17 de nov. de 2013
Trancado
Eu tranco a porta.
Eu não digo adeus.
Eu esqueço a dor.
Desta página em branco não jorrará uma obra-prima.
Daquele telefone não sairá mais o som de uma voz que aqueça meu sangue.
Deste Jardim não sairão rosas para mãos quaisquer.
Deste coração não sairá mais um sinal pedindo socorro.
Serei eu meu infinito, meu reino, minha paz.
Adianto desculpas pelas obrigações que impus ao seu peito.
Nenhum herói será novamente rogado.
Nenhuma canção de chegada ou despedida será cantada por estes lábios.
Desta vez também não aceito a presença da solidão; fiel amiga.
Da autopiedade, autocomiseração; coisas tão não excitantes.
As lágrimas que escorrerem. estão por conta delas.
O que sangrar, sangrará por si mesmo.
Ainda que os desejos borbulhem, como a lava lenta e infernal dos vulcões.
Ainda que filetes de saudade volta e meia escorram pelas paredes rotas.
Ainda que a fé tenha partido antes do previsto, outra vez.
A porta permanecerá trancada até que a verdade bata nela.
Caso a verdade exista...
16 de nov. de 2013
Instante
O fim veio silencioso como a noite; chegou, restabeleceu o silêncio que já queria imperar, traçou as linhas e limites de distância.
O fim não é algo tão triste quanto dizem. O fim é algo brando e pacífico. Apenas uma etapa.
Talvez meu amor volte a ser um amor pela procura.
Isso não era de todo mal.
Não posso negar a beleza disso, embora doa.
Como nesta noite, naquele sonho, em que um abraço desconhecido envolvia todo meu corpo e minha alma e eu me sentia intra-útero novamente, ou aninhado, ou soterrado, como uma semente aguardando a primavera.
Aquele abraço que, meu Deus, era tão pouco e ao mesmo tempo, tanto!
Um abraço suave, frágil, ermo, delicado, como as pétalas das minhas flores simples, e poderoso como os trovões que rugem no céu cinza lá fora deste quarto escuro que sou.
Aquele abraço que, meu Deus, era tão pouco e ao mesmo tempo, tanto!
Um abraço suave, frágil, ermo, delicado, como as pétalas das minhas flores simples, e poderoso como os trovões que rugem no céu cinza lá fora deste quarto escuro que sou.
Nem mesmo as palavras, as palavras que gostamos tanto de despejar aos sete ventos e por qualquer motivo, foram necessárias.
Apenas o instante foi necessário.
Apenas a desnecessidade de compreender, ser, fazer, conquistar, foi necessária.
Mesmo que os anjos, com sua aura prateada, fossem invisíveis a estes olhos sujos.
Mesmo que os demônios estivessem liquefeitos sobre os lençóis.
Mesmo em minha infinita confusão e desejo e medo e pequenez e grandeza...
Havia o instante, e o instante foi tudo que precisei para ser salvo.
Outra vez.
4 de nov. de 2013
Inominável
Soa tão estranha a possibilidade de ter aquele mundo de volta.
Reabrir os portões enferrujados de um infinito que há muito tranquei.
Ouvir todas as canções que foram escondidas, enterradas bem fundo.
Sentir novamente sensações que adormeceram silenciosamente, dia após dia.
Ver as tulipas brotando ao derreter da neve...
Ver os galhos aparecendo ao cair das folhas...
Ver as flores que mais amo murchando, morrendo...
Ver sementes caindo no solo seco, duro, quente...
Ter todos os sentimentos enlouquecidos e libertos.
O coração, quem diria, continua quente e bate e roga e acelera, mas também quase para.
"Aqui vem a chuva novamente...
Caindo sobre minha cabeça como uma memória.
Caindo sobre minha cabeça como uma nova emoção."
A solidão, companheira gentil e elegante, dá leves batidas na porta.
A esperança valsa no meio do salão.
O medo adormece, entorpecido, numa poltrona empoeirada.
O amor se despede, diz que partirá ainda esta noite, mas fica para mais uma bebida, e mais outra, e mais outra...
Peço então que todos deem espaço, levanto-me e caminho como que reconhecendo um caminho que sou eu mesmo.
Toco as flores que sou, e os espinhos que sou, e os perfumes e os azedumes.
Toco fundo, como se não doesse tanto, penetro, perfuro.
E no fundo, bem adentro de tantas camadas, não há nada...
Não há nada além de muito sentimento, muito sentimento inominável.
30 de out. de 2013
Chegou o momento
Chegou o momento de ouvir todas aquelas canções de despedida.
As canções doloridas de adeus.
Chegou aquele momento de dizer: "Dói tanto... mas ficará tudo bem, um dia.".
Chegou o momento de lembrar que o para sempre, sempre acaba.
Os curativos necessários eram tão pequenos.
Os cortes eram tão rasos.
As fraturas, apenas trincos ínfimos.
Mas chegou o momento... E nós somos fracos demais perante ele.
O amor às minhas flores não impede que murchem e morram...
Porém, como é possível carregar o amor; um amor maior que o peito;
Mas não saber amar?
Bem que tudo poderia ser apenas um sonho ruim, outra vez.
