30 de jul. de 2014

Você é poesia


Quando te encontrei, encontre foi a poesia.
Ali, suave e macia, de olhos azuis...
Sorria o sorriso mais belo, a poesia.
E eu te amei desde os primórdios,
pois desde os primórdios amei a poesia.
E eu te desejei desde muito antigamente,
pois desde muito antigamente desejei poder respirar o belo.

E meus olhos deslumbrados quase não viram que a poesia é viva,
e sente, e sofre.
Assim como as flores que murcham e as pedras que se tornam migalhas;
a poesia de carne sangra, e chora, e vê tristonha o céu poluído da noite sem luzes naturais.
Os sons poderosos e as palavras todas curam tão pouco...

Os ipês já iniciaram seus epitáfios:
Rosados, amarelados, branqueados.
Tento dizer a todos eles que não sofram, não.
A morte não virá.
O frio do inverno é só maldade do sol que não quer estar próximo.

Haverá primavera e estes dedos tão secos e fracos
permanecerão com as mãos na terra, como desde sempre.
E tentarei acreditar que cada semente simples germinada
é uma pequena esperança que retorna ao coração dolorido.

Que, sutilmente, essas esperanças possam serrar as correntes
que nos atam ao desespero.
Em tempos sombrios o que resta é continuar a semear.
Talvez com o desabrochar das flores a poesia volte a sorrir.

Volte a sorrir aquele sorriso que tanta falta faz à minha alma.

29 de jul. de 2014

Crescer dói


Há quanto não te falo da beleza da noite?
Diante da tamanha escuridão dos tempos
até parece que as estrelas não estão mais lá.
Mas estão, como um carinho de Deus aos olhos dos homens,
Carentes, famintos do que é belo.

Já sei que a esperança não jorra das palavras
como a água jorra de um buraco no chão no meio do agreste.
E se não basta cruzar os braços, tampouco bem-vindo é o desespero.
Vamos cavando, lentamente, até que a vida volte a florescer.

Crescer dói.
Dói porque temos de remover a casca grossa que envolve a alma.
Temos de deixar tradições, condições, filosofias, ilusões.
Tudo aquilo que foi abrigo, torna-se prisão.
Livrar-se do seguro é crescer. 

Como então não rogar pelo amor?
Como não ver nele o farol abençoado em meio a esse oceano absurdo de ilusões?
Algo precisa permanecer firme e eterno, 
algo precisa permanecer visível quando a noite e até os dias são escuros demais.

Pedem-me lógica e coerência;
todos absorvidos por um cotidiano que zomba de nós e zomba de si mesmo.
Não me peçam nada, por favor.
Ao menos meu coração deixem em paz...
Que cresça da forma que lhe convém. 

Mais dia, menos dia, a realidade nos devora a todos,
Como uma fera enjaulada que por descuido escapa.
Mas enjaulado também há o pássaro, que toda noite canta alegremente
a todos da vizinhança; ignorante, pobrezinho, de sua condição de escravo.

Também eu canto, ignorante da inutilidade do meu canto.
Canto e persisto, como a noite que volta com seu bordado de estrelas 
após tempos de céus apenas enegrecidos.
Canto e persisto, como as plantas que sugam flores da terra tão surrada, tão pobre.
Eu canto, porque crescer dói, mas ser maior é bem bonito.


28 de jul. de 2014

?


De onde virá o socorro?
Do sol que nem se mostra?
Do frio que envolve os dias num abraço apertado?
Das flores que desabrocham belas e perfumadas, mas despedaçam-se velozmente?

De onde virá o calor?
Das lembranças mágicas onde já pousa fina camada de poeira?
Da estrada vazia e não muito bela que talvez nossos pés não pisem mais?
Do anel tão bonito e eterno, como assim deveria ser o amor?

De onde virá o consolo?
Das palavras e mais palavras atiradas ao vento?
Do jardim frágil, que mera chuva levaria à lama do solo?
Da canção tão bela que já não ouvimos mais?

De onde virá a paz?
Do torpor que mergulha a mente num sono negro e sem lembranças?
Dos aplausos falsos?
Dos sonhos, em que a alma é livre e o amor não é perseguido  pela realidade faminta?

De onde virá a esperança?
Agora que o silêncio é mais bem-vindo que a presença?
De onde virá o sorriso agora que os olhos apenas fitam o chão?
De onde virá o amor, agora que apenas a tristeza parece reinar?

22 de jul. de 2014

É só Agosto...


Ecoa por algum canto meu clamor pelo que transcende a vida que se vê?
No que poderiam pousar os sentidos além desta fria ilusão?
A carne, a distância, os móveis, as casas, os jardins, as ruas, tudo parece ocultar o que de raro, verdadeiro e eterno existe.
Cascas, alegorias; áridas, espinhentas, duras.

