07/2014

31 de jul. de 2014

Aos anjos


Peço aos anjos que despertem do sono que antes lhes permiti.
Rogo o vento de suas asas para atiçar o fogo frágil da minha fé.
Que ela reviva. Que ela reviva...
Pois passo pelas ruas a flutuar, quase sem vida,
mais sendo levado pelo caminho do que indo por ele.
De olhos estáticos, quase cegos,
deixando para traz clamores e esperanças para os quais sempre retorno.

Minha natureza torna-se a natureza ao redor,
minhas folhas caem e apodrecem e alimentam novas folhas.
Um ciclo doloroso de sobrevivência.

Os sentimentos, que deveriam trajar calmaria,
revolvem-se como as ondas tenebrosas dos mares que nunca conheci.
Os mares dos quais apenas imagino a imensidão;
O vazio acima, o infinito da criação abaixo.

Peço em tom mais alto que os anjos despertem!
Que ouçam a voz rouca do meu olhar sem brilho.
Que socorram corações que se liquefazem. 
Que me ajudem a calar minha voz, 
controlar as palavras que despencam em excessos, como cachoeiras.
Mas os anjos permanecem imóveis, embora eu os perceba aqui.
E duas lágrimas caem, num misto de conforto e desespero.

Reconheço que vejo apenas o que sinto,
Limitado sou, como qualquer outro vivente.
Vejo como sinto e talvez não como de fato é.
Vejo meu medo, meu desejo, minha saudade...
Vejo o que é próprio de mim,
Enquanto não vejo aquilo que não é, mas tanto amo.

Lírio da paz


Em meio às tempestades, com ventos ferozes
uivando nas árvores e cabos elétricos;
Em meio aos pesadelos em que eu, já velho,
me escondia embaixo da cama como qualquer criança;
Em meio às sementes que teimam em não germinar,
ele veio: um pequeno lírio da paz.

A coisa que pensei quando o coloquei naquele canto foi:
Quando o amor passar pela porta, será a primeira coisa que ele verá.
E talvez o coração do amor se alegre em ver aquela pequena beleza humilde.
Mas agora o observo com olhos marejados...
Talvez o amor não o veja.

Talvez apenas eu possa ver e dar importância àquelas flores.
E eu toco o lírio e cuido do lírio como se cuidasse um pouco do amor.
Ignorando as paredes sujas da minha alma,
Ignorando os estrondos que os fantasmas emitem de dentro dessas paredes,
Ignorando que a vida e o universo persistem além do sonho e do verso.

Mentimos tão bem quando dizemos não querer nada do amor.
Fingimos tão bem que não somos mais espíritos enlameados,
apenas rastejando rumo à angelitude.
Do amor queremos o amor.
Queremos que ele nos absorva em seu âmago,
Nos envolva como a terra envolve a semente.

Mas não mentimos quando dizemos que o amor é forte.
Forte como o Jardim que persiste vivo após a tempestade.
Forte como meu apreço pelo pequeno e doce lírio, que ali,
imóvel e silencioso, me obriga a entender como a esperança
e a vida
trabalham em seu tempo, e não no do meu coração.

30 de jul. de 2014


Peço abraço à lágrima que não cai dos olhos,
como uma angústia sem remédio descoberto.
Peço abraço à bondosa velha cabocla, 
doutora da vida e dos ventos.
Peço abraço à poesia, que, como mãe,
acolhe seu filho repleto de medos e deformidades.

Peço colo ao sol, que veleja calmo na tarde morna,
que acolhe a alma frígida, dolorida.
Peço colo ao silêncio, que fere, mas também alivia.
Peço calma à memória, minha menina que chora.

Há tantos dias sendo poeira,
repousando sem escolha sobre diamantes e esperanças apodrecidas.
Um pó fino, suave manto sobre os telhados e laranjeiras.
Se não houvesse em mim o que sobrevivesse à carne eu não sentiria tanto;
nem a dor, nem o desejo, nem tanta saudade.

