16 de mai. de 2011

Precauções e recompensas


Primeiramente, tome cuidado com essa luz que vê.
Ela não vem da porta aberta de um coração forte,
Ela vem das rachaduras dum coração que há muito vem se esfarelando.
Tome cuidado com as flores que germinarem graças a essa luz,
Elas foram aguadas com lágrimas salgadas e seu perfume pode estar contaminado.

Fuja dessa luz antes que ela se apague, e seja tarde demais para voltar.
Fuja enquanto a noite não desce, sedutora, e tira sorrindo dos teus olhos o brilho da esperança.
Fuja, porque a ausência de um culpado não inibirá a existência da dor.
A dor... essa meretriz de quinta categoria, espaçosa, mal cheirosa; adornada com brincos, colares e anéis de sorrisos decepados.

Esquiva-te desse coração, que é planta carnívora e faminta...

Esquiva-te e vá direto ao espírito, vá direto à verdade.
Abra as janelas e ligue todos os ventiladores, comece a lustrar os tesouros adormecidos...
No espírito sim, aconchega-te e acalma-te. Pois ele não trai, ele não atua, ele não finge.
Alcança o espírito e de lá, com luvas nas mãos, comece a remendar o coração.
Fragmento por fragmento, caco por caco, peça por peça... até que ele esteja de volta à sua forma original.
Então banha-o em luz de sol, em brisa noturna, em chuva de primavera. Banha-o com sorrisos de crianças, com simplicidade e sabedoria de idosos, com carinho de amigos.
Depois deixa-o descansar por instantes...
Devolva-o ao seu lugar.
Espere.
Ele voltará a pulsar, e a fluir a vida por todos os membros,
bate então na porta, que ela se abrirá.
Adentre agora sem medo, ele está curado enfim, e pronto para frutificar pomares de felicidade. 

15 de mai. de 2011

A estória de Enzo (fragmento inicial*)


- Lembro-me de uma ponte, e um rio muito bravo; muitas pessoas num ônibus velho.
- Nada mais?
- Nada mais. Nada além de tudo o que vivi depois disso.
- O que você viveu, e onde viveu?
- Já não sei se realmente vivi... olhando tudo isso que agora está ao meu redor, já não sei se realmente vivi. E o lugar, queres mesmo um nome?
- Seria bom para começar.
- “País das Maravilhas”, “Terra do Nunca”...
- Você precisa levar isso mais a sério.
- Você também.

- Você acha mesmo que estou à vontade aqui?
- E por que não está?
- Porque você não me conhece, não me ama, não sabe nada do que existe dentro de mim. E a única razão para me ouvir, é a boa quantia que vou deixar na mão da sua secretária frustrada quando eu sair.
- Se não quer estar aqui, por que está?
- Por que meu chefe me obrigou. Ou me consultava com um psiquiatra, ou era demitido.
- Você não respondeu minha pergunta.
- Você não entenderia, ninguém entenderia.
- Tente.
- Isso é perda de tempo...
- Pode ser que sim, pode ser que não. De qualquer forma, você ainda tem uma hora.
- Você já ouviu aquela expressão: ‘gostaria de dormir vinte anos’?
- Não...
- Que seja. Pois bem, eu dormi vinte anos, melhor, sonhei por vinte anos, e agora acordei sem 
fazer ideia de onde estou.


*"A estória de Enzo" é um projeto que tenho em mente ainda sem rumo certo. O mais possível é que venha a ser um conto sobre o que julgamos "fantástico". Um homem aparece num consultório psiquiátrico dizendo ter despertado vinte anos depois de um sono profundo, no qual viveu num mundo místico e maravilhoso.
Ainda não sei se esse "embrião" ira vingar... mas o diálogo acima seria o início dele.