A fantasia ainda me acena das nuvens, como nas épocas idas de menino.
A fantasia... uma pequena ponte florida aos verdadeiros mundos.
Com o passar dos segundos, das décadas, a ignóbil realidade penetra.
É injetada à força nos meus braços fracos.
Quanto mais ela me preenche, mais de mim morre, mais de mim fica vazio.

Não é gloriosa a missão de buscar o indestrutível em um mundo transitório.
Não espanta o frio e o medo buscar abrigo em um castelo de cartas.
E não parece certo repousar nos ombros do Amor o fardo pesado da minha última esperança.

Se às árvores foi dado o solo que as sustenta e aos pássaros a leveza do ar em que bailam,
Por que negar aos Homens algum sentido nesse caos de Dante ao qual somos atirados?
Diziam-me que era errado não ter qualquer fé,
Agora dizem-me que ter fé é para os tolos.

Mas pelos ventos, eu sei:
É só Agosto que se aproxima,
Lábios e ares secos anunciam.
Agosto traz esse inconformismo perante o que,
de fato,
é inconformável. 
A luz é difusa, e difusos também são as sensações e o pensamento.
Some-se à proximidade de Agosto uma distância de centenas de quilômetros...
Não há Homem são nessas condições.

Perdão


Peço perdão à palavra.
A palavra que soprei ao vento, como semente alada,
e observei, complacente, deitar sobre rochedos estéreis.
Não há culpa para a palavra,
Nem há culpa para o rochedo.
É minha a culpa.

Peço perdão ao silêncio, que grita e grita,
pedindo que eu o veja, que eu o toque.
E eu nego, firme, como se o silêncio não existisse,
Como se o silêncio não me preenchesse
e não fosse eu mesmo.

Peço perdão às flores, às quais dei o duro fardo
de serem esperança.
E ainda sofro e me revolto ao vê-las murchar 
e abandonar meu jardim.
Que obrigação teriam elas com minha fé?

Peço perdão à realidade que recuso,
recuso com veemência,
entorpecido por sonhos infantis, quimeras, utopias, epifanias.
Como se em minhas veias não corresse sangue vermelho e quente,
mas apenas sentimentos.
Como se a ilusão ainda pudesse me salvar,
quando na verdade, é minha pena.

15 de jul. de 2014

Sob água


Lembro sorrindo dos dias de sol.
De manhãs não tão frias, em que o vento delicado trazia bailando
o perfume de flores recém-desabrochadas.

Ainda me acalenta o calor, como se ele nunca se despedisse,
E sua presença silenciosa,
Ainda nas roupas, nas paredes, nos lábios, no espírito.

Meus pés recordam-se da terra firme,
Uma terra de certezas e abrigos.
A terra que agora é mar, e o mar nos sobrepõe.

Meu coração segura memórias como fotografias inalteráveis,
Ignorando a pressão que as águas exercem,
Ignorando a imensidão delas.

Acalma-te, peço ao peito, 
enquanto as correntes marítimas o seguram no fundo.
Apascenta-te, ainda que ventos submarinos o impeçam de ser firme.
Ilumina-te, mesmo que com a luz caleidoscópica da superfície.

Após a noite de estrelas ausentes e tempestades presentes,
Poderemos voltar à superfície, mesmo feridos pelo frio das profundezas.
Poderemos repousar em terra firme e morna.
Sorveremos a calmaria e a claridade meiga de um sol recém-nascido. 

9 de jul. de 2014

Dias




Persisto em minhas palavras inservíveis.
Se não curam a mim,
A quem curariam?

Mas persisto,
Como se torcer o coração arrancasse-lhe 
os litros de fel.

Não arranca. Não muda nada.
Não existe fel...
Existem os dias, um após o outro.

Existe a lentidão e a rapidez deles que,
dependendo do desejo,
faz-se o contrário.

Dias banhados em gentileza,
Dias com tantas flores a desabrochar,
Dias de perfume suave e peito quente.

E dias assim, em que o sol desaparece antes do previsto,
E junto do céu de cobalto sopra o vento frio
que derruba ao solo as flores mais frágeis.

Não me visitaram as fiéis borboletas nessa manhã,
Mas apenas o silêncio e a distância.
Que bom que amanhã será outro dia.


5 de jul. de 2014

O porquê das flores


Não que terra seja gente, 
mas penso que tudo que é criação de Deus gosta de carinho.
Por isso, antes de plantar acaricio a terra úmida e
e me emociono por lembrar que abaixo dos homens duros, 
das mulheres duras, dos prédios, ruas e calçadas duras,
existe terra macia e fofa.
Me emociono também, e principalmente, porque aquela maciez 
é quase próxima à maciez da pele de quem tanto amo.