Mas calo o sofrer da minha alma diante de maiores sofreres.
Ainda há o sonho, em que os anjos, doces amigos, destroem medos e quilômetros.
Como antes e sempre, não sei onde pousar meus passos.
Meus pés, pouco usados, acostumados a levitarem ao bater das asas, 
sangram aos pedregulhos do chão.
E enquanto acaricio o que já são feridas, tento compreender a diferença entre nós e laços.

Seguro as lágrimas, como botões ainda despreparados para exposição de suas cores.
Seguro o peito frágil, carente do único abraço consolador.
E nesses dias de profunda escuridão, esforço-me para amar corretamente.
É assim, depois de rastejar nos pântanos e por fim conhecer a beleza dos bosques, é difícil não se acostumar aos milagres.

E nós, os sem-ambição, somos os piores ambiciosos.
Queremos a verdade, queremos a paz, queremos o amor e a luz.
Logo aqui, num mundo onde tudo parece mal colocado, desencaixado, fora do lugar.
Nós, loucos, sonhadores, marginais, poetas, amantes, deserdados, filhos-pródigos.
Nós, os ridicularizados, que acreditamos que também somos parte do paraíso. 

Você é poesia


Quando te encontrei, encontre foi a poesia.
Ali, suave e macia, de olhos azuis...
Sorria o sorriso mais belo, a poesia.
E eu te amei desde os primórdios,
pois desde os primórdios amei a poesia.
E eu te desejei desde muito antigamente,
pois desde muito antigamente desejei poder respirar o belo.

E meus olhos deslumbrados quase não viram que a poesia é viva,
e sente, e sofre.
Assim como as flores que murcham e as pedras que se tornam migalhas;
a poesia de carne sangra, e chora, e vê tristonha o céu poluído da noite sem luzes naturais.
Os sons poderosos e as palavras todas curam tão pouco...

Os ipês já iniciaram seus epitáfios:
Rosados, amarelados, branqueados.
Tento dizer a todos eles que não sofram, não.
A morte não virá.
O frio do inverno é só maldade do sol que não quer estar próximo.

Haverá primavera e estes dedos tão secos e fracos
permanecerão com as mãos na terra, como desde sempre.
E tentarei acreditar que cada semente simples germinada
é uma pequena esperança que retorna ao coração dolorido.

Que, sutilmente, essas esperanças possam serrar as correntes
que nos atam ao desespero.
Em tempos sombrios o que resta é continuar a semear.
Talvez com o desabrochar das flores a poesia volte a sorrir.

Volte a sorrir aquele sorriso que tanta falta faz à minha alma.

29 de jul. de 2014

Crescer dói


Há quanto não te falo da beleza da noite?
Diante da tamanha escuridão dos tempos
até parece que as estrelas não estão mais lá.
Mas estão, como um carinho de Deus aos olhos dos homens,
Carentes, famintos do que é belo.

Já sei que a esperança não jorra das palavras
como a água jorra de um buraco no chão no meio do agreste.
E se não basta cruzar os braços, tampouco bem-vindo é o desespero.
Vamos cavando, lentamente, até que a vida volte a florescer.

Crescer dói.
Dói porque temos de remover a casca grossa que envolve a alma.
Temos de deixar tradições, condições, filosofias, ilusões.
Tudo aquilo que foi abrigo, torna-se prisão.
Livrar-se do seguro é crescer. 

Como então não rogar pelo amor?
Como não ver nele o farol abençoado em meio a esse oceano absurdo de ilusões?
Algo precisa permanecer firme e eterno, 
algo precisa permanecer visível quando a noite e até os dias são escuros demais.

Pedem-me lógica e coerência;
todos absorvidos por um cotidiano que zomba de nós e zomba de si mesmo.
Não me peçam nada, por favor.
Ao menos meu coração deixem em paz...
Que cresça da forma que lhe convém. 