Aceita


Aceita minha mão se tem na alma vontade de caminhar, fluir, flutuar...
por entre entre os frios, por entre as brisas e lua.
Aceita minha mão se é doce de espírito, simples de coração, humilde de olhar.
Aceita meu abraço se o silêncio já não é mais tão boa companhia.
Aceita meu abraço se tua cabeça precisa de um ombro para se assentar.
Aceita meu peito magro se falta-te repouso, 
e não julgue por fora o tamanho do meu coração.
Aceita meu peito se deseja o som desritmado e confuso dum músculo ora carente, 
ora mergulhado em paixões.
Aceita meu corpo se se faz nevascas em sua alma; 
aceita meu pouco, meu ínfimo sangue quente.
Aceita meu corpo se carece de abrigo, 
pois como um, seremos fortes aos temporais; pois que só, eu sou oco, e você, indefeso.
Aceita minha alma se necessita do sentir, 
se necessita de pontes, asas, flores, pedras e aromas.
Aceita minha alma se lhe ainda for importante conhecer outros reinos, 
outros paraísos, ou purgatórios.
Aceita a mim, e salva-me...
Depois devolva-me, para que eu te salve.

10 de mai. de 2011

Plano B


Minhas rotas estão esburacadas,
Meus planos A fluíram por rio abaixo.
Talvez esteja próximo da hora de entender que não bastará uma canção para salvar minha vida.
Que não bastará um olhar para trazer sentido a ela,
Que não será suficiente uma bela fotografia para manter acesa minha fé.
Talvez seja hora de eu entender que nunca serei um deles,
Que não importa o que eu faça, se continuar sendo o que sou, sempre irei me sentir mil anos-luz atrás de qualquer um.

Deve existir algo dentro dessa minha alma, algo além das minhas fantasias de bailes imaginários, algo forte e poderoso.
Algo que pode reluzir.

Até quando continuarei esperando a chuva cair para que eu seja preenchido com a presença de Deus?
Há meses não chove...

E embora eu tenha acordado hoje, e a primeira imagem em minha mente tenha sido o silencioso e doce olhar daquele belo rapaz,
E embora ele esteja começando a caminhar com passos lentos pelas trilhas sinuosas dos meus desejos,
Eu sei que ele não é real,
Assim como todos os antecedentes a ele também não foram.
Eu sei que continuo não me sentindo bom o bastante para os sonhos que eu mesmo arquiteto.

Eu só gostaria de saber do que ainda tenho tentado tanto me salvar...
Se já não olho para os pecados do passado e já me perdoei por meus mergulhos em escuridões... do que tento tanto me proteger?
Talvez seja medo de assumir que finalmente sou livre para ser exatamente aquilo que eu queira ou não ser...

Então o Plano B é: apaixonar-me. Seja pelo que for, o quanto for.
Apaixonar-me, até mesmo mais que amar.

Porque o amor é um constante, e parece recusar inconstantes como eu.
Mas a paixão... essa deve saber dançar no meu ritmo.

7 de mai. de 2011

A última flor morreu

Eu sinto sua falta, ainda sinto,
Mas essa falta já não dói mais; ela não grita, não geme, não soluça.
Eu sinto sua falta sem que no fundo ainda espere por ti,
Por isso temo...
Temo amar a ideia de tua existência,
E não um “você” que possa, um dia vir a ser real.
Temo estar apaixonado mais pela pequena janela pela qual observo o mundo,
do que o próprio mundo.

Eu reviro fotografias, canções e poemas vazios.
Eu escavo jardins e semeio flores,
Eu blasfemo, giro, oro e canto...
Tudo pela busca desse sentido que nunca tive provas de existir.
Apenas sei dos milagres que acontecem distantes, como os clarões e relâmpagos de raios que nem ao menos ouço a queda.

Vasculho em todos os olhares, mas sem esperança.
Componho tantas canções, mas não haverá voz para elas.
E meu sorriso é um lago raso, fácil de secar.

2 de mai. de 2011

É você, Papai?

Posso dizer que estou num limiar entre dois abismos,
Um iluminado, em tons quentes, com pessoas que sorriem,
Há uma floresta de árvores novas, e o vento move os capinzais.
Há um moço bonito, com os olhos tampados por fitas pretas, contanto até quatro...
Ele tem uma risada muita feia, mas sua voz é muito doce; me sentiria seguro ao lado dele.
O outro abismo é frio, e há muitos serres com máscaras e suas vozes são grosseiras.
É tudo tão feio e mal iluminado...
Há um homem de pele muito branca e olhos negros que tomam boa parte da face,
Ele me assusta muito.