Mas chegou o momento de guardar o porta-retrato,
Minimizar os focos de memória,
Não esperar mais sua ligação na hora marcada,
Não dizer mais as mesmas palavras ensaiadas, necessárias, pouco sinceras.
Chegou o momento de reconhecer que não nos conhecemos de fato,
Reconhecer que tememos um ao outro e tememos a nós mesmos.
Chegou o momento de tirar do campo de visão sua toalha de banho,
Chegou o momento de tirar sua escova de dentes do lado da minha.
Chegou o momento de assumir a culpa que cabe a cada um.
Chegou o momento de olhar outros olhos e outros corpos buscando algo que não será mais encontrado.
Chegou o momento de perder toda fé e toda esperança.
Chegou o momento de reencontrar toda fé e toda esperança.
Não perdemos nosso amor,
não perdemos um ao outro,
Nos perdemos de nós mesmos...
Então chegou o momento do fim.
28 de out. de 2013
Capítulo de despedida
Todas as belas esculturas que perambulam por aí já não impressionam meu olhar.
Tudo está muito cheio ou muito vazio, nada está certo, nada está completo, nada se encaixa.
Fizemos do nosso amor uma guerra silenciosa.
Como todos em algum momento fazem...
E nos achávamos tão diferentes dos demais.
Não somos.
Mesmas dúvidas, mesmos erros, mesmas culpas.
Quem está mais certo? Quem disse mais besteiras? Quem foi o primeiro a desistir?
Somos crianças tolas que mal sabem onde fica o próprio nariz.
Você chega endurecido, depois amansa.
Eu chego confuso, e confuso permaneço.
Devemos virar outra página ou trocar de livro?
Quanto de nós ainda permanece o mesmo?
O velho sonho se tornou uma esperança rançosa.
Talvez apenas mais um adeus, talvez o pior dos adeuses.
Foge da lógica enterrar algo ainda vivo.
Mas estaríamos nós realmente ainda vivos?
27 de out. de 2013
Supernova
É preciso abrir as janelas, tirar o pó do chão, enterrar os mortos.
Depois faço isso.
Parti, desisti, não arrependi.
Deixei o sol, embora seja o sol, deixei o sol.
A luz cansou minha fé frágil.
É preciso dizer adeus agora, morrendo de medo, morrendo pelas promessas eternas não cumpridas.
A chama eterna que se apagou, o infinito que durou o necessário.
Dar boas-vindas ao novo eu que vem gingando confuso e leve de cima para baixo, de baixo pra cima.
Deixemos os protocolos, documentações, arquivamentos, oficializações e adeuses.
Vamos assim... de mansinho... aceitado a verdade que está de mãos dadas conosco.
Como Marisa... "Bem que se quis..." e vamos nos afastando e deixando as lembranças cantarem o fim da canção.
Nós quatro, eu, você, verdade e a ilusão.
Não te entregarei a culpa, também não ficarei com ela.
Não somos culpados pelo sol nascer e morrer,
Não somos culpados pelas estrelas surgirem e desaparecem atrás das nuvens escuras.
Não somos culpados pelo tempo que vem e nos transforma em outros sem pedir permissão.
Você sempre foi o anjo mais próximo, o detentor absoluto da minha vida e do meu sorriso.
Agora, neste momento, eu serei meu detentor, e você o seu.
Coisa que já somos há certo tempo.
Somos agora uma supernova.
A estrela que éramos será mãe de tantas outras.
Um dia, quem sabe.
A memória jamais partirá, ainda veremos nosso brilho no céu por tanto, tanto tempo, embora não estejamos mais lá.
Cumprimos nossa missão, fomos heróis tão presentes e poderosos.
Já não somos mais vítimas em perigo...
Deixe que a vida venha e nos coma, ainda assim sobreviveremos nas entranhas dela.
Há tanto a dizer, e não deve ser dito.
O amor ainda está aqui, mas agora ele é outra coisa.
4 de out. de 2013
Fragmentos
Os olhos se tornaram uma represa onde os dias vão depositando seus detritos amargos, suas desesperanças.
A fé se tornou uma certeza tão frágil, um alicerce tão raso.
Mas ainda está aqui.
De uma coisa estou certo, não é Deus que nos perdoa, somos nós que nos perdoamos ou condenamos.
Todos partindo e nada parece estar no lugar correto.
E as migalhas que sou parecem ser tão pouco para manter vivo nosso amor.
E eu sinto tanto, eu sinto tanto...
Aquela voz tão doce dizia temer minha desistência.
Aquela face tão amiga não quer me ver despedaçado de vez.
Como foi bom abrir minhas comportas, ter você para ouvir minha história por um instante.
Eu ainda estou lutando, mas pacificamente. Eu estou tentando, mesmo lentamente.
Eu sei que existem fragmentos de Deus dentro de mim, dentro de todas as coisas;
É que nem sempre é fácil encontrá-los.
Promessas não sairão mais dos meus lábios, tentarei ser uma versão mais concreta de mim mesmo.
E estes mesmos olhos, que agora jorram uma mistura límpida de medos e esperanças,
observam as flores perfeitas pelo caminho.