Mais dia, menos dia, a realidade nos devora a todos,
Como uma fera enjaulada que por descuido escapa.
Mas enjaulado também há o pássaro, que toda noite canta alegremente
a todos da vizinhança; ignorante, pobrezinho, de sua condição de escravo.

Também eu canto, ignorante da inutilidade do meu canto.
Canto e persisto, como a noite que volta com seu bordado de estrelas 
após tempos de céus apenas enegrecidos.
Canto e persisto, como as plantas que sugam flores da terra tão surrada, tão pobre.
Eu canto, porque crescer dói, mas ser maior é bem bonito.


28 de jul. de 2014

?


De onde virá o socorro?
Do sol que nem se mostra?
Do frio que envolve os dias num abraço apertado?
Das flores que desabrocham belas e perfumadas, mas despedaçam-se velozmente?

De onde virá o calor?
Das lembranças mágicas onde já pousa fina camada de poeira?
Da estrada vazia e não muito bela que talvez nossos pés não pisem mais?
Do anel tão bonito e eterno, como assim deveria ser o amor?

De onde virá o consolo?
Das palavras e mais palavras atiradas ao vento?
Do jardim frágil, que mera chuva levaria à lama do solo?
Da canção tão bela que já não ouvimos mais?

De onde virá a paz?
Do torpor que mergulha a mente num sono negro e sem lembranças?
Dos aplausos falsos?
Dos sonhos, em que a alma é livre e o amor não é perseguido  pela realidade faminta?

De onde virá a esperança?
Agora que o silêncio é mais bem-vindo que a presença?
De onde virá o sorriso agora que os olhos apenas fitam o chão?
De onde virá o amor, agora que apenas a tristeza parece reinar?

22 de jul. de 2014

É só Agosto...


Ecoa por algum canto meu clamor pelo que transcende a vida que se vê?
No que poderiam pousar os sentidos além desta fria ilusão?
A carne, a distância, os móveis, as casas, os jardins, as ruas, tudo parece ocultar o que de raro, verdadeiro e eterno existe.
Cascas, alegorias; áridas, espinhentas, duras.

A fantasia ainda me acena das nuvens, como nas épocas idas de menino.
A fantasia... uma pequena ponte florida aos verdadeiros mundos.
Com o passar dos segundos, das décadas, a ignóbil realidade penetra.
É injetada à força nos meus braços fracos.
Quanto mais ela me preenche, mais de mim morre, mais de mim fica vazio.

Não é gloriosa a missão de buscar o indestrutível em um mundo transitório.
Não espanta o frio e o medo buscar abrigo em um castelo de cartas.
E não parece certo repousar nos ombros do Amor o fardo pesado da minha última esperança.

Se às árvores foi dado o solo que as sustenta e aos pássaros a leveza do ar em que bailam,
Por que negar aos Homens algum sentido nesse caos de Dante ao qual somos atirados?
Diziam-me que era errado não ter qualquer fé,
Agora dizem-me que ter fé é para os tolos.

Mas pelos ventos, eu sei:
É só Agosto que se aproxima,
Lábios e ares secos anunciam.
Agosto traz esse inconformismo perante o que,
de fato,
é inconformável. 
A luz é difusa, e difusos também são as sensações e o pensamento.
Some-se à proximidade de Agosto uma distância de centenas de quilômetros...
Não há Homem são nessas condições.

Perdão


Peço perdão à palavra.
A palavra que soprei ao vento, como semente alada,
e observei, complacente, deitar sobre rochedos estéreis.
Não há culpa para a palavra,
Nem há culpa para o rochedo.
É minha a culpa.

Peço perdão ao silêncio, que grita e grita,
pedindo que eu o veja, que eu o toque.
E eu nego, firme, como se o silêncio não existisse,
Como se o silêncio não me preenchesse
e não fosse eu mesmo.

Peço perdão às flores, às quais dei o duro fardo
de serem esperança.
E ainda sofro e me revolto ao vê-las murchar 
e abandonar meu jardim.
Que obrigação teriam elas com minha fé?