E quando penso no amor tanto, lembro da árvore imensa, coberta de flores enormes.
Minha irmã disse que os galhos pareciam labaredas, 
assim, cobertos de tantas flores de vermelho vivo como fogo,
E por dentro o coração sorriu, porque lembrou de uma velha infância em que ambos passavam momentos e momentos embaixo de árvores, em cima de árvores, rodeados de árvores,
falando de um pouco tudo ou apenas em silêncio, que diz mais ainda.

Dizem que não existe amor grande ou pequeno,
Que não existe amar muito ou amar pouco.
Que existe só o amar.
Dizem... dizem.
Se a alguém fosse dado o poder de definir a dimensão do amor,
qual seria a serventia da poesia, do poeta, do coração mais ou menos acelerado?

O que sei da serventia, é das flores.
Elas servem para alimentar o amor.
Vê a borboleta, a abelha, o besouro?
São pedacinhos de amor, pra lá e pra cá, 
Cumprindo frágil e vital sina.

As reles, humildes flores desse meu Jardim
também são para alimentar o Amor.
São para agradar aqueles olhos cor de céu e de mar.
São para consolar
um pouco
meu coração quando o Amor aqui não está.





30 de jun. de 2014

Obrigado por partir meu coração


Obrigado por partir meu coração.
Obrigado por enterrar meu coração.
Obrigado por ser paciente com meu coração.
Obrigado por enxergar meu coração.

Meu coração é semente,
Antes tão dura e seca sobre areias mortas,
Antes tão dura e seca sob o sol escaldante.
Obrigado por germinar meu coração.

Agora, deste coração partido cresce vida esverdeada de esperança,
Frágil e bela como toda criança.
É semente de flor o que dei às tuas mãos.
Obrigado por fazer do meu coração perfume e cor.  

Meu coração é pequeno,
Ínfimo numa Terra tão grande, num universo cheio de tanto infinito.
Até dói tanta imensidão lá fora...
Obrigado por acolher meu coração.

Obrigado por tirar a distância entre a realidade e o sonho.
Obrigado por ser o guardião nas noites que são escuras demais.
Obrigado por não deixar para sempre meu coração como semente.
Obrigado por trazer a primavera para dentro de mim.

29 de jun. de 2014

O tempo


Os dez minutos anteriores à chegada: eternos.
As doze horas seguintes: um relâmpago.
As horas de insônia: longas e frias como um inverno inteiro.
As horas adormecidos juntos, no calor dos corpos: ligeiras como o sol se pondo.

A fotografia: saudade eternizada.
O instante registrado: veloz, veloz, veloz...
O rápido beijo da borboleta numa flor: fecundada.
A flor fecundada: abrigo da eternidade.

Banhar meu corpo: outra ligeira obrigação.
Banhar seu corpo: ocasião sagrada para acariciar templo divino. 
O abraço de chegada: mais longo que onze anos de escuridão.
O abraço de partida: um infinito falho, que não cumpre sua função.
O beijo: a duração de um desabrochar. 
O olhar: o nascer do sol após a noite tão escura...

Que ninguém se engane:
O que conta a passagem do tempo não são os ponteiros do relógio,
Mas as batidas do coração.

25 de jun. de 2014

Pedras atrás das flores




Escondi todas aquelas pedras atrás das flores.
Pedras tão sujas, tão ásperas, tão frias.
Eternamente duras em sua inumanidade. 

As recolhi, uma a uma, sujando as mãos que anseiam te acarinhar,
Abaixando até elas, me aproximando do que elas são.
Aproximando-me daquela vergonha e feiura.

Eu não via o céu enquanto as recolhia,
Mas sentia o sol arder nas minhas costas magras.
O céu permanece lá... também a esperança.

Escondi minhas pedras atrás das flores sem perfume,
Flores belas, cor de fogo.
Escondi apenas aos olhos, pois na alma elas ainda permanecem...

Elas ainda permanecem...
Pequenos troféus inglórios,
Troféus para as fraquezas, medos, derrotas.

Cada uma delas, um pequeno pecado tão pesado,
Amontoados e, enfim, ignorados.
Elas agora sustentam erguidos os galhos tão floridos da Primavera.

23 de jun. de 2014

Correr


Se eu pudesse aproveitar as ruas vazias,
os corações vazios;
Aproveitar que todos mudaram de dimensão,
aproveitar que os olhos cegos ainda mais cegos estão...
Para correr, correr, correr...
Me aproximar.

Se eu não temesse minha pequenez,
a miudeza em tantos sentidos,
A imensidão das limitações e dos defeitos;
Se eu não temesse o temor...