Perdoa-me, Papai, se tantas vezes não sei ouvir sua voz e ameaço me precipitar no lado negro de mim,
Perdoa-me se não entendo que você moveria todos os sonhos para virem ao meu socorro,
Perdoa-me se não acredito que neste instante eu sou tudo o que você precisa que eu seja.

É você, Papai, vindo pessoalmente ao meu resgate?
É seu canto, suave e gostoso como o dos beija-flores, que envolve todos meus soluços e transforma-os em pequenas canções?

Eu prometo-te não desistir de nós tão facilmente,
Aqui, nesta noite tão fria, às 22:47.
Prometo-nos, Papai, continuar falando das flores,
E das chuvas e do amor, porque alguém há de me ouvir,
Alguém há de colher um pouco de você nos jardins que eu plantar.
Eu prometo, Papai, sair ao sol amanhã, e sorrir para um completo desconhecido.
Eu prometo, lutar outra vez por nós.

Porque você respondeu, Papai!
Você respondeu...

Casulo

Eu sei que minha voz nunca emocionaria teu coração,
Eu sei que teu perfume nunca adentrará por minhas vias e aniquilará cada pensamento bandoleiro que no âmago de mim reside.
Eu sei que você é distante de mim... tal qual eu sou do voo.

O que eu teria de ti além de uma fria fotografia muda?

Há tanto dentro de mim, anjo de rosto imaculado.
Há tanto que preciso dividir, espalhar, oferecer...
Mas pedem-me apenas o que tenho de mais pouco,
Apenas pelo meu sangue mostram interesse.

Por aqui não se faz silêncio há anos...

E eu continuo implorando pela chuva, pelo frio.
Continuo desejando que exista ao meu redor o que se desenha dentro de mim.
Eu continuo esperando pela chuva, e essa é uma espera de covardes,
Pois penso que a chuva me manteria dentro de mim mesmo; me pouparia de idas ao portão, à rua, à vida; sem ter que exprimir explicações quanto à minha desistência...

É tão cinza, às vezes, dentro de mim.

12 de abr. de 2011

De dentro para fora, de fora para dentro


Penso que numa tarde dessas, 
num sol bonito desse,
o que se deveria fazer é ir ao campo cavalgar.
Sentir o vento, fazer amor com ele.
Acompanhar o voo de borboletas 
e bem-te-vis
e beija-flores.
Nadar num rio frio onde haja muito silêncio e flores boiando.
Penso que em dias como esse, Deus não se esconde lá fora, 
por entre nuvens e prédios cinzentos, 
Ele se aconchega aqui, 
sorrindo dentro de mim.

10 de abr. de 2011

Desnecessário


É desnecessário externar minha dor e meu gozo.
É inútil cantar ou regurgitar minhas frases, palavras e apelos.
É medíocre essa tentativa desesperada de provar aos alheios que estou vivo, 
se para mim sinto que não.

Sofro da pior enfermidade que pode carregar um poeta:
Eu quero (quis) fazer alguma diferença,
Quis ver flores onde deixei sementes,
Quis ver rios onde fiz escorrer boas lágrimas,
Quis ver paraísos onde delineei sorrisos.

E tenho tanta vergonha em ter tentado te provar coisas pelas quais minha fé não brilha mais.

Mas todas as coisas continuam falando comigo,
Todos os objetos, molas, esculturas, mesas e ventiladores...
Tudo continua falando comigo,
Contando suas histórias, seus passados, meus passados.
E as estrelas continuam com aqueles gritos que me enlouquecem!
Gritos que só eu, meu Deus, ouço?
Elas gritam e gritam até que eu as admire;
orgulhosas!
Assim como o nascer e o pôr-do-sol; 
dois meninos arteiros que querem sempre chamar minha atenção.
Apenas a lua é silenciosa e calma.
Apenas a lua me oferece um pouco de paz.

Sonhei com mãos junto às minhas,
E borboletas amarrando fios transparentes ao meu corpo e me levitando para longe.

Já sonhei tão belamente...