Nunca colherei nenhuma delas, nunca serei nenhuma delas.
Eu apenas desejo passar um tempo num lugar onde não existam ataques.
Eu apenas desejo um pouco de silêncio na minha mente escura, repleta de cacos de vidro.
Estou partindo para me proteger de não ser eu.
Eu os perdoo, eu me perdoo.
Todos somos crianças tão tolas, crianças tão tolas...
1 de out. de 2013
Buraco negro
O passar dos dias se tornou um buraco negro.
E eu, que sempre temi o escuro e o desconhecido, fui sendo fragmentado e sugado...
Pensei que era o fim a me esperar, depois que desapareceram para negro infinito a esperança, a fé, os sonhos, até quase o amor, o que restaria?
Partículas, pequenos pedaços, fragmentos, lascas... lentamente dissolvendo-se.
Segui o mesmo destino, adormeci nos braços de uma noite libidinosa, sedutora, morna, silenciosa, e essa noite me embriagou, confundiu todos meus sentimentos, certezas, levou-me serena ao meu fim.
O fim que eu plantei, o fim que eu amei.
Então desperto num dia qualquer, embora todo dia seja um dia qualquer...
Procuro pelo buraco negro, porque sempre pareço procurar o que temo, e ele não existe ao meu redor.
Mas nada é o mesmo, tudo foi desconstruído e montado de uma forma estranha, ao meu ver.
Embora tudo esteja no mesmo lugar, eu desconfio... desconfio de tudo.
Então percebo o porquê de nada ter deixado de existir após a sucção do buraco negro...
É porque está tudo dentro de mim, tudo ao mesmo tempo agora.
Eu sou o fragmentado e o fragmentador.
Eu sou o temível e o temeroso.
Eu suguei tudo, eu sou o buraco.
E eu, que sempre temi o escuro e o desconhecido, fui sendo fragmentado e sugado...
Pensei que era o fim a me esperar, depois que desapareceram para negro infinito a esperança, a fé, os sonhos, até quase o amor, o que restaria?
Partículas, pequenos pedaços, fragmentos, lascas... lentamente dissolvendo-se.
Segui o mesmo destino, adormeci nos braços de uma noite libidinosa, sedutora, morna, silenciosa, e essa noite me embriagou, confundiu todos meus sentimentos, certezas, levou-me serena ao meu fim.
O fim que eu plantei, o fim que eu amei.
Então desperto num dia qualquer, embora todo dia seja um dia qualquer...
Procuro pelo buraco negro, porque sempre pareço procurar o que temo, e ele não existe ao meu redor.
Mas nada é o mesmo, tudo foi desconstruído e montado de uma forma estranha, ao meu ver.
Embora tudo esteja no mesmo lugar, eu desconfio... desconfio de tudo.
Então percebo o porquê de nada ter deixado de existir após a sucção do buraco negro...
É porque está tudo dentro de mim, tudo ao mesmo tempo agora.
Eu sou o fragmentado e o fragmentador.
Eu sou o temível e o temeroso.
Eu suguei tudo, eu sou o buraco.
2 de set. de 2013
Meus livros em promoção
Até 07/09 todos meus livros estarão em promoção no Clube de Autores.
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27 de ago. de 2013
Fiel meretriz
A tristeza, uma meretriz tão bonita e perfumada, deita-se em minha cama.
Não preciso convidá-la, não preciso de canções clássicas sobre a dor, ou de um copo cheio de torpor;
As portas estão sempre abertas.
Abertas para todos sentimentos.
Alguns visitam com mais frequência, outros apenas acenam lá da rua, nem param.
Mas a tristeza é uma velha conhecida, ela foi meu primeiro amor.
Há bem quase vinte anos nos encontramos, eu, ela e a vergonha.
Da vergonha não gosto, por isso nem falarei muito dela;
A vergonha pesa desumanamente, e ao contrário da tristeza, que é fria e delicada,
A vergonha queima, impede, dilacera.
A vergonha não é visita, é inquilina sem contrato.
Nunca vai embora, a desgraçada.
Mas a tristeza, essa sempre foi gentil.
Nunca chegou fazendo estardalhaço, falando alto, quebrando os pratos.
A tristeza é uma dama, uma dama sedutora, elegante, cortês.
Quando todos os outros sentimentos partem, ou ao menos se tornam invisíveis nesse quarto,
A tristeza permanece aqui. Fiel.
Com o mesmo vestido vermelho e longo, com a mesma face bem maquiada.
Embora ela deite em outra camas, eu sei que jamais me abandonará.
Seu beijo é amargo, mas ao menos é um gosto a se sentir.
Seu abraço é sutil e gélido, mas ao menos é repleto de sinceridade.
Para ela, e unicamente para ela, fico completamente nu.
Pois ela aceita por completo este eu que aqui dentro vive.
Ela, por mim, paralisa todos os relógios, crenças, expectativas e desesperos.
A tristeza me amansa, a tristeza me acalma...
Eu sinto que a tristeza me ama.
23 de ago. de 2013
Eufemismo
Passando em frente ao velho museu estavam os dizeres: "Desperte o músico que há em você!". Seguido de "Inscrições..." etc.