Eu estenderia à luz do sol poente as imensas asas,
E como nos sonhos fugiria dos fantasmas sem nome;
Iria ao teu encontro, velozmente.
Deitaria você em minhas costas, em penugem macia.

Para que enfim
tudo fique logo para trás, como um dia irá mesmo ficar.
Para que enfim
tudo se consume de fato, como um dia irá mesmo se consumar.
Para que enfim
tudo seja visto do alto e completamente, não mais em fragmentos.

Sem mais silêncio,
Sem mais frio,
Sem mais ausência.
Apenas a ânsia,
Apenas o calor,
Apenas o amor.

20 de jun. de 2014

Solo Sagrado


Deixo aos filósofos a dor da questionável verdade,
Deixo às crianças os mundos mágicos, 
que certamente existem,
E apenas elas são capazes de ver e adentrar.
E não criticarei os autoproclamados "sãos" por não enxergarem algo além.

A mim, permito o amor,
Mesmo tão consciente da minha indignidade perante ele.
Certa vez um Homem disse que aquele que muito ama
tem seus muitos pecados perdoados...

Então acalento em mim amor imenso,
Capaz de envolver e abraçar meus tantos erros;
Como a terra que, carinhosa, aninha a semente falha e faz dela bela flor.
Trago em em mim imenso amor porque por anjo ele me foi dado.

Caminhei onde nossos pés deixaram suas marcas leves,
Naquela doce tarde azulada, de sol tímido, de beleza recatada.
Pus-me em silêncio a agradecer, a sofrer de doce saudade,
a admirar o ipê rosado no horizonte não tão distante.

Deixo a nós o amor,
Um traço feliz num mundo de tantas cicatrizes profundas, amargas.
Deixo a nós aquela fé infantil e pura,
Porque em todos os caminhos que passamos
persiste o perfume dos nossos sonhos.



19 de jun. de 2014

Placebo


Todas aquelas canções sobre saudade...
Remédios tão doces para uma dor tão amarga.
Placebos, na verdade...
O que cura a alma é apenas a carícia da outra alma.

Nas tempestades agarro-me ao mastro roto do navio da minha fé.
Lambo o sal do mar que pousa em meus lábios,
Os músculos enrijecem-se, preparam-se, temem...
O coração esfria.

A tempestade passa.
A calmaria deita sobre oceano, 
Como uma feiticeira silenciosa,
Mas eu ouço sua respiração, eu prevejo seus planos.

Está em meus olhos esse oceano,
Esse mar, esse rio, esse riacho.
Não há espaço na Terra para mais lamentos, mais cansaços,
Então, nunca mais direi outra vez que minhas lágrimas são de tristeza.

Todo dia é o último dia em que uso palavras,
Todo dia eu morro, todo dia eu venho à luz.
Todo dia o silêncio de Deus me fala mais sobre ele.
Todo dia adormeço em seus braços macios,
distante quinhentos quilômetros deles.

17 de jun. de 2014

In color


Ainda existem flores quando você não está.
Ainda existe o jardim com suas humildes belezas.
Mas não há cor para os meus olhos...
Cada pétala desbota-se com sua ausência,
E os suaves perfumes são levados pelos ventos da saudade.

E quando preparo-me para abrir o peito ao meio,
Sonhos e lembranças seguram minhas mãos,
Com delicadeza.
O Sonho, uma criatura linda e otimista, 
projeta aos meus olhos a imagem de um próximo abraço, um próximo beijo.
A Lembrança, refinada dama, entrega-me um álbum de fotografias;
Imagens apenas nossas,
Partículas luminosas de passado.

Então se aproxima humilde e delicada menina,
Menina ora feliz, ora tristonha:
É a Poesia.
Entrelaça seus dedinhos meigos aos meus, tão rudes e maculados,
Convidando-me para brincar no jardim.
É insano, eu digo, faz escuro e não há cor ou perfume aqui...
E ela, com a inocência e o carinho de toda criança, me diz:
"Mas há dentro de ti!"

16 de jun. de 2014

Eu que não sei quase nada de amar



Eu que não sei quase nada de amar, amo.

Uns dizem que o amor morreu, lá atrás, junto das rosas e das cartas
E de um tempo em que existiam mais eternidades.
Outros, que o amor é o ouro dos tolos,
Um último refúgio, abrigo, esperança, em meio ao caos estúpido e sem sentido aparente da vida.
A frágil dama disse que o amor é um jogo de azar, que se joga acreditando nunca perder.
A bela deusa disse que o amor é como a chuva, que cai lavando a tristeza, levando embora a dor.
Para o menino, tão pequenino, o amor são asas fortes, que quebram as correntes de vento e o elevam acima do que há acima das nuvens.
Para o pecador, o amor é a remissão dos pecados, 
A segunda chance divina, 
A prova de que Deus tem bons ouvidos.