Que a realidade apresenta-se para mim como uma cruel piada triste.

3 de abr. de 2011

Algo permanece vivo


Um dia me disseram que as nuvens eram de algodão.
E eu sonhei por tanto tempo subir nas porteiras e árvores de manga e poder comer nuvens rosadas e doces.
Mas então descobri que todas estavam distantes demais, e eram brancas ou negras, e não eram de algodão, e não poderiam ser comidas.

Desisti de comer nuvens.

Um dia me disseram que eu poderia voar se esse fosse meu desejo.
E eu sonhei poder atravessar a cidade quando a noite lhe banha de estrelas e luzes, e bailar com brisas e zéfiros.
Mas então eu descobri que por nada eu conseguia levantar um centímetro do chão, e descobri que as madrugadas são perigosas e que se deve trancar todas as noites portas e janelas.

Desisti de voar.

Um dia me disseram que uma oração muda qualquer coisa.
E por entre lágrimas derramas pela dor de uma fé que queimava tanto, andei pelos cômodos implorando por um sinal, um som, um toque.
Mas então percebi que as guerras a meu redor não estavam cessando e que a única solução era correr.

Desisti de orar.

Um dia me foi dito que a coisa mais maravilhosa do universo era a imaginação.
E eu construí mais mundos e jardins que se possa somar. Eu corri ao lado de tantos seres encantados, eu cavalguei por tantos reinos, eu conjurei tantas magias.
Mas então descobri que nada era real (mesmo parecendo tanto!). 
Descobri que em algum momento tudo isso deve ficar para trás, ou o mundo não te aceita de volta, ou o mundo te repele.

Desisti de imaginar.

Um dia me foi dito que é necessário ter heróis.
E eu amei tanto os que encontrei! Eles, tão distantes e perfeitos, olhavam com tanto carinho para mim! Os busquei a cada instante e fiz de mim uma parte deles. Eles me salvaram... eles me salvaram.
Mas então fui olhado com olhos estranhos, como se eu estivesse agarrado a uma estátua de gesso morta, enquanto apenas eu via ao redor do meu corpo centelhas de Deus sorrindo.

Desisti dos que me salvaram.

Um dia me foi dito que tenho uma vida toda para me encontrar, que nunca é tarde demais.
Mas então descobri que não é de bom tom ter muitas dúvidas, que o tempo ruge como fera faminta. Que deve-se ser rápido, prático, produtivo e útil às pessoas.

Desisti de questionar.

Um dia me disseram que a coisa mais importante que se pode aprender é apenas amar, e em troca, amado ser...
Amar...
Amado ser...

Sinto que ainda tenho ar em meus pulmões, sangue em minhas veias, coração que pulsa no peito.

Percebo que disso ainda não desisti.
Eu ainda não desisti,
Pois ainda estou vivo.

25 de mar. de 2011

Recuo perante o luar


Perdidos uma hora no futuro, sustentados por meses dum passado confuso.
Duas taças pela metade, duas garrafas vazias e um gato que não consegue trepar no muro para escapar.
Duas lascas de espíritos distintos abraçados no solo frio duma madrugada clara.
Luzes duplicadas em nossas pupilas embriagadas.

O torpor de Dionísio preenche as lacunas ensanguentadas, estanca o jorrar dos medos e dúvidas, amacia nossos atritos.

Seus cabelos permanecem tão macios quanto na primeira vez em que os enrolei com meus dedos frios e magros. Estava nas pontas destes aquele que tentou me salvar, aquele a quem pedi socorro, aquele por quem implorei, aquele a quem eu não soube amar.

A lua faz-se duas, uma para cada um de nós.
As nuvens bailam como se nos apresentassem “O lago dos cisnes”,
E meus olhos alagam-se como marés.

Em sua cama nos deitamos nus.
Nos tacamos como que deslizando os dedos por um mapa recém desenhado.
E sem emitir qualquer ruído ou exigir qualquer explicação tento, mais desta vez, permitir que você me tenha para si.
Tento...
Mas embora as estrelas, o intenso luar, o chão frio e o álcool; faço-te recuar.
Mais uma vez, tranco-me como cadeado enferrujado, e meu corpo grita de lábios fechados, ensurdecedoramente: basta!