Tentei filosofar: O que haveria cá dentro para ser despertado?
Mas logo meus olhos se deliciaram com os três ou quatro ipês amarelos repletos de flores nascidos à frente do tal museu, então as filosofias evanesceram, mais uma vez.
Eternas reticências...
Todos os dias, todos os pesadelos, todos os anseios. Reticentes.
Nada é concreto, prático, solucionável, claramente compreensível.
Também existe um pássaro no meu coração que quer sair.
Não sei se ele é azul como o de Charles, porque dentro tudo é tão confuso e escuro que não sou capaz de enxergá-lo.
Mas ele está ali, pois em certos dias, em certas horas desses dias, eu ouço seu canto.
Um canto tão leve que por vezes vai fazendo lágrimas suaves brotarem lentamente dos olhos.
Um canto tão pesado que segura estes mesmos olhos abertos e secos, madrugadas insones adentro.
Talvez esse pássaro tenha se aninhado em mim para dar sentido a esta vidinha medíocre e sem profundidade. Talvez ele direcione meus sentidos para os autorretratos que Deus deixou espalhados por aí. E isso é tão bonito de sentir.
Porém, talvez, esse pássaro seja um inimigo cruel, que já consciente do fato de eu não ser nada além de um jaula feia e enferrujada, adentrou assim mesmo para fazer-me sentir culpa da sua falta de liberdade.
Quem é você, pássaro?
Que quer de mim, realmente?
imagem: internet
13 de ago. de 2013
O perfume do meu reino
Se fizer silêncio, já está bom.
Se não houver barulhos nas madrugadas; se os homens, mulheres e crianças não gritarem; se os cachorros não latirem muito e os gatos não brigarem em cima dos muros, já está bom.
Porque a gente cresce e o coração vai diminuindo de tamanho, consequentemente nossas necessidades e exigências também, consequentemente nosso brilho no olhar também.
Antes, a gente exige, depois a gente quer, depois a gente espera, depois a gente não espera mais, só sente falta, no final, nem falta a gente sente. É até bom, se isso não nos tornasse pedras, porque a dor vai diminuindo com o tempo, com a claridade.
Mas preciso dizer, que num dia desses, voltando pelas ruas repletas de ipês que já começam a dar boas vindas ao inverno com sua flores rosadas, eu senti aquele perfume.
Sim!
Aquele perfume de que nunca falei, de que ninguém sabe, de que ninguém sente.
Era o cheiro do Meu Reino.
Meu Reino que já não me recordo mais como era, pois deve ter morrido junto da infância, mas era o cheiro dele, eu sei que era.
Meu Reino repleto de flores e heróis e levezas. Meu Reino onde minhas lutas eram dignas e felizes, onde os sorrisos e as almas eram de uma profundidade que não sei expressar.
O que posso dizer é que esse Reino é bem diferente de tudo aqui. Lá, eu mesmo sou outro. Lá sou puro, intenso, livre, feliz. Lá sou príncipe. Mas não como os príncipes daqui, que reinam sobre os outros, lá sou príncipe sobre mim mesmo. Minhas atitudes são nobres, meus sonhos são nobres, meus desejos são nobres.
Mas o perfume não durou tanto para que eu me recorde de mais coisas, passou rápido como sempre.
Nem me recordo qual foi a vez antes desta que o senti. Sei que foi há tanto... Por isso temo e sofro em dizer: cada vez mais raro será, cada vez mais ralo, escasso.
Eu não queria isso.
Eu não queria esse mundo e as necessidades que ele me obriga a ter, as genuinamente minhas são tão mais significativas, tão mais profundas.
E meus heróis? Não há um cuja face permaneça intacta em minha mente. Não há um cuja espada ainda reflita luz nos meus olhos.
Sinto saudades.
Sinto saudades...
De "Nuvens de Janeiro"
5 de ago. de 2013
Bons sonhos
Meus demônios disseram-me que quando não se luta por nada se é vencido por tudo.
Odeio quando meus demônios sabem mais de mim do que eu mesmo.
Já não são suficientes doces sonhos, ou as flores perecíveis dos ipês ao sobreviverem ao inverno.
Já não são suficientes as folhas arfando e crepitando abaixo dos meus passos lentos enquanto observo uma cidade morna, morta e pegajosa pelas janelas cansadas da alma.
"Escolha um desses caminhos:" Dizem-me os demônios.
E nem um deles me serve, nenhum deles faz sentido para mim.
"Todos escolhem um desses caminhos." Insistem os demônios.
E eu apenas observo, caminhando lentamente de costas, sentindo todas as ultrapassagens, sentindo todos os adeuses.
Deram-nos todo o poder do mundo. Asas e controle sobre os elementos...
Mas não deixaram a chave da jaula. A chave proibida.
Eu não sinto medo.
Eu continuarei retirando uma a uma as pragas das flores, mesmo das que morrem rápido, mesmo das que jamais serão perfumadas.
Não escolherei mais nenhum culpado por meus afogamentos.
Ninguém criou meu oceano negro e infinito além de mim, ninguém me salvará das águas dele além de mim.