E para mim, que não sei quase nada de amar, mas tanto amo,
O amor é uma tarde de outono, quase inverno...
Os ipês que margeavam o velho e humilde córrego faziam chover suas flores rosadas, lentamente;
O sol flutuava no céu como uma memória feliz;
E você estava ali, ao meu lado - com seus olhos que, de tão perfeitos, causam inveja até ao azul do firmamento -
Oferecendo docilidades, pequenas promessas, um toque de leve na pele para não incomodar os mais ignorantes.
O amor, todo ele, toda a imensidão dele, é estar sentado ao seu lado;
Olhando para a mesma direção, para os mesmos sonhos.
Com uma corda de felicidade amarrada de um lado do coração, 
e uma corda de tristeza amarrada ao outro lado, 
cada uma puxando para o seu lado.

O amor é ter o coração ao meio, e continuar em vida.
É descobrir, maravilhado, que o sagrado reside em todas as coisas.
Que tudo, cada átomo, está impregnado de uma força Superior.

O amor é olhar sem desespero para a distância,
Pois só ele torna o mundo um grão de areia,
E aqueles que o sentem, maiores que os oceanos.

Para mim, mesmo não sabendo quase nada de amar,
O Amor é o que mantém acesa e aquecida a alma,
O que mantém, verdadeiramente, a vida viva.

8 de jun. de 2014

'Has to be'


Em um universo cheio de tantos infinitos deve haver algo além das minhas dúvidas mesquinhas.
Precisa haver.
Ainda que a fé seja frágil e delicada, 
sensível como a flor que se atira em minhas mãos,
presenteando-me com suave perfume;
Ainda que ela parta e retorne, queime e congele, constantemente,
eu sei que ela existe.
Precisa existir.

Já não olho para os outros olhos com o mesmo medo de outrora.
Todos remamos juntos, agora estou certo, para a mesma direção;
Somos pequenas crianças petulantes que pensam carregar algumas certezas.

Os anos deslizaram, as dores envelheceram e fertilizaram a terra do Jardim.
Apenas o coração, que tudo vê e tudo sente, permanece o mesmo menino,
Porém é mais calmo.

Um sopro e o mundo desaba, uma palavra e ele se reedifica. 

Em um oceano de tantos sentimentos:
leves,
pesados, 
simples, 
complexos, 
rasos, 
profundos;
Algum é eterno,
e dá sentido a tudo que é inexplicável.

Precisa ser.

5 de jun. de 2014

Velhos Paraísos



O vento leve e morno do outono 
é como um abraço macio e demorado
que eleva meus pés do chão estéril 
e deita-me nas relvas frescas dos meus velhos paraísos.

Um dia bastou esse vento e o sol
pra que a felicidade desabrochasse como as flores rosadas do canavial.
Bastou o silêncio e o bailar das árvores
para que eu brincasse na areia branca com meus poderes mágicos.

Lentamente dissipam-se,
como o frio da manhã,
os lamentos e expectativas.
Assim, o sono é calmo, o corpo repousa
como que em um barco, embalado por ondas preguiçosas.

Velejamos juntos...
Torpor e sobriedade, sonho e realidade,
Para todo lugar e lugar algum.

Continuo acreditando que as nuvens são castelos de algodão,
Não por desconhecer a verdade, mas por opção.
Continuo acreditando que ainda tenho o poder de cruzar o céu,
nas tardes e nas madrugadas,
Sobrevoando bosques e cidades com asas feitas de ilusão.
Continuo, ainda que, na verdade, eu não exista.

2 de jun. de 2014

Insisto



Aninho-me em palavras mortas de início de inverno.
São elas tão frias quanto o vento das madrugadas negras, 
mas ao menos permanecem.
Tortas, falhas, fracas; permanecem.
Por que insisto?
Por que continuo como se não fosse um dia pagar por minhas blasfêmias?
Por minhas crenças? Por minhas dúvidas?

Mas ainda assim insisto,
Porque há na passagem das horas, dos caminhos, das dores e das alegrias,
Uma busca infinda pelos mínimos instantes mágicos.
(Há esta sede e esta fome, nunca menores, sempre maiores a cada dia.)
Tento me obrigar a acreditar que ainda é vida o que vivo quando não está,
Quando não há teu perfume e maciez, quando não há tua voz e teu sabor.

Contento-me com a abóboda de cores quentes que me envolve no fim da tarde;
Contento-me com as flores que nascem belas e perfumadas em um dia, e se despedaçam no outro;
Contento-me com as sutis gentilezas, com as pequenas palavras amigas, com o olhar meigo e inocente do bichano dormindo sobre meu peito.
Alimento minha ânsia pelo Amor e pela Beleza com esses pequenos milagres.