Ainda não consigo sonhar.
Ainda não consigo sonhar...

21 de mar. de 2011

Trôpego trânsito


O céu que mais amo, por vezes é esse cinza, que tanto chora.
As canções que me guiam são aquelas compostas por deuses,
meses ou anos atrás.
E embora tudo em mim seja mutável tal qual nuvens, permaneço por completo o mesmo.
Eu, que tão facilmente transito por purgatórios, montanhas, cemitérios e jardins.
Ainda temo os mesmos temores, e desejo os mesmos amores.
A coragem que trajo não é nada além duma anestesia em meus músculos covardes, uma anestesia aplicada por minha estupidez, ou por minha arrogância.

O que mais me dói sou eu.

Eu e minhas ressurreições diárias,
Eu que adentro numa terceira década de nada.
Eu e meu espírito insosso, sempre coberto por aquele repugnante luto já descrito.

Enquanto minha consciência flutua e mergulha;
abusando, a safada, dessa liberdade que lhe é peculiar,
Eu aqui, preso nessa sala verde, em sentido físico e sentimental, afogo-me por horas intermináveis numa esperança gelatinosa e não perfumada.
Desperdiçando lascas do meu cérebro com seres desprovidos do músculo que devia pulsar no peito.
Seres que ao meu redor se regozijam e chafurdar em suas realidades apodrecidas.

Já não há propósito em se olhar o céu sem poder tocá-lo eu mesmo.
Já não há prazer em olhar a chuva cair sem poder banhar-me todo nela, correndo por todas as ruas e todas as florestas, sentindo o gosto e o cheiro dela.
E já não me compraz admirar a beleza de todos os olhares sem ser o ponto focal deles,
Tampouco, louvar a perfeita delineação de tantos lábios sem poder provar-lhes o sabor, ao menos um pouco.

Pouco; eis o que tento te dizer: o tudo ainda me é muito pouco!

12 de mar. de 2011

Para o silêncio

Vem logo silêncio, e cala de uma vez
essa bonita canção que suspira minha esperança.
Vem, que ao menos você creio não mentir.

Vamos juntos para a noite, deitar no colo dela,
Junto do frio dela e das estrelas dela.
Porque me sinto tão cansado, querido silêncio.

Milhas distante

Guardo com tanto carinho a canção que me deu de presente.
Vou vivendo dessas migalhas, dessas fagulhas de felicidade,
desses pedacinhos de passado brilhante.

O dia mais feliz foi a noite na sorveteria ao teu lado
Falando desses presentes, dessas canções.
Parecíamos naquele sábado termos o mesmo tamanho de coração.
Eu te fiz sorrir, e tão belo você continuou a sorrir.
Você trouxe um pouco de silêncio para a luta que é descobrir meu destino.
Foi como se você fosse real...

Mas tão rápido cantou o tempo,
E tal qual o conto de fadas eu tinha que retornar ao que eu era.

Depois, você nunca mais entendeu que para me satisfazer não se podia me oferecer nada; nada além do mais simples.
Depois, eu fui embora, e não mais voltei. 

Jardineiros e reconstrutores

Acreditamos em heróis decaídos e torcemos pelos fracos
Salvamos nossas vidas com canções, uma noite na pista de dança,
De olhos fechados, sentindo luzes, esperando pelo amanhecer.

Oh, doce pequeno menino confuso...
Eu te vi morrer centenas de vezes.
Oh, doce pequeno menino triste...
Eu nunca desacreditei completamente.
Oh, doce pequeno menino...
Eu sei que você ainda sonha.
Ainda sonha coisa tão bonita.

Eles não entendem o quanto nos dói tanta sanidade.
O quanto pesa fazer de cada poro um túnel de entrada para a alma.
Desmoronamos com a sutileza de lágrimas escorrendo...

Eles continuarão dizendo que não é real.
Continuarão seguindo o caminho fácil de silêncio de luzes apagadas.
Mas nós reconstruiremos, reconstruiremos com a simplicidade dos jardineiros.