Quem sou eu para discordar de um sistema tão impecavelmente falho e aceito?
Quem sou eu para dizer que todos morrem por guerras eternas e sem valor?
Quem sou eu para falar da estupidez humana?
Todos também são vazios.
Todos também querem o amor verdadeiro.
Todos estão perdidos.
Todos sabem de todas as coisas.
Todos estão bem assim.
Mas já é tarde.
Volte a dormir agora.
Foi só mais um pesadelo, com a diferença de não estar dormindo desta vez.
Bons sonhos.
Ao vento
As palavras;
tão leves as minhas palavras;
foram todas varridas pelo vento.
E embora ontem eu tenha visto Deus acenando das nuvens e hoje eu o tenha visto sorrir no luar e nas estrelas,
E embora eu tenha chorado diante da certeza de estar sendo ouvido,
Meu coração insiste em não saber se continua ou se para.
Eu amo esse lugar, essas coisas, essas sensações?
Ou apenas sou fraco demais para descosturar e libertar as asas que ainda sinto ter atadas às costas?
Talvez eu queira ser um ajudante na salvação do mundo,
Talvez eu só queira que o café esteja na mesa amanhã de manhã.
Serei sempre esse ensaio?
O egoísta que só não fere por saber que ferir é o que mais lhe dói?
O covarde que só não muda por preferir os medos conhecidos?
Às vezes me sinto tão grande que dói me carregar.
Às vezes me sinto tão ínfimo que um sopro espalha-me como farelos.
De "Nuvens de Janeiro"
27 de jul. de 2013
De volta
Que saudade dos belos poemas... aqueles que passavam flutuando, tão leves, pela janela... como nuvens de janeiro.
Os chamo de poemas, mas bem sei que não o eram. Nunca foram.
Eram meus próprios fragmentos desprendidos e carregados pelo vento.
Agora abro a janela e tão pouca coisa passa por lá, e eu vou sentindo essa falta tão grande de mim.
Falta daquele eu iludido com as claridades efêmeras e passageiras do crepúsculo, mas um eu persistente na fé de coisas verdadeiras, de coisas intensas.
Comecei um novo jardim. Preciso que as flores me ensinem novamente sobre a paciência de aguardar as primaveras.
O jardim é humilde, sem nenhuma suntuosidade ou promessa de glória, tal e qual o jardineiro que o cultiva.
Mas quando eu abro a porta do fundo nas manhãs frias de julho e vejo um mísero broto lutando para crescer embora as dificuldades do clima, eu sinto uma esperança tão morna e macia abraçando meu peito gélido e magro.
Eu vejo a vida lutando... lenta, meiga, pacífica; persistindo.
Esses milagres tão delicados vão me salvando... vão me bastando.
Vejo Deus nessas tentativas; tentativas tão delicadas e pequenas quanto as minhas.
Um botão que desabrocha preguiçosamente me faz recordar do amor que eu sentia antes de amar,
Um sentimento unilateral, quente e intenso... belo e transitório como as florações.
Estou de volta ao jardim. Eu, Deus e os pássaros.
Estou indo de volta a mim, em busca das cores e perfumes que ainda podem existir aqui.
15 de jul. de 2013
Sopro
Eu nunca o levarei a um campo de lavandas, meu amor.
Sinto tanto...
É tão pouco o que sou.
Mas enquanto eu olhava para os olhos de Deus e ouvia as vozes de Deus,
tão belas, mesmo as desafinadas,
eu olhava ao lado;
olhava o banco vazio ao meu lado;
e imaginava você ali.
Naqueles momentos em que o sagrado se exibia para mim através da carne bruta dos homens, eu desejei segurar suas mãos.
Desejei acariciar seus dedos sem olhar em seus olhos.
Desejei colocar você no barco que se tornara meu coração e velejar contigo pelo lago que minhas lágrimas leves alimentavam.
Mas você não estava ali.
Um suave sopro daqueles velhos dias entrava pelas grandes janelas de cortinas amareladas.
Eu quis que você sentisse novamente meus paraísos,
Mas as palavras estão todas tão cansadas, preguiçosas...
E o que sou além de palavras, meu amor?
Diga-me quando souber.
10 de jul. de 2013
Cotidianos
É comum olhar para dentro e ver esse campo imenso,
Onde o vento quase forte deita a relva e faz cócegas nas flores.
É um momento sem dores, necessidades ou explicações.
É provável que o tempo vire;
Uma tempestade inconsequente sempre pode desabar incontrolável.
Ou não...
Ou apenas poucas nuvens,
finas como o véu branco das noivas felizes,
aplaquem a inclemência do sol.
Às vezes é bom que nada importante esteja acontecendo.
É bom ouvir os outros garotos falando de futebol,
Ou as garotas falando dessa ou daquela forma de se embelezar.
São santos momentos inúteis, leves, inofensivos, calmos,
Diante de tanta demagogia, tanta indelicadeza, tanta aridez,
Da qual é constituída a realidade.
Às vezes, em raros momentos perdidos e suprimidos
Entre cotidianos fúteis, eu me sinto quase do mesmo
Tamanho dos meus sonhos.
E os monstros,
inchados de tanta arrogância...