Até que venha novamente,
Até que tome minha alma nos braços e ela tenha, enfim, verdadeiro repouso.
Até que a satisfaça da tua abundante claridade,
E eu não mais a obrigue a se manter de migalhas.

26 de mai. de 2014

Dissecando "Le Fol"

Lembro que um dos meus maiores prazeres nas aulas de literatura era decifrar os sentimentos que os poetas escondiam em palavras lapidadas. Lembro de sempre questionar e admirar a visão que nos era passada dos sentimentos; seria mesmo aquilo que o poeta sentia? Quem poderia garantir além dele mesmo? Brincando com isso, "dissequei" o poema "Le Fol" que escrevi hoje, referindo-se a mim mesmo como se fosse um poeta.

"Que vemos à frente, caro Louco, caro Tolo?
Não foram o bastante os arranhões da Vida?
Por que mantemos a face serena, inocente demais para quem
derramou o tipo de lágrima que nós já derramamos?"

A carta "O bobo" no Tarot é simbolizada por um homem de trajes coloridos, caminhando numa estrada, com a face inocente.
O poeta questiona as incertezas do caminho, os medos diante das próprias limitações. Reconhece os próprios erros e se julga indigno de sustentar uma face inocente.
O poeta e O Bobo já são homens, mas com sentimentos ainda quase infantis.

"Deixamos tudo para trás?
Ou de tão pequeno, cabe-se nosso mundo num saco?
Atingiremos os poderes mágicos?
Sabemos onde nossos pés deixam suas marcas?"

Os versos expressam ao mesmo tempo o receio perante as mudanças e a sensação de que nada se perde ao ir encontro daquilo que é almejado. Com "poderes mágicos" o poeta se refere à felicidade.
No último verso da estrofe ele questiona a importância dos próprios atos.

"Perde-se em teus caminhos pelos campos; apenas eu te encontro.
Perde-se em teus tudos e em teus nadas; tal qual eu.
Da mesma manhã cinza e gélida e morta,
Nasce o sol e brotam as flores e a vida."

Uma referência, literal, ao momento em que o poeta encontrou a carta "Coringa" no chão de um lugar qualquer, e uma leve menção ao significado da carta para aqueles que acreditam.

"Há aquela imensa nuvem escura no horizonte,
Não há?
Mas a luz ainda penetra, permanece.
Sigamos nossas trilhas."

A "nuvem no horizonte" é literal. Enquanto o poema era escrito uma grande nuvens negra se formava no céu, anunciando forte chuva. Mas representa também a insegurança. A Luz do sol vem em contrapartida a isso, também de forma literal, e dá conforto ao poeta. Embora a nuvem assustadora, a luz resiste, assim, ele sente segurança para seguir adiante no caminho que escolheu.

"Se te encontro, é sorte?
O perfume que o ar traz é verdadeiro?
Ou entreténs meu coração infantil com ilusões,
da mesma forma que ludibria teus nobres?"

Em algumas descrições é dito que encontrar tal carta é um sinal de sorte, ou azar.
O poeta questiona a própria crença nesses sinais e, além disso, questiona a própria fé, algo comumente questionado.

"Ou sou eu que te engano, Le Fol, ao fingir-me enganado?
Seria eu o mais realista dos homens fascinados?
O único crescido da Terra do Nunca?
O único sóbrio na Cidade das Esmeraldas?"

O poeta faz uma brincadeira com a ideia da carta (cujo personagem é conhecido por traquinagens),
e põe-se em seu lugar, enganando o enganador, numa atitude de provar que está acima das ilusões e infantilidades do Bobo. Porém, nos versos finais, engana a si mesmo, acreditando ser o único lúcido residente em terras imaginárias, uma grande incoerência.


“Sai o sol e se põe, e outra vez volta ao seu lugar, onde torna a nascer...”

O poema termina com o axioma da carta, resumindo a moral da história: a continuidade ininterrupta da vida.
O Bobo segue seu caminho, o poeta, seus sonhos. No fundo, no poema, os dois são o mesmo.

Le Fol


Que vemos à frente, caro Louco, caro Tolo?
Não foram o bastante os arranhões da Vida?
Por que mantemos a face serena, inocente demais para quem
derramou o tipo de lágrima que nós já derramamos?

Deixamos tudo para trás?
Ou de tão pequeno, cabe-se nosso mundo num saco?
Atingiremos os poderes mágicos?
Sabemos onde nossos pés deixam suas marcas?

Perde-se em teus caminhos pelos campos; apenas eu te encontro.
Perde-se em teus tudos e em teus nadas; tal qual eu.
Da mesma manhã cinza e gélida e morta,
Nasce o sol e brotam as flores e a vida.