Submerso

Teremos de clamar por nossos heróis antigos.
Os heróis simples.
Aquele primeiro amor da infância.
Aquele sorriso de mãe diante dum erro descoberto.
Aquele amigo que conosco corria pelas ruas.
Aquela bela garota que cantava uma canção tão bonita.
Aquele doce garoto que sempre dizia haver uma segunda chance.

Porque tudo está tão triste aqui.
E as tempestades de verão afogaram as mais belas flores.
Tudo está tão solitário aqui, e o que é real e o que é ilusão acabou por se tornar o mesmo.
Faz frio dentro, a chuva continua caindo...

E ao redor, mesmo o que parece tão preenchido, está completamente vazio.
Os olhares, os olhares que antes traziam mundos a serem descobertos, hoje trazem apenas buracos desprovidos de vida.
Os sorrisos, os sorrisos que antes brilhavam mais belos que o alvorecer, hoje são perfeitas esculturas de mármore branco, gélidos, sem vida.

Teremos que voltar, mais desta vez, àquele colo que nos protegeu um dia.
Teremos que chorar como crianças injustiçadas.
Pois temos direito às nossas lágrimas,
temos direito aos nossos medos.

Mas voltaremos...

Voltaremos quando começarem a reluzir os tesouros enterrados na lama dessas ruínas.
Voltaremos, quando o amor mais uma vez derramar seu perfume por nossos jardins dizimados.
Voltaremos, pois não importa o tamanho da nossa dor, não importa nem mesmo a nossa morte...
Somos aqueles que sonham,
E aqueles que sonham, de alguma forma, jamais desistem.

5 de mar. de 2011

Poesia de amor ou descendo ou subindo

Pule para a próxima,
Essa é só mais uma daquelas poesias de amor.
Poesia que se encontra em canções vagabundas,
Em guardanapos de botecos de esquina,
Em lábios amargos e mentirosos.

A única diferença,
A pequena diferença,
É que essa é uma poesia de amor de alguém que não ama.
Alguém que nunca amou.

Esse alguém que descartou certezas absolutas por preferir rápidos belos olhares.

Dentre todos os poetas, o autor desta é o mais maldito,
Pois profana a sagrada inspiração, profana o divino instrumento de Lispector. Profana o amor.
Pois amor é Porta Aberta, de onde se entra e se sai.
Mas aqui há gozo apenas pela própria dor,
como Sísifo rolando a pedra para o alto do morro,
para vê-la rolar morro abaixo, depois levá-la ao topo novamente,
assim por diante...

1 de mar. de 2011

Digno suor

Feito loucos poetas perdidos,
Famintos e embriagados, continuaremos.
O que faz-se conosco,
Divina Piaf, rainha Madonna?

Marginalizam essa nossa arte de sermos nós mesmos.
Nós mesmos enquanto todo o resto é apenas uma única massa,
nutrida a vômito televisivo, à inércia espiritual, mental e cardíaca.
Regada a movimentos alucinados das zonas erógenas,
fazendo fluir e se perder o sagrado suor.

Pois o sagrado suor é do malabarista de semáforo, a nova profissão dos amáveis bobos de corte.
O sagrado suor é do acanhado poeta, que o mistura às próprias lágrimas, gerando a tinta rubra para seus fonemas.

O sagrado suor é o nosso!

O nosso, de jovens de vinte ou setenta anos, que abraçamos com tanto gozo nossas causas perdidas, nossas causas esquecidas.
O sagrado suor é o nosso; que temos asas de voar e raízes de firmar, e surfamos em nosso desespero e êxtase, em nossa alegria e em nossa calamidade.
O sagrado suor é apenas nosso, esses que vocês pouco ouvem gritar por terem ouvidos entupidos por uma pútrida maquete de ética, que define o que todos devem ou não absorver.

Pois bem; haja o que houver, continuaremos sendo os detentores da arte de se ser humano.
Continuaremos nos equilibrando em nossas pernas-de-pau,
Continuaremos trocando armas por flores,
Continuaremos preferindo o luar às cotações,
Continuaremos a exercitar nosso amor, extraindo disso o puro, único e verdadeiro: digno suor!