Não me assustam nem um pouco.
24 de jun. de 2013
Reflexo
A beleza deixou de fazer falta e se tornou uma amiga
quando descobri que ela está em tudo.
Nos contrários e nos corretos,
Naquelas tardes de domingo de vento frio e rua vazia;
só passarinhos na árvore.
O medo deixou de ser cruel quando descobri que ele também sente medo,
sente medo que as pessoas o sintam.
A dúvida deixou de ferir quando as certezas foram todas embora,
a dúvida também é serena,
a dúvida não quer luta.
A saudade provou conter em si o tanto necessário de amor para dar condições à vida.
E num reflexo,
onde tudo era difuso e incoerente,
eu enfim sentia algum tipo de paz
e sorria.
22 de jun. de 2013
Todo dia é um adeus
Outra partícula morreu; coisa pouca, nem doeu tanto.
Morreu séria, sem dramas, sem lágrimas. Apenas morreu.
Outro "E se..." que se foi.
Foi-se ao vento frio do inverno que vem chegando.
São ilusões que já nem germinam mais.
As palavras foram as primeiras a partir.
A mente continuava com seus encontros de tornados e terremotos,
mas a palavras se recusavam.
Recusaram até morrer...
O coração também se foi.
Nenhum aroma o ressuscita.
E quando ouço seu canto é um canto tão distante, tão triste.
O coração não morreu, porque dói.
A claridade cessou.
É dia de lua cheia, lua próxima, mas há tanta nuvem, meu Deus...
Tanta Nuvem.
A claridade cessou; sonhos e pesadelos andam de mãos dadas, como amigos.
Todo dia é um pequeno adeus, uma pequena despedida,
até a despedida final.
Até a coragem ser grande e forte, até as decisões serem sólidas.
Todo dia é uma pequena morte, até a vida começar de verdade.
Eu não direi novamente tudo o que meus olhos já disseram...
Eu não verei novamente tudo o que meus lábios já viram...
Eu não cantarei novamente tudo o que meus ouvidos cantaram...
Eu não beberei novamente dos mesmos aromas...
O adeus de hoje já foi demais.
15 de jun. de 2013
Inverno novamente
A passos tão lentos, quase uma flutuação, cruzo as trilhas deste jardim.
É inverno... novamente e mais uma vez,
é inverno.
Todas as árvores perderam as folhas e seus galhos, finos e frágeis, são chicoteados por ventanias.
A relva, as flores, os arbustos, tudo secou.
É inverno novamente, é minha sanidade que despertou.
Era uma outra vez...
Apenas são memórias, vagas, poeirentas, aqueles dias em que chovia lentamente.
Chovia diferente.
A chuva que caía era como cura. Limpeza.
Ela paralisava o mundo, deixara as dores, os amores, a pessoas, lentas.
Era uma outra vez aquela... em que eu olhava para o céu, crente em milagres.
Agora, embora a mesma chuva lá fora, são tempos secos.
E os milagres, nenhum.
Nenhum herói
Fiz isso por todos estes anos.
E cá estamos nós: minha sanidade quase finda, e minha esperança grande demais para conseguir mover-se e fazer seu trabalho.
Não me esqueci do amor; esse sentimento tão banalizado, tão cuspido pela boca de todos.
Um sentimento que jamais deveria ter sido nomeado, porque nomes limitam.
Estou lutando contra tudo outra vez.
Estou fardado de flores e espinhos em meu campo de batalha mais uma vez.
E no fundo, o que fui ainda sou.
Quem não quer um herói? Quem não quer asas?
Mas não há magia dentro de mim. Não há nobreza em minha alma.
Eu deveria ter poderes de salvá-lo.
Deveria mostrar alguma gratidão pela generosidade da vida que até hoje não bateu em minha porta para cobrar meus pecados.
Se chegou a hora do adeus, eu o aceito.
Embora nada em mim eu consiga extinguir ou apagar,
Talvez os dias precisem desse silêncio, dessa dor, dessas memórias.
Mais uma vez aceito minha incapacidade.
Aceito perder outra batalha.
Quero apenas me deitar aqui e continuar a ver as estrelas que um dia paramos para admirar juntos.
Elas continuarão lá para sempre.
Talvez tenha sido pretensão demais querer ser seu salvador,
Eu, que nem a mim mesmo salvo.
Estou lhe perdendo para você,
Assim como me perdi para mim.
Estou lutando contra tudo outra vez.
Estou fardado de flores e espinhos em meu campo de batalha mais uma vez.
E no fundo, o que fui ainda sou.
Quem não quer um herói? Quem não quer asas?
Mas não há magia dentro de mim. Não há nobreza em minha alma.
Eu deveria ter poderes de salvá-lo.
Deveria mostrar alguma gratidão pela generosidade da vida que até hoje não bateu em minha porta para cobrar meus pecados.
Se chegou a hora do adeus, eu o aceito.
Embora nada em mim eu consiga extinguir ou apagar,
Talvez os dias precisem desse silêncio, dessa dor, dessas memórias.
Mais uma vez aceito minha incapacidade.
Aceito perder outra batalha.