Há aquela imensa nuvem escura no horizonte,
Não há?
Mas a luz ainda penetra, permanece.
Sigamos nossas trilhas.

Se te encontro, é sorte?
O perfume que o ar traz é verdadeiro?
Ou entreténs meu coração infantil com ilusões,
da mesma forma que ludibria teus nobres?

Ou sou eu que te engano, Le Fol, ao fingir-me enganado?
Seria eu o mais realista dos homens fascinados?
O único crescido da Terra do Nunca?
O único sóbrio na Cidade das Esmeraldas?



“Sai o sol e se põe, e outra vez volta ao seu lugar, onde torna a nascer...”

23 de mai. de 2014

Castelo nas Nuvens


Compreendo as fraquezas do meu coração forte,
Suas angústias, seus medos tão mesquinhos, 
Suas ânsias dantescas.
Em princípio choro sob a água quente,
Aperto os dedos com fúria,
Sinto vontade de rasgar as roupas e peças da realidade.

Mas logo amanso.
De onde escorre um mar de lava, quente e furioso,
Deixo que escorra apenas riacho suave e frágil.
Nele me banho, me batizo, me diluo.

Eu perdoo meu coração por exigir sonhos gigantes,
Exigir de mim, 
Que sou tão pequenino, que próximo do nada tenho a oferecer.
Ou era isso, ou era esse clamor infindo, essa busca infinda,
Essa petulância absurda de, em minha sujidade, 
desejar tua presença imaculada,
Ou era tornar-me quase tão morto quanto meus fantasmas.

Pois daqui, neste Castelo nas Nuvens, tudo o que vejo são belezas.
Minha alma baila ao luar como se fosse livre de pecados,
Como se fizesse algum sentido,
Como se fosse água pura e cristalina,
Como se tivesse realmente perdoado a si mesma.

Aceito o que me cabe, ainda a chorar...
Aceito necessitar do amor mais que tudo,
Sem jamais me sentir digno dele.
Aceito sentar-me à tua mesa, 
Saciar minha fome com teu Pão,
Saciar minha sede com teu Vinho.

Peço para adentrar em teu imenso e belo reino,
Cuidar do teu jardim, me apaixonar por todas tuas flores,
Mesmo que um dia me peças para deixar...
Suplico para saborear a felicidade,
Mesmo que a falta dela venha a doer como o não respirar.




22 de mai. de 2014

Coração da Flor



Lembro das palavras do sábio:
"A flor não deve ser colhida, mas admirada.".

E eu, em minha ânsias de menino que já acreditou,
piamente,
Que um dia tocaria as nuvens,
Toco a flor.

Toco com amor, saudade e desejo.
As pétalas tão macias contrastam com meu espírito rústico,
cheio de trincos, falhas e fendas.
Mas toda aquela beleza da flor me cura dos meus pecados.
Os olhos banham-se em águas puras, como cachoeiras.

Os anos passaram,
Não lembro mais do desejo de tocar as nuvens.
Este foi substituído pelo desejo de tocar algo mais imenso, 
mais sagrado:
O Coração da Flor.
O coração mais belo, mais quente, mais reluzente.

Eu não colho a flor, embora tão egoísta a deseje para mim.
Eu não colho o coração, embora anseie seu calor e pulsar.
Eu recebo perplexo e feliz, delicadamente, ambos.

Talvez


Finjo olhar com maturidade a tempestade que estoura no horizonte.
Observo nuvens e terra se digladiarem e finjo não temer.
De dentro o coração dá sussurros que não quero decifrar,
Não sei se ele canta esperanças ou realidades.
Temo a verdade e temo a mentira.
Permaneço imóvel.

Não sei se é a coragem ou a fraqueza que me paralisa.
Sei que espero.
Talvez a tempestade chegue perto, feroz.
Faminta dos meus sonhos mais puros e infantis.
Talvez eu saiba como lutar com ela e superar suas
espadadas frias em minha alma.
Talvez apenas caia garoa fina,
dessas que agradam as flores.

De algum lugar vem esse sentimento áspero.
Vem da distância.
Enquanto sorrio em meio a liberdade dos pássaros,
Anseio a segurança das minhas árvores prestes a florescer.

Peço seu socorro em silêncio,
Peço para ver as flores abrirem ao meu lado.
Tento fazer você se apaixonar pelo mundo na órbita das minhas quimeras.
Estou apenas sendo egoísta, mais uma vez.

20 de mai. de 2014

'Mais que a mim'


Dei à poesia - ao que tenho a arrogância de chamar assim - 
mais poder que a mim. 
A palavra forte, forjada de ferro a fogo, contrasta com a voz calma demais.
E a voz reconfortante dos heróis repousa silenciosa, distante.