Peço perdão à realidade que recuso,
recuso com veemência,
entorpecido por sonhos infantis, quimeras, utopias, epifanias.
Como se em minhas veias não corresse sangue vermelho e quente,
mas apenas sentimentos.
Como se a ilusão ainda pudesse me salvar,
quando na verdade, é minha pena.

15 de jul. de 2014

Sob água


Lembro sorrindo dos dias de sol.
De manhãs não tão frias, em que o vento delicado trazia bailando
o perfume de flores recém-desabrochadas.

Ainda me acalenta o calor, como se ele nunca se despedisse,
E sua presença silenciosa,
Ainda nas roupas, nas paredes, nos lábios, no espírito.

Meus pés recordam-se da terra firme,
Uma terra de certezas e abrigos.
A terra que agora é mar, e o mar nos sobrepõe.

Meu coração segura memórias como fotografias inalteráveis,
Ignorando a pressão que as águas exercem,
Ignorando a imensidão delas.

Acalma-te, peço ao peito, 
enquanto as correntes marítimas o seguram no fundo.
Apascenta-te, ainda que ventos submarinos o impeçam de ser firme.
Ilumina-te, mesmo que com a luz caleidoscópica da superfície.

Após a noite de estrelas ausentes e tempestades presentes,
Poderemos voltar à superfície, mesmo feridos pelo frio das profundezas.
Poderemos repousar em terra firme e morna.
Sorveremos a calmaria e a claridade meiga de um sol recém-nascido. 

9 de jul. de 2014

Dias




Persisto em minhas palavras inservíveis.
Se não curam a mim,
A quem curariam?

Mas persisto,
Como se torcer o coração arrancasse-lhe 
os litros de fel.

Não arranca. Não muda nada.
Não existe fel...
Existem os dias, um após o outro.

Existe a lentidão e a rapidez deles que,
dependendo do desejo,
faz-se o contrário.

Dias banhados em gentileza,
Dias com tantas flores a desabrochar,
Dias de perfume suave e peito quente.

E dias assim, em que o sol desaparece antes do previsto,
E junto do céu de cobalto sopra o vento frio
que derruba ao solo as flores mais frágeis.

Não me visitaram as fiéis borboletas nessa manhã,
Mas apenas o silêncio e a distância.
Que bom que amanhã será outro dia.


5 de jul. de 2014

O porquê das flores


Não que terra seja gente, 
mas penso que tudo que é criação de Deus gosta de carinho.
Por isso, antes de plantar acaricio a terra úmida e
e me emociono por lembrar que abaixo dos homens duros, 
das mulheres duras, dos prédios, ruas e calçadas duras,
existe terra macia e fofa.
Me emociono também, e principalmente, porque aquela maciez 
é quase próxima à maciez da pele de quem tanto amo.

E quando penso no amor tanto, lembro da árvore imensa, coberta de flores enormes.
Minha irmã disse que os galhos pareciam labaredas, 
assim, cobertos de tantas flores de vermelho vivo como fogo,
E por dentro o coração sorriu, porque lembrou de uma velha infância em que ambos passavam momentos e momentos embaixo de árvores, em cima de árvores, rodeados de árvores,
falando de um pouco tudo ou apenas em silêncio, que diz mais ainda.

Dizem que não existe amor grande ou pequeno,
Que não existe amar muito ou amar pouco.
Que existe só o amar.
Dizem... dizem.
Se a alguém fosse dado o poder de definir a dimensão do amor,
qual seria a serventia da poesia, do poeta, do coração mais ou menos acelerado?

O que sei da serventia, é das flores.
Elas servem para alimentar o amor.
Vê a borboleta, a abelha, o besouro?
São pedacinhos de amor, pra lá e pra cá, 
Cumprindo frágil e vital sina.

As reles, humildes flores desse meu Jardim
também são para alimentar o Amor.
São para agradar aqueles olhos cor de céu e de mar.
São para consolar
um pouco
meu coração quando o Amor aqui não está.