Quero apenas me deitar aqui e continuar a ver as estrelas que um dia paramos para admirar juntos.
Elas continuarão lá para sempre.
Talvez tenha sido pretensão demais querer ser seu salvador,
Eu, que nem a mim mesmo salvo.
Estou lhe perdendo para você,
Assim como me perdi para mim.
19 de mai. de 2013
Reflorescer
A calmaria antes do temporal é sempre tão bela.
Os pássaros continuam com suas alegrias suaves de domingo,
As flores continuam desabrochando, lentamente, uma a uma, delicadamente perfeitas.
Os gatos se espreguiçam e se esticam no chão cinza de concreto.
Apenas eu sei, apenas eu sinto: tudo está errado.
Tudo está errado aqui dentro, nessa sala escura que chamo de alma.
Acostumei-me tanto a ela...
Tranco portas e janelas, mas ouço os trovões lá fora,
E os relâmpagos escorrem para dentro pelas frestas da minha fraqueza.
As leis de Deus, da Vida, da Física, o que for, permanecem eternas, ininterruptas.
Porém, quem sabe por uma única vez, as tempestades não destruam o que resta.
A terra da vida precisa ser revolvida, o poeta precisa despertar da sua morte opcional.
As poeiras que formam uma casca sobre os sonhos mais doces, precisam ser removidas.
A esperança precisa reflorescer, mais uma vez.
23 de abr. de 2013
Despedida
Não há
mais nada para ser dito.
O que
sei sobre a vida para gastar tantas palavras?
Sempre
estive dentro desse quarto escuro,
vendo a
existência passar como nuvens lentas pela janela.
Sem
perceber, eu fui deixando de te regar até você murchar, poesia minha.
Já não
há mais espaço para suas teorias e boas intenções.
Sei que
sempre esteve gentil ao meu lado,
Mas
estamos enganando um ao outro.
Você de
pouco ou nada mais serve,
E eu
sou um instrumento vago e fraco demais para continuar tentando te forjar.
Estou
cansado, poesia minha.
E não
apenas de te buscar por todos os caminhos e lugares.
Estou
cansado de muita coisa...
Tanta
coisa que nem ouso dizer,
Seria
pecado.
Agradeço
cordialmente por todas as vezes que me salvou.
Tantas
foram as noites e dias em que apenas tive você.
Não chore,
não chore assim que me parte o coração,
poesia
minha!
Não vê
que está chegando o momento de desmoronar meus esconderijos?
A vida,
as pessoas, o tempo, nada é dócil como você,
poesia
minha.
Tudo é
áspero e prático lá fora.
Vê onde
estou?
Com os
olhos que me deu não fui muito longe...
Sim, vi
sim coisas que muitos não viram.
Vi os
milagres brotando nas entrelinhas da vida fria.
Mas
esses milagres tão sutis não saciam mais minha fome constante.
Já não
posso mais continuar sobrevivendo de restos,
poesia
minha.
Você
precisa entender...
Não há
mais onde nós dois possamos chegar.
Não
peço que vá embora.
A casa
é sua, pode ficar.
Eu é
que vou.
Vou
porque não estou feliz,
E
embora eu não saiba se existe algum tipo real de felicidade lá fora, eu preciso
voltar a estar em movimento.
Eu
preciso tentar.
Talvez,
amada poesia minha,
Talvez
se eu encontrar um pouco mais de você nessas minhas andanças,
Talvez
se, ao contrário do que acredito, ainda existir o suficiente de você em mim e
na vida, eu volte sorrindo.
Por ora
é adeus.
Não
suporto mais ver você agonizando diante de mim.
29 de mar. de 2013
Oceano particular
Se eu tivesse seguido os conselhos que dei, a dor não estaria aqui agora.
Se eu tivesse respeitado e permitido que permanecem aqui meus sonhos simples, eu estaria sorrindo agora.
Se eu não tivesse passado tanto tempo preocupado em ser melhor que algo, meus cabelos não estariam caindo agora.
Adiarei mais uma vez a visita ao mar.
Adiarei mais uma vez aquela ligação.
Adiarei mais uma vez o olhar nos olhos.
E eu que sempre precisei, desejei, ansiei estar imobilizado por um abraço...
Agora apenas nado lentamente para cada vez mais longe no meu oceano particular.
E quanto mais silêncio, melhor.
Quase dá medo de não saber mais voltar.
Mas sinto falta dos meus olhos, meus olhos que o sal desta água queimaram.
Sinto falta da minha pele macia e sensível ao toque.
Sinto falta de ouvir meu nome sendo chamado.
Sinto falta de sentir falta.
22 de mar. de 2013
Chiaroscuro
Não sei até que ponto meus heróis merecem todas as glórias por eu ainda ser humano.
Eles me salvaram tantas vezes quanto o sol nasceu ou me aprisionaram na Terra do Nunca?
Não sei até que ponto meus fantasmas merecem toda a culpa por meu fracasso.
Não foram tão cruéis assim, não doeu tanto... foram? doeu?
Sei que parece tarde demais para qualquer certeza,
Mas não desistirei de gritar,
Embora meu grito seja dentro de uma sala de chumbo,
Embora meu grito ninguém jamais possa ouvir.