Quando sobrevoo o céu ocre ao entardecer, 
nem me doem essas distâncias todas,
Nem me dói o que possa vir após o final dos livros de contos de fadas.
Penso que por algumas vezes não será necessário o escorrer de sangue.

Ignoro meus ancestrais e temo meus descendentes.
Quando e por quanto tempo se abrirá a flor da árvore que plantei no jardim?
Dores sem nomes não deveriam doer...

Cansei de pedir perdão a Deus.
Cansei de dizer: "Estive ausente, mas estive aqui.".
Perdão, meu Deus.
Sei que estou ausente, mas estou aqui.


'Um relicário imenso desse amor'


Abri o peito e espalhei na relva o que havia de sagrado.
Pra tomar um ar, absorver o sol de quase inverno.
E toda imensidão do mundo, com seus brilhos, vidros, espelhos, esculturas...
Tudo de tão grande parecia pouco diante dos meus ínfimos. 

Ah, a beleza imaculada de cada sorriso teu...
Ah, a meiguice dos teus olhos celestes...
Ao imaginar, julgo que Deus nem é assim tão justo como dizem,
Pois de todas as pessoas que andam pelas ruas, trilhas e estradas desse mundo, é teu o sorriso mais belo, é dos teus olhos as cores mágicas do oceano.
De mais ninguém.

Olhei para o fim de tarde que ali também repousava, fresca e tranquila. 
E eu, eu que apenas sou eu, e nada mais, me senti infinito;
Sorvendo a grandes goles aquele céu sobre mim,
As luzes queimando lentamente no horizonte distante até se extinguirem. 

Há um porto a que aportar. Calmaria.
Eu em teu peito macio, quente, com as batidas do coração que canta com docilidade.
Seus braços, cobertores.
Eu em meu verdadeiro lar, aninhado e protegido.

Pelas distâncias tão arrogantes passei cantando,
Sorrindo para as estrelas que bailavam e para as árvores verdinhas, companheiras de caminho.
Somos todos crianças tão puras ainda...
Quando vamos ao encontro do que amamos sei que Deus dá saltos de alegria.

Tudo o que há de bom te ofereço, mesmo um bom tão cheio de simplicidade.
Sutil, reles, doce: é este meu relicário.
É minha alma, minha essência, meu coração, meu sonho.
Tudo vivo, enfim.

12 de mai. de 2014

Gentil feito temporal


A saudade, uma dor sempre tão bela e delicada,
Chegou gentil feito fosse um temporal.
E mais assustadora que a tempestade é a fragilidade das flores.
Tão melindradas, agarram-se ao seu pedacinho de chão,
Enquanto pétalas, flores e folhas rodopiam no vento sem controle.

E a tempestade leva todas as cores da manhã,
Todos os sons,
Todos os sabores...
Mas ninguém nota.
Ninguém percebe que o sol não nasceu, pois ele brilha lá fora.
Ninguém sabe que a noite foi de calmaria insone e perigosa;
Os Jardineiros preveem no silêncio as mudanças do tempo.

Agora o peito dói.
O coração bate forte, forte demais, ainda e por tanto tempo
com a sensação fresca dos raios o chicoteando. 
Imensas descargas elétricas que o ferem e o mantém com vida.

Acostuma-se o Jardineiro aos ventos e ao frio.
Continua com suas mãos fracas revolvendo a terra e afagando suas flores.
Por um instante, tenta ignorar a profundidade das próprias raízes
e a imensidão das próprias asas.
Desconsidera o fato de estar partido ao meio,
Pois observa com complacência e doçura o valioso sentimento que em seu âmago reside.
O Amor continua luzindo, alheio às tempestades, asas, raízes, medos e fragilidades.
O Amor continua, maior e mais forte, a cada instante.

9 de mai. de 2014

Ingrato


O sal das lágrimas e silêncio frio da distância se unem para extirpar todas as luzes.
Está em paz, meu amor?
Que há em teu peito neste instante?

Não me preocupa o gosto de sangue na boca,
Ou o sono estilhaçado por aqueles que me perseguem;
quem são eles?;
Nem os estrondos da madrugada revolta,
Nem esta poesia ruim pra diabo que nem queria nascer,
Preocupa-me apenas teu bem, meu bem.

Mas em dias como este, dias de coração amargo,
É melhor que se faça calmaria.
Melhor que não se pense nos mistérios de Deus,
Melhor que pouco ou nada seja questionado.

Observo as pequenas crueldades com olhar cálido.
Fervem os desejos, fervem os dias, ferve a espera...
E eu apenas observo,
Observo com falsa resignação.
Qualquer movimento desprenderia furacões.