Porque ainda tenho poder sobre minha voz, grito!
Grito ininterruptamente!
Discordo, choro, perco meus cabelos e a compostura esperada, tomo para mim uma fração de todas as dores.
Porque sou poeta, mesmo que sem talento com as palavras,
Sou poeta com a alma, a alma escondida na cela da carne.
Essa alma que é a decomposição que nutre a terra abaixo das flores.
Essa alma que é filtro segurando a escuridão em si e propagando uma faísca luminosa.
A escuridão vai permanecendo, toda ela, impregnando minha pele, ares e lençóis,
Mas o coração, mesmo que aparente negrume e frieza, continua...
Tum, tum, tum...
Poderoso como um cavalo selvagem e livre, correndo numa praia deserta, infinita.
6 de mar. de 2013
Força da rosa
Não são raros dias como esse.
Quentes por fora, frios por dentro...
Secos por dentro e por fora.
E é tão difícil não sentir grande cansaço,
perante às as horas lentas,
perante os mesmos dias traiçoeiros,
perante às mesmas pessoas sem empatia.
Mas mesmo diante de tanto sol,
não vi as rosas morrerem.
Mesmo diante de tanto cansaço,
não vi meu coração endurecer e desistir por completo.
Mesmo diante de tanto egoísmo,
ainda existem os sorrisos gratuitos.
Continuar é o que dá pra fazer.
Chorar hoje, sorrir amanhã.
Desfalecer hoje, voltar à luta amanhã.
Amar hoje, amar também amanhã.
Imagem: internet
26 de fev. de 2013
Decretos
Recuso-me a não sentir.
Recuso-me a endurecer,
a colocar rédeas nas batidas do coração,
a aprisionar ainda mais o espírito já sofredor de duro cárcere.
Proíbo-me de não me emocionar com minhas lindas tolices.
Proíbo-me de não me transportar para além,
a calar os lábios,
a cerrar os olhos e a imaginação que ainda resta.
Embora repleta de falhas e rachaduras
a alma continua a transbordar.
Quem liga?
Eu ligo.
Eu sinto.
23 de jan. de 2013
Em breve... "Nuvens de Janeiro"
"Nuvens de Janeiro" será meu quarto filho, digo, livro. "Em meu Jardim Secreto...", "Alma à tona" e "Mais de mil palavras - A poesia da imagem" foram os primeiros.
Preciso ser sincero e dizer que não sei escrever o que não sinto. Não consigo escrever o que, de alguma forma, não vivo. Minha vida não é exatamente um oceano de emoções constantes, em grande parte é pacata, dores aqui, alegrias ali; mas essa simplicidade não impede o Sentir. Pelo contrário. É maravilhoso encontrar a poesia nas entrelinhas dessa vida morna. Quando a poesia surge é como uma nova estrela num céu imenso, uma estrela tão querida.
"Nuvens de Janeiro" veio literalmente do céu. Os dias desse mês em especial têm sido lindos, amenos e iluminados. Às vezes chove, às vezes só nubla, às vezes o céu explode em luz. Eu não poderia me fechar a isso. Não poderia me fechar também aos sentimentos e vontades e densidades e levezas que não param de florescer.
Pronto, fecundou-se novamente em mim um novo desejo de materializar esses sentimentos. Esses chuviscos e esses temporais.
Por amar metáforas escolhi, o título "Nuvens de Janeiro" pela associação que ele faz com as sensações do eu-lírico. Chuvas densas, com relâmpagos e estrondos. Dias leves, claros, de brisa suave. Assim é a alma do poeta responsável pelas linhas deste livro.
Aproveito para agradecer as pessoas que dão incentivo e vida a esses meus devaneios. Em especial agradeço minha querida Juliana Vieira Costa, belíssima poetiza de alma sempre transbordante. É por pessoas como você, minha flor, que essas aventuras ainda valem a pena.
Para finalizar, como dito, o livro em breve estará à venda no site www.clubedeautores.com.br.
Com certeza, mais uma vez, preciso da colaboração dos meus amigos e leitores para divulgar esse trabalho.
Se estes poemas alcançarem e tocarem a alma de uma única pessoa que seja, tudo terá valido a pena.
Obrigado, muito obrigado.
12 de jan. de 2013
Purificação
Fui andando lentamente, sentindo cada uma delas; milagres duram pouco,
Mas o suficiente.
Era como se meus passos fossem saborosos,
Um prazer discreto num momento apenas meu.
Tão valioso, tão puro.
Ainda que meus paraísos tenham se despedido,
Eu tenho você aqui para cair das nuvens junto de mim.
E minhas revoltas jamais servirão novamente para ferir.
E se às vezes eu prefiro ficar longe e andar pelas alamedas sozinho,
É para procurar pedaços mais bonitos de mim,
Pedaços que são para você.
Eu deslizei por aquela praça de chão forrado de pequenas flores,
E por ser apenas eu ali, por ela ser apenas minha,
Eu deixei que uma lágrima escorresse.
Olhando o doce crepúsculo,
Vozes de mil crianças felizes ao meu ouvido,
Eu tropecei... e comecei a voar